{"id":52218,"date":"2019-07-01T00:13:34","date_gmt":"2019-07-01T03:13:34","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=52218"},"modified":"2019-08-07T01:53:51","modified_gmt":"2019-08-07T04:53:51","slug":"entrevista-ricardo-alexandre-fala-de-espiritualidade-articulismo-e-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/07\/01\/entrevista-ricardo-alexandre-fala-de-espiritualidade-articulismo-e-musica\/","title":{"rendered":"Entrevista: Ricardo Alexandre"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois livros lan\u00e7ados ao mesmo tempo, dialogando entre si. N\u00e3o, o jornalista e escritor Ricardo Alexandre n\u00e3o fez o equivalente liter\u00e1rio de \u201cUse Your Illusion\u201d, o megaloman\u00edaco par de \u00e1lbuns duplos do Guns \u2018n\u2019 Roses. <a href=\"https:\/\/www.livrariaarquipelago.com.br\/kit-tudo-e-musica-nem-tudo-e-musica-ricardo-alexandre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cTudo \u00c9 M\u00fasica\u201d<\/a> e \u201c<a href=\"https:\/\/www.livrariaarquipelago.com.br\/kit-tudo-e-musica-nem-tudo-e-musica-ricardo-alexandre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nem Tudo \u00c9 M\u00fasica<\/a>\u201d, ambos publicados pela Arquip\u00e9lago Editorial, s\u00e3o colet\u00e2neas de textos do autor que, em sua maioria, j\u00e1 haviam sido publicados em seus blogs nos portais MSN e R7, al\u00e9m de algumas reportagens inclu\u00eddas nas muitas revistas que ele trabalhou, como BIZZ, Trip e a ef\u00eamera revista do Fant\u00e1stico (sim, o programa dominical da Rede Globo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar dessas exce\u00e7\u00f5es \u201creporteiras\u201d, ambos os livros trazem o lado mais articulista do autor, at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito em seus livros anteriores: \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/ricardo_alexandre.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dias de Luta: o Rock e o Brasil dos Anos 80<\/a>\u201d (2002), \u201cNem Vem que N\u00e3o Tem: A Vida e o Veneno de Wilson Simonal&#8221; (2009) e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/19\/entrevista-ricardo-alexandre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar<\/a>\u201d (2013). OK, este \u00faltimo misturava suas mem\u00f3rias a pensatas e dados jornal\u00edsticos, e tem uma liga\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima em linguagem e, de certa forma, tem\u00e1tica com esses dois novos projetos. \u201cDe certa forma\u201d, porque \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/12\/24\/o-resto-e-ruido-com-ricardo-alexandre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cheguei Bem a Tempo\u2026<\/a>\u201d j\u00e1 traz, ainda que mais discretamente, reflex\u00f5es sobre a vacuidade da busca pela fama, a espiritualidade no meio da arte, a nega\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico no ambiente das redes sociais e a desvaloriza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica numa era em que ela \u00e9 abundantemente presente \u2013 todos temas esmiu\u00e7ados com mais profundidade nesses novos livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos desses t\u00f3picos foram retomados e ampliados, ou vistos por outro vi\u00e9s, nessa entrevista, realizada na primeira quinzena de maio de 2019. E por conta dessa conversa, na qual falamos tamb\u00e9m sobre a embroma\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de verniz liter\u00e1rio (ruim), n\u00e3o ser\u00e1 gasto tempo dando mais detalhes sobre a carreira do entrevistado, j\u00e1 que a informa\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/ricardoalexandre.jor.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pode ser facilmente conhecida em seu site<\/a>, tampouco descrevendo a confeitaria jundiaiense onde a entrevista aconteceu (porque, francamente, n\u00e3o importa). A conversa \u00e9 boa, ent\u00e3o pegue seu doce e seu caf\u00e9 onde quiser, e se junte a ela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-52219\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/nemtudoemusica.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/nemtudoemusica.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/nemtudoemusica-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/nemtudoemusica-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No \u201cCheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar\u201d, voc\u00ea aconselha os rep\u00f3rteres a n\u00e3o se colocarem em papeis, como o \u201cindie\u201d, o \u201ccr\u00edtico impiedoso\u201d etc. Mas nesses dois livros, est\u00e1 claro que voc\u00ea assumiu um papel, que \u00e9 o de falar sobre o mundo de uma \u00f3tica crist\u00e3 sem fazer proselitismo crist\u00e3o. Isso n\u00e3o contradiz um pouco seu pr\u00f3prio conselho?