{"id":52169,"date":"2019-06-26T02:29:40","date_gmt":"2019-06-26T05:29:40","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=52169"},"modified":"2019-07-20T20:29:37","modified_gmt":"2019-07-20T23:29:37","slug":"entrevista-vladimir-safatle-e-fabiana-lian","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/26\/entrevista-vladimir-safatle-e-fabiana-lian\/","title":{"rendered":"Entrevista: Vladimir Safatle e Fabiana Lian"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vladimir Safatle \u00e9 fil\u00f3sofo e professor da USP, conhecido por muitos por ter mantido uma coluna durante anos na Folha de S\u00e3o Paulo. Fabiana Lian \u00e9 produtora art\u00edstica respons\u00e1vel por shows internacionais, tendo trabalhado com Metallica, Madonna, Iron Maiden em suas turn\u00eas na Am\u00e9rica Latina. Essas s\u00e3o os ep\u00edtetos mais usuais de ambos, por\u00e9m Vladimir e Fabiana tem suas hist\u00f3rias musicais: ele comp\u00f4s trilhas de pe\u00e7as de teatro e prepara o lan\u00e7amento de um disco solo pelo Selo Sesc. J\u00e1 ela fez parte do grupo vocal Mawaca e atuou em projetos de m\u00fasica eletr\u00f4nica nos anos 90 \u2013 assim como \u00e9 m\u00e3e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/10\/18\/tres-perguntas-luiza-lian-fala-do-disco-azul-moderno\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">da cantora Luiza Lian<\/a>. De todo modo, juntos, Vladimir e Fabiana produziram um \u00e1lbum deveras estranho que ficou h\u00e1 anos guardado, sem ver a luz do p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/6g1mbPg3pe8z6qyH6C32SL?si=Wn2ZwrRJR3qWjkgxBv705w\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">M\u00fasicas de Superf\u00edcie<\/a>\u201d \u00e9 o encontro de Vladimir e Fabiana nos anos 90, mais especificamente de 1994 a 1998. Nessa \u00e9poca, eles tocaram em alguns lugares e produziram, cuidadosamente, o \u00e1lbum que ficou guardado de 98 at\u00e9 2019, quando eles, enfim, decidiram retomar esse encontro e assim mostrar ao p\u00fablico essas can\u00e7\u00f5es. Mesmo pronto h\u00e1 tanto tempo, esse disco que chega agora \u00e0s plataformas de streaming n\u00e3o tem cheiro de ba\u00fa de guardados, pois h\u00e1 uma ruptura, uma potencial estranheza nesse encontro que permanece ativa. Ecos de jazz, experimenta\u00e7\u00f5es vocais, uma pitada de Dead Can Dance e alguma obscuridade advinda do rock dos anos 80, tudo isso pode ser tateado em \u201cM\u00fasicas de Superf\u00edcie\u201d, mesmo assim, nada disso define o que realmente o ouvinte ir\u00e1 encontrar. Safatle gosta de dizer que estas can\u00e7\u00f5es ocupam uma esp\u00e9cie de entre espa\u00e7o entre g\u00eaneros e possibilidades, por isso se torna t\u00e3o interessante de ser explorado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vladimir e Fabiana ir\u00e3o lan\u00e7ar o disco ao vivo no Blue Note, em S\u00e3o Paulo, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/events\/blue-note-sp\/vladimir-safatle-e-fabiana-lian-no-blue-note-sp\/609132619589236\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">no dia 3 de julho<\/a>. Para entender mais sobre esse encontro e toda essa hist\u00f3ria quase perdida no tempo, n\u00f3s batemos um longo papo com os dois. Falamos sobre a hist\u00f3ria do disco, as rela\u00e7\u00f5es musicais de ambos e um bocado sobre m\u00fasica em si, vale conferir com aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-52171\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/superficie90ies-dao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/superficie90ies-dao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/superficie90ies-dao-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas gravaram o disco nos anos 90, entre 1994 e 1998&#8230;<\/strong><br \/>\nSafatle: Sim, ele foi gravado aos poucos, algumas m\u00fasicas primeiras. A\u00ed em 1998 estava pronto, s\u00f3 que n\u00e3o havia gravadora. Haviam muito poucas gravadoras para esse tipo de m\u00fasica e, tamb\u00e9m, eu fui embora do Brasil, fiquei 4, 5 anos fora, depois quando eu voltei eu j\u00e1 entrei como professor na Universidade de S\u00e3o Paulo e isso ficou perdido. Agora que resolvemos retornar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas teve algum motivo especial para essa retomada?