{"id":51744,"date":"2019-05-22T22:06:04","date_gmt":"2019-05-23T01:06:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=51744"},"modified":"2019-06-17T01:24:30","modified_gmt":"2019-06-17T04:24:30","slug":"entrevista-roger-deff-estreia-carreira-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/05\/22\/entrevista-roger-deff-estreia-carreira-solo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Roger Deff estreia carreira solo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roger Deff \u00e9 um dos mais atuantes artistas mineiros quando o assunto \u00e9 o movimento hip hop local. Sua trajet\u00f3ria na m\u00fasica foi iniciada nos anos 90, junto ao grupo Julgamento com o qual lan\u00e7ou os \u00e1lbuns \u201cNo Foco do CAOS\u201d (2008), \u201cMuito Al\u00e9m\u201d (2011) e o mais recente \u201cBoa Noite\u201d (2018). Estes trabalhos ganharam reconhecimento de p\u00fablico e cr\u00edtica ajudando a solidificar uma cena que vem em constante crescimento. \u201cBH tem uma longa hist\u00f3ria no rap, mas essa gera\u00e7\u00e3o mais recente contribui de forma marcante para que aqui ganhe reconhecimento enquanto um dos polos do rap no Brasil\u201d, opina o MC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em paralelo as a\u00e7\u00f5es da banda, Roger foi aos poucos pavimentando seu pr\u00f3prio espa\u00e7o ao dividir palcos e est\u00fadios com artistas como o saudoso Marku Ribas, BNeg\u00e3o, Marcelo Veronez, Rodrigo Borges, Tamara Franklin e Cromossomo Africano. Idealizado desde 2015, agora em 2019 Deff lan\u00e7ou finalmente \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/7cnrgEbpY1UVyBE4M9wKhC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Etnografia Suburbana<\/a>\u201d, seu primeiro \u00e1lbum solo. Produzido por Edgar Filho e por Ricardo Cunha, neste trabalho o m\u00fasico explora novas texturas sonoras e aposta em caminhos que antes n\u00e3o haviam sido testadas no Julgamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo o rapper fala sobre o processo de composi\u00e7\u00e3o do disco, o engajamento musical em tempos dif\u00edceis (\u201cN\u00e3o acredito que toda arte precise ser engajada, mas fa\u00e7o muita quest\u00e3o que a minha seja\u201d), a deturpa\u00e7\u00e3o dos ideais dos movimentos punk\/hip hop com recrudescimento de ideias conservadoras, suas influ\u00eancias, o legado deixado pelos Racionais na sociedade (\u201cEles deram ao jovem negro uma no\u00e7\u00e3o de pertencimento, de identidade\u201d), a experi\u00eancia de ter o seu trabalho financiado pelo p\u00fablico, planos futuros e muito mais. Confira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Etnografia Suburbana\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_keRZ5-P1GMUKmcDcIQ-8p2PCF8f6aqyBE\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s mais de uma d\u00e9cada de bons servi\u00e7os prestados junto ao grupo Julgamento voc\u00ea decidiu se aventurar de maneira solo. H\u00e1 quanto tempo este disco est\u00e1 sendo idealizado?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, comecei com a ideia do projeto solo em 2015, quando o Julgamento entrou num hiato com a sa\u00edda do baterista, o Gusm\u00e3o. Havia ideias mais pessoais que eu queria apresentar, trazer \u00e0 tona, al\u00e9m de passear por outros g\u00eaneros. O Julgamento \u00e9 uma banda de rap com uma assinatura muito definida, num contexto em que existe tamb\u00e9m o que os integrantes t\u00eam de refer\u00eancia, ent\u00e3o dificilmente a gente passaria por alguns dos caminhos sonoros do \u201cEtnografia Suburbana\u201d, e \u00e9 bom porque fiz algo que n\u00e3o soa como o Julgamento. As composi\u00e7\u00f5es do disco come\u00e7aram mesmo em 2016 e entrei no est\u00fadio em janeiro de 2019, ainda terminando de escrever algumas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como rolou o processo de cria\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA cria\u00e7\u00e3o foi algo bem despretensioso, no sentido de que eu n\u00e3o sabia se aquelas m\u00fasicas virariam um \u00e1lbum, se seriam singles&#8230; Diferente das m\u00fasicas do Julgamento, as do meu disco solo nasceram dos refr\u00e3es, de eu cantarolando coisas na rua, gravar e mandar pros m\u00fasicos da banda, da\u00ed vinham os sons, caso de \u201cLadeira\u201d que nasceu enquanto eu literalmente subia uma ladeira do meu bairro, ap\u00f3s uma conversa com meu amigo Gustavo Caetano. Em comum as letras tem algo de autobiogr\u00e1fico, porque externei coisas da minha viv\u00eancia. A quest\u00e3o negra, da pot\u00eancia \u00e0s mazelas, est\u00e1 ali, porque a gente vive isso na pr\u00e1tica, na vida, ent\u00e3o o racismo \u00e9 um assunto abordado, porque \u00e9 real, assim como \u00e9 real o retrocesso que estamos vivendo neste momento pol\u00edtico. Gravamos o disco todo no est\u00fadio Giffoni, em Belo Horizonte. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 assinada pelo Edgar Filho (baterista) e pelo Ricardo Cunha (guitarrista) e j\u00e1 chegamos pra grava\u00e7\u00e3o com as coisas bem amarradinhas, embora algumas escolhas est\u00e9ticas tenham se dado l\u00e1, durante o processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Etnografia Suburbana&#8221; tem uma s\u00e9rie de participa\u00e7\u00f5es especiais. Como se deu a sele\u00e7\u00e3o de quem poderia contribuir no disco?<\/strong><br \/>\nNa medida em que conclu\u00ed as letras chamei outras pessoas para escrever junto, da\u00ed as participa\u00e7\u00f5es de Fl\u00e1vio Renegado, que \u00e9 um velho parceiro, Douglas Din, cara que admiro e com quem participei do projeto Bala da Palavra, Ricardo HD, que \u00e9 meu irm\u00e3o e integrante do Julgamento, logo parceiro musical de longa data, Michelle Oliveira, que faz todos os backings do disco e trouxe uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental em \u201cEu vi Zumbi Nem Florescer\u201d e Celton Oliveira, que \u00e9 MC de apoio e est\u00e1 comigo desde o in\u00edcio do projeto solo, da\u00ed chamei ele pra escrever e rimar na m\u00fasica t\u00edtulo. Al\u00e9m dos MCs tem tamb\u00e9m os m\u00fasicos Richard Neves (Pato Fu) e Luciano Cu\u00edca Play, ambos caras com quem eu j\u00e1 conversava h\u00e1 um tempo sobre um dia gravarmos algo juntos, e rolou desta vez. Todas as participa\u00e7\u00f5es s\u00e3o pessoas que participam da minha trajet\u00f3ria de uma forma ou de outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De modo geral as letras deste \u00e1lbum acabam por refletir o atual cen\u00e1rio pol\u00edtico \/ social. Em tempos dicot\u00f4micos e de retrocesso, qual a import\u00e2ncia de adotar uma vis\u00e3o engajada?<\/strong><br \/>\nDisse em uma entrevista recente que n\u00e3o acredito que toda arte precise ser engajada, mas fa\u00e7o muita quest\u00e3o que a minha seja. A m\u00fasica \u00e9 uma arte acess\u00edvel, chega de alguma forma, ent\u00e3o acho importante que ela reflita sobre este momento sombrio, que fale dele, mas que fale do horizonte a ser alcan\u00e7ado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frequento a cena punk\/harcore nacional e percebo que discursos racistas e de direita tem tomado conta do ide\u00e1rio do p\u00fablico, que parece desconhecer as origens do movimento. Aparentemente a cena hip hop tem enfrentado os mesmos problemas devido ao um crescimento de p\u00fablico reacion\u00e1rio e a exist\u00eancia de MC&#8217;s (como o Visitante) que defende em suas letras figuras como Bolsonaro e Olavo de Carvalho. A que se deve esta mudan\u00e7a e como voc\u00ea a v\u00ea?<\/strong><br \/>\nTem muita coisa nisso, h\u00e1 um perfil conservador que define uma boa parcela da nossa popula\u00e7\u00e3o e acho que essas pessoas que se aproximam destes movimentos culturais, mais especificamente o punk e o hip hop, n\u00e3o compreendem suas origens. O Hip Hop nasce de um vi\u00e9s progressista, dos guetos norte-americanos, e tudo come\u00e7ou com um imigrante jamaicano, convivendo ao lado de imigrantes porto-riquenhos, negros e brancos pobres estadunidenses, s\u00f3 pra come\u00e7ar. O Hip Hop, em termos de discurso pol\u00edtico, est\u00e1 ligado \u00e0 trajet\u00f3ria de pessoas como Angela Davis, Luther king, Malcolm X e organiza\u00e7\u00f5es como o Partido dos Panteras Negras, ent\u00e3o h\u00e1 um equivoco muito grande de achar que h\u00e1 alguma possibilidade de uma cultura como o hip hop se alinhar ao discurso anti-intelectual do Bolsonaro e das ideias propagadas pelo Olavo de Carvalho. Por outro lado, o rap \u00e9 m\u00fasica, e qualquer um pode fazer rap, mas s\u00f3 fazer rap n\u00e3o faz algu\u00e9m ser do hip hop, principalmente se n\u00e3o compreende do que se trata e comete esse tipo de equ\u00edvoco. Essa mudan\u00e7a se deve, na minha opini\u00e3o, a um desconhecimento hist\u00f3rico mesmo, e h\u00e1 um movimento ultraconservador em todo o mundo, essas pessoas s\u00e3o sintomas n\u00edtidos disso. Nossa sociedade \u00e9 racista, classista, essas coisas todas, quando figuras como Bolsonaro e Trump ganham visibilidade, pessoas que mantinham seus preconceitos nas sombras se sentem encorajadas e coloc\u00e1-los pra fora, sem o menor constrangimento. \u00c9 uma luta, uma disputa de narrativas que n\u00e3o tem fim, vamos lutar contra esse tipo de coisa sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No disco voc\u00ea acaba por trazer a tona uma s\u00e9rie de influ\u00eancias e sonoridades que acabam por homenagear v\u00e1rias vertentes da m\u00fasica, de ontem e de hoje. Nesse sentido, na constru\u00e7\u00e3o de sua identidade musical quais foram os artistas que a moldaram?