{"id":5177,"date":"2010-05-21T07:41:31","date_gmt":"2010-05-21T10:41:31","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5177"},"modified":"2024-06-10T20:42:11","modified_gmt":"2024-06-10T23:42:11","slug":"batendo-uma-bola-com-chico-buarque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/21\/batendo-uma-bola-com-chico-buarque\/","title":{"rendered":"Entrevista: Batendo uma bola com Chico Buarque em Paris"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/dancariello\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Daniel Cariello<\/a> e Thiago Ara\u00fajo<br \/>\nIntrodu\u00e7\u00e3o por Thiago Ara\u00fajo \/ Fotos de Mauro Cardoso<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Se tiver bola, eu dou a entrevista&#8221;. Essa foi a \u00fanica exig\u00eancia do nosso companheiro de pelada, Chico Buarque, numa caminhada entre o metr\u00f4 e o campo. Uma bola. E eu acabara de informar que o dono da redonda n\u00e3o viria \u00e0 pelada de quarta-feira. \u00c9ramos dez amantes do futebol, \u00f3rf\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem saber se esse era um gol de letra dele para fugir da solicita\u00e7\u00e3o de seus parceiros jornalistas, ou uma \u00faltima esperan\u00e7a, em forma de press\u00e3o, de n\u00e3o perder a religiosa partida, eu, que n\u00e3o creio, olhei para o c\u00e9u e pedi a Deus: uma pelota!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada de enigma, oferenda ou golpe de Estado. Ele estava ali, o c\u00e1lice sagrado da cultura brasileira, que se sucumbiu ao ver n\u00e3o uma, mas duas bolas chegarem \u00e0 quadra pelas m\u00e3os de Mauro Cardoso, mais conhecido como Ganso. A partir da\u00ed, nada mais alterou o meu \u00e2nimo e o da minha dupla de ataque-entrevista, Daniel Cariello. Apesar de termos jogado no time advers\u00e1rio do ilustre entrevistado, tomado duas goleadas consecutivas de 10 x 6 e 10 x 1, t\u00ednhamos a certeza de que ele n\u00e3o iria trair dois dos principais craques do Paristheama, e sua palavra seria honrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o desafio maior n\u00e3o era convencer o camisa 10 do time bordeaux-mostarda parisiense a ceder duas horas de sua tarde ensolarada de s\u00e1bado. O que voc\u00ea perguntaria ao artista \u00edcone da resist\u00eancia \u00e0 ditadura, parceiro de Tom Jobim, Vinicius de Morais e Caetano Veloso, escritor dos best sellers &#8220;Estorvo&#8221;, &#8220;Benjamin&#8221;, &#8220;Budapeste&#8221; e &#8220;Leite Derramado&#8221;, autor de &#8220;A banda&#8221;, &#8220;Essa mo\u00e7a t\u00e1 diferente&#8221;, O&#8221; que ser\u00e1&#8221; (obra prima sacrificada por Claude Nougaro, travestida em &#8220;Tu Verras&#8221;), &#8220;Constru\u00e7\u00e3o&#8221; e da can\u00e7\u00e3o de amor mais triste jamais escrita, &#8220;Peda\u00e7o de mim?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admirado e amado por todas as idades, estudado por universit\u00e1rios, defendido por Chic\u00f3latras, or\u00e1culo no Facebook, onipresente nas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas brasileiras \u2013 sua mod\u00e9stia diria \u201cisso \u00e9 um exagero\u201d, mas sabemos que n\u00e3o \u00e9 \u2013, sua rea\u00e7\u00e3o imediata ao ser comparado a Deus foi \u201cem primeiro lugar, n\u00e3o acredito em Deus. Em segundo, n\u00e3o acredito em mim. Essa \u00e9 a \u00fanica coisa que pode nos ligar. Ent\u00e3o, pra come\u00e7o de conversa, vamos tirar Deus da mesa e seguir em frente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, ainda n\u00e3o creio que entrevistamos Deus, quase sem falar de Deus. Mas foi com ele mesmo que aprendi uma li\u00e7\u00e3o, talvez um mandamento: acreditar em coisas inacredit\u00e1veis.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Buarque - Outra Noite\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YSQH4kzHxMs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea assume que n\u00e3o acredita em Deus, mas existem trechos nas suas m\u00fasicas como \u201cdias iguais, avareza de Deus\u201d ou \u201ceu, que n\u00e3o acredito, pedi a Deus\u201d. No Brasil, \u00e9 complicado n\u00e3o acreditar em Deus?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o tenho cren\u00e7a. Eu fui criado na Igreja Cat\u00f3lica, fui educado em col\u00e9gio de padre. Eu simplesmente perdi a f\u00e9. Mas n\u00e3o fa\u00e7o disso uma bandeira. Eu sou ateu como o meu tipo sangu\u00edneo \u00e9 esse. Hoje h\u00e1 uma volta de certos valores religiosos muito forte, acho que no mundo inteiro. O que \u00e9 perigoso quando passa para posi\u00e7\u00f5es integristas e d\u00e1 lugar ao fanatismo. O Brasil talvez seja o pais mais cat\u00f3lico do mundo, mas isso \u00e9 um pouco de fachada. Conhe\u00e7o muitos cat\u00f3licos que v\u00e3o \u00e0 umbanda, fazem despacho. E fica essa coisa de Deus, que entra no vocabul\u00e1rio mais recente, que me incomoda um pouquinho. Essa coisa de \u201cvai com Deus\u201d, \u201cfica com Deus\u201d. Escuta, eu n\u00e3o posso ir com o diabo que me carregue? (Risos). Tem at\u00e9 um samba que fala algo como \u201c\u00e9 Deus pra l\u00e1, Deus pra c\u00e1 \u2013 e canta &#8211; Deus j\u00e1 est\u00e1 de saco cheio\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 foi em umbanda, candombl\u00e9, algo do tipo?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1, eu sou muito curioso. A mulher jogou umas pipocas na minha cabe\u00e7a, sangue, disse que eu estava cheio de encosto. Eu fui porque me falaram \u201cvai l\u00e1 que vai ser bom\u201d. Passei tamb\u00e9m por esp\u00edritas mais ortodoxos, do tipo que encarnava um m\u00e9dico que me receitou um rem\u00e9dio para o aparelho digestivo. A\u00ed eu fui procurar o rem\u00e9dio e ele n\u00e3o existia mais. O rem\u00e9dio era do tempo do m\u00e9dico que ele encarnava (risos). J\u00e1 tive tamb\u00e9m um bruxo de confian\u00e7a, que fez coisas incr\u00edveis. Aquela m\u00fasica do Caetano dizia isso muito bem, \u201cquem \u00e9 ateu, e viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus n\u00e3o cessam de brotar.\u201d Eu vi cirurgias com gilete suja, sem a menor assepsia, e a pessoa saia curada. Estava com o joelho ferrado e saia andando. Eu fui anestesista dessa cirurgia. A anestesia era a m\u00fasica. O pr\u00f3prio Tom Jobim tocava durante as cirurgias. Eu toquei para uma dan\u00e7arina que estava com problema no joelho. Ela tinha uma estreia, mas o ortopedista disse \u201cvoc\u00ea rompeu o menisco\u201d. Ela estreou na semana seguinte, e na primeira fila estavam o ortopedista e o bruxo (risos). Uma vez estava com um problema e fui ao m\u00e9dico. Ele me tocou e n\u00e3o viu nada. A\u00ed eu disse \u201colha, meu bruxo, meu feiticeiro, quando ele apertava aqui, do\u00eda\u201d. Ele come\u00e7ou a dizer \u201cmas essa coisa de feiti\u00e7aria&#8230;\u201d e atr\u00e1s dele tinha um crucifixo com o Cristo. Da\u00ed eu perguntei \u201ccomo voc\u00ea duvida da feiti\u00e7aria, mas acredita na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo?