{"id":5156,"date":"2010-05-13T15:25:35","date_gmt":"2010-05-13T18:25:35","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5156"},"modified":"2022-09-23T03:38:02","modified_gmt":"2022-09-23T06:38:02","slug":"entrevistao-lulina-e-stela-campos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/13\/entrevistao-lulina-e-stela-campos\/","title":{"rendered":"Entrevist\u00e3o: Lulina e Stela Campos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>ENTREVIST\u00c3O DE MAIO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/arielmartini\/collections\/72157612666038332\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5142 aligncenter\" title=\"foto1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto1.jpg\" alt=\"\" width=\"604\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto1.jpg 604w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto1-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 604px) 100vw, 604px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a> e <a href=\"http:\/\/twitter.com\/tiagoagostini\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tiago Agostini<\/a><br \/>\nRevis\u00e3o: <a href=\"http:\/\/twitter.com\/marcot_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marco Tomazzoni<\/a><br \/>\nFotos de <a href=\"http:\/\/www.arielmartini.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ariel Martini<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela Campos e Lulina fizeram caminhos contr\u00e1rios. Stela nasceu em S\u00e3o Paulo, montou uma banda na cidade, mas deixou tudo por Recife, onde conheceu Chico Science, teve um programa de r\u00e1dio com DJ Dolores, fez shows no Abril Pro Rock e Rec Beat e viveu seis anos de vida pernambucana. Lulina nasceu em Olinda e, enquanto o mangue beat estava bombando, ela ficava em seu quarto devorando livros e compondo can\u00e7\u00f5es. Montou uma banda na cidade, mas seu pr\u00f3ximo passo foi vir para S\u00e3o Paulo (ap\u00f3s 20 dias na Amaz\u00f4nia) come\u00e7ar vida nova \u2013 com banda nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em v\u00e1rios momentos desse bate-papo regado a queijos variados e cervejas tchecas (a 1795 Dark foi a escolhida), tanto Lulina quanto Stela Campos, as duas morando em S\u00e3o Paulo atualmente, mostraram que a m\u00fasica \u00e9 parte indissoci\u00e1vel de suas vidas. &#8220;\u00c9 a coisa mais importante j\u00e1 h\u00e1 muito tempo&#8221;, diz Lulina. &#8220;Gravo disco porque gosto, ent\u00e3o vou gravar sempre&#8221;, completa Stela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela Campos j\u00e1 lan\u00e7ou quatro \u00e1lbuns na carreira (&#8220;C\u00e9u de Brigadeiro&#8221;, 1999, &#8220;Fim de Semana&#8221;, 2002, &#8220;Hotel Continental&#8221;, 2005, e &#8220;Mustang Bar&#8221;, 2009) enquanto Lulina debutou oficialmente em 2009 com &#8220;Cristalina&#8221;, embora tenha um vasto repert\u00f3rio de discos caseiros distribu\u00eddos pela internet \u2013 o \u00faltimo, inclusive, \u00e9 o disco duplo \u201cAceita\u00e7\u00e3o do 14 \/ Aos 28 Anos Dei Reset na Minha Vida\u201d, gravado ap\u00f3s &#8220;Cristalina&#8221;, mas lan\u00e7ado antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas duas personagens da m\u00fasica brasileira do s\u00e9culo XXI derrubam mitos que algumas pessoas querem vender como verdade. Por exemplo: tanto Lulina quanto Stela querem fazer sucesso \u2013 sem abdicar da liberdade art\u00edstica \u2013, serem ouvidas, aparecer na televis\u00e3o, viver de m\u00fasica, mas n\u00e3o reclamam do cen\u00e1rio atual, e v\u00e3o continuar fazendo seus discos porque gostam e precisam disso. Aqui, m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 um hobby, mas um ve\u00edculo que coloca ambas em contato com o mundo \u2013 e, por que n\u00e3o, com elas mesmas. S\u00e3o dois retratos de intelig\u00eancia da m\u00fasica popular brasileira que n\u00e3o toca em r\u00e1dios (e nem em