{"id":5220,"date":"2010-06-17T19:40:29","date_gmt":"2010-06-17T22:40:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5220"},"modified":"2023-03-29T00:03:40","modified_gmt":"2023-03-29T03:03:40","slug":"fabulas-de-ironia-e-perturbacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/06\/17\/fabulas-de-ironia-e-perturbacao\/","title":{"rendered":"F\u00e1bulas de ironia e perturba\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-5222\" title=\"foradolugar\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/foradolugar.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/foradolugar.jpg 256w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/foradolugar-210x300.jpg 210w\" sizes=\"(max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/suburbana.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alessandro Garcia<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todorov, em seu j\u00e1 cl\u00e1ssico &#8220;L\u2019introduction au Fantastique&#8221;, define o fant\u00e1stico, como \u201ca hesita\u00e7\u00e3o experimentada por um ser que s\u00f3 conhece as leis naturais, diante de um conhecimento aparentemente sobrenatural\u201d. Seu conceito de fant\u00e1stico se estabelece, portanto, entre a dicotomia real\/imagin\u00e1rio, natural\/sobrenatural. J\u00e1 Ana Maria Barrenechea, em &#8220;La Literatura Fant\u00e1stica em Argentina&#8221;, estabelece como base do fant\u00e1stico, a exist\u00eancia impl\u00edcita ou expl\u00edcita de fatos a-normais, a-naturais ou irreais \u2013 quando postos junto a seus contr\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H.P. Lovecraft, por sua vez, considera que o crit\u00e9rio do fant\u00e1stico situa-se n\u00e3o na obra em quest\u00e3o, mas na experi\u00eancia particular do leitor. Um conto, para Lovecraft, ser\u00e1 fant\u00e1stico se o leitor experimenta profundamente um sentimento de temor e de terror ou \u201ca presen\u00e7a de mundos e poderes ins\u00f3litos\u201d. Julio Cort\u00e1zar, discordando muito especialmente de Todorov, conclui: \u201cPara mim, o fant\u00e1stico \u00e9, simplesmente, a indica\u00e7\u00e3o s\u00fabita de que, \u00e0 margem das leis aristot\u00e9licas e da nossa mente racional, existem mecanismos perfeitamente v\u00e1lidos, vigentes, que nosso c\u00e9rebro l\u00f3gico n\u00e3o capta, mas que em certos momentos irrompem e se fazem sentir.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante todas as tentativas de defini\u00e7\u00e3o, fant\u00e1sticos \u2013 talvez por falta de nome melhor \u2013 s\u00e3o como podem ser mais facilmente definidos a maioria dos contos do mais recente livro de Rodrigo Rosp, &#8220;Fora do Lugar&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.naoeditora.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00e3o Editora<\/a>, 2009). No entanto, como j\u00e1 foi denunciada a fragilidade do r\u00f3tulo, tamb\u00e9m \u00e9 fato que, por mais coeso que seja em sua tem\u00e1tica, a obra de Rosp consegue agregar outros elementos, dificilmente distanciando-se da linha mestra que se determinou a seguir. E mais: mantendo coer\u00eancia com argumentos que n\u00e3o s\u00e3o novidades na sua obra \u2013 quem leu &#8220;A virgem que n\u00e3o conhecia Picasso&#8221; (N\u00e3o Editora, 2007), sabe que o autor \u00e9 pr\u00f3digo no uso tanto da sensualidade e do erotismo quanto do humor, e estes est\u00e3o presentes tamb\u00e9m neste livro. E \u00e9 fato not\u00e1vel a grande evolu\u00e7\u00e3o que o autor teve de uma obra \u00e0 outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rosp consegue, em &#8220;Fora do Lugar&#8221;, conferir \u00e0 literatura a investiga\u00e7\u00e3o e algum experimentalismo que lhe s\u00e3o devidos, mas sem, em momento algum, soar enfadonho ou \u2013 o que \u00e9 j\u00e1 visto como o grande mal da literatura contempor\u00e2nea \u2013 parecer escrever somente para os seus semelhantes. Porque tamb\u00e9m \u00e9 entretenimento da mais alta estirpe o que Rosp constr\u00f3i. Talvez por ter buscado em seus contos, mesmo os mais pretensamente \u201cabsurdos\u201d, o que Cort\u00e1zar (mais uma vez!), considerava como grande efeito em uma obra desta natureza: parecer \u201cuma coisa muito simples, que pode acontecer em plena realidade cotidiana\u201d. Rodrigo Rosp experimenta aqui e ali com a forma, mas sem hermetismos. Ele brinca com a literatura conferindo-lhe uma leveza que \u00e9 demonstrada atrav\u00e9s do humor que lhe \u00e9 peculiar, mas principalmente com fineza e ironia, construindo preciosidades do tipo: \u201cNo parapeito da janela, tr\u00eas livros de autoajuda est\u00e3o prestes a cometer suic\u00eddio\u201d,\u00a0 trecho pertencente ao conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro.\u00a0 Nesta pe\u00e7a, curta, o que parece nonsense logo se elucida como o desbaratino da cabe\u00e7a atordoada do homem cuja mulher se foi. Quem h\u00e1 de culp\u00e1-lo, portanto, se em sua casa tudo parece desarranjado, fora dos prumos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A coer\u00eancia que Rosp mant\u00e9m na obra talvez tenha representa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima no conto \u201cSala de espera\u201d. Com um monstro medonho como um dos personagens, o conto faz tro\u00e7a de um clich\u00ea anacr\u00f4nico. E ali est\u00e3o as armas do autor: ironia, absurdo e muito humor. Em m\u00e3os ing\u00eanuas, \u00e9 prov\u00e1vel que o bicho acabasse colocado em alguma meseta a\u00e7oitada pelo vento ou em algum p\u00e2ntano com vapores horripilantes. O que Rosp faz, com falsa displic\u00eancia de quem observa o cotidiano acontecer como se nada fosse, \u00e9 instalar o ser na sala de espera de um consult\u00f3rio m\u00e9dico (e, com esta estrat\u00e9gia, conseguindo lan\u00e7ar um olhar ainda mais apurado para o estranho em quest\u00e3o, ou, indo um tanto mais adiante, criando uma met\u00e1fora para o absurdo que j\u00e1 n\u00e3o mais enxergamos, entretidos com o carnaval midi\u00e1tico que se coloca \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o). Mais uma vez \u00e9 \u00e0 Cort\u00e1zar \u2013 expoente m\u00e1ximo, a meu ver, da tradi\u00e7\u00e3o em que Rosp com esta obra se insere \u2013 que recorro: ao lidar com o estranhamento de maneira t\u00e3o banal, Fora do Lugar em alguns momentos aproxima-se ao que j\u00e1 foi alcan\u00e7ado principalmente em \u201cHist\u00f3rias de Cron\u00f3pios e Famas\u201d, do autor argentino. Tamb\u00e9m Cort\u00e1zar, tal qual Rosp faz agora, nos presenteava com uma horda que poderia incluir os indescrit\u00edveis \u201cfamas\u201d e \u201ccron\u00f3pios\u201d, mas tamb\u00e9m \u2013 e simplesmente \u2013 um urso que habita os canos e surge pela manh\u00e3 para acariciar as faces, e os fazia desfilar sem pudor por cen\u00e1rios t\u00e3o comuns e cotidianos como consult\u00f3rios m\u00e9dicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outro paralelo bastante feliz \u2013 ainda que, certamente, involunt\u00e1rio \u2013 com a obra de Cort\u00e1zar, Rosp parece justificar a senten\u00e7a do autor argentino da desgra\u00e7a que \u00e9 ser presenteado com um rel\u00f3gio. Em \u201cFuneral dos rel\u00f3gios\u201d, o personagem ilude-se que a destrui\u00e7\u00e3o de todas estas pe\u00e7as que o rodeiam possa estancar a inexor\u00e1vel passagem do tempo. E sobre ilus\u00e3o de personagens, \u00e9 bom que se fale do certo acalanto que Rosp mant\u00e9m com os seus, quase todos homens iludidos ou perdidos ou atarantados, se n\u00e3o por amor, por sexo, ou qualquer coisa que lhes fuja ao dom\u00ednio: que o diga o protagonista de \u201cEngolidora de espadas\u201d, outrora \u201co le\u00e3o, furioso e arrogante, procurando uma domadora que n\u00e3o tremesse diante do rugido\u201d e que se v\u00ea aturdido com a voracidade gastron\u00f4mica da parceira, revelada em propor\u00e7\u00f5es assustadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1 um anticl\u00edmax no livro de Rosp, \u00e9 prov\u00e1vel que este possa ser dado por \u201cCarrasco\u201d, que em seu registro bem mais s\u00e9rio e, por assim dizer, reflexivo, parece destoar da colet\u00e2nea. Ainda que \u201cMaldito\u201d, \u201cIdeia ideal\u201d e \u201cAgora, a dor se foi\u201d d\u00eaem espa\u00e7o a uma certa elucubra\u00e7\u00e3o sobre as quest\u00f5es da ang\u00fastia do autor e realiza\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, ainda assim conseguem conter met\u00e1foras do absurdo, de maneira ir\u00f4nica ou mais l\u00edrica, mantendo um forte v\u00ednculo de coes\u00e3o com a obra.