<\/strong><br \/>\nSafatle: Isso veio especialmente da Fabiana, ela que ouviu o material e pediu para a gente voltar, para ensaiarmos de novo. Eu tinha mudado, estava realmente querendo retomar de maneira mais sistem\u00e1tica esses trabalhos com m\u00fasica. Eu tinha feito um outro CD [\u201cTempo T\u00e1til\u201d], que sair\u00e1 pelo Selo Sesc ainda esse ano. Dentro desse CD tem uma participa\u00e7\u00e3o dela, eu queria que ela fizesse uma pe\u00e7a, a\u00ed ela veio com muita disposi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o as m\u00fasicas voltaram, eu tinha esquecido delas mesmo. Nesse \u00edmpeto ent\u00e3o decidimos lan\u00e7ar o CD.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se iniciou a sua parceria com a Fabiana?<\/strong><br \/>\nSafatle: Eu acho que se iniciou em 1993, come\u00e7ou por que eu queria uma voz feminina, uma soprano, para cantar duas pe\u00e7as que eu tinha feito e n\u00f3s t\u00ednhamos um amigo em comum, o Eduardo [D\u00e3o] Areias, que j\u00e1 faleceu \u2013 inclusive ele faz parte de duas pe\u00e7as do CD, tem tamb\u00e9m uma pe\u00e7a que \u00e9 letra dele (nota do editor: \u00e9 ele quem aparece na foto acima, da \u00e9poca). E a\u00ed o D\u00e3o falou \u201colha, eu conhe\u00e7o uma pessoa que tem a voz muito boa e tal\u201d e era a Fabiana e a\u00ed a gente come\u00e7ou a fazer essas duas pe\u00e7as. E era muito engra\u00e7ado, eu devia ter uns 20 anos, ela quase 30, j\u00e1 tinha filho, ent\u00e3o eram dois universos diferentes, mas a gente foi trabalhando durante todo esse tempo, a gente at\u00e9 chegou a fazer algumas apresenta\u00e7\u00f5es naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi para voc\u00ea esse trabalho com m\u00fasico, uma vez que o seu trabalho \u201cprincipal\u201d hoje em dia \u00e9 como professor e fil\u00f3sofo e agora voc\u00ea est\u00e1 retomando esses trabalhos musicais?<\/strong><br \/>\nSafatle: Essa \u00e9, digamos, uma divis\u00e3o estrutural, por que eu sempre trabalhei com m\u00fasica, eu fiz forma\u00e7\u00e3o em conservat\u00f3rio cl\u00e1ssico, s\u00f3 que isso nunca ficou vis\u00edvel. Cheguei a ter grupos na adolesc\u00eancia, s\u00f3 que quando eu voltei para o Brasil e entrei na Universidade de S\u00e3o Paulo eu deixei meio de lado. \u00c9 que eu tive tamb\u00e9m uma crise, entre v\u00e1rias outras, que \u00e9 uma crise em rela\u00e7\u00e3o ao sistema tonal. Todas essas composi\u00e7\u00f5es [ele aponta para o disco] s\u00e3o tonais, mesmo que elas tenham suas peculiaridades de forma, elas s\u00e3o mais ou menos baseadas na forma can\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o eu entrei em crise mais ou menos com isso: com a forma can\u00e7\u00e3o e com a tonalidade. Ent\u00e3o at\u00e9 eu conseguir achar um tipo de uso mais livre e mais desfibrado das formas, demorou um tempo, a\u00ed por volta de 2008 eu consegui alguma coisa que eu fiquei mais satisfeito, s\u00f3 que por causa do ritmo e de algumas quest\u00f5es pessoais, eu n\u00e3o continuei, at\u00e9 que eu voltei h\u00e1 uns 3, 4 anos atr\u00e1s, quando eu fui chamado para fazer uma estrutura musical para uma pe\u00e7a de teatro. Foi uma experi\u00eancia que eu gostei de fazer, at\u00e9 fiz para mais uma pe\u00e7a e a\u00ed nessa o Sesc pediu para gravar o CD e foi meio assim que eu voltei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea produziu pe\u00e7as para duas pe\u00e7as, \u201cLeite Derramado\u201d e \u201cCaeser\u201d, que s\u00e3o trabalhos distintos, como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nSafatle: Foi um processo muito singular, at\u00e9 por que uma delas, de \u201cCaeser\u201d, era uma m\u00fasica cont\u00ednua de 50 minutos, ent\u00e3o eram dois atores e um pianista e foi um desafio bem interessante. Eu n\u00e3o queria fazer uma trilha sonora, por que mesmo a ideia de trilha j\u00e1 \u00e9 uma ideia bastante estranha, ou