<\/strong><br \/>\nTem duas formas de responder isso e espero que ambas sejam honestas. A primeira \u00e9 que esses dois livros re\u00fanem pela primeira vez um trabalho de articulismo, que \u00e9 diferente de todos os trabalhos que fiz antes e mesmo dos que fiz depois. Nesse trabalho, me parece importante que o articulista se coloque como um provocador, um estimulador, a partir do seu ponto de vista subjetivo e particular. Pela primeira vez eu me dei ao direito de desempenhar esse papel. Nesse epis\u00f3dio do livro anterior, eu estava evidentemente falando para rep\u00f3rteres, e meu conselho, \u201cn\u00e3o se deixe rotular\u201d, era para o desempenho dessa fun\u00e7\u00e3o, porque isso ser\u00e1 um abreviador da carreira, um encurtador do campo de a\u00e7\u00e3o. Por isso, acho que essas duas realidades n\u00e3o se contrariam, aparentemente. A outra forma de responder essa pergunta \u00e9 dizer do meu entendimento de espiritualidade, que \u00e9 o de um atributo humano t\u00e3o\u2026 (hesita) t\u00e3o claro quanto a materialidade. Nesse sentido, acho que sempre fiz isso. Quando voc\u00ea faz a cr\u00edtica de um disco ou faz um jornalismo que n\u00e3o \u00e9 baseado em m\u00e9tricas objetivas, voc\u00ea est\u00e1 sendo espiritual. Quando o Gay Talese diz que h\u00e1 realidades que n\u00e3o s\u00e3o quantific\u00e1veis, isso \u00e9 espiritualidade. Quando um sanfoneiro diz: \u201cquando olhei a terra ardendo qual fogueira de S\u00e3o Jo\u00e3o, eu perguntei a Deus do C\u00e9u porque tamanha judia\u00e7\u00e3o\u201d, isso \u00e9 espiritualidade. Quando voc\u00ea diz que um artista novo \u00e9 mais interessante que aquele que lota o Carnegie Hall e que est\u00e1 no topo das paradas, voc\u00ea est\u00e1 falando de uma realidade n\u00e3o quantific\u00e1vel, e isso \u00e9 espiritualidade. Penso que sempre fiz isso, porque uma das fun\u00e7\u00f5es desse jornalismo de rock \u00e9 olhar para a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica por um vi\u00e9s que n\u00e3o \u00e9 o hit parade nem o da celebridade, \u00e9 acreditar que h\u00e1 outras discuss\u00f5es poss\u00edveis ali. \u00c9 curioso porque eu estava falando com o Liminha, e ele me disse que n\u00e3o estaria presente (na reuni\u00e3o dos Mutantes) porque a Rita [Lee] n\u00e3o estaria, e para ele Mutantes s\u00e3o Arnaldo [Baptista], S\u00e9rgio [Dias] e Rita. Eu disse que, do ponto de vista da l\u00f3gica, isso n\u00e3o faz nenhum sentido, porque ele \u00e9 parte daquilo, \u00e9 autor de parte do repert\u00f3rio. Mas do ponto de vista espiritual, n\u00e3o-material, faz todo o sentido, e \u00e9 uma coisa linda algu\u00e9m acreditar nisso. E isso sempre esteve no meu radar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que me chama a aten\u00e7\u00e3o nessa postura, especialmente a quest\u00e3o crist\u00e3, \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 a mais popular nem a mais comumente encontrada no universo do jornalismo cultural. Dentro desse universo \u2013 caprichemos nas aspas \u2013 \u201cintelectual\u201d brasileiro, o cristianismo \u00e9 at\u00e9 mesmo mal visto. Voc\u00ea, por outro lado, desde o come\u00e7o da carreira assumiu essa postura. Em algum momento, essa condi\u00e7\u00e3o de \u201cpe\u00e7a rara\u201d te deixou em posi\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel?<\/strong><br \/>\nFalando de articulismo, especialmente no per\u00edodo da campanha eleitoral de 2014, com a ascens\u00e3o da Marina Silva como potencial presidente da Rep\u00fablica, havia muita discuss\u00e3o sobre o papel da igreja, desse contingente chamado \u201cevang\u00e9lico\u201d, e isso sempre me incomodou muito. Como voc\u00ea mesmo disse, h\u00e1 muito pouca gente na imprensa que tem uma vis\u00e3o de dentro desse universo, e pouca gente com uma vis\u00e3o cr\u00edtica. Eu distingo com muita facilidade o que \u00e9 religi\u00e3o e o que \u00e9 espiritualidade. Muito embora eu use da religi\u00e3o como ferramenta para minha disciplina, h\u00e1 um esfor\u00e7o para distinguir uma coisa da outra. E eu comecei a ver esse sentimento religioso se espalhando para todas as rela\u00e7\u00f5es. A forma como as pessoas abra\u00e7aram o Bolsonaro \u00e9 totalmente religiosa. A forma como as pessoas abra\u00e7aram o \u201cLula livre\u201d \u00e9 completamente religiosa. \u00c9 dogm\u00e1tico, divisionista. \u00c9 um perigo! E eu comecei a acreditar que, com uma tribuna de artigos, eu era uma das poucas pessoas que podia olhar aquilo com uma experi\u00eancia real de dentro da institui\u00e7\u00e3o organizada, e que essa seria uma das formas com a qual eu poderia contribuir para o debate, por v\u00e1rios motivos. E um deles \u00e9 minha vis\u00e3o cr\u00edtica, e vejo isso com muita naturalidade, porque Jesus era muito cr\u00edtico da religi\u00e3o. Inclusive os vil\u00f5es do Novo Testamento s\u00e3o os religiosos. Por isso n\u00e3o