{"id":5277,"date":"2010-06-24T20:37:42","date_gmt":"2010-06-24T23:37:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5277"},"modified":"2023-02-16T02:20:22","modified_gmt":"2023-02-16T05:20:22","slug":"o-centenario-da-morte-de-gustav-mahler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/06\/24\/o-centenario-da-morte-de-gustav-mahler\/","title":{"rendered":"Centen\u00e1rio da morte de Gustav Mahler"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5279\" title=\"gustav_mahler\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/gustav_mahler.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/Serjones\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">S\u00e9rgio  Martins<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, o compositor austr\u00edaco Gustav Mahler (1860-1911) lan\u00e7ou uma profecia \u00e0 soprano alem\u00e3 Lilli Lehmann: &#8220;Daqui a 100 anos, haver\u00e1 festivais dedicados \u00e0s minhas sinfonias, e elas ser\u00e3o executadas em enormes salas de concerto&#8221;. N\u00e3o se sabe se essa previs\u00e3o foi feita em tom de baz\u00f3fia ou de desabafo, mas atualmente poucos compositores s\u00e3o t\u00e3o executados quanto Mahler. As orquestras e o p\u00fablico o amam (bem, parte do p\u00fablico) por causa da ineg\u00e1vel qualidade de suas obras, da forte presen\u00e7a de metais e percuss\u00e3o e da intensidade com que ele expressa temas como paix\u00e3o e morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O austr\u00edaco tamb\u00e9m \u00e9 um favorito dos cineastas, que utilizam sua m\u00fasica para pontuar momentos de dramaticidade. O italiano Luchino Visconti escolheu o Adagietto da Quinta Sinfonia para traduzir a paix\u00e3o arrebatadora de Gustav von Aschenbach, o compositor de \u201cMorte em Veneza\u201d. Mahler tamb\u00e9m \u00e9 utilizado para o mal: o vil\u00e3o de \u201cThe Killer Inside Me\u201d, de Michael Winterbottom, espanca e mata mulheres ao som de suas obras e da \u00f3pera Norma, de Bellini.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O culto \u00e0s composi\u00e7\u00f5es de Mahler dever\u00e1 aumentar nos pr\u00f3ximos dois anos, quando ser\u00e3o lembrados os 150 anos de seu nascimento e o centen\u00e1rio de sua morte. No Brasil, pelo menos seis orquestras de grande e m\u00e9dio porte v\u00e3o tocar suas pe\u00e7as. O projeto mais ambicioso \u00e9 o da Orquestra Sinf\u00f4nica do Estado de S\u00e3o Paulo (Osesp), que vai apresentar todas as sinfonias e ciclos de can\u00e7\u00f5es de Mahler. A estreia foi em mar\u00e7o (mas outras apresenta\u00e7\u00f5es est\u00e3o agendadas at\u00e9 outubro e, ainda, 2011 \u2013 veja <a href=\"http:\/\/www.osesp.art.br\/HotSite-Temporada-2010\/programacao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>) quando a Osesp interpretou a Quarta Sinfonia, regida pelo ingl\u00eas Justin Brown, com solos da soprano Gabriella Pace. &#8220;Foi a primeira sinfonia que regi na vida. Nela, Mahler capturou a vis\u00e3o do para\u00edso sob os olhos de uma crian\u00e7a e a transformou em m\u00fasica com uma precis\u00e3o infal\u00edvel&#8221;, disse Brown.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O talento de Mahler n\u00e3o se limitou \u00e0 composi\u00e7\u00e3o. Ele foi tamb\u00e9m um regente do primeiro escal\u00e3o, tendo assumido a dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica da \u00d3pera de Viena e da Filarm\u00f4nica de Nova York. Judeu de nascimento, ele se converteu ao catolicismo para se candidatar ao cargo em Viena (mas n\u00e3o escapou de cr\u00edticas por parte de anti-semitas). No posto, foi temido e respeitado por exigir o m\u00e1ximo dos instrumentistas e por empreender mudan\u00e7as que at\u00e9 hoje s\u00e3o seguidas \u00e0 risca pelas casas de \u00f3pera. Pedia que a ilumina\u00e7\u00e3o fosse reduzida durante os espet\u00e1culos e proibia a entrada de espectadores ap\u00f3s o in\u00edcio da r\u00e9cita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mahler, o maestro, era tamb\u00e9m celebrado pelas leituras revolucion\u00e1rias que fazia das obras de cl\u00e1ssicos como Mozart e Beethoven. O fato de conhecer a fundo as engrenagens de uma orquestra fez com que ele criasse novas t\u00e9cnicas de composi\u00e7\u00e3o: em suas sinfonias, a melodia pode ser dividida de instrumento para instrumento &#8211; o tema come\u00e7a nas cordas, passa para o clarinete e termina no trompete. &#8220;Um concerto com obras de Mahler equivale a uma boa pe\u00e7a de teatro. O p\u00fablico assiste ao desenrolar de uma trama, na qual os instrumentos assumem o papel dos atores&#8221;, escreveu o dramaturgo escoc\u00eas Armando Iannucci.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mahler n\u00e3o mexeu na estrutura das sinfonias. Mas aumentou sua dura\u00e7\u00e3o, volume e densidade, e introduziu nelas instrumentos e g\u00eaneros musicais alheios ao mundo sinf\u00f4nico. O terceiro movimento da Primeira Sinfonia traz uma m\u00fasica folcl\u00f3rica judaica. Um martelo gigante \u00e9 utilizado no momento crucial da Sexta Sinfonia, e a S\u00e9tima Sinfonia traz um mandolim. O compositor mudou tamb\u00e9m uma pequena regra do per\u00edodo cl\u00e1ssico. Nela, a sinfonia deveria come\u00e7ar e terminar na mesma tonalidade. Mahler aboliu a conven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um leigo, tais mudan\u00e7as podem soar pequenas; mas inspirados nelas \u00e9 que compositores como Schoen-berg, Webern e Berg viriam a criar movimentos como o atonalismo. O compositor austr\u00edaco foi banido das salas de concerto durante o nazismo e, a exemplo de outros autores judeus, quase terminou relegado ao esquecimento. A obra de Mahler reviveu quando, na d\u00e9cada de 60, o regente americano Leonard Bernstein resgatou suas sinfonias e can\u00e7\u00f5es e defendeu