seja, como se a m\u00fasica fizesse um caminho ou se organizasse dentro de um caminho, normalmente \u00e9 quase como uma legenda, e eu queria uma estrutura\u00e7\u00e3o de contraponto, onde na verdade a m\u00fasica expressava sismografias que n\u00e3o estavam expl\u00edcitas nas cenas da pe\u00e7a, e que muitas vezes ela interferisse, ent\u00e3o ela era quase um personagem \u00e0 parte. E de fato funcionou, tanto que a trilha foi premiada, eu ganhei o pr\u00eamio Aplauso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cM\u00fasicas de Superf\u00edcie\u201d ficou guardado durante muitos anos, como foi reouvir essas can\u00e7\u00f5es tantos anos depois?<\/strong><br \/>\nSafatle: Ah, foi um processo meio dram\u00e1tico, por que isso depende muito dos momentos. Durante um tempo eu achava que era muito marcado por algo que eu n\u00e3o queria fazer, por isso foram anos de sil\u00eancio, at\u00e9 achar uma outra forma. Mas depois, tem pessoas que operam por rupturas muito brutais e eu percebi que havia sido uma ruptura brutal demais, ent\u00e3o eu comecei a reouvir e de fato elas t\u00eam coisas interessantes, at\u00e9 um dado momento em que comecei a pensar \u201cpoxa, eu deveria ter lan\u00e7ado isso\u201d. Foi mais ou menos o momento em que a gente voltou e come\u00e7ou a fazer esse trabalho de novo. A gente fez duas apresenta\u00e7\u00f5es nesses \u00faltimos meses, l\u00e1 no Jazz B, e o resultado foi bom, ent\u00e3o foi um retorno muito generoso da parte do p\u00fablico, que mostrou que existia de fato um campo que a gente poderia recuperar. E \u00e9 engra\u00e7ado, por que eu temia que as m\u00fasicas tivessem ficado um pouco envelhecidas, mas elas ficariam envelhecidas se tivesse dentro da m\u00fasica brasileira uma tradi\u00e7\u00e3o de trabalho nessas formas mais h\u00edbridas e n\u00e3o existe essa tradi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem algumas pessoas que fazem alguns tipos de hibrida\u00e7\u00f5es formais, mas n\u00e3o necessariamente dentro desse universo que a gente trabalhava, que tinha m\u00fasica erudita, refer\u00eancias do jazz, refer\u00eancias de recupera\u00e7\u00e3o do rock, mesmo para um formato que n\u00e3o era o formato normal e at\u00e9 alguns elementos de m\u00fasica popular que voltavam. Ent\u00e3o eu acho que isso deu ao trabalho uma certa juventude, que ficou preservada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fabiana, falamos sobre a produ\u00e7\u00e3o do disco na \u00e9poca e como foi reouvir ele durante tanto tempo. Para voc\u00ea, como foi retornar a esse trabalho?<\/strong><br \/>\nFabiana: A produ\u00e7\u00e3o foi na selvageria! [risos] Eu fui ouvir agora e tem umas coisinhas que eu queria mudar, limpar, tirar, e a\u00ed eu lembrei que foi gravado n\u00f3s dois juntos no est\u00fadio. Ent\u00e3o se tirasse algum peda\u00e7o da minha voz, tirava o piano tamb\u00e9m, ent\u00e3o \u00e9 uma paisagem est\u00e1tica ali. Foi bacana ouvir de novo depois de tanto tempo. Na verdade, a gente havia se encontrado h\u00e1 uns seis anos atr\u00e1s e eu achei um CD em casa e depois o Bruno tinha a Master. Bruno \u00e9 o Bruno E., respons\u00e1vel pela masteriza\u00e7\u00e3o da disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Safatle: Era uma \u00e9poca em que n\u00e3o existiam muitos est\u00fadios, ou eles eram est\u00fadios muito pequenos ou eles eram grandes e muito caros. Ent\u00e3o tudo isso foi feito quando eu era estudante, n\u00e3o t\u00ednhamos muitos recursos, ent\u00e3o as m\u00fasicas foram feitas em piano de arm\u00e1rio e gravados direto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabiana: Sim, eu ali do lado do piano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Safatle: Tanto que eu at\u00e9 pensei em gravar de novo por causa do som do piano, por que quem ouve piano percebe que n\u00e3o \u00e9 um piano de cauda, meia cauda, s\u00f3 que por alguma raz\u00e3o que eu ainda vou descobrir qual, a sonoridade do piano de arm\u00e1rio funcionou nesse caso, ent\u00e3o eu achei at\u00e9 que era uma singularidade que valia a pena preservar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabiana: E n\u00e3o foi gravado tudo de uma vez, a gente gravava em pe\u00e7as ou em blocos. Ent\u00e3o a primeira m\u00fasica em que a gente se encontrou e deu match, que foi \u201cDiamond Larmes\u201d, eu lembro que a gente gravou super r\u00e1pido, em um m\u00eas, um m\u00eas e pouco. E a gente foi gravando; ele ia compondo, fazendo aquelas coisas e j\u00e1 ia para o est\u00fadio \u2013 sempre o mesmo, um est\u00fadio que eu acho que nem existe mais hoje, l\u00e1 em Pinheiros.