vejo contradi\u00e7\u00e3o nisso. Mas tamb\u00e9m porque vi essa postura religiosa ser transferida para outros departamentos da sociedade como se fosse uma boa troca, e n\u00e3o era. Na verdade, as pessoas estavam trocando a m\u00e1 religi\u00e3o por outras m\u00e1s religi\u00f5es. Como diz o Peter Hitchens, a alternativa \u00e0 m\u00e1 religi\u00e3o \u00e9 a boa religi\u00e3o. Mas sim, j\u00e1 passei por v\u00e1rias experi\u00eancias de desprezo por conta disso. E tudo bem, eu acho que as pessoas s\u00e3o preconceituosas, cara. Todos somos preconceituosos. Eu luto contra isso tudo dia, para que eu seja menos preconceituoso. Mas voltando um pouco, eu acho curioso notar que at\u00e9 os anos 60, fazia parte da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental o conhecimento da religi\u00e3o. Era uma coisa cool. Voc\u00ea pega, por exemplo, o especial de Natal do Charlie Brown (\u201cA Charlie Brown Christmas\u201d, de 1965) em que tem aquela cena final com o Linus explicando o sentido do Natal, aquela frase era um atestado da erudi\u00e7\u00e3o do Linus em rela\u00e7\u00e3o aos demais personagens (nota: o personagem cita Lucas 2: 8-14, para explicar a raz\u00e3o de ser da celebra\u00e7\u00e3o). Fazia parte da forma\u00e7\u00e3o da pessoa conhecer os fundamentos do manejo da sociedade ocidental, que \u00e9 a religi\u00e3o judaico-crist\u00e3. Mas as pessoas come\u00e7am a fechar os olhos para o lado espiritual, o que eu considero um erro! A espiritualidade \u00e9 um atributo humano, e quando a gente fala em desumanidade, na verdade estamos querendo dizer \u201caus\u00eancia de um entendimento espiritual\u201d. Quando a gente diz que tem um presidente que \u00e9 desumano, \u00e9 porque ele s\u00f3 entende o mundo por n\u00fameros e cifras, ou por meio do seu preconceito, da sua impiedade. E isso \u00e9 o que a gente chama de uma vis\u00e3o n\u00e3o-espiritual. A aus\u00eancia da discuss\u00e3o p\u00fablica da espiritualidade nos deixa nas m\u00e3os ou de uma racionalidade fria ou da supersti\u00e7\u00e3o. Quando eu vejo nossos ministros e nosso presidente falando, eles me parecem pessoas bastante supersticiosas e bastante aguerridas a dogmas, ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os, conquistas religiosas. N\u00e3o tem nada a ver com espiritualidade. E acho que isso deveria ser trazido dentro da discuss\u00e3o p\u00fablica, como respeito, como um elemento a mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E do outro lado: no universo da igreja, que voc\u00ea frequenta, voc\u00ea tamb\u00e9m passa longe da ortodoxia. Muitos dos seus artigos questionam pesadamente o mercado gospel, por outro lado voc\u00ea diz que o cristianismo \u00e9 a coisa mais rock\u2019n\u2019roll dos dias atuais, pensando que a viv\u00eancia da mensagem altru\u00edsta de Jesus \u00e9 o oposto completo da sociedade atual. E a pr\u00f3pria cr\u00edtica a pastores e televangelistas. Isso n\u00e3o te rendeu problemas junto a igreja?<\/strong><br \/>\n(pausa longa) Na verdade, \u00e9 assim: eu nunca tive compromisso com o universo religioso. Talvez se eu fosse uma figura com um tr\u00e2nsito\u2026 Eu preciso dizer isso com cuidado: se eu fosse uma pessoa com algum papel no universo religioso, talvez isso me trouxesse algum tipo de cobran\u00e7a. Mas escolhi l\u00e1 atr\u00e1s n\u00e3o t\u00ea-lo. Primeiro porque nunca me senti chamado para um papel no ambiente eclesi\u00e1stico, ou paraeclesi\u00e1stico. Respeito quem foi, quem \u00e9 chamado, mas eu mesmo nunca me senti assim. Por outro lado, eu achava que estar envolvido nesse universo diminuiria meu espa\u00e7o de influ\u00eancia e de manobra. Nunca me interessei por isso de fato: seja pelo mercado gospel, seja pelo jornalismo crist\u00e3o ou por revistas de nicho ou mesmo por papeis dentro da estrutura organizacional da igreja\u2026 (longa pausa). Por outro lado, eu fa\u00e7o parte de uma comunidade que n\u00e3o \u00e9 semelhante\u2026 (hesita) eu to indo bem devagarzinho, e n\u00e3o como eu normalmente falo, porque tem que tomar cuidado\u2026 mas \u00e9 uma comunidade peculiar em rela\u00e7\u00e3o ao que se entende por igreja evang\u00e9lica brasileira. \u00c9 uma comunidade onde se valoriza o tr\u00e2nsito de ideias, o f\u00f3rum de debates, a informa\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o quero com isso dizer que \u00e9 uma comunidade mais ou menos crist\u00e3 que outras, at\u00e9 porque uma das marcas do cristianismo \u00e9 justamente o acolhimento. A espiritualidade segundo Jesus ter sido t\u00e3o inclusiva \u00e9 a grande marca do cristianismo hist\u00f3rico, e o pre\u00e7o a se pagar por isso \u00e9 essa grande confus\u00e3o que a gente v\u00ea at\u00e9 hoje. Mas \u00e9 o pre\u00e7o a se pagar justamente pela inclus\u00e3o. Respondi? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ambos os livros s\u00e3o de artigos, mas h\u00e1 reportagens nos dois. Uma delas \u00e9 a mat\u00e9ria de capa que voc\u00ea fez para a \u00faltima Bizz, a que cobria a turn\u00ea dos Los Hermanos antes da primeira \u201cpausa\u201d anunciada. Outras s\u00e3o uma para a Trip sobre as novas formas de emprego e um perfil do Caco Barcellos. A do Los Hermanos tem uma carga simb\u00f3lica forte, e no texto introdut\u00f3rio voc\u00ea explica claramente por qu\u00ea a escolheu. Mas e as outras?<\/strong><br \/>\nPorque\u2026 (ri) Primeiro porque a mat\u00e9ria sobre o trabalho para a Trip era bastante editorializada. Embora houvesse dados e aspas, era bastante editorializada. A do Caco Barcellos foi uma onde aprendi muito sobre jornalismo e sobre comunica\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o temas que atravessam os dois livros, era quase bastidores desses temas. E eu nunca tinha publicado essa do Caco na \u00edntegra em papel. Seria, ent\u00e3o, uma forma de reunir o melhor do meu trabalho n\u00e3o publicado em livro. Eu cheguei a cogitar incluir alguma coisa do meu trabalho no Estad\u00e3o no come\u00e7o dos anos 1990, mas confesso que n\u00e3o gostei de quase nada do que eu li. Achei tudo muito datado e mal escrito. Achei que fazia sentido falar do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quase todos esses textos do livro est\u00e3o dispon\u00edveis online. Voc\u00ea incluiu textos introdut\u00f3rios para cada um deles, o que j\u00e1 muda bastante o produto final, mas ainda assim: a quem se dedica um livro impresso, considerando que, como voc\u00ea mesmo coloca, temos hoje uma mentalidade que reza n\u00e3o fazer sentido pagar por nada que se encontra na web.<\/strong><br \/>\nEu diria que a maioria esmagadora do livro n\u00e3o est\u00e1 mais dispon\u00edvel na web, e por isso eu quis reuni-los. Os blogs do MSN e do R7 foram perdidos, e comecei a achar isso curioso, porque o espa\u00e7o da internet \u00e9 literalmente virtual, ent\u00e3o n\u00e3o teria porque fazerem isso com seus ex-blogueiros, mas o fato \u00e9 que\u2026 fizeram. A ideia original era s\u00f3 publicar em e-book, que eles nascessem virtuais e assim morressem. Mas a\u00ed houve interesse da editora Arquip\u00e9lago Editorial e virou livro f\u00edsico. A piada da capa era por causa da ideia do e-book: eu queria que a pessoa comprasse um livro que s\u00f3 existisse no digital, mas que ele viesse amarelado (risos). No papel, a piada se perde um pouco, mas apesar disso ficou muito charmoso. Acho que eles s\u00e3o uma \u201cbiografia paralela\u201d de meus livros de reportagem. A ideia \u00e9 que eles tivessem o formato o mais paperback poss\u00edvel, que fossem o mais barato poss\u00edvel, para pessoas que acompanham o meu trabalho e t\u00eam interesse nesses bastidores do jornalismo. No decorrer da prepara\u00e7\u00e3o do livro, comecei a ver que havia um sentido: o de propor uma discuss\u00e3o n\u00e3o-raivosa, de que \u00e9 preciso considerar outros pontos de vista para que a gente se aproxime da verdade ou tenha uma perspectiva civilizada de sociedade. Comecei a ver que todos os textos dos livros falam disso: de lan\u00e7ar outros pontos de vista sobre assuntos que estiveram no notici\u00e1rio nos \u00faltimos anos. Os livros acabaram virando uma pe\u00e7a de resist\u00eancia sobre isso: de que \u00e9 gostoso falar sobre m\u00fasica. Que a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um arquivo digital ou uma ferramenta com a qual os artistas fazem campanha pro Doritos. \u00c9 legal discutir m\u00fasica, e \u00e9 legal discutir para al\u00e9m do \u201cgosto\u201d e \u201cn\u00e3o gosto\u201d. \u00c9 poss\u00edvel discutir cultura e pol\u00edtica e sociedade e religi\u00e3o sem cair nos clich\u00eas. Me incomoda muito, muito, muito mesmo que a gente esteja perdendo a capacidade argumentativa, de articula\u00e7\u00e3o de ideias, que as pessoas estejam realmente come\u00e7ando a dialogar a partir de jarg\u00f5es de internet e clich\u00eas e emoticons. Eu acho que o livro acabou sendo sobre isso, no final das contas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o sobre isso, mas n\u00e3o s\u00f3. Eles tratam de coisas supermateriais por uma \u00f3tica espiritual, ou vice-versa. E me parece que, se formos olhar seus livros como uma sequ\u00eancia l\u00f3gica \u2013 o que n\u00e3o s\u00e3o, \u00e9 mais uma quest\u00e3o de projetos que se apresentam e voc\u00ea vai desenvolvendo \u2013 parece que esses dois realmente marcam um momento diferente na sua carreira. Como se o que foi apresentado aqui tivesse uma grande import\u00e2ncia para o que vir\u00e1.