\u00a0 Em \u201cEstranho espelho meu\u201d, Rosp vai um tanto mais adiante do registro r\u00e1pido que \u00e9 quase regra dos outros contos, com algumas exce\u00e7\u00f5es. Neste, a hist\u00f3ria se demora um tanto mais sobre o personagem que n\u00e3o reconhece a figura disforme que aparece refletida no espelho do velho casar\u00e3o a que retorna. De formato mais cl\u00e1ssico em sua composi\u00e7\u00e3o, a trama deixa a sensa\u00e7\u00e3o de ter potencial para extens\u00e3o de maior f\u00f4lego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independente do registro final de cada um dos contos, o que \u00e9 fato \u00e9 o lirismo indisfar\u00e7\u00e1vel com que Rosp escreve. Faz escolha burilada das palavras, compondo per\u00edodos belos em si pr\u00f3prios e que se articulam ao texto maior de forma cadenciada, propondo significa\u00e7\u00f5es que podem remeter \u2013 em um primeiro momento \u2013 ao enlevo da poesia de amor rom\u00e2ntico, embora, na maioria das vezes, escondam arapucas de finais secos e impiedosos. \u201cPoeteiro\u201d \u00e9 prova m\u00e1xima disto. Nele, Rosp constr\u00f3i narrativa que parece se encaminhar para destino sentimental, puro. E somos apunhalados pela conclus\u00e3o carnal, dura, mas n\u00e3o menos l\u00edrica por isto. Esvaziada de sentido, a sexualidade no conto de Rosp se traveste de f\u00e1bula rom\u00e2ntica para nos enganar. E isto requer habilidade.\u00a0 A mesma que pode ser vista em \u201cCora\u00e7\u00e3o da Noite\u201d, com seu manejo acertado de repeti\u00e7\u00e3o estrutural. Brincando com a redund\u00e2ncia dos par\u00e1grafos, o leitor \u00e9 conduzido para um fim at\u00e9 previs\u00edvel, mas n\u00e3o indesejado. \u00c9 mais um retrato do homem citadino s\u00f3rdido, em sua busca fren\u00e9tica por prazer \u2013 ou uma aventura outrem que o leve para melhor lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final das treze narrativas de &#8220;Fora do Lugar&#8221;, sobra perturba\u00e7\u00e3o. Talvez porque nosso mundo s\u00f3lito pr\u00e9-concebido se mostra abalado, penetrado em sua pretensa congru\u00eancia. Pontos para Rosp que consegue fazer jus mais uma vez a Cort\u00e1zar (e a ele voltamos, fechando a \u201cesfera\u201d desta resenha como para ele era fundamental fazer em seus contos) quando este disse: \u201cnada \u00e9 s\u00f3lito desde que submetido a um escrut\u00ednio secreto e cont\u00ednuo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alessandro Garcia \u00e9 publicit\u00e1rio e escritor. Publicou nos livros &#8220;Cenas de Oficina&#8221; (Unidade Editorial, 2000), &#8220;Fic\u00e7\u00e3o de Polpa Vol. 1&#8221; (F\u00f3sforo, 2007; N\u00e3o, 2008) e &#8220;Fic\u00e7\u00e3o de Polpa Vol. 3&#8221;. Prepara o lan\u00e7amento do livro de contos &#8220;A sordidez das pequenas coisas&#8221;. Escreve tamb\u00e9m no blog <a href=\"http:\/\/suburbana.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Suburbana<\/a> e no <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/paralelos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paralelos Blog<\/a>, do Globo Online.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Alessandro Garcia\nTodorov, em seu j\u00e1 cl\u00e1ssico L\u2019introduction au Fantastique, define o fant\u00e1stico, como &#8220;a hesita\u00e7\u00e3o experimentada por um ser&#8230;&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/06\/17\/fabulas-de-ironia-e-perturbacao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5220"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5220"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73595,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5220\/revisions\/73595"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}