\u201d. Eu acho isso uma incongru\u00eancia. Gosto de acreditar um pouco nisso, um pouco naquilo, porque eu vejo coisas inacredit\u00e1veis. Eu n\u00e3o acredito em Deus, acredito que h\u00e1 coisas inacredit\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quando voc\u00ea v\u00ea as religi\u00f5es dominando meios de comunica\u00e7\u00e3o, elegendo senadores e deputados, isso te assusta?<\/strong><br \/>\n&gt;Isso me preocupa bastante. Muitas vezes a gente sente um pouquinho dessa intoler\u00e2ncia \u00e0 qual me referi. Uma intoler\u00e2ncia inclusive com as religi\u00f5es de origem africana, como a umbanda. H\u00e1 um elemento estranho e novo, que eu considero pernicioso. N\u00e3o que eu julgue que os protestantes sejam piores que os cat\u00f3licos. Inclusive estamos vendo agora essa quest\u00e3o da igreja cat\u00f3lica (n.r.: se referindo aos recentes esc\u00e2ndalos de pedofilia). Alguma coisa tem que ser revista. Eu acho saud\u00e1vel os pastores brasileiros se casarem, e n\u00e3o acho saud\u00e1vel o celibato dos padres. Em algumas quest\u00f5es eles est\u00e3o \u00e0 frente, mas o que existe \u00e9 muita picaretagem, vamos falar a verdade. E com uma penetra\u00e7\u00e3o muito forte junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o menos instru\u00edda, a igreja evang\u00e9lica se espalhou e ocupou o lugar da cat\u00f3lica em muitas \u00e1reas, e muitas vezes ocupou tamb\u00e9m o lugar da umbanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma entrevista antiga para a jornalista Mar\u00edlia Gabriela voc\u00ea disse que n\u00e3o queria se ver como \u00eddolo, sen\u00e3o teria at\u00e9 que tomar caf\u00e9 fazendo pose de \u00eddolo. Voc\u00ea consegue circular naturalmente e ser voc\u00ea todo o tempo?<\/strong><br \/>\nO tempo todo. N\u00e3o passa pela minha cabe\u00e7a corresponder \u00e0 imagem que fazem de mim. Posso ser muita coisa, mas besta eu n\u00e3o sou (risos). Eu moro no Rio, uma cidade cosmopolita onde n\u00e3o existe muito esse tipo de tietagem, ando por lugares p\u00fablicos sem o menor problema. N\u00e3o \u00e9 que seja chato, mas \u00e0s vezes, quando tenho algum impasse na escrita, numa letra de m\u00fasica ou num par\u00e1grafo qualquer de um romance, saio para caminhar. Normalmente eu procuro algumas ruas mais vazias, vou at\u00e9 a farm\u00e1cia, ningu\u00e9m me interrompe. \u00c9 chato ser interrompido no meio de um pensamento. Voc\u00ea n\u00e3o vai destratar a pessoa. Ent\u00e3o voc\u00ea tem que sair dos teus cuidados, do teu trabalho, para dar aten\u00e7\u00e3o para quem te pede uma foto, um aut\u00f3grafo. Em \u00e9poca de f\u00e9rias o ass\u00e9dio \u00e9 grande e perturba um pouquinho a caminhada, o exerc\u00edcio f\u00edsico, como perturba quando estou trabalhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um pouco por isso que de vez em quando voc\u00ea d\u00e1 uma escapada do Brasil e vem a Paris? Isso te permite respirar?<\/strong><br \/>\nMuito mais. Eu aqui n\u00e3o tenho preocupa\u00e7\u00e3o nenhuma, eu tomo uma dist\u00e2ncia do Brasil que me faz bem, fico menos envolvido com coisas pequenas que acabam tomando todo o meu tempo. Aqui eu leio o Le Monde todos os dias, e fico sabendo de quest\u00f5es como o C\u00e1ucaso, os enclaves da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que no Brasil passam muito batidos. O Brasil nesse sentido \u00e9 muito provinciano, eu acho que o notici\u00e1rio \u00e9 cada vez mais local. Meu pai, que era um cr\u00edtico liter\u00e1rio e jornalista, foi morar em Berlim no come\u00e7o dos anos trinta, e foi l\u00e1 que ele come\u00e7ou a escrever um livro que se tornou um cl\u00e1ssico, Ra\u00edzes do Brasil, quando ele teve uma vis\u00e3o de historiador, de fora do Brasil. A possibilidade de ter esse tr\u00e2nsito, de ir e voltar, eu acho boa. \u00c9 como voc\u00ea mudar de \u00f3culos, um para ver de longe e outro para ver de perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse seu vai e vem Brasil-Franca, o que voc\u00ea traria do Brasil para a Franca, e vice-versa?<\/strong><br \/>\nEu traria pra c\u00e1 um pouquinho da bagun\u00e7a, da desordem. Os nossos defeitos, que acabam sendo tamb\u00e9m nossas qualidades. O tratamento informal, que gera tanta sujeira, ao mesmo tempo \u00e9 uma coisa bonita de se ver. Voc\u00ea tem uma camaradagem com um sujeito que voc\u00ea n\u00e3o conhece. Aqui existe uma dist\u00e2ncia, uma impessoalidade que me incomoda. Para o Brasil, eu gostaria de levar tamb\u00e9m um pouco dessa impessoalidade. Da seriedade, principalmente para as pessoas que tratam da coisa p\u00fablica. N\u00e3o que n\u00e3o exista corrup\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a. Outra coisa que eu levaria pra l\u00e1 \u00e9 o sentimento de solidariedade, que existe entre os brasileiros que moram fora. Isso eu conheci no tempo que eu morava fora, e vejo muito aqui atrav\u00e9s das pessoas com as quais eu convivo. Eles se juntam. Como se dizia, \u201co brasileiro s\u00f3 se junta na pris\u00e3o\u201d. Os brasileiros tamb\u00e9m se juntam no ex\u00edlio, na di\u00e1spora.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5181 aligncenter\" title=\"chico2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/chico2.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na Europa a gente tem contato com muitos exilados econ\u00f4micos, que n\u00e3o podem voltar ao Brasil porque precisam enviar dinheiro para casa. Quando voc\u00ea estava na It\u00e1lia, durante os 18 meses de ex\u00edlio pol\u00edtico, teve que se virar como o imigrantes atuais?<\/strong><br \/>\nFoi mais ou menos como os de hoje, porque na verdade eu fui para l\u00e1 com o intuito de voltar para o Brasil. Eu tive que pedir permiss\u00e3o ao ex\u00e9rcito para sair e fui para Cannes, para o festival que existe at\u00e9 hoje, o Midem. Em seguida fui lan\u00e7ar o disco na It\u00e1lia. Isso foi em janeiro. Minha mulher estava gr\u00e1vida, minha filha ia nascer em mar\u00e7o, ent\u00e3o eu precisava voltar. Foi a\u00ed que a coisa no Brasil piorou, ou foi quando tive mais noticias do que estava acontecendo. Fim de dezembro de 1968 foi o auge, logo depois do AI-5 (n.r.: Ato Institucional 5, que instaurou a censura e acabou com os direitos pol\u00edticos da popula\u00e7\u00e3o). N\u00e3o t\u00ednhamos mais informa\u00e7\u00e3o, era s\u00f3 boato. Da\u00ed eu fui desaconselhando a voltar e tomei a decis\u00e3o de ficar na It\u00e1lia. No come\u00e7o tudo bem, estava contratado, morando num hotel. Mas a partir do momento que voc\u00ea vai para morar, tem que encontrar apartamento, tem que viver. Eu lembro que eu tinha direito autoral no Brasil, e meus pais me mandavam, se n\u00e3o me engano, 200 d\u00f3lares por m\u00eas, o que dava para pagar o aluguel. Nessa \u00e9poca eu tinha que fazer qualquer coisa, ficava dependendo de um empres\u00e1rio italiano. Lembrando hoje \u00e9 at\u00e9 engra\u00e7ado. No come\u00e7o eu era novidade. A Mina, aquela cantora muito famosa, tinha gravado A banda, e eu era apresentado como o autor da m\u00fasica. Eu ia \u00e0 televis\u00e3o, mas com o tempo voc\u00ea vai ficando figurinha velha e o trabalho vai escasseando. O Toquinho foi pra l\u00e1 com promessas de trabalho, que no final das contas n\u00e3o foram concretizadas. O melhor que a gente conseguiu fazer foi uma turn\u00ea, que salvou minha vida durante uns dois meses, com a Josephine Baker, l\u00e1 Baker, como diziam os italianos. Nessa turn\u00ea \u00e9ramos v\u00e1rios artistas que faziam a primeira parte, porque ela era uma senhora que n\u00e3o aguentava fazer o show inteiro. S\u00f3 que o p\u00fablico estava l\u00e1 para ver a Josephine Baker, e n\u00e3o para ver Toquinho e Chico tocando bossa nova. Fizemos 40 cidades na It\u00e1lia, toda noite tocando para um p\u00fablico de cabelo branco. N\u00f3s cantando \u201ca Rita levou meu sorriso\u201d e eles perguntando \u201cquem s\u00e3o esses caras?