<\/strong><br \/>\n(longa pausa) Interessante isso que voc\u00ea falou. Eu preciso admitir que sou uma pessoa obcecada com a administra\u00e7\u00e3o de biografia &#8211; da minha pr\u00f3pria, no caso. Eu adoro a ideia de que os livros possam ficar um do lado do outro na prateleira, e que possam ter mais ou menos o mesmo layout. Me irritava demais bandas que tinham discografias muito dispersas, porque eu achava que os discos deveriam estar identificados pela lombada (risos). Eu gosto de revistas que n\u00e3o ficavam mudando muito de tamanho, odiei quando a Mojo mudou de formato porque ela tornava impura minha prateleira de Mojos. Ent\u00e3o eu penso nos meus livros, mas n\u00e3o nesse n\u00edvel de obsess\u00e3o que pode parecer. O que aconteceu \u00e9 que eu tive uma experi\u00eancia muito gratificante como articulista e eu gostaria de continuar exercendo isso. A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para isso: os blogs morreram, n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o que existe ainda. Os livros foram uma maneira de reunir um tipo de trabalho que n\u00e3o vejo perspectiva de retomar, pelo menos n\u00e3o sistematicamente. Eu j\u00e1 estava trabalhando no meu pr\u00f3ximo livro, que \u00e9 um livro-reportagem, e eu achava que era importante fechar esse cap\u00edtulo de articulismo antes de abrir o pr\u00f3ximo. (pausa) Eu n\u00e3o acredito que os pr\u00f3ximos ser\u00e3o derivados desse, porque n\u00e3o vejo perspectiva de executar. Eu adoraria receber um convite, especialmente de algum lugar legal, mas os lugares legais est\u00e3o cada vez menores e mais raros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea termina o \u201cCheguei Bem a Tempo\u2026\u201d falando da alegria que era voltar a ouvir m\u00fasica sem ter a preocupa\u00e7\u00e3o de pensar nela como um jornalista musical: uma \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d. E que isso era algo que voc\u00ea n\u00e3o queria retomar. Pelo \u201cTudo \u00c9 M\u00fasica\u201d, d\u00e1 para ver claramente que a promessa n\u00e3o foi cumprida. Qual o papel que a m\u00fasica desempenha hoje para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\n(breve pausa) Ah, central. Acho que a m\u00fasica sempre \u00e9 um filtro impressionante pra vida. Ela \u00e9 uma maquete para as discuss\u00f5es importantes da vida. Por isso que a m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de discuss\u00e3o n\u00e3o me interessa. A m\u00fasica bem executada n\u00e3o me interessa, a n\u00e3o ser nos meus momentos de lazer. Como exerc\u00edcio de pensamento, a m\u00fasica que me leva a pensar, a discutir, \u00e9 muito melhor. E por ser t\u00e3o port\u00e1til \u2013 voc\u00ea n\u00e3o precisa nem de instrumento para fazer m\u00fasica, s\u00f3 precisa estar vivo \u2013 \u00e9 uma coisa muito bela, muito linda. O que acontece \u00e9 que depois do \u201cCheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar\u201d, que \u00e9 um livro de 2013, eu tive uma experi\u00eancia na [r\u00e1dio] 89 FM bastante decorrente daquela discuss\u00e3o do \u00faltimo cap\u00edtulo do livro. O [Andr\u00e9] Forastieri me provocava dizendo que boa parte do que eu fazia era voltado pro passado. Aquilo me incomodou bastante e eu criei um projeto para a 89 voltado exclusivamente para artistas novos, que era o [programa] \u201c<a href=\"http:\/\/ouveessa.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ouve Essa<\/a>\u201d. O Zeca Camargo chamou de \u201cespa\u00e7o de resist\u00eancia\u201d (ri). Mas vi que aquele projeto ia contra um dos valores que eu prezo como profissional da comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 respeitar o p\u00fablico, e a verdade \u00e9 que o p\u00fablico n\u00e3o quer banda nova. Por mais que me seja doloroso dizer, porque boa parte do meu car\u00e1ter foi formado buscando coisas novas (ri), a verdade \u00e9 que esse p\u00fablico repele bandas novas. Inclusive as bandas novas se repelem. Elas n\u00e3o t\u00eam interesse em um espa\u00e7o para elas pr\u00f3prias. Aconteceu algumas vezes &#8211; e sempre conto isso &#8211; de algumas bandas novas passarem semanas, meses at\u00e9, insistindo para que eu tocasse material delas, e depois descobri que elas n\u00e3o ouviam o programa, porque continuavam pedindo depois de eu ter tocado. Chegou ao ponto de eu dizer: \u201cse meu programa n\u00e3o tem import\u00e2ncia para voc\u00ea, por que voc\u00ea quer tocar nele?\u201d Ser\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 porque ele acha que merece um espa\u00e7o na r\u00e1dio? Eu me vi dentro dessa situa\u00e7\u00e3o, o que me levou ao projeto do \u201cSuperbacana\u201d, que \u00e9 um livro no qual estou trabalhando sobre o per\u00edodo de 1968-1972, quando se tentou criar uma identidade contracultura, de m\u00fasica el\u00e9trica, m\u00fasica jovem, rock, com cara definitivamente brasileira. Eu vi que precisava voltar muito no tempo para poder entender e explicar essa hist\u00f3ria toda. Porque a experi\u00eancia com o \u201cOuve Essa\u201d me desestimulou muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ouvir bandas novas \u00e9 algo que para voc\u00ea exige disciplina ou \u00e9 natural, hoje em dia?