{"id":51915,"date":"2019-06-08T16:50:20","date_gmt":"2019-06-08T19:50:20","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=51915"},"modified":"2019-06-24T00:59:46","modified_gmt":"2019-06-24T03:59:46","slug":"olhar-de-cinema-2019-violencia-e-paixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/08\/olhar-de-cinema-2019-violencia-e-paixao\/","title":{"rendered":"Olhar de Cinema 2019: Viol\u00eancia e paix\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0por\u00a0Adolfo Gomes<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma viol\u00eancia que emerge das entranhas, quase mineral. N\u00e3o s\u00f3 dos homens \u2013 da natureza tamb\u00e9m, em sua vastid\u00e3o e beleza. Estamos no deserto australiano e poderia ser no come\u00e7o dos tempos. O filme em quest\u00e3o \u00e9 \u201cA Longa Caminhada\u201d (&#8220;Walkabout&#8221;, 1971), do ingl\u00eas Nicholas Roeg, falecido em 2018. A obra ganha relevo na instigante sele\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos que integra a Mostra \u201cOlhares Cl\u00e1ssicos\u201d, no \u00e2mbito da oitava edi\u00e7\u00e3o do Festival Internacional de Cinema de Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecido pela filmografia inquieta \u2013 de \u201cPerfomance\u201d, que trazia Mick Jagger no elenco, a \u201cO Homem Que Caiu na Terra\u201d, estrelado por David Bowie, passando por \u201cO Inverno de Sangue em Veneza\u201d, com Julie Christie e Donald Sutherland \u2013 Roeg nunca se sentiu intimidado pela estranheza das paisagens e do comportamento humano. Ao contr\u00e1rio, essa ecologia impetuosa d\u00e1 vida ao seu cinema, sempre na fronteira entre o sublime e o grotesco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cA Longa Caminhada\u201d, ele cria um poema \u00e9pico (violent\u00edssimo, trist\u00edssimo) sobre a fal\u00eancia das utopias civilizat\u00f3rias, atravessando a natureza como quem se despede de um lugar j\u00e1 inalcan\u00e7\u00e1vel e indiferente \u00e0 sua pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o \u2013 um territ\u00f3rio autoimune a qualquer possibilidade de concilia\u00e7\u00e3o com o homem, e, por isso, exuberantemente furioso ao acolher tal fatalismo destrutivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um filme de horror (n\u00e3o tenha d\u00favida!), a despeito da for\u00e7a solar que emprega para desbravar os caminhos, de ida e volta, entre a miragem natural e a dana\u00e7\u00e3o urbana. No foco dessa narrativa desencantada, um casal de irm\u00e3os oriundo da cidade, que, em contato com os ritos de inicia\u00e7\u00e3o de um abor\u00edgene, experiencia o f\u00f4lego final de um mundo (extraterreno), bem aqui, cont\u00edguo ao nosso modo de vida. Resta a lembran\u00e7a, a profunda melancolia daquele instante de comunh\u00e3o com os elementos, j\u00e1 em definitivo encerrado num percurso de conserva\u00e7\u00e3o, mas, acima de tudo (como paradoxal consequ\u00eancia), de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-51917\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Conhecendo-o-grande-e-vasto-mundo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Conhecendo-o-grande-e-vasto-mundo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Conhecendo-o-grande-e-vasto-mundo-300x213.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Conhecendo-o-grande-e-vasto-mundo-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lirismo materialista<\/strong><br \/>\nOutro destaque no segmento \u201cOlhares Cl\u00e1ssicos\u201d, \u201cConhecendo o Grande e Vasto Mundo\u201d (em ingl\u00eas, &#8220;Getting to Know the Big Wide World&#8221;, 1978), da ucraniana Kira Muratova, compartilha com o filme de Roeg a mesma materialidade l\u00edrica. Um tri\u00e2ngulo amoroso descarnado &#8211; \u00f3sseo na recusa da sentimentalidade epid\u00e9rmica comum aos romances de desencontro &#8211; nos introduz ao interior lamacento e acinzentado das paix\u00f5es humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filme vertical (ao contr\u00e1rio do que sugere o t\u00edtulo), reduz os espa\u00e7os a cada plano, de modo o estreitar nossa intimidade com as personagens. \u00c9 uma hist\u00f3ria de amor sem beijos, abra\u00e7os ou promessas. Muratova, cuja obra foi desenvolvida sob os ditames do realismo sovi\u00e9tico (na antiga URSS), satura a objetividade imperativa do regime de representa\u00e7\u00e3o naturalista at\u00e9 a sua desconstru\u00e7\u00e3o completa. Os di\u00e1logos s\u00e3o fragmentados (parecem come\u00e7ar no meio da enuncia\u00e7\u00e3o e terminar duas ou tr\u00eas palavras antes do fim da senten\u00e7a) e os gestos dos atores, \u00e0 primeira vista, orientados por certa conten\u00e7\u00e3o, resultam, no final das contas, imprevis\u00edveis, como seus movimentos em cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cConhecendo o Grande e Vasto Mundo\u201d se imp\u00f5e contra a institucionaliza\u00e7\u00e3o, inclusive cinematogr\u00e1fica, dos sentimentos. Assenta em terra e argila as bases do que vislumbra o mais pr\u00f3ximo da \u201cfelicidade\u201d que possamos alcan\u00e7ar: estar, pura e simplesmente, com quem se ama.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Getting to Know the Big, Wide World (Poznavaja belyi svet)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jGnCXtMzw1E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Walkabout (1971) Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pyMSzeXI5NE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Adolfo Gomes \u00e9 cineclubista e cr\u00edtico de cinema filiado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cr\u00edticos de Cinema (Abraccine).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mostra &#8220;Olhares Cl\u00e1ssicos&#8221;, no Festival Internacional de Cinema de Curitiba, resgata filmes do ingl\u00eas Nicholas Roeg e da ucraniana Kira Muratova\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/08\/olhar-de-cinema-2019-violencia-e-paixao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":71,"featured_media":51916,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3818],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51915"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/71"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51915"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51915\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":51918,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51915\/revisions\/51918"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51916"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}