\u201d. A sensa\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o foi enorme. Nunca mais tive nada parecido. Tivemos tamb\u00e9m programas furados, como um convite para tocar num castelo nos arredores de Roma. Da\u00ed chegamos e tinha uma duqueza, ou sei l\u00e1 o que era, e uma meia d\u00fazia de amigos, todos gays, num sal\u00e3o. Come\u00e7amos a tocar e todos pediam \u201cLa banda, La banda\u201d. T\u00e1 bom. Virei para o Toquinho e comecei \u201cmam\u00e3e eu quero, mam\u00e3e eu quero, mam\u00e3e eu quero mamar\u201d, \u201ccidade maravilhosa&#8230;\u201d. Fizemos um resto de show assim, s\u00f3 carnaval, para a duqueza e sua meia d\u00fazia de convidados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No fim os convidados n\u00e3o pularam em cima de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Eles queriam que a gente ficasse, sei l\u00e1 pra qu\u00ea (risos). Mas sa\u00edmos pelos fundos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Essa mo\u00e7a t\u00e1 diferente - Chico Buarque e Toquinho\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/K7AxzReBOgE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 a hist\u00f3ria de &#8220;Essa mo\u00e7a t\u00e1 diferente&#8221;, a sua m\u00fasica mais conhecida na Fran\u00e7a?<\/strong><br \/>\nA coisa de trabalho estava s\u00f3 piorando e o que me salvou foi uma gravadora, a Polygram, pois minha antiga se desinteressou. A Polygram me contratou e me deu um adiantamento. E consegui ficar na It\u00e1lia um pouco melhor. Mas eu tinha que gravar o disco l\u00e1. Eu gravei tudo num gravador pequenininho. Um produtor pegou essas m\u00fasicas e levou para o Brasil, onde o C\u00e9sar Camargo Mariano escreveu os arranjos. Esses arranjos chegaram de volta na It\u00e1lia e eu botei minha voz em cima, sem que falasse com o C\u00e9sar Camargo. Falar por telefone era muito complicado e caro. Ent\u00e3o foi feito assim o disco. \u00c9 um disco complicado esse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fizemos uma entrevista com o Mano Brown, lider dos Racionais MC\u2019s, e ele disse \u201ceu n\u00e3o sou artista, pois artista faz arte. Minhas m\u00fasicas s\u00e3o armas, eu sou um terrorista\u201d. Na \u00e9poca do regime militar, voc\u00ea era mais artista ou terrorista?<\/strong><br \/>\nEu acho que terrorismo seria muito forte. Eu n\u00e3o diria. Mas, de alguma forma eu pretendia, por interm\u00e9dio da minha m\u00fasica, ter uma fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, pol\u00edtica, que incomodasse o regime. Eu me orgulhava disso. N\u00e3o se tratava de terrorismo, mas de uma luta desigual contra o poder autorit\u00e1rio do regime militar. Era desigual, mas \u00e0s vezes eu levava vantagem. Havia tamb\u00e9m as nuances, os dribles. E pensando hoje, voc\u00ea diz assim: \u201caqueles tempos negros, anos de chumbo\u201d. Mas a gente se divertia tamb\u00e9m, e \u00e0s vezes conseguia fazer um gol na censura. Uma dessas vezes foi a inven\u00e7\u00e3o do pseud\u00f4nimo, o Julinho da Adelaide. Na \u00e9poca existia uma coisa chamada censura pr\u00e9via. M\u00fasica, teatro, telenovela, sinopse de cinema, tudo era submetido \u00e0 censura. A\u00ed meu nome e os de outros artistas ficaram marcados, qualquer letra que eu mandasse para a censura corria o risco de ser vetada. Muitas m\u00fasicas inocentes foram vetadas. At\u00e9 que chegou ao ponto de eu gravar um disco com m\u00fasica s\u00f3 de outros autores, um sinal de protesto contra essa situa\u00e7\u00e3o, o &#8220;Sinal fechado&#8221;. Eu inclu\u00ed uma m\u00fasica que foi mandada para a censura com o pseud\u00f4nimo, que virou no fim um heter\u00f4nimo, que dava entrevistas, era um personagem. E a m\u00fasica, se tivesse sido mandada com o meu nome, n\u00e3o passaria. Mas ela passou. Uns dois anos depois foi revelada num jornal a verdadeira identidade do Julinho da Adelaide. Mas \u00e9 um gol de placa, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fez duas ou tr\u00eas m\u00fasicas como Julinho&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. Tamb\u00e9m n\u00e3o podia abusar. Eles j\u00e1 estavam desconfiados. Eu que gravava as m\u00fasicas e ningu\u00e9m via esse sujeito. Ele dava entrevistas para os amigos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jorge Maravilha \/ Fala sobre Julinho de Adelaide - Chico Buarque\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jY8lvjmexwo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea disse que naquela \u00e9poca, pra passar pela censura, tinha que usar tanta met\u00e1fora que depois n\u00e3o sabia mais o que queria dizer. Hoje existem milh\u00f5es de especialistas em Chico Buarque, capazes at\u00e9 de explicar o que voc\u00ea mesmo n\u00e3o entende.<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 muito rico. Muitas vezes compreendem al\u00e9m do que eu quis dizer. Cada texto que voc\u00ea escreve se presta a m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes isso me diverte, me distrai, mas \u00e0s vezes eu n\u00e3o concordo. Agora realmente h\u00e1 can\u00e7\u00f5es feitas l\u00e1 atr\u00e1s cujos significados s\u00e3o enormes. N\u00e3o lembro o que queria dizer com aquilo. Eu ou\u00e7o, eu leio e eu n\u00e3o entendo. Eu penso assim, \u201ceu devia estar com a cabe\u00e7a muito ruim para escrever isso\u201d. Ent\u00e3o, havia naquela \u00e9poca um sentido qualquer, que se perdeu. Esses sentidos todos s\u00e3o ef\u00eameros, a m\u00fasica vai ficando. A coisa escrita permanece. H\u00e1 que ter muito cuidado com isso. Eu n\u00e3o me arrependo de ter escrito o que escrevi, mas muitas coisas ficaram datadas, porque eram presas a epis\u00f3dios pontuais, com um contexto especial. Ent\u00e3o, eu sentia necessidade de responder \u00e0quilo, como quem faz hoje uma m\u00fasica sobre uma not\u00edcia que sai no jornal, que amanh\u00e3 j\u00e1 est\u00e1 ultrapassada. Ent\u00e3o foi um per\u00edodo da minha vida em que a atua\u00e7\u00e3o, a atividade pol\u00edtica do cidad\u00e3o, se sobrep\u00f4s \u00e0 arte, n\u00e9? Isso eu acho, \u00e0s vezes, que valeu a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E aquela hist\u00f3ria de que cada vinte m\u00fasicas suas apenas duas passavam? Onde est\u00e3o essas outras?