<\/strong><br \/>\nAcho que pelo fato de eu n\u00e3o estar trabalhando com uma demanda, eu n\u00e3o me imponho essa disciplina, mas ela acaba surgindo de uma maneira natural. Por exemplo, gosto de ouvir r\u00e1dio, gosto de ouvir a Radio X, e embora ele toque muito midback \u00e9 imposs\u00edvel voc\u00ea passar horas nela e n\u00e3o ouvir uma m\u00fasica muito boa de um artista que voc\u00ea n\u00e3o conhece. E pop, porque ela \u00e9 uma r\u00e1dio pop, mainstream. Eu continuo descobrindo muita coisa boa de ouvir no Brasil, mas vejo muita banda desarticulada do ponto de vista da comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho essa disciplina, portanto, mas tenho esse interesse. E quando me impus essa disciplina, que foi na \u00e9poca do \u201cOuve Essa\u201d, foi muito ruim porque fiquei frustrado ao ver o desprezo que os artistas brasileiros t\u00eam pelas oportunidades oferecidas a eles. Era mais f\u00e1cil os artistas gringos repercutirem o programa que os brasileiros. Mas hoje n\u00e3o, hoje t\u00f4 de boa (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O fato \u00e9 que a m\u00fasica est\u00e1 cada vez mais irrelevante, ainda que quase onipresente. Como est\u00e1 em toda parte, tem cada vez menos valor, e n\u00e3o s\u00f3 monet\u00e1rio. Isso s\u00f3 vai se intensificar, ou voc\u00ea acha que uma hora a entropia vai se fazer valer e algum fator pode mudar a situa\u00e7\u00e3o toda?<\/strong><br \/>\nEu acho que a gente n\u00e3o pode jamais desprezar um elemento que est\u00e1 longe de ter seus efeitos medidos, que s\u00e3o as redes sociais. Acho que a gente n\u00e3o tem a dist\u00e2ncia necess\u00e1ria para avaliar o tamanho do mal que as redes sociais t\u00eam causado nessa gera\u00e7\u00e3o. Eu come\u00e7o a ver alguns pontos de reflex\u00e3o sobre isso, pessoas saindo das redes sociais porque est\u00e3o entendendo que \u00e9 um ambiente insalubre. O que sei \u00e9 que, quando vejo as manchetes nos jornais, se eu aplicar a seguinte pergunta: \u201csem as redes sociais, isso sobreviveria?\u201d, a resposta \u00e9 alarmante. A come\u00e7ar pelo nosso presidente da Rep\u00fablica. E eu acho que daqui a alguns anos a gente vai olhar para a era das redes sociais como quem olha para o cigarro ou para o refrigerante. \u201cCara, as crian\u00e7as davam refrigerante na mamadeira para as crian\u00e7as\u201d, \u201ccara, em 2019 as pessoas davam redes sociais pras crian\u00e7as\u201d. Isso \u00e9 algo claro para mim. E acho que a gente j\u00e1 deixou a fase em que as redes sociais eram um simulacro das rela\u00e7\u00f5es verdadeiras num ambiente virtual, e entramos em outra fase, na qual as rela\u00e7\u00f5es reais s\u00e3o baseadas nas rela\u00e7\u00f5es das redes sociais. As pessoas passam a se comunicar no offline como elas se comunicam no online. Elas come\u00e7am a raciocinar no offline como elas raciocinam no online. E o online \u00e9 um lugar de ostenta\u00e7\u00e3o. (repete) \u00c9 um lugar de ostenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um lugar onde voc\u00ea mostra trabalho, e sim mostra opini\u00e3o. Veja a fam\u00edlia Bolsonaro: por que nossa \u201cfam\u00edlia real\u201d se importa tanto em ser uma esp\u00e9cie de ombudsman da velha m\u00eddia? Por que pol\u00edticos passam os dias preocupados com as opini\u00f5es que eles precisam dar sobre as coisas em vez de trabalhar? Porque \u00e9 o racioc\u00ednio das redes sociais transplantado para o mundo real, no qual mais importante que meu trabalho \u00e9 minha opini\u00e3o. E isso vale tanto para o presidente da Rep\u00fablica quanto para uma banda de rock. Tipo: \u201ceu n\u00e3o tenho trabalho nenhum, eu sou um soulman que canta mal, mas eu tenho opini\u00f5es muito relevantes a dar\u201d. Eu acho que isso\u2026 Deixa eu avan\u00e7ar um pouquinho nesse racioc\u00ednio: acho que isso \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o do mundo das redes sociais. E para quem ama m\u00fasica, isso \u00e9 muito doloroso ver artistas de m\u00fasica que n\u00e3o t\u00eam m\u00fasica. E n\u00e3o estou falando s\u00f3 do circuito alternativo lacrador, n\u00e3o. Estou falando da Anitta tamb\u00e9m. A Anitta \u00e9 uma artista, uma estrela infinitamente maior que os hits dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O mesmo pode ser dito da Pabllo Vittar.