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diamond Larmes\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GBwZCfNdrok?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas conseguem pensar em algum por que do n\u00e3o lan\u00e7amento do disco \u00e0 \u00e9poca e a import\u00e2ncia de lan\u00e7\u00e1-lo agora?<\/strong><br \/>\nFabiana: Sabe o que eu fico pensando? Eu acho que n\u00e3o tinha mercado para esse tipo de m\u00fasica. Primeiro que ainda era um momento regido pelas gravadoras, n\u00e3o tinham muitos selos, n\u00e3o tinha muita gente que simplesmente metia as caras e gravava \u2013 tinha um pouco, mas exigia certa energia, tempo, grana e tal. E eu acho que n\u00e3o tinha muito onde encaixar isso no mercado. Primeiro, por que esse \u00e9 um disco que corre muito risco: ele n\u00e3o tem harmonias \u00f3bvias, ele n\u00e3o tem letras \u00f3bvias, o jeito de cantar tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio. E \u00e9 interessante por que eu fazia parte, na \u00e9poca, do Mawaca, e o Mawaca tinha um nicho ali que estava se construindo, de m\u00fasica \u00e9tnica, por\u00e9m para isso exatamente acho que n\u00e3o tinha ainda. Mas a\u00ed tamb\u00e9m teve uma coisa conjuntural, o Vlad em seguida foi morar fora, eu tamb\u00e9m comecei a fazer outras coisas, estava levando mais a s\u00e9rio o que eu fiz nos \u00faltimos 24 anos, que \u00e9 trabalhar com shows internacionais, a\u00ed a vida acabou nos carregando para outro canto. E a\u00ed lan\u00e7ar agora \u2013 vou falar uma coisa bem pessoal \u2013 eu estou num momento em que eu preciso ficar mais perto de m\u00fasica. N\u00e3o que eu estivesse afastada completamente, em nenhum momento da minha vida, mas de alguma maneira, eu estou precisando ficar mais perto. Voltar a cantar est\u00e1 sendo bem bacana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Safatle: Talvez esse ponto acabe explicando mais do que qualquer um outro, pois h\u00e1 uma quest\u00e3o psicol\u00f3gica aqui, a gente tem uma rela\u00e7\u00e3o conflitual com a m\u00fasica, a gente tinha esse trabalho completamente montando em 1997 ou 1998, a gente apresentou o trabalho e essas apresenta\u00e7\u00f5es foram boas, a receptividade foi boa, mas isso n\u00e3o foi o suficiente para a gente continuar. Acho que talvez, em algum n\u00edvel, a gente tinha uma rela\u00e7\u00e3o que para assumir um trabalho autoral e que esse trabalho pedia um cuidado e, como todo o trabalho musical, \u00e9 um trabalho muito ciumento, ent\u00e3o voc\u00ea precisa despender tempo, muita aten\u00e7\u00e3o, acho que demorou d\u00e9cadas para que a gente pudesse assumir isso de alguma forma. Tanto que nos dois casos, a gente acabou tendo uma rela\u00e7\u00e3o lateral com a m\u00fasica durante duas d\u00e9cadas, a Fabi foi fazer produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica de m\u00fasica e eu, uma das minhas \u00e1reas de trabalho \u00e9 a filosofia da m\u00fasica, ent\u00e3o chegou uma hora em que n\u00e3o fazia mais sentido, em que a gente tinha criado todo um sistema de auto denega\u00e7\u00e3o que ia explodir em algum momento. E podia explodir como resigna\u00e7\u00e3o, aquela coisa de \u201cpoxa, podia ter feito isso\u201d, ou ia chegar uma hora que ia explodir de maneira mais bem-sucedida, do tipo \u201cquer saber, vamos fazer\u201d. As pessoas j\u00e1 conhecem a Fabiana, por outras raz\u00f5es, e no meu caso tamb\u00e9m, ent\u00e3o acho que no come\u00e7o elas v\u00e3o meio que por curiosidade e ficam surpresas. Porque \u00e9 um pouco como as suas poesias que