<\/strong><br \/>\nA\u00ed h\u00e1 um certo exagero, porque muitas m\u00fasicas minhas foram proibidas, mas muitas eu reaproveitava. Ou mudava um pouco a letra e mandava com outro nome. Depois havia tamb\u00e9m casos de m\u00fasicas que eram censuradas parcialmente, ent\u00e3o tinha um advogado da gravadora que ia a Bras\u00edlia tentar se entender com a censura. N\u00e3o era s\u00f3 uma pinimba de um artista com a pol\u00edcia, era a ind\u00fastria do disco que estava sendo prejudicada. Por exemplo, a censura pr\u00e9via autorizou &#8220;Apesar de voc\u00ea&#8221;. Quando saiu, o disco come\u00e7ou a vender muito, a passar na r\u00e1dio, e a pol\u00edcia se tocou e apreendeu. Foi ilegal, dentro j\u00e1 da ilegalidade que era uma censura pr\u00e9via, mas institucionalizada. Eles apreenderam o disco. Ent\u00e3o voc\u00ea imagina a gravadora, que era holandesa, recebendo um border\u00f4 l\u00e1 na Holanda e verificando as contas. \u201cO disco tal saiu em janeiro e vendeu 100 mil c\u00f3pias. Em fevereiro, n\u00e3o vendeu nenhuma\u201d. Como \u00e9 que pode? Alguma coisa tava errada. Como explicar isso para um holand\u00eas? Havia interesses nisso a\u00ed, que n\u00e3o eram somente os meus pessoais. A ind\u00fastria queria lan\u00e7ar um disco meu, ent\u00e3o o advogado ia at\u00e9 l\u00e1 e discutia, discutia. Ele \u00e0s vezes me ligava e dizia \u201cChico, se voc\u00ea mudar tal palavra, a m\u00fasica passa\u201d. Ent\u00e3o eu falava pra ligar em meia hora. O &#8220;Samba de Orly&#8221; tem dois versos, eu acho (cantarola) \u201cpede perd\u00e3o, pela dura\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Buarque e Toquinho: Samba de Orly (DVD Meu Caro Amigo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zISxWLca2S8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o era \u201cpela omiss\u00e3o um tanto for\u00e7ada\u201d?<\/strong><br \/>\nIsso, \u201cpela omiss\u00e3o um tanto for\u00e7ada\u201d. Essa parte era do Vin\u00edcius (de Moraes). A\u00ed eu fiz o remendo, \u201cpede perd\u00e3o pela dura\u00e7\u00e3o dessa temporada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Era a \u00fanica frase que o Vin\u00edcius tinha feito na musica, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n(Risos) N\u00e3o, tinha mais. A maior parte da letra \u00e9 minha, mas ele fez mais que uma frase. Existia uma troca de gentilezas entre eu e Vin\u00edcius.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5182 aligncenter\" title=\"chico3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/chico3.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa \u00e9poca inspirou a produ\u00e7\u00e3o musical brasileira? De l\u00e1 pra c\u00e1 houve um empobrecimento dessa produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, acho que nos \u00e9 que faz\u00edamos muitas m\u00fasicas naquele tempo. Hoje eu n\u00e3o componho a quantidade de m\u00fasica que compunha quando eu tinha vinte anos. Aquele tes\u00e3o de chegar em casa e tocar o viol\u00e3o, isso vai mudando com o tempo. Agora, isso n\u00e3o se deve \u00e0 censura, pelo contr\u00e1rio. Eu nunca tinha feito essa conta, at\u00e9 que um dia fizeram meu songbook e voc\u00ea v\u00ea que quando vai chegando os anos mais bravos da censura, 72, 73 e 74, a produ\u00e7\u00e3o cai numericamente. A censura foi extinta oficialmente pelo Fernando Lira, o ministro do Sarney, em 85, eu acho. Mas a partir do Geisel ela j\u00e1 foi perdendo for\u00e7a. Eu n\u00e3o excluo que nessas conversas entre a pol\u00edcia federal e as gravadoras alguns favores n\u00e3o eram trocados. N\u00e3o posso afirmar, mas era esquisito. Havia uma familiaridade, uma amizade muito maior que no tempo da censura brava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse per\u00edodo diversos artistas tinham uma posi\u00e7\u00e3o mais engajada. O artista tem que ter um papel de den\u00fancia social?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o acho que o artista tenha que ter papel nenhum. Ele cumpre o que ele acha que lhe cabe. N\u00e3o deve ser algo compuls\u00f3rio ou um porta-voz de alguma coisa. Acredito que na ditadura o artista tinha um papel mais relevante, mas por qu\u00ea? Exatamente porque a imprensa era censurada, porque os partidos pol\u00edticos eram cerceados. Hoje em dia n\u00e3o existe mais isso. As pessoas vivem me perguntando: por que voc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 uma entrevista falando mal do governo Lula? N\u00e3o falo porque me parece algo at\u00e9 redundante. Eu falava mal do governo na \u00e9poca que a Globo n\u00e3o falava mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para n\u00f3s, que trabalhamos com comunica\u00e7\u00e3o, sempre houve uma cr\u00edtica pesada contra os ve\u00edculos de massa no Brasil. Voc\u00ea acha que existe um plano cruel para imbecilizar o brasileiro?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o acredito em nenhuma teoria conspirat\u00f3ria e nem sou paranoico. Agora, a\u00ed \u00e9 a quest\u00e3o do ovo e da galinha. Voc\u00ea n\u00e3o sabe exatamente. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o v\u00e3o dizer que a culpa \u00e9 da popula\u00e7\u00e3o, que quer ver esses programas. Bom, a TV Globo est\u00e1 instalada no Brasil desde os anos 60. O fato de a Globo ser t\u00e3o poderosa, isso sim eu acho nocivo. N\u00e3o se trata de monop\u00f3lio, n\u00e3o estou querendo que fechem a Globo. E a Globo levanta essa possibilidade comparando o governo Lula ao governo Chavez. Esse exagero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A m\u00eddia ataca o Lula injustamente?<\/strong><br \/>\nNem sempre \u00e9 injusto, n\u00e3o h\u00e1 uma ca\u00e7a \u00e0s bruxas. Mas h\u00e1 uma m\u00e1 vontade com o governo Lula que n\u00e3o existia no governo anterior. Na verdade, eu nunca vi um governo t\u00e3o bombardeado pela m\u00eddia quanto o do Lula. Para o desespero desses meios de comunica\u00e7\u00e3o, esses ataques n\u00e3o correspondem a uma queda de popularidade do presidente. Pelo contr\u00e1rio, ela sobe. Ent\u00e3o eu acho que h\u00e1 um contrapeso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois de finalmente chegar ao poder, o Lula comp\u00f4s com a fina flor da corrup\u00e7\u00e3o brasileira, como Jos\u00e9 Sarney e Jader Barbalho. Isso enfraqueceu um pouco a esperan\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. Para o Lula chegar onde chegou ele precisou fazer essas alian\u00e7as. Ele n\u00e3o pode governar sem o PMDB, n\u00e3o tem como. Eu achava que, l\u00e1 atr\u00e1s, haveria possibilidade de fechar o PT com o PSDB. Eu me lembro da primeira elei\u00e7\u00e3o do Fernando Henrique, quando ele ganhou do Lula. Eu dizia que o Brasil estava muito bem servido tendo os dois como candidatos. Eu votei no Lula, mas acreditava que era j\u00e1 um grande avan\u00e7o, como foi, a elei\u00e7\u00e3o do Fernando Henrique. Mas para se eleger ele teve que se associar ao PFL, n\u00e9? E escolheu o PT como o grande advers\u00e1rio. A origem dessa desaven\u00e7a est\u00e1 em S\u00e3o Paulo, onde o PT e o PSDB ficam brigando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea acha da entrevista recente do Caetano Veloso, onde ele falou mal do Lula e depois acabou sendo desautorizado pela pr\u00f3pria m\u00e3e?