<\/strong><br \/>\nSim. A Anitta \u00e9 uma grande estrela, mas n\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com os hits do imagin\u00e1rio popular dela. No n\u00edvel \u201cAnna Julia\u201d de imagin\u00e1rio popular, no n\u00edvel \u201cMulher de Fases\u201d de imagin\u00e1rio popular, no n\u00edvel \u201cComo Eu Quero\u201d de imagin\u00e1rio popular, a Anitta deve ter dois hits. Tr\u00eas, talvez. Mas ela \u00e9 uma estrela de primeira grandeza, gra\u00e7as \u00e0s redes sociais. O n\u00famero de likes dela \u00e9 muito maior que os hits. Onde isso nos leva, um mundo onde a m\u00fasica \u00e9 s\u00f3 um acess\u00f3rio para que o artista consiga vender campanha para a Vivo ou para a Pantene? A rela\u00e7\u00e3o com marcas sempre existiu, mas o que eu acho muito louco \u00e9 que um artista engajado, um artista rompedor, completamente breakthrough, com um ano de carreira j\u00e1 esteja fazendo campanha pro Doritos. Eu sou de um tempo em que \u201cuma banda numa propaganda de refrigerantes\u201d era uma vergonha. As bandas tinham orgulho de dizer: \u201colha, temos 10 anos e nunca vendemos uma m\u00fasica para publicidade\u201d. Por um tempo, o Roberto Carlos tinha orgulho de n\u00e3o vender as m\u00fasicas dele para a publicidade. Era uma \u00e9tica impl\u00edcita. Hoje a impress\u00e3o que eu tenho \u00e9 que os artistas j\u00e1 come\u00e7am com a etiqueta pendurada no pesco\u00e7o. Como diz o Arnaldo Branco, desde os bluesmen os artistas est\u00e3o dispostos a vender a alma pro diabo, s\u00f3 que agora a alma t\u00e1 em promo\u00e7\u00e3o (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 m\u00fasica como acess\u00f3rio, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim, mas acho que alguma coisa aconteceu de uns 10 anos para c\u00e1, e eu ainda n\u00e3o sou capaz de medir. Talvez a ascens\u00e3o do streaming seja algo importante, porque hoje a m\u00fasica n\u00e3o vale nem o tamanho que ela ocupa na mem\u00f3ria do seu celular. Hoje voc\u00ea consome m\u00fasica sem saber quem \u00e9 o autor. Hoje n\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o consegue ouvir o \u00e1lbum inteiro voc\u00ea n\u00e3o consegue ouvir uma m\u00fasica inteira. O bot\u00e3o mais usado no Spotify \u00e9 o \u201cskip\u201d (passar de faixa). Acho que alguma coisa aconteceu no que tange a essa superdesvaloriza\u00e7\u00e3o imaterial da m\u00fasica, algo que n\u00e3o foi totalmente mensurado. O que eu sei \u00e9 que quando eu era adolescente, ouvir m\u00fasica era um ritual. Lembro-me de duas situa\u00e7\u00f5es muito recorrentes: uma era de ouvir sozinho, no quarto, no escuro, com fone de ouvido, deitado na posi\u00e7\u00e3o mais confort\u00e1vel poss\u00edvel, o \u00e1lbum todo, eventualmente olhando os detalhes do encarte, as letras\u2026 Ou coletivamente, com nossos amigos, para deliberar sobre as letras. Por outro lado, a gente come\u00e7a a ver algumas coisas curiosas. Em alguns lugares do mundo, h\u00e1 lugares, como um bar em Londres, o Spiritland, onde as pessoas se re\u00fanem para ouvir discos coletivamente \u2013 com todo o respeito: o bar para de servir, as luzes baixam\u2026 A gente v\u00ea audi\u00e7\u00f5es comentadas acontecendo pelo Brasil, e a gente tem essa ressurrei\u00e7\u00e3o do vinil. (pausa). N\u00e3o \u00e9 ressurrei\u00e7\u00e3o porque o papel do vinil hoje \u00e9 diferente do que era h\u00e1 40 anos, porque as pessoas n\u00e3o precisam do vinil para ouvir a m\u00fasica. Mas elas compram, e pagam caro, quase por um compromisso firmado pelo valor da m\u00fasica para a vida deles, como identidade pessoal para elas. Isso \u00e9 muito bonito, eu acho, e j\u00e1 deixou de ser um mercado diletante para se tornar um mercado de verdade. Eu gostaria de ter mais tempo e condi\u00e7\u00e3o de observar essas movimenta\u00e7\u00f5es, mas acho que temos pe\u00e7as muito interessantes posicionadas a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea ouve como hoje? CD, vinil?<\/strong><br \/>\nOu\u00e7o muito CD ainda, \u00e9 meu formato preferencial. Mas gosto de ouvir vinil em ocasi\u00f5es especiais, mas de fato n\u00e3o tenho mais aquele momento do ritual, geralmente ou\u00e7o m\u00fasica fazendo outra coisa: lendo\u2026 Aquele tempo focado na m\u00fasica n\u00e3o tem mais \u2013 ali\u00e1s, tempo focado em qualquer coisa, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a portabilidade, acredito, porque ela sempre existiu. Mais limitada, \u00e9 verdade: voc\u00ea tinha l\u00e1 um walkman e algumas fitas, n\u00e3o podia ficar passando por milhares de faixas. Mas j\u00e1 era port\u00e1til. Na minha adolesc\u00eancia em Taubat\u00e9, tinha um cara que tinha discos importados, um monte de coisa que a gente s\u00f3 ouvia falar na Bizz, ou nem isso. Ele cobrava pra gravar fitas cassete C60 com esses \u00e1lbuns, e os amigos circulavam entre si as fitas, para fazer c\u00f3pias e aumentar a \u201cdiscografia\u201d de cada um. Era uma outra rela\u00e7\u00e3o com o objeto f\u00edsico \u2013 de compartilhamento, sim, mas bem outra coisa.