sua genialidade em palestras em universidades e nas apresenta\u00e7\u00f5es especiais que fazia para o p\u00fablico jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, as pe\u00e7as de Mahler s\u00e3o parte indispens\u00e1vel do c\u00e2none de qualquer maestro que se d\u00ea ao respeito (exigem do regente pulso forte para n\u00e3o perder o ritmo, como lembra o ex-diretor da Osesp John Neschling). Mahler \u00e9 utilizado tamb\u00e9m para grandes celebra\u00e7\u00f5es. Simon Rattle estreou como diretor art\u00edstico da Filarm\u00f4nica de Berlim, em 2000, com a Quinta Sinfonia; o venezuelano Gustavo Dudamel regeu a Primeira Sinfonia na sua estreia em Los Angeles, em outubro de 2009. A profecia feita pelo austr\u00edaco h\u00e1 mais de um s\u00e9culo foi, afinal, cumprida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">********<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www2.cpdl.org\/wiki\/images\/sheet\/mahler2v.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5278 aligncenter\" title=\"segunda_mahler\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/segunda_mahler.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/segunda_mahler.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/segunda_mahler-300x163.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O melhor do melhor<br \/>\nQuais s\u00e3o as grava\u00e7\u00f5es mais inspiradas de cada uma das principais obras de Mahler<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Primeira Sinfonia: Bruno Walter e Columbia Symphony Orchestra<br \/>\nWalter foi um dos disc\u00edpulos mais aplicados de Mahler. &#8220;Poucas pessoas me entendem t\u00e3o bem&#8221;, escreveu o compositor &#8211; e esta vers\u00e3o respeita a obra como nenhuma outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Segunda Sinfonia: Simon Rattle, City of Birmingham Symphony Orchestra<br \/>\nO regente ingl\u00eas Rattle tira da Birmingham Symphony uma performance visceral. E poucas vezes a soprano Janet Baker brilhou como aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Terceira Sinfonia: Riccardo Chailly, Royal Concertgebouw Orchestra<br \/>\nA Cocertgebouw nasceu para tocar Mahler. E, nas m\u00e3os de um grande regente, como o italiano Chailly, suas vers\u00f5es das obras do compositor s\u00e3o obrigat\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quarta Sinfonia: Michael Tilson Thomas, Sinf\u00f4nica de S\u00e3o Francisco<br \/>\nThomas entende os flertes com o movimento rom\u00e2ntico presentes na sinfonia, ao mesmo tempo em que respeita a modernidade de Mahler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quinta Sinfonia: Leonard Bernstein e Filarm\u00f4nica de Viena<br \/>\nO regente americano achava que \u00e0s vezes a alma de Mahler &#8220;baixava&#8221; nele. Com essa orquestra, que tantas vezes foi regida pelo pr\u00f3prio compositor, ele atinge uma performance explosiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sexta Sinfonia: Ivan Fischer, Budapest Festival Orchestra<br \/>\nMahler estava gravemente doente quando comp\u00f4s essa sinfonia l\u00fagubre. Sob um regente de m\u00e3o pesada, ela pode se tornar um enfado &#8211; mas o h\u00fangaro Fischer confere a ela leveza incomum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00e9tima Sinfonia: Claudio Abbado, Filarm\u00f4nica de Berlim<br \/>\nAbbado \u00e9 um mahleriano de alta patente, e esta aqui \u00e9, disparado, a melhor vers\u00e3o da S\u00e9tima, j\u00e1 que nela o regente dissipa a densidade excessiva dessa obra dific\u00edlima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Oitava Sinfonia: Georg Solti e Sinf\u00f4nica de Chicago<br \/>\nOs metais da orquestra americana est\u00e3o entre os melhores do mundo e, junto com o brilhantismo com que Solti regia Mahler, fazem toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Nona Sinfonia: Herbert von Karajan, Filarm\u00f4nica de Berlim<br \/>\nMahler comp\u00f4s a Nona \u00e0 morte, e fez nela um retrospecto de sua vida. O austr\u00edaco Karajan nunca foi um especialista em Mahler, mas entendeu a mensagem da obra e arrancou de seu conjunto uma interpreta\u00e7\u00e3o sem rival.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www2.cpdl.org\/wiki\/images\/sheet\/mahl-3-5.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5280 aligncenter\" title=\"mahler_quinta\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/mahler_quinta.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"395\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/mahler_quinta.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/mahler_quinta-300x195.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e9rgio Martins \u00e9 jornalista, assina o  blog <a href=\"http:\/\/tudoquesobra.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tudo  Que Sobra<\/a> e apresenta o programa <a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veja M\u00fasica<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por S\u00e9rgio  Martins\nNo in\u00edcio do s\u00e9culo passado, o compositor austr\u00edaco Gustav Mahler (1860-1911) lan\u00e7ou uma profecia \u00e0 soprano alem\u00e3 Lilli&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/06\/24\/o-centenario-da-morte-de-gustav-mahler\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5277"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5277"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5277\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72786,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5277\/revisions\/72786"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5277"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5277"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5277"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}