<\/strong><br \/>\nNossas m\u00e3es s\u00e3o muito mais lulistas que n\u00f3s mesmos. Mas n\u00e3o sou do PT, nunca fui ligado ao PT. Ligado de certa forma, sim, pois conhe\u00e7o o Lula mesmo antes de existir o PT, na \u00e9poca do movimento metal\u00fargico, das primeiras greves. Naquela \u00e9poca n\u00f3s t\u00ednhamos uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito mais firme e necess\u00e1ria do que hoje. Eu confesso, vou votar na Dilma porque \u00e9 a candidata do Lula e eu gosto do Lula. Mas, a Dilma ou o Serra, n\u00e3o haveria muita diferen\u00e7a. N\u00e3o vai fugir muito do que est\u00e1 sendo tra\u00e7ado a\u00ed. Nem h\u00e1 muito espa\u00e7o. Os dois v\u00e3o ter fazer acordos que n\u00e3o prestam. E v\u00e3o fazer um governo, que, dentro do poss\u00edvel, seja uma continua\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 sendo feito at\u00e9 agora. Assim como em certa medida o governo do Lula foi uma continua\u00e7\u00e3o do governo do Fernando Henrique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi mesmo uma continuidade?<\/strong><br \/>\nNa economia, foi. Ele manteve as linhas principais do Fernando Henrique, j\u00e1 no primeiro momento, quando p\u00f4s o Henrique Meirelles como presidente do Banco Central, onde o certo seria ter algu\u00e9m como o Alo\u00edsio Mercadante ou o Guido Mantega. Colocaram o Meirelles, que era ligado aos tucanos (n.r.: os pol\u00edticos do PSDB s\u00e3o conhecidos como tucanos, em refer\u00eancia ao animal mascote do partido), para manter a linha tra\u00e7ada pelo Fernando Henrique. Acho que o Lula tomou medidas bem inteligentes. Soube lidar melhor com as crises. Bom, estamos entrando muito em economia, que n\u00e3o \u00e9 a minha especialidade. Estou falando leigamente. Agora, fora isso, ele incrementou os programas sociais, que tamb\u00e9m de certa forma s\u00e3o continuidade dos programas do Fernando Henrique ou da dona Ruth Cardoso (n.r.: ex-primeira dama). O Bolsa Fam\u00edlia e outros programas sociais n\u00e3o foram um rompimento, mas um aprimoramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea gostou do Fernando Henrique como presidente?<\/strong><br \/>\nEu acho que o primeiro mandato dele foi bom. Mas ele estragou a pr\u00f3pria biografia com a hist\u00f3ria da reelei\u00e7\u00e3o, foi um erro a maneira como aquilo foi feito. Em primeiro lugar, mudando a regra do jogo. N\u00f3s, que jogamos futebol, sabemos bem que isso n\u00e3o se faz. E sabe-se que rolou dinheiro para a aprova\u00e7\u00e3o daquela emenda constitucional, ali foi uma mancha enorme. O Fernando Henrique est\u00e1 pagando o pre\u00e7o disso. Na reelei\u00e7\u00e3o fica dif\u00edcil de mexer. Quem \u00e9 que vai mudar para ferir os pr\u00f3prios interesses? Complica tudo, pois j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o de princ\u00edpio. Acabar com a reelei\u00e7\u00e3o significa o qu\u00ea? Em 2014, fulana nao se reelege mais, ent\u00e3o vai em benef\u00edcio de quem? Interessa a quem uma mudan\u00e7a dessa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea tem escutado?<\/strong><br \/>\nEu raramente paro para ouvir m\u00fasica. J\u00e1 estou impregnado de tanta m\u00fasica que eu acho que n\u00e3o entra mais nada. Na verdade, quando estou doente eu ou\u00e7o. Inclusive ouvi o disco do &#8220;Ter\u00e7a Feira Trio&#8221;, do Fernando do Cavaco, e gostei. Nunca tinha visto ou ouvido forma\u00e7\u00e3o assim. Tem ao mesmo tempo muita delicadeza e senso de humor. Mas eu n\u00e3o preciso de escutar m\u00fasica para a cria\u00e7\u00e3o da melodia ou da letra. Quando eu passo para a \u00faltima etapa do processo, que \u00e9 a grava\u00e7\u00e3o, a\u00ed sim eu vou entrar em contato com m\u00fasicos que t\u00eam outro tipo de informa\u00e7\u00e3o. Que podem inclusive dar uma sonoridade mais contempor\u00e2nea para aquela m\u00fasica. Eu posso assimilar ou rejeitar isso tudo. Eu n\u00e3o quero fazer um disco voz e viol\u00e3o, n\u00e3o sou purista. Eu aceito, mas isso n\u00e3o precisa fazer parte do meu processo criativo, nem acredito que alguma coisa que eu v\u00e1 ouvir agora, nessa altura da vida, acrescentar\u00e1 ao meu processo criativo. Eu tenho muita coisa a dizer em forma de m\u00fasica e de letras. O acabamento, sim, vai sofrer influ\u00eancias e acr\u00e9scimos. S\u00e3o bem-vindos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a produ\u00e7\u00e3o da m\u00fasica atual, como voc\u00ea v\u00ea? A crise da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, a for\u00e7a da internet, o formato digital.<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o entendo nada disso, mas pergunto \u00e0s pessoas. Outro dia o Carlinhos Brown me disse \u201cagora n\u00e3o \u00e9 mais disco. Disco s\u00f3 \u00e9 bom para fazer show\u201d. Tanto que as gravadoras agora est\u00e3o se interessando pelo agenciamento de espet\u00e1culos. A coisa se inverteu, pois antigamente voc\u00ea fazia show para vender disco, hoje em dia voc\u00ea faz disco para vender show. Eu n\u00e3o tenho vivido isso porque minha condi\u00e7\u00e3o estacionou. Durante muito tempo eu fiquei s\u00f3 escrevendo, e n\u00e3o gravo j\u00e1 faz uns cinco anos. Mas o meu pr\u00f3ximo disco eu j\u00e1 n\u00e3o sei como vai ser. Nem sei se vai ter disco. Estou come\u00e7ando a fazer m\u00fasica, mas n\u00e3o sei se v\u00e3o sair s\u00f3 na internet, ou em que formato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas vai ter turn\u00ea? Ali\u00e1s, voc\u00ea ainda tem prazer em subir no palco?<\/strong><br \/>\nQuanto \u00e0 turn\u00ea, n\u00e3o sei. Talvez tenha, se eu sentir muita vontade. Eu gosto do palco, mas turn\u00ea \u00e9 uma coisa muito cansativa. Viajar, ficar em hotel, pegar avi\u00e3o, esperar no aeroporto. T\u00e1 me cansando um pouco. Eu gosto do contato com os m\u00fasicos, de ensaiar. Agora o chato \u00e9 que voc\u00ea passa a vida em fun\u00e7\u00e3o. Faz uma turn\u00ea, o teu dia t\u00e1 comprometido, porque voc\u00ea n\u00e3o pode fazer tudo o que voc\u00ea quer. Voc\u00ea n\u00e3o pode jogar futebol porque vai ficar com a voz cansada, n\u00e3o pode comer latic\u00ednio porque pode dar muco, n\u00e3o pode tomar uma cerveja porque vai te prejudicar. Eu n\u00e3o gosto disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem est\u00fadio em casa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, eu sou p\u00e9ssimo. Pra voc\u00ea ter uma ideia, pro meu \u00faltimo disco, que n\u00e3o faz tanto tempo assim, eu gravava minhas m\u00fasicas para mandar para o arranjador em fita K7, porque na minha casa ainda tinha um gravador K7. Agora isso j\u00e1 n\u00e3o e poss\u00edvel, ent\u00e3o aprendi a gravar num neg\u00f3cio tipo esse aqui (aponta para um iPhone). Mas ainda n\u00e3o sei como passa disso para o computador, para mandar o mp3 por internet. N\u00e3o aprendi ainda porque n\u00e3o precisei, mas quando precisar eu me viro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda falando no Mano Brown, ele tem uma pergunta pra voc\u00ea: \u201cpor que o Caetano Veloso \u00e9 MPB e o Bochecha n\u00e3o?