voc\u00ea escreveu com 20 anos e depois resolve lan\u00e7ar, as pessoas v\u00e3o, compram e pensam \u201cah, que legal, bonitinho\u201d, s\u00f3 que a\u00ed normalmente elas levam um susto, porque \u00e9 um trabalho de quem tinha forma\u00e7\u00e3o musical mesmo e estava mais ou menos ligado \u2013 eu diria assim, havia um eixo nos anos 90 de possibilidade de produ\u00e7\u00e3o musical, e o nosso trabalho entra no eixo de quem estava se descolando de um certo horizonte de produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica que era muito marcado por um certo tipo de can\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um pouco a hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o foi para a m\u00fasica erudita, ent\u00e3o que ficava mais ou menos no meio do caminho. Voc\u00ea tem trabalhos que ficam meio que no meio do caminho, como [Astor] Piazzolla, \u00e9 um trabalho que est\u00e1 entre o tango e alguma outra coisa. E a gente estava indo para l\u00e1, meio que intuitivamente, at\u00e9 por necessidade de tentar fazer alguma coisa mais livre, mas ainda dialogando com o horizonte que poderia ser o horizonte de compreens\u00e3o mais geral, que se consegue ouvir. \u00c9 diferente de se pegar uma pe\u00e7a do Morton Feldman e tentar ouvir, quem n\u00e3o tem uma hist\u00f3ria de audi\u00e7\u00e3o, leva um susto. Na nossa m\u00fasica, dificilmente voc\u00ea vai levar um susto, voc\u00ea vai ficar mais surpreendido, que \u00e9 outra coisa. Ent\u00e3o, tinha um caminho, mas no caso da m\u00fasica brasileira esse caminho n\u00e3o foi explorado, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es: estrutura\u00e7\u00e3o de campos de atua\u00e7\u00e3o, falta de visibilidade, ent\u00e3o \u00e9 engra\u00e7ado que esse caminho ficou, ent\u00e3o faz sentido voltarmos com esse trabalho, pois ele n\u00e3o virou simplesmente uma rel\u00edquia, como que o caderno de poemas do professor de filosofia e da produtora art\u00edstica \u2013 pelo menos assim eu espero.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sangue e Geometria\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EtzU0Yiw4C0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fabiana, no disco, o seu canto \u00e9 bem distinto, h\u00e1 um uso muito espec\u00edfico da voz, como \u00e9 voltar a esse canto agora?<\/strong><br \/>\nFabiana: Olha, tem uma coisa bem curiosa. \u201cSangue e Geometria\u201d, quando a gente decidiu fazer e o Vladimir mandou as m\u00fasicas, eu comecei a ouvir e passei meio diagonal, pensei \u201cimagina que ele vai querer fazer isso e eu nem tenho esses agudos mais\u201d. E a\u00ed fui fazer aula, pois n\u00e3o \u00e9 exatamente um repert\u00f3rio de cantar no chuveiro. E a\u00ed o Vladimir descortinou essa m\u00fasica e tem uma outra que \u00e9 bem dif\u00edcil e aguda, que \u00e9 \u201cVitrais\u201d, e elas acabaram virando as mais caras para mim tamb\u00e9m. E foi uma coisa de perder o medo e entrar em contato de novo com a minha voz, do ponto de vista t\u00e9cnico mesmo e acho que o fato de estar num outro lugar na vida, hoje, facilita um pouco acabar com essa inseguran\u00e7a. Est\u00e1 sendo bem interessante. E acho que tamb\u00e9m n\u00e3o teria uma outra op\u00e7\u00e3o para mim, vou cantar de que jeito? Eu tenho uma hist\u00f3ria musical que eu transitei por muito coisa, transitei pelo jazz, m\u00fasica eletr\u00f4nica, fiz muita pesquisa de m\u00fasica brasileira antiga e tinha o Mawaca, que era uma riqueza, voc\u00ea pesquisava timbres de sotaques, de posicionamento vocal, ent\u00e3o tem um repert\u00f3rio que estava ali, guardado, e eu estou usando isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que sons voc\u00eas estavam ouvindo na \u00e9poca de produ\u00e7\u00e3o do disco, coisas que voc\u00eas ouviam em comum, conversavam, essas coisas?