{"id":51908,"date":"2019-06-07T08:45:36","date_gmt":"2019-06-07T11:45:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=51908"},"modified":"2019-07-06T20:18:46","modified_gmt":"2019-07-06T23:18:46","slug":"olhar-de-cinema-2019-a-sombra-do-gigante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/07\/olhar-de-cinema-2019-a-sombra-do-gigante\/","title":{"rendered":"Olhar de Cinema 2019: \u00c0 sombra do gigante"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;por&nbsp;Adolfo Gomes<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho da morte. N\u00e3o \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o literal da c\u00e9lebre assertiva de Jean Cocteau (\u201cle cin\u00e9ma c\u2019est la mort au travail\u201d), que trespassou a abertura do festival Olhar de Cinema 2019, em Curitiba. De todo modo, continua a parecer apropriada. Primeiro se manifesta na exibi\u00e7\u00e3o surpresa do curta de Renato Coelho, \u201cO Cinema Segundo Luiz R\u00f4\u201d(2013); depois na estreia mundial do document\u00e1rio \u201cBanquete Coutinho\u201d, do estreante Josaf\u00e1 Veloso. Os dois filmes, em alguma medida, d\u00e3o testemunha desse of\u00edcio implac\u00e1vel \u2013 bem mais do que, simplesmente, prestam homenagem aos seus \u201cpersonagens\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luiz Rosemberg Filho, morto este ano, e Eduardo Coutinho, falecido em 2014, est\u00e3o entre \u201co que tivemos de melhor\u201d na cultura brasileira das \u00faltimas d\u00e9cadas. Em apenas tr\u00eas luminosos minutos, Renato Coelho d\u00e1 voz a \u201cR\u00f4\u201d e sua po\u00e9tica pol\u00edtico-afetuosa. \u00c9 um primor de s\u00edntese e claridade \u2013 cineasta de estilo quase barroco, sempre pressionado pelas restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e ambientais (o ambiente algo dissimulado do cinema brasileiro), Rosemberg construiu uma filmografia abundante em alegorias, colagens e dramaturgia antinaturalista (por isso a impress\u00e3o obscurantista colada \u00e0 sua obra).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas aqui, no filme de Renato, tudo \u00e9 de uma limpidez comovente. N\u00e3o se trata apenas de conceituar o cinema, definir uma vis\u00e3o pessoal atrav\u00e9s de uma express\u00e3o art\u00edstica; \u00e9 muito mais profundo: relacionar vida, realidade e arte \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o de maneira visceral, apaixonada. Se o estilo \u00e9 o homem, como ressaltava <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/04\/17\/os-10-primeiros-filmes-de-godard\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Godard<\/a>, temos na silhueta de Rosemberg a enuncia\u00e7\u00e3o precisa de sua filmografia \u2013 o trabalho perene da cria\u00e7\u00e3o a desafiar nossa finitude intr\u00ednseca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora em outra chave, mais terrena e c\u00e9tica, tamb\u00e9m podemos encontrar nos filmes de Eduardo Coutinho o mist\u00e9rio de tal incita\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. E espanta a coragem de Josaf\u00e1 Veloso em iniciar sua trajet\u00f3ria no cinema \u2013 ele \u00e9 m\u00fasico consolidado \u2013 e no document\u00e1rio, em particular, sob a sombra frondosa do mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBanquete Coutinho\u201d opera no territ\u00f3rio fe\u00e9rico da conversa \u2013 as perguntas engendrando narrativas, surpresas e epifanias. Sem d\u00favida, \u00e9 intimidador reconfigurar a posi\u00e7\u00e3o de um artista diante do seu labor primordial. Veloso, a despeito do risco, coloca Coutinho na condi\u00e7\u00e3o de entrevistado e assume para si a tarefa de emular a m\u00e1gica do art\u00edfice maior do g\u00eanero no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No debate posterior \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o filme, o jovem realizador contou que o resultado das conversas com Coutinho se assemelhava a um mon\u00f3lito, tal a dificuldade de editar a fala \u00e1rida e descontinuada do seu \u201cpersonagem\u201d. Foi um projeto de longa dura\u00e7\u00e3o, mais de cinco anos desde a sua concep\u00e7\u00e3o, e o tempo (la mort au travail) indicou os caminhos. A op\u00e7\u00e3o por levantar quest\u00f5es &#8211; seria a obra de Coutinho varia\u00e7\u00f5es de um mesmo e recorrente filme? As pessoas que povoam seus document\u00e1rios exprimem a sua pr\u00f3pria ess\u00eancia como se fossem dele um alter ego, entre outras indaga\u00e7\u00f5es especulativas \u2013 sem com isso se preocupar em lev\u00e1-las ao cabo de uma tese ou de uma certa teoria autorista; pode causar a sensa\u00e7\u00e3o de flacidez do discurso de Veloso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, mais \u00edngreme \u00e9 contornar a ideia de \u201cvampiriza\u00e7\u00e3o\u201d da constante criativa coutiniana, essa capacidade rara de alcan\u00e7ar no outro alguma coisa de entendimento, de esperan\u00e7a, de imprevisibilidade que nos aproxima e conforta no caos dolorido da vida. Tarefa talvez imposs\u00edvel, gigantesca em sua ambi\u00e7\u00e3o. Estar \u00e0 altura de um grande criador \u00e9 como \u201cvencer\u201d a morte. Podemos tentar, tentar. \u00c9 o que nos cabe em \u00faltima inst\u00e2ncia. No melhor dos casos, h\u00e1 um vislumbre de eternidade. Ilus\u00e3o ef\u00eamera, mas que pode ser bela. Tem que nos bastar. Do contr\u00e1rio, \u00e9 o vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBanquete Coutinho\u201d, portanto, esfor\u00e7a-se em saciar essa fome, em preencher uma aus\u00eancia, por\u00e9m toda vez que retoma trechos dos filmes do grande cineasta abre um abismo temporal: tudo o que se passou \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel. Os criadores, os maiores, s\u00e3o assim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Banquete Coutinho \u2014 Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_PXv3UTTme4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Adolfo Gomes \u00e9 cineclubista e cr\u00edtico de cinema filiado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cr\u00edticos de Cinema (Abraccine).<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cBanquete Coutinho\u201d, do estreante Josaf\u00e1 Veloso, foi o filme de abertura da mostra Olhar de Cinema 2019, em Curitiba. 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