\u201d<\/strong><br \/>\nEu acho que o Bochecha \u00e9. Ali\u00e1s, essa hist\u00f3ria de MPB n\u00e3o fomos n\u00f3s que inventamos. Acho at\u00e9 antip\u00e1tico esse nome. Eu nunca falei com um colega meu \u201cescuta, vamos fazer uma MPB l\u00e1 em casa?\u201d. Os jornais inventaram isso, puseram essa marca. Mas eu n\u00e3o sei onde vai a MPB, onde t\u00e1 o samba, voc\u00eas t\u00eam que perguntar aos jornalistas que criaram. Isso n\u00e3o \u00e9 comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses que consomem mais m\u00fasica nacional do que estrangeira. Voc\u00ea acha que tem a ver com toda essa diversidade, que somos auto-suficientes em cria\u00e7\u00e3o, ou isso \u00e9 reflexo de uma fraca difus\u00e3o do que existe fora?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o sabia disso. Tem muita m\u00fasica estrangeira difundida no Brasil. Esse pessoal todo, como a Beyonc\u00e9, aparece no Brasil e lota est\u00e1dios de futebol. O brasileiro n\u00e3o \u00e9 xen\u00f3fobo. E a m\u00fasica brasileira n\u00e3o precisa de defesa, ela \u00e9 muito rica, muito variada. N\u00e3o tem essa de que o sertanejo est\u00e1 ocupando espa\u00e7o. Essa lam\u00faria \u00e9 muito chata. \u201cAh, tem que ensinar m\u00fasica nas escolas\u201d. Eu acho isso muito chato. Virar institucional, compuls\u00f3rio. Tem espa\u00e7o para todo mundo, assim como tem espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o muito amplo. H\u00e1 uma variedade na nossa m\u00fasica. S\u00e3o muitas culturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A m\u00fasica francesa te influenciou de alguma maneira?<\/strong><br \/>\nEu ouvi muito. Nos anos 50, quando comecei a ouvir muita m\u00fasica, as r\u00e1dios tocavam de tudo. Muita m\u00fasica brasileira, americana, francesa, italiana, boleros latino americanos. Minha m\u00e3e tinha loucura por Edith Piaf e n\u00e3o sei dizer se Piaf me influenciou. Mas ouvi muito, como ouvi Aznavour. O que me tocou muito foi Jacques Brel. Eu tinha uma tia que morou a vida inteira em Paris. Ela me mandou um disquinho azul, um compacto duplo com &#8220;Ne Me Quitte Pas&#8221;, &#8220;La Valse \u00e0 Mille Temps&#8221;, quatro can\u00e7\u00f5es. E eu ouvia aquilo adoidado. Foi pouco antes da bossa nova, que me conquistou para a m\u00fasica e me fez tocar viol\u00e3o. As letras dele ficaram marcadas para mim. Eu encontrei o Jacques Brel depois no Brasil. Estava gravando Carolina e ele apareceu no est\u00fadio, junto com meu editor. Eu fiquei meio besta, n\u00e3o acreditei que era ele. A\u00ed eu fui falar pra ele essa hist\u00f3ria, que eu o conhecia desde aquele disco. Ele disse \u201c\u00e9, faz muito tempo\u201d. Isso deve ter sido 55 ou 56, esse disquinho dele. Eu o encontrei em 67. Depois muito mais tarde eu assisti a &#8220;L\u2019homme de La Mancha&#8221;, e um dia ele estava no caf\u00e9 em frente ao teatro. Eu o vi sentado, olhei pra ele, ele olhou pra mim, mas fiquei sem saber se ele tinha olhado estranhamente ou se me reconheceu. Fiquei sem gra\u00e7a, pois n\u00e3o o queria chatear. Ele estava ali sozinho, n\u00e3o queria aborrecer. Mas ele foi uma figura\u00e7a. Eu gostava muito das can\u00e7\u00f5es dele. Conhecia todas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jacques Brel comp\u00f4s uma das melhores descri\u00e7\u00f5es de sofrimento por amor, em &#8220;Ne me quitte pas&#8221;: \u201cdeixe-me ser a sombra da sua sombra, a sombra da sua m\u00e3o, a sombra do seu c\u00e3o\u201d, mas acho que ningu\u00e9m nunca retratou dor de amor como voc\u00ea fez em &#8220;Peda\u00e7o de mim&#8221;. De onde voc\u00ea tirou isso?<\/strong><br \/>\nEra uma coisa muito violenta. Tem partes dessa m\u00fasica que eu n\u00e3o sei porque eu escrevi. Era o tempo de barra pesada, tempo de ditadura. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o de amor, mas \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de dor quase f\u00edsica, n\u00e9? \u00c9 letra de ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa m\u00fasica eu pulo quando n\u00e3o estou bem.<\/strong><br \/>\nEu tamb\u00e9m (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando de encontros geniais, voc\u00ea tem uma foto com o Bob Marley. Como foi essa hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nFoi futebol. Ele foi ao Brasil quando uma gravadora chamada Ariola se estabeleceu l\u00e1 e contratou uma por\u00e7\u00e3o de artistas brasileiros, inclusive eu, e deram uma festa de funda\u00e7\u00e3o. O Bob Marley foi l\u00e1. N\u00e3o me lembro se houve show, n\u00e3o me lembro de nada. S\u00f3 lembro desse futebol. Eu j\u00e1 tinha um campinho e disseram \u201cvamos fazer algo l\u00e1 para a gravadora\u201d. Bater uma bola, fazer um churrasco, o Bob Marley queria jogar. E jogamos, armamos um time de brasileiros e ele com os m\u00fasicos. Corriam \u00e0 be\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas fumaram um baseado juntos?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Dessa vez eu n\u00e3o fumei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando nisso, voc\u00ea acha exagerada a repress\u00e3o ao consumo de drogas no Brasil?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito exagerada. Eu sou a favor da descriminaliza\u00e7\u00e3o de todas, cantei isso no meu ultimo disco, \u201cmaconha s\u00e9 se comprava na tabacaria e drogas na drogaria\u201d. Claro que mediante uma ordem m\u00e9dica, como era antigamente. Antigamente coca\u00edna se comprava na farm\u00e1cia, durante os anos 20 e 30. Eu, garoto estudante, comprava bolinha &#8211; cham\u00e1vamos bolinha \u2013 sem receita, sem nada. Eu comprava Dexamil, que era violent\u00edssimo, anfetamina pura, deixava o estudante acordado. Hoje em dia tem um controle, que \u00e9 \u00f3timo, para esse tipo de droga. Mesmo calmantes e ansiol\u00edticos. Acho que uma receita m\u00e9dica \u00e9 necess\u00e1ria para esse tipo de rem\u00e9dio, inclusive a coca\u00edna. J\u00e1 a maconha, eu n\u00e3o vejo nenhum sentido para a forma como e praticada a sua repress\u00e3o. Eu n\u00e3o vejo um preju\u00edzo ao organismo causado pela maconha maior que o tabaco ou \u00e1lcool causam. N\u00e3o entendo a quem interessa isso, se n\u00e3o aos pr\u00f3prios traficantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Houve algum outro encontro que marcou sua vida?