<\/strong><br \/>\nFabiana: Vladimir s\u00f3 ouvia esquisitice. [risos]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Safatle: Essa pergunta tem uma coisa interessante, por que eu lembro que na \u00e9poca, a R\u00e1dio Cultura chegou a tocar duas ou tr\u00eas pe\u00e7as, eu lembro de eles falarem \u201c\u00e9 dif\u00edcil de a gente saber mais ou menos como apresentar\u201d. Acho que existe um desejo que \u00e9 a base desse tipo de m\u00fasica, o desejo de ocupar o que a gente chama de espa\u00e7os liminares, s\u00e3o espa\u00e7os de limite, ele foi feito em cima disso. Tem pessoas que organizam a sua audi\u00e7\u00e3o como se elas entrassem numa loja de departamentos e ent\u00e3o elas v\u00e3o procurando as coisas nos seus devidos lugares, \u00e9 o \u201cpara onde vai isso\u201d, \u201cqual o tipo de p\u00fablico\u201d. E eu sempre achei isso uma coisa t\u00e3o violenta aplicada a m\u00fasica, por que voc\u00ea v\u00ea que \u00e9 uma l\u00f3gica de comerciante, que acaba sendo o eixo da produ\u00e7\u00e3o, o que deveria ser completamente estranho a esse modelo de produ\u00e7\u00e3o de objetos, de circula\u00e7\u00e3o de objetos. Mas eu acho que existia uma s\u00e9rie de pessoas com o desejo exatamente de desrespeitar, eu diria mesmo de ocupar espa\u00e7o liminares, entre uma coisa e outra. Tinham produ\u00e7\u00f5es musicais nesse sentido, no meu caso eram as coisas que mais me chamavam a aten\u00e7\u00e3o. Mas eu n\u00e3o mudei muito a audi\u00e7\u00e3o, mais ou menos isso que eu sempre ouvi: m\u00fasica erudita, m\u00fasica erudita contempor\u00e2nea, rock eu acompanhei at\u00e9 os anos 90, depois acompanhei mal. E todos esses trabalhos que eram mais ou menos de atravessamento, embora nunca tivesse alguma coisa que fosse parecido com o que a gente estava fazendo. Mesmo que se voc\u00ea pegar uma m\u00fasica ou outro, \u201cah, isso parece mais\u201d, \u201cisso parece mais aquilo\u201d, mas a quest\u00e3o era que em conjunto ela tem uma s\u00e9rie de tens\u00f5es, passa para um lado, \u00e0s vezes passa para outro, \u00e0s vezes ela parece muito assim um standard de jazz, \u00e0s vezes n\u00e3o tem mais rela\u00e7\u00e3o nenhuma, mas o engra\u00e7ado \u00e9 que eu n\u00e3o acho que fique esquizofr\u00eanico \u2013 isso depende de quem vai ouvir. Mesmo que houvesse certa liberdade formal, tinham problemas parecidos, acho que a estrutura dos problemas ela acaba, mesmo para o ouvinte que n\u00e3o ouve assim estruturalmente, ela acaba dando uma certa unidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabiana: Engra\u00e7ado esse neg\u00f3cio de liminar. Eu lembrei que uma vez uma amiga minha veio me contar, bem nesse per\u00edodo, que eu tinha feito um show no Supremo e a\u00ed uma professora de t\u00e9cnica vocal foi dar um workshop e falou mal de mim, \u201cmas imagina, uma cantora que n\u00e3o se decide se ela canta l\u00edrico ou se ela canta popular\u201d, e a\u00ed ela at\u00e9 imitou uma frase de uma m\u00fasica do Lupic\u00ednio que eu cantava, ent\u00e3o eu j\u00e1 virei mal exemplo. Mas eu estava nesse momento pesquisando loucamente com a Magda [Pucci] e a Kitry [Pereira], do Mawaca, a gente pesquisava muitas coisas. Eu estava em um per\u00edodo que eu descobri a m\u00fasica irlandesa e a m\u00fasica escocesa, popular e arcaica. Tinha um neg\u00f3cio chamado mouth music, que at\u00e9 aparece em uma m\u00fasica nossa, que na Esc\u00f3cia, na idade m\u00e9dia, os instrumentos foram queimados e a\u00ed as pessoas cantavam na rua imitando os instrumentos. Ent\u00e3o eu lembro bem desse meu per\u00edodo por que eu fiquei bem louca com mouth music e a\u00ed tinham as baladas irlandesas, eu pesquisei muita coisa africana, b\u00falgara, era um per\u00edodo em que eu viajei o mundo musicalmente, pesquisando muito a parte vocal, por que o Mawaca era um grupo vocal. E acho que eu sempre namorei um pouco essa transgress\u00e3o, eu gostava de ver, por exemplo, cantores fazendo coisas que eles n\u00e3o faziam normalmente. Eu lembro de uma coisa que me marcou bastante naquela \u00e9poca foi um disco de standard de jazz que a Sin\u00e9ad O\u2019Connor gravou [\u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/07\/08\/discografia-comentada-sinead-oconnor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Am I Not Your Girl?