{"id":51948,"date":"2019-06-11T00:44:27","date_gmt":"2019-06-11T03:44:27","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=51948"},"modified":"2019-10-26T14:56:55","modified_gmt":"2019-10-26T17:56:55","slug":"olhar-de-cinema-2019-o-tempo-e-a-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/11\/olhar-de-cinema-2019-o-tempo-e-a-luz\/","title":{"rendered":"Olhar de Cinema 2019: O tempo e a luz"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0Adolfo Gomes<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deveria ser a mat\u00e9ria-prima de todos os filmes: o tempo e a luz. O irremedi\u00e1vel come\u00e7o. Assim como a composi\u00e7\u00e3o do quadro cinematogr\u00e1fico, a partida de qualquer (re)cria\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica. A esta altura, infelizmente, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvios tais pressupostos. E uma boa maneira de lembrar esses princ\u00edpios \u00e9 se deparar com o mais recente trabalho da lusitana Rita Azevedo Gomes: \u201cA Portuguesa\u201d (Portugal, 2018) baseado em obra do escritor austr\u00edaco Robert Musil. O filme \u00e9 uma das atra\u00e7\u00f5es da mostra \u201cExibi\u00e7\u00f5es Especiais\u201d, no Festival \u201cOlhar de Cinema 2019\u201d, realizado em Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exigente na constru\u00e7\u00e3o do seu ritmo, Rita Avezedo encena, aqui, uma esp\u00e9cie de ritual de espera, percorrendo com rigor o itiner\u00e1rio de solid\u00e3o, discreto prazer e resili\u00eancia que enseja. Uma jovem, provavelmente no s\u00e9culo XVI, \u00e9 entrincheirada num austero pal\u00e1cio enquanto aguarda o desenrolar das guerras forjadas, em grande parte, pelo esp\u00edrito beligerante do seu esposo, um nobre algo decadente e rude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A intermitente conviv\u00eancia do casal \u00e9 um contraponto quase farsesco (nos faz recordar os desencontros pantom\u00edmicos de Keaton a Tati) ao ascetismo do ambiente e das situa\u00e7\u00f5es. O operar do tempo, neste sentido, parece se descolar do t\u00e9dio e da ang\u00fastia, para se inscrever no pr\u00f3prio seio da narrativa, criando elos sensoriais entre as parcimoniosas sequ\u00eancias, como se cada a\u00e7\u00e3o enquadrada pela c\u00e2mera, ancorada no seu d\u00e9cor inventivamente atemporal, tivesse uma autonomia espacial, ou seja, poderia estar em curso em diversos lugares simult\u00e2neos \u2013 e tamb\u00e9m em outras \u00e9pocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, \u201cA Portuguesa\u201d, \u00e0 parte a for\u00e7a evocativa e atualizadora da adapta\u00e7\u00e3o de Agustina Bessa-Lu\u00eds, \u00e9 um filme que se manifesta para al\u00e9m dos di\u00e1logos e do \u201cenredo\u201d. Sua grandeza reside, sobretudo, no artesanato vigoroso da composi\u00e7\u00e3o dos planos, no regrado movimento dos atores, na imobilidade das convic\u00e7\u00f5es de seus personagens traduzida em imagens luminosas, justas. Tudo isso lhe confere um encanto peculiar, o da vida em si preservada, (re)imaginada e constante, como se da guerra n\u00e3o tiv\u00e9ssemos mais necessidade para nos sentirmos em paz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-51950\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/n\u00e3o-pense-que-eu-vou-gritar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/n\u00e3o-pense-que-eu-vou-gritar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/n\u00e3o-pense-que-eu-vou-gritar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cinefilia<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 em \u201cN\u00e3o Pense Que Eu Vou Gritar\u201d (Ne Croyez Surtout Pas Que Je Hurle, Fran\u00e7a, 2019) a demanda pelo cinema \u00e9 ainda mais visceral: (sobre)viver atrav\u00e9s dos filmes. Selecionado para o segmento \u201cNovos Olhares\u201d, o longa-metragem de Frank Beauvais nos oferece uma torrente de imagens pr\u00e9-existentes conjurada por uma vertiginosa narra\u00e7\u00e3o em primeira pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cineasta, isolado numa pequena cidade do interior da Fran\u00e7a, se entrega \u00e0 cinefilia para enfrentar o abandono, depois do fim de um relacionamento afetivo. N\u00e3o \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 arte ou ao cinema, em particular. Estamos aqui &#8211; n\u00e3o idealizem \u2013 no dom\u00ednio do desespero e da dor. Trata-se de uma imers\u00e3o sem condescend\u00eancia \u2013 e muito l\u00facida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia do filme de Rita Azevedo, se sobrep\u00f5e ao que vemos \u2013 flashes, mais do que trechos, de centenas de filmes n\u00e3o ilustram, nem refor\u00e7am o que \u00e9 dito. Est\u00e3o a\u00ed na condi\u00e7\u00e3o de testemunho de um estado de esp\u00edrito, vest\u00edgios de um percurso \u00edntimo que precisa de alguma inst\u00e2ncia vis\u00edvel para vir \u00e0 tona.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A PORTUGUESA (Rita Azevedo Gomes, Portugal, 2018) TRAILER\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qZoTCDlsTAo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Adolfo Gomes \u00e9 cineclubista e cr\u00edtico de cinema filiado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cr\u00edticos de Cinema (Abraccine).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\u201cA Portuguesa\u201d, de Rita Azevedo Gomes, transp\u00f5e obra do escritor austr\u00edaco Rober Musil para o cinema com o rigor e o respeito \u00e0 dura\u00e7\u00e3o das coisas e dos sentimentos. J\u00e1 em &#8220;N\u00e3o pense que eu vou gritar&#8221;, de Frank Beauvais, \u00e9 o percurso \u00edntimo da cinefilia que orienta a narrativa.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/11\/olhar-de-cinema-2019-o-tempo-e-a-luz\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":71,"featured_media":51949,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3818],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51948"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/71"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51948"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51948\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53498,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51948\/revisions\/53498"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51949"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}