<\/strong><br \/>\nQuando apareceu a bossa nova, eu larguei tudo. At\u00e9 ent\u00e3o eu ouvia tudo, imitava Elvis Presley, cantava Only you do The Platters, dan\u00e7ava twist, mas quando apareceu a bossa nova eu reneguei inclusive os sambas antigos. Por acaso eu conhecia o Vin\u00edcius da casa do meu pai, ele era amigo do meu pai. Mas n\u00e3o conhecia o Tom (Jobim) e nem o Jo\u00e3o Gilberto. Eu demorei a conhec\u00ea-los porque eu morava em S\u00e3o Paulo. Os meus colegas no Rio se encontravam normalmente na casa do Vin\u00edcius, e eu n\u00e3o. Eu os via \u00e0s vezes num teatro, e eu ficava besta tentando fazer os acordes. Eu aprendia os acordes ouvindo o disco e aprendendo errado, fazendo a posi\u00e7\u00e3o dos dedos para tentar tirar um som parecido. Enquanto que o Edu Lobo, que \u00e9 s\u00f3 um ano mais velho que eu, j\u00e1 conhecia essa gente, e j\u00e1 podia roubar acorde de olho. Ent\u00e3o eu fui conhecer o Jo\u00e3o Gilberto muitos anos depois, ele se casou com a minha irm\u00e3. E o Tom Jobim eu conheci depois e fiquei muito amigo dele. P\u00f4, conhecer o Tom Jobim pra mim era tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essa sua migra\u00e7\u00e3o para escritor, isso \u00e9 encarado como um momento da sua vida, j\u00e1 era um objetivo?<\/strong><br \/>\nIsso n\u00e3o \u00e9 atual. De vinte anos pra c\u00e1 eu escrevi quatro romances e n\u00e3o deixei de fazer m\u00fasica. Tenho conseguido alternar os dois fazeres, sem que um interfira no outro. Eu comecei a tentar escrever o meu primeiro livro porque vinha de um ano de seca. Eu n\u00e3o fazia musica, tive a impress\u00e3o que n\u00e3o iria mais fazer, ent\u00e3o vamos tentar outra coisa. E foi bom, de alguma forma me alimentou. Eu terminei o livro e fiquei com vontade de voltar \u00e0 musica. Fiquei com tes\u00e3o, e o disco seguinte era todo uma declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 m\u00fasica. Come\u00e7ava com &#8220;Paratodos&#8221;, que \u00e9 uma homenagem \u00e0 minha genealogia musical. E tinha aquele samba (cantarola) \u201cpensou, que eu n\u00e3o vinha mais, pensou\u201d. Eu voltei pra m\u00fasica, era uma alegria. Agora que terminei de escrever um livro j\u00e1 faz um ano, minha vontade \u00e9 de escrever m\u00fasica. Demora, \u00e9 complicado. Porque voc\u00ea n\u00e3o sai de um e vai direto para outro. Voc\u00ea meio que esquece, tem um tempo de aprendizado e um tempo de desaprendizado, para a m\u00fasica n\u00e3o ficar contaminada pela literatura. Ent\u00e3o eu reaprendo a tocar viol\u00e3o, praticamente. Eu fiquei um temp\u00e3o sem tocar, mas isso \u00e9 bom. Quando vem, vem fresco. \u00c9 uma continua\u00e7\u00e3o do que estava fazendo antes. Isso \u00e9 bom para as duas coisas. Para a literatura e para a m\u00fasica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Paratodos (clipe oficial) - Chico Buarque\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eEXwfAzRR1I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto em &#8220;Estorvo&#8221; quanto em &#8220;Leite derramado&#8221; o leitor tem uma certa dificuldade em separar o real do imagin\u00e1rio. Voc\u00ea, como seus personagens, derrapa entre essas duas realidades?<\/strong><br \/>\nEu? O tempo todo, agora mesmo eu n\u00e3o sei se voc\u00ea esta a\u00ed ou se eu estou te imaginando (gargalhadas). Completamente. Eu fico vivendo aquele personagem o tempo todo. Entrando no pensamento dele. Adquiro coisas dele. Voc\u00ea pode discordar, mas chega uma hora que tem que criar uma empatia ou uma simpatia. Voc\u00ea cria uma identifica\u00e7\u00e3o. E alguma coisa no gene \u00e9 roubado mesmo de mim, algumas situa\u00e7\u00f5es, um certo desconforto, n\u00e3o saber bem se voc\u00ea \u00e9 real, se voc\u00ea est\u00e1 vivendo ou sonhando aquilo. Por exemplo, agora que ganhamos de 10 a 1 (refer\u00eancia \u00e0 pelada que jogamos tr\u00eas dias antes), eu sa\u00ed da quadra e falei: \u201cacho que eu sonhei. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que tenha acontecido\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 fan\u00e1tico por futebol?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sou fan\u00e1tico por nada. Mas eu tenho muito prazer em jogar futebol. Em assistir ao bom futebol, independentemente de ser o meu time. Quando \u00e9 o meu time jogando bem, \u00e9 melhor ainda, pois eu consigo torcer. Agora mesmo, no Brasil, tinha os jogos do Santos. Mas eu vou menos aos est\u00e1dios. Eu n\u00e3o me incomodo de andar na rua, mas quando voc\u00ea vai a alguns lugares, tem que estar com o cabelo penteado, tem que estar preparado para dar entrevistas. Aqui eu estou dando a minha \u00faltima (risos). Aqui \u00e9 exclusiva. Fiz pra Brazuca e mais ningu\u00e9m. Eu quero ver o pessoal jogar bola. Ent\u00e3o eu vejo na televis\u00e3o. E quando n\u00e3o estou escrevendo, a\u00ed eu vejo bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 verdade que um dia o Pel\u00e9 ligou na sua casa, lamentando os esc\u00e2ndalos pol\u00edticos no Brasil, e disse \u201c\u00e9, Chico, como diz aquela m\u00fasica sua: \u2018se gritar pega ladr\u00e3o, n\u00e3o fica um meu irm\u00e3o\u2019\u201d?<\/strong><br \/>\n\u00c9 verdade (risos). Eu falei \u201clegal, Pel\u00e9, mas essa m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 minha\u201d. O Pel\u00e9 \u00e9 uma grande figura. N\u00f3s gravamos um programa juntos. Brincamos muito. Conheci o Pel\u00e9 quando eu fazia televis\u00e3o em S\u00e3o Paulo, na TV Record, e me mudei para o Rio. Os artistas eram hospedados no Hotel Dan\u00fabio, em S\u00e3o Paulo. O mesmo onde o Santos se concentrava. Ent\u00e3o eu conheci o Pel\u00e9 no hotel. E sempre que a gente se encontra \u00e9 igual, porque eu s\u00f3 quero falar de futebol e ele s\u00f3 quer saber de m\u00fasica. Ele adora fazer m\u00fasica, adora cantar, adora compor. Por ele, o Pel\u00e9 seria compositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5183 aligncenter\" title=\"chico4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/chico4.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea, trocaria o seu passado de compositor por um de jogador?<\/strong><br \/>\nTrocaria, mas por um bom jogador, que pudesse participar da copa do mundo. Um pacote completo. Um jogador mais ou menos, a\u00ed n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem mais paix\u00e3o pelo Fluminense ou pela sele\u00e7\u00e3o brasileira?<\/strong><br \/>\nAssistir \u00e9 diferente de jogar. Ultimamente a sele\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o tem me dado grandes alegrias. \u00c9 estranho, porque n\u00e3o vejo muita gente ver treinos da sele\u00e7\u00e3o. Mesmo as classificat\u00f3rias, n\u00e3o havia muita vibra\u00e7\u00e3o com esse time do Dunga. E por outro lado t\u00e1 ganhando tudo, se classificou bem. E quando o meu time est\u00e1 muito ruim, eu tamb\u00e9m n\u00e3o vou assistir. N\u00e3o sou esse fan\u00e1tico que acompanha at\u00e9 terceira divis\u00e3o. Eu gosto de bom futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o seus \u00eddolos no futebol?