<\/a>\u201d, 1992], esse disco \u00e9 super bonito. E estava tamb\u00e9m come\u00e7ando a ouvir um pouco de m\u00fasica eletr\u00f4nica, tinham umas coisas de downtempo que eu gostava bastante. Jazz eu ouvia sempre, at\u00e9 por for\u00e7a do trabalho. \u00c9, n\u00e3o d\u00e1 para dizer o que eu ouvia, eu sempre ouvi muita coisa. [risos] E eu ouvia muita m\u00fasica brasileira, coisas do Sinh\u00f4, Noel Rosa, Lupic\u00ednio, Ataulfo, eu pesquisava muito essas coisas a\u00ed, ficava tentando achar coisas menos conhecidas e tal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vitrais\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AUVJMzQN9O0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora o disco <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/6g1mbPg3pe8z6qyH6C32SL?si=Wn2ZwrRJR3qWjkgxBv705w\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">est\u00e1 chegando \u00e0s plataformas digitais<\/a> e qual \u00e9 a expectativa de voc\u00eas, d\u00e1 algum tipo de ansiedade de mostrar esse filho que j\u00e1 tem certo tempo?<\/strong><br \/>\nSafatle: Depois dos 40 anos, voc\u00ea perde todo o sistema de expectativa. Acho que a expectativa \u00e9 uma coisa engra\u00e7ada, pois d\u00e1 a ideia de que se organiza o tempo atrav\u00e9s de uma proje\u00e7\u00e3o, se projeta o que deve ser pelo futuro e voc\u00ea fica na espera para ver se isso acontece ou n\u00e3o. Eu n\u00e3o tenho isso, o que \u00e9 uma maneira de se deixar ser surpreendido por certas coisas. O que eu acho \u00e9 que existe um desejo de promiscuidade na m\u00fasica que pede experi\u00eancias dessa natureza. Por exemplo, meus amigos adornianos estritos, eu n\u00e3o sei se eles ir\u00e3o gostar, por isso eu j\u00e1 at\u00e9 pedi desculpas a alguns pelo tonalismo excessivo, mas acho que tem uma quest\u00e3o que fica ainda presente na m\u00fasica, ainda mais hoje, em que voc\u00ea tem um tipo de produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito compartimentalizada pelas exig\u00eancias da ind\u00fastria, como uma inst\u00e2ncia de decis\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, agora at\u00e9 pelo fato de voc\u00ea ter hoje uma liberdade maior de criar, no sentido de que voc\u00ea n\u00e3o passa por grandes gravadoras, grandes estruturas e tal, isso pode servir para alguma coisa, como para dar a esse desejo de promiscuidade mais espa\u00e7o, eu n\u00e3o acredito que os ouvintes sejam compartimentalizados, pois as experi\u00eancias deles n\u00e3o s\u00e3o compartimentalizadas, ent\u00e3o tem um horizonte de experi\u00eancias para esses ouvintes que acaba n\u00e3o tendo uma forma musical que seja pr\u00f3pria. Acho isso muito engra\u00e7ado, por que eu conhe\u00e7o muita gente que tem um gosto muito estruturado, muito desenvolvido para certas artes e quando \u00e9 o caso de m\u00fasica \u00e9 um gosto meio prim\u00e1rio, ouve um tipo de forma muito prim\u00e1ria ou algo que \u00e9 muito afetivamente investido, ent\u00e3o h\u00e1 um tipo de escuta afetiva, como se fosse uma esp\u00e9cie de expectativa terap\u00eautica da m\u00fasica ou \u00e0s vezes muito funcionalizada. Terap\u00eautica no sentido de \u201cah, quero recuperar alguma mem\u00f3ria\u201d, \u201cquero criar um espa\u00e7o\u201d, ou muito funcionalizada, ela tem uma fun\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica. Ent\u00e3o na verdade, esse tipo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o encaixa como ele \u00e9 totalmente contr\u00e1rio a isso. A gente queria uma coisa que tivesse uma certa ritualidade, mas que ao mesmo tempo trouxesse materiais que s\u00e3o identific\u00e1veis, ent\u00e3o acho que espa\u00e7o para esse tipo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 tem, mas ela responde a uma necessidade do tempo. Eu espero que mais coisas nesse sentido possam circular, inclusive quebrando um pouco esse tipo de rela\u00e7\u00e3o. Eu acho que o Brasil tem uma rela\u00e7\u00e3o com m\u00fasica muito estranha e \u00e9 o m\u00ednimo que eu posso dizer, muito estranho. Gilberto Mendes j\u00e1 tinha dito isso uma vez, ao falar que existe um desn\u00edvel no tipo de circula\u00e7\u00e3o entre literatura, cinema, artes visuais e m\u00fasica, \u00e9 como se a m\u00fasica tivesse que ser a mais segura de todas as artes, aquela que n\u00e3o te coloca, do ponto de vista da sua audi\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o te coloca problemas do tipo \u201ccomo eu ou\u00e7o isso?