<\/strong><br \/>\nA gente ouve muita coisa ao longo da vida, mas o que me influenciou neste disco acho que passa por artistas como James Brown, Tim Maia, Chico Science e Na\u00e7\u00e3o Zumbi, Public Enemy, Planet Hemp, Racionais, Tha\u00edde e DJ Hum, Retrato Radical, C\u00e2mbio Negro, Guru, De La Soul, A Tribe Called Quest, Marvin Gaye, Milton Nascimento&#8230; S\u00e3o muitas influ\u00eancias, talvez nem todas percept\u00edveis na audi\u00e7\u00e3o do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em Racionais Mc&#8217;s, eles celebram em 2019 seus 30 anos de carreira. Qual o principal legado deixado pelo grupo e como ele ainda reverbera hoje?<\/strong><br \/>\nO legado do Racionais \u00e9 extenso, \u00e9 musical e comportamental. Eles deram ao jovem negro uma no\u00e7\u00e3o de pertencimento, de identidade. Deram outro sentido ao termo \u201cperiferia\u201d e \u00e9 indiscut\u00edvel que, se hoje temos um rap brasileiro com a for\u00e7a que tem, devemos muito ao que eles constru\u00edram. Talvez n\u00e3o fosse nem intencional, mas Racionais nos ajudou a sobreviver. Falo de sobreviver ao apagamento e a tantas coisas que tinham o objetivo de nos embranquecer, de negar quem somos enquanto pessoas negras moradoras das periferias (no plural mesmo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco foi parcialmente financiamento via crowdfunding. Como foi esta experi\u00eancia de ter o p\u00fablico como membro efetivo do produto final?<\/strong><br \/>\nFoi muito importante passar por esse processo, inclusive por ser meu disco de estreia, \u00e9 uma forma de estabelecer uma comunica\u00e7\u00e3o com as pessoas durante o trajeto que vai gerar o produto. E acho que esse \u00e9 um caminho que tende a crescer, porque, no final das contas, sempre foi o p\u00fablico quem financiou o trabalho art\u00edstico, s\u00f3 que com intermedi\u00e1rios. Foi uma experi\u00eancia muito rica, no sentido de ver as pessoas somando e acreditando no trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A cena hip hop mineira tem crescido de maneira exponencial devido a boa repercuss\u00e3o de trabalhos como a da rapper Cynthia Luz e do fen\u00f4meno Djonga. Acredito que a experi\u00eancia com o programa Rimas e Recortes (Radio Inconfid\u00eancia) lhe permitiu acompanhar in loco o que tem acontecido por aqui. Como voc\u00ea v\u00ea o cen\u00e1rio rap local?<\/strong><br \/>\nA cena rap de BH sempre foi muito diversa e de uma qualidade incr\u00edvel e agora \u00e9 muito interessante ver isso reverberando atrav\u00e9s destes nomes. Cinthya Luz \u00e9 mineira, tem uma caminhada importante, mas n\u00e3o vive aqui, j\u00e1 o Djonga acho mais emblem\u00e1tico por ser um MC reconhecido nacionalmente, mas residente na cidade. Isso soma muito. BH tem uma longa hist\u00f3ria no rap, mas essa gera\u00e7\u00e3o mais recente contribui de forma marcante para que aqui ganhe reconhecimento enquanto um dos polos do rap no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recentemente voc\u00ea fez a primeira apresenta\u00e7\u00e3o para divulgar o \u00e1lbum em BH. Quais s\u00e3o seus planos futuros?<\/strong><br \/>\nVir\u00e3o alguns videoclipes a\u00ed, o primeiro em produ\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente da m\u00fasica \u201cEtnografia Suburbana\u201d, pretendo rodar com esse disco o m\u00e1ximo poss\u00edvel e preparar os pr\u00f3ximos trabalhos. Farei outro \u00e1lbum para 2020 ou 2021, e, antes disso, vir\u00e3o alguns singles com outros parceiros, trampos que tem uma cara muito espec\u00edfica e talvez nem caibam num disco, pelo conceito, mas acho interessante ter a possibilidade de lan\u00e7ar obras que falam por si mesmas, sem ter que, necessariamente, fazer parte de um disco, LP ou EP. Vem novidades bem legais a\u00ed.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-51746\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/rogerdeffcapa.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"659\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/rogerdeffcapa.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/rogerdeffcapa-300x264.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a> \u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. A foto que abre o texto \u00e9 de Fl\u00e1vio Charchar \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Roger Deff \u00e9 um dos mais atuantes artistas mineiros quando o assunto \u00e9 o movimento hip hop local. Sua trajet\u00f3ria na m\u00fasica foi iniciada nos anos 90, junto ao grupo Julgamento. 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