<\/strong><br \/>\nPel\u00e9, Pag\u00e3o, Garrincha&#8230; Eu falo desses a\u00ed porque s\u00e3o do tempo que eu era mais louco por futebol e queria ser jogador. Eu tinha 12, 13 anos de idade, morava perto do Pacaembu, ent\u00e3o via todos os jogos. Quando eu n\u00e3o tinha dinheiro, eu aprendi que assim que come\u00e7ava o segundo tempo eles abriam os port\u00f5es, ent\u00e3o eu ia de gra\u00e7a. E coincidiu que nessa \u00e9poca, em 55, come\u00e7ou a surgir o grande time do Santos. Eu n\u00e3o sou santista, minha m\u00e3e me fez ser Fluminense. Mas o Santos jogava muito no Pacaembu, e eu vi esse time nascer, antes mesmo do Pel\u00e9. Quando o Pel\u00e9 chegou ele foi a cereja no bolo. J\u00e1 tinha o velho Jair, j\u00e1 tinha o Pag\u00e3o, o Pepe, os irm\u00e3os Ramiro e \u00c1lvaro. Era um tima\u00e7o. Logo depois veio o Edu, o Coutinho, tinha o Del Vecchio, o Vasconcelos, o Titi, depois o Pepe. Eu me apaixonei pelo time do Santos, tanto que eu fui ver no Pacaembu Santos e Fluminense. O Santos ganhou e eu estava vibrando. Que beleza de time! Nesse tempo eu quis ser profissional. At\u00e9 fui a uma peneira do Juventus. Eu tinha esse sonho, tinha paix\u00e3o por futebol, essa paix\u00e3o que a gente tem at\u00e9 os 16 anos. Depois n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte. Nesse tempo eu ainda ia muito ao Pacaembu. E quando ia passar f\u00e9rias no Rio, eu via o Fluminense e o Botafogo, para ver o Garrincha, principalmente. Mas o time do Santos foi o que me encantou mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Santos de 55 era melhor mesmo que o Botafogo de Garrincha, Zagalo, Nilton Santos?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei dizer se era melhor. Foi o que eu vi mais, o que me encantou mais. O Botafogo era um grande time, mas eu n\u00e3o me lembro exatamente. Tinha o Quarentinha, que fazia muito gol, mas eu me lembro do Garrincha. Nilton Santos, sim, mas eu s\u00f3 prestava aten\u00e7\u00e3o nos jogadores de ataque, eu queria ser atacante. Eu gostava do Nilton Santos quando ele avan\u00e7ava, o que era uma novidade, pois n\u00e3o existia ala. E o Garrincha era uma coisa \u00e0 parte. Eu ia para rir. Eu ria. Realmente, n\u00e3o \u00e9 fantasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea consegue manter a regularidade de 3 vezes por semana?<\/strong><br \/>\nQuando estou no Rio, tr\u00eas vezes por semana. Esse campo onde jogo foi aberto em 79. Tem 31 anos que a gente se re\u00fane l\u00e1. Muita gente j\u00e1 n\u00e3o joga mais. Muitos filhos de jogadores est\u00e3o l\u00e1 com a gente. E agora o (Jos\u00e9 Lu\u00eds) Runco, meu m\u00e9dico, meu e da sele\u00e7\u00e3o brasileira, me obrigou a comprar uma cadeira para fazer exerc\u00edcios. Eu tive dois problemas com o joelho, meio seguidos. E ele falou que seu eu quiser jogar o resto da vida, tenho que praticar esse refor\u00e7o muscular, fortalecer a coxa atr\u00e1s e na frente, para n\u00e3o sobrecarregar o joelho. Ent\u00e3o, podendo, vou at\u00e9 95 (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Toquinho disse numa entrevista que joga muito melhor que voc\u00ea. Quem \u00e9 melhor, afinal?<\/strong><br \/>\nEsse \u00e9 o tipo de pergunta que minha mod\u00e9stia n\u00e3o me permite responder. H\u00e1 testemunhas que o time dele \u00e9 fregu\u00eas nosso. Ele j\u00e1 n\u00e3o joga h\u00e1 algum tempo, j\u00e1 n\u00e3o jogava grande coisa (risos). Agora, a \u00faltima vez que eu ia encontrar com ele para jogar, ele n\u00e3o apareceu. Eu acho que ele j\u00e1 pendurou a chuteira. Mas ele tem o filho jogando. Essa alegria ele tem, eu n\u00e3o. Tem um filho que joga, que est\u00e1 treinando no Corinthians. O Rivelino me disse que ele puxou a m\u00e3e, joga muito bem (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ainda pretende pendurar as chuteiras aos 78 anos, como afirmou?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. J\u00e1 prorroguei. Tava muito cedo. Agora eu deixei em aberto. Podendo, vou at\u00e9 95 (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Niemeyer est\u00e1 com 102 anos e continua trabalhando. Ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00f3 trabalhando como ainda continua com uma grande fama de tarado (risos).<\/strong><br \/>\nEle me falou isso. Eu fui \u00e0 festa dele de 90 anos e ele me disse: \u201co importante \u00e9 trabalhar e \u00f3 (fez sinal com a m\u00e3o, referente a transar)\u201d. A\u00ed eu falei \u201c\u00e9 mesmo?\u201d e ele respondeu \u201c\u00e9 mesmo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando nisso, o Vin\u00edcius foi casado 9 vezes. Voc\u00ea acha a paix\u00e3o essencial para a cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. Quando a gente come\u00e7a \u2013 isso \u00e9 um caso pessoal, n\u00e3o d\u00e1 pra generalizar \u2013 faz m\u00fasica um pouco para arranjar mulher. E hoje em dia voc\u00ea inventa amor para fazer m\u00fasica. Se n\u00e3o tiver uma paix\u00e3o, voc\u00ea inventa uma, para a partir da\u00ed ficar euf\u00f3rico, ou sofrer. A\u00ed o Vinicius disse muito bem, n\u00e9? \u201c\u00c9 melhor ser alegre que ser triste&#8230; mas pra fazer um samba com beleza, \u00e9 preciso um bocado de tristeza, \u00e9 preciso um bocado de tristeza, sen\u00e3o n\u00e3o se faz um samba n\u00e3o\u201d. Quando eu falo que voc\u00ea inventa amores, voc\u00ea tamb\u00e9m sofre por eles. \u201cE a mo\u00e7a da farm\u00e1cia? Ela foi embora! Elle est partie en vacances monsieur!\u201d. E voc\u00ea n\u00e3o vai v\u00ea-la nunca mais. D\u00e1 uma solid\u00e3o. Eu estou fazendo uma caricatura, mas essas coisas acontecem. Voc\u00ea se encanta com uma pessoa que voc\u00ea viu na televis\u00e3o, da\u00ed voc\u00ea cria uma hist\u00f3ria e voc\u00ea sofre. E fica feliz e escreve m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra finalizar. Se voc\u00ea fosse escrever uma carta para o seu caro amigo hoje, o que voc\u00ea diria?<\/strong><br \/>\nVolta, que as coisas est\u00e3o melhorando!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cotidiano \/ Baioque \/ Voc\u00ea vai me seguir - Chico Buarque\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/n_va4YzPm98?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Buarque e Caetano Veloso - &quot;Voc\u00ea n\u00e3o entende nada&quot; - &quot;Cotidiano&quot; (1986)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lSOAXDkFgxM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Buarque (Carioca ao Vivo)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ii-qEF4qsog?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esta entrevista (a primeira de Chico Buarque desde o lan\u00e7amento do CD &#8220;As Cidades&#8221;) foi concedida com exclusividade \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/brazuca.paris\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Brazuca<\/a>, uma revista bilingue que existe h\u00e1 11 anos e \u00e9 voltada aos franceses e belgas que se interessam pelo Brasil. A Brazuca \u00e9 editada na Fran\u00e7a e distribu\u00edda em Paris e Bruxelas. 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