\u201d. Se aceita isso no cinema, por exemplo, voc\u00ea vai ver um filme e se coloca num lugar que \u00e9 \u201ccomo eu vejo isso?\u201d, com m\u00fasica parece que \u00e9 mais dif\u00edcil, pois m\u00fasica \u00e9 um elemento muito arraigado dentro da constitui\u00e7\u00e3o da cultura nacional, quer dizer, a gente gosta de se ver como um pa\u00eds musical, mesmo que n\u00e3o seja exatamente verdade no caso, mas isso faz parte da nossa auto compreens\u00e3o, ent\u00e3o eu acho que isso criou um sintoma, em que a m\u00fasica tem que dar seguran\u00e7a de audi\u00e7\u00e3o, mesmo que ela provoque certos sentimentos, mas eu tenho que ouvir de maneira quase imediata. E a gente queria alguma coisa que fosse \u201cem deslocamento de\u201d, pois tinha essa passagem, isto \u00e9, aquilo que voc\u00ea ainda identifica, mas n\u00e3o da maneira como voc\u00ea normalmente identificaria. E eu acho que em alguns momentos da m\u00fasica brasileira isso foi feito, em alguns momentos muito espec\u00edficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabiana: Como o Arrigo [Barnab\u00e9].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Safatle: Sim, o Arrigo \u00e9 um caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabian: Sim, ele sofreu muito pela m\u00fasica que ele resolveu fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Safatle: \u00c9, acho que ele \u00e9 um bom exemplo desse tipo de m\u00fasica de descolamento, que vai se descolando de alguma coisa. Essas coisas em transi\u00e7\u00e3o elas s\u00e3o fascinantes, por que elas explicitam um duplo desejo de conflito. E tudo que mostra desejos de conflito tem sua riqueza, pois \u00e9 preservar um campo comum e ao mesmo tempo negar um campo comum. Ent\u00e3o quer dizer, que tipo de m\u00fasica \u00e9 essa que fala duas coisas ao mesmo tempo: ela quer preservar e quer negar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabiana: Nossa, depois disso tudo, nem sei. Eu n\u00e3o tenho essa capacidade zen do Vladimir de n\u00e3o ter expectativas [risos], mas o que foi muito confort\u00e1vel foi eu ser uma pessoa do mercado de m\u00fasica, do music bussiness mesmo. Isso facilitou a gente a fazer tudo bonitinho: a gente fez dois shows, pontuais, pequenos, com uma pretens\u00e3o x que foi cumprida, come\u00e7amos a criar um buzz em cima do trabalho, a\u00ed lan\u00e7amos o single, a\u00ed agora vamos lan\u00e7ar o \u00e1lbum, vamos para um lugar um pouquinho maior, que \u00e9 um lugar que est\u00e1 chamando muito a aten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o Blue Note, ent\u00e3o em termos de desenhar essa trajet\u00f3ria dos \u00faltimos quatro meses, foi bom por eu saber onde eu estou pisando e estou com aqueles que s\u00e3o importantes para a gente e sabem fazer isso, ent\u00e3o isso d\u00e1 certo conforto. E eu concordo com o Vladimir que n\u00e3o \u00e9 um trabalho super popular, adoraria ter essa ilus\u00e3o \u2013 quer dizer, n\u00e3o adoraria n\u00e3o, por que eu iria me frustrar [risos]. \u00c9 um trabalho que requer al\u00e9m de voc\u00ea ter um repert\u00f3rio pr\u00e9vio e de ter um ouvido um pouquinho mais aberto pra sair desse lugar que ele falou, precisa ter at\u00e9 um pouco de coragem para n\u00e3o ter essa coisa imediata com a m\u00fasica.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-52172\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/m\u00fasica-de-superf\u00edcie.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/m\u00fasica-de-superf\u00edcie.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/m\u00fasica-de-superf\u00edcie-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/m\u00fasica-de-superf\u00edcie-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. 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