<\/strong><br \/>\nMas em tudo isso que voc\u00ea t\u00e1 me falando, t\u00e1 me fazendo pensar em um tra\u00e7o geracional. Tem diminu\u00eddo a ades\u00e3o em tudo que exige comprometimento. Quando voc\u00ea precisava escolher uma ou duas fitas cassetes para levar na mochila, voc\u00ea tinha um compromisso com aquilo. Quando viajava para a praia e precisava escolher 10 CDs \u2013 porque era o que cabia no seu case \u2013 voc\u00ea tinha um compromisso com esses 10 discos. Voc\u00ea tinha um compromisso com a tua r\u00e1dio. Hoje voc\u00ea n\u00e3o tem compromisso, e tem uma gera\u00e7\u00e3o que repele compromisso de qualquer natureza, n\u00e3o s\u00f3 musical. Eu penso nisso como um agravante com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica. Mas tem outro ponto que estou come\u00e7ando a desconfiar que \u00e9: a gente viveu a era da m\u00fasica. \u00c9 uma das coisas mais dolorosas de pensar, que aquela frase do Caetano, \u201cthe age of music is past\u201d (da can\u00e7\u00e3o \u201cNine Out of Ten\u201d) talvez tenha se concretizado. Assim como a gente viveu a \u201cera dos musicais\u201d ou do que foi, a gente pode come\u00e7ar a falar da \u201cera da m\u00fasica\u201d, que \u00e9 um per\u00edodo entre 1965 e 1995, que \u00e9 um per\u00edodo em que a m\u00fasica centralizava as pira\u00e7\u00f5es comportamentais dos jovens e dos jovens adultos. O document\u00e1rio sobre a Tower Records (\u201cAll Things Must Pass\u201d, de Colin Hanks) me chamou a aten\u00e7\u00e3o para isso: ele crava 1968 como o ano em que a ind\u00fastria substitui o single pelo \u00e1lbum como formato principal de manifesta\u00e7\u00e3o do artista \u2013 ou seja, o compromisso passa a ser maior. Voc\u00ea tem que desembolsar mais dinheiro. Tem que ouvir at\u00e9 o fim. Tem que aturar muitos fillers (nota: as faixas para \u201ccompletar\u201d um \u00e1lbum que tinha n\u00e3o mais que dois ou tr\u00eas bons singles) para se relacionar com a pe\u00e7a de arte. E o mesmo document\u00e1rio aponta os anos 80 como um momento de decad\u00eancia, o que \u00e9 muito estranho para o brasileiro, porque foi a d\u00e9cada do rock brasileiro. Mas ele aponta esse per\u00edodo como marcado pelo surgimento de MTV e uma nova gera\u00e7\u00e3o de artistas marcadamente visuais, que trazem uma nova gera\u00e7\u00e3o de consumidores para um universo j\u00e1 estabelecido. E uma nova d\u00e9cada se anunciaria com o surgimento do CD, nos anos 90, \u201cobriga\u201d toda uma gera\u00e7\u00e3o a comprar de novo os discos que j\u00e1 tinha. \u00c9 quando surge a ideia do classic rock, um circuito de revistas como a Mojo, g\u00eaneros como o grunge e o britpop, que s\u00e3o os primeiros movimentos da hist\u00f3ria do rock a serem autorreferentes, a olhar para tr\u00e1s. Ent\u00e3o eu acho que, de alguma maneira, a ideia de que houve uma era da m\u00fasica explica muita coisa. Mas \u00e9 muito triste tamb\u00e9m, porque a gente ainda opera mentalmente esperando a renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Curioso voc\u00ea falar isso, que recentemente me dei conta de que muitas das bandas novas que tenho ouvido t\u00eam formatos velhos, est\u00e9ticas velhas. Tenho ouvido muito soul, mas caiu a ficha que, mesmo sendo bandas novas, elas n\u00e3o tocam soul dos anos 10, tocam soul dos anos 60.<\/strong><br \/>\nSim. Keep the spirit alive. Eles ficam tentando: \u201clembra da era da m\u00fasica?\u201d As bandas t\u00eam esse costume de tentar criar esse v\u00ednculo com a era da m\u00fasica, mas um v\u00ednculo com um p\u00fablico que n\u00e3o est\u00e1 interessado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trabalhando por m\u00fasica (trailer da palestra)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pS3RukTtXWs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ricardo Alexandre - Comunica\u00e7\u00e3o e Reino de Deus\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NujfDdOUdwQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Entrevista com Ricardo Alexandre\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Lc52bmjWAsg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em seus novos livros (s\u00e3o dois), Ricardo Alexandre compila textos que, em sua maioria, j\u00e1 haviam sido publicados em seus blogs nos portais MSN e R7, al\u00e9m de algumas reportagens inclu\u00eddas nas muitas revistas que ele trabalhou, como BIZZ, Trip e a ef\u00eamera revista do Fant\u00e1stico.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/07\/01\/entrevista-ricardo-alexandre-fala-de-espiritualidade-articulismo-e-musica\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":52221,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36,3],"tags":[3890],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52218"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52218"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52218\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52479,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52218\/revisions\/52479"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}