festivais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com voc\u00eas, Stela Campos e Lulina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como Recife, Pernambuco influenciaram a vida de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nStela: Pernambuco aconteceu por acaso na minha vida por uma s\u00e9rie de coincid\u00eancias. Fui pra passar f\u00e9rias e fui ficando, ficando e n\u00e3o voltei nunca mais (risos). Fiquei seis anos. Era um momento legal (da cidade), que me deu oportunidade de tocar e conhecer um monte de gente interessante que estava fazendo coisas novas. O pessoal do mangue beat estava come\u00e7ando. Foi importante (pra mim), pois foi uma \u00e9poca da minha em que fiquei muito focada em m\u00fasica, em tocar. Tinha uma cena, mais influ\u00eancias musicais&#8230; Claro que voc\u00ea ouve um monte de coisas diferentes \u2013 tive programa de r\u00e1dio l\u00e1 \u2013, mas n\u00e3o vejo uma influ\u00eancia musical (direta) no que eu fa\u00e7o. Tanto que a gente fazia parte da cena, mas sempre foi roqueiro, indie. Quando cheguei (em Recife), fiquei muito surpresa com o que vi&#8230;<br \/>\n<strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi essa liga\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea tocava aqui em S\u00e3o Paulo&#8230;<\/strong><br \/>\nStela: Tinha um amigo morava l\u00e1, e um trabalho aqui (em S\u00e3o Paulo) tinha acabado. Eu j\u00e1 tinha participado de um festival (em Recife) chamado Summerstage. Apesar de ter uma banda em S\u00e3o Paulo, fui sozinha (pra esse festival), e a Eddie me acompanhou. Conheci todo mundo, e esse amigo ficou falando para eu ir pra l\u00e1. Chegou uma hora que pensei: \u201cRecife \u00e9 t\u00e3o legal. Eu vou\u201d. Coloquei o meu teclado no carro e fui. Era tipo 1\u00ba de janeiro, acho que em 1994. Chegando l\u00e1 conheci o Chico (Science), e eles descobriram que eu tocava com o pessoal do Fellini e falaram de montarmos um show no Panquecas (bar de Recife) tocando coisas do Fellini e do Funziona (Senza Vapore). Rolou comigo no teclado, o pessoal da Na\u00e7\u00e3o (Zumbi) e o Chico no banquinho tocando viol\u00e3o&#8230; como o Cad\u00e3o (risos). Eu ligava para o Cad\u00e3o (Volpato) e falava: \u201cTem uns megaf\u00e3s seus aqui. Todo mundo conhece voc\u00eas!\u201d. E ele: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 falando s\u00e9rio\u201d. Um dia, no ensaio pra esse show, coloquei Chico e Cad\u00e3o no telefone. E eles conversaram e depois se conheceram quando o Chico veio pra S\u00e3o Paulo. Por azar do destino ningu\u00e9m gravou esse show.<br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"color: #000000;\"><strong>Nessa \u00e9poca o Funziona Senza Vapore n\u00e3o tinha lan\u00e7ado nada ainda?<\/strong><\/span><br \/>\nStela: N\u00e3o. O Funziona na verdade \u00e9 uma coisa que quase n\u00e3o funciona (risos). A gente ficou um ano inteiro ensaiando todo o fim de semana. T\u00ednhamos doze m\u00fasicas, e a gente gravou tudo. At\u00e9 o \u00faltimo dia, o Cad\u00e3o n\u00e3o tinha letra nenhuma. A gente s\u00f3 ficava na expectativa, afinal a banda era dele. Eu tocava teclado, cantava, mas as m\u00fasicas eram dele. Normalmente eu cantava um \u201clalala\u201d e ele dizia: \u201cEu vou te dar letra, eu vou te dar letra\u201d (risos). Na semana que a gente come\u00e7ou a gravar no est\u00fadio do irm\u00e3o do Thomas (Pappon), ele apareceu com as letras. E ficou super legal. Fizemos um showzinho para uns amigos, 30 pessoas, e pronto: a banda acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o disco ficou gravado, mas n\u00e3o foi lan\u00e7ado&#8230;<\/strong><br \/>\nStela: \u00c9. Fui embora para o Recife, mas eu tinha a fita K7 com as m\u00fasicas, e levei. O Chico (Science) era megaf\u00e3 do Fellini, e quando descobriu que eu tinha uma fita com coisas que o Cad\u00e3o tinha feito e que ningu\u00e9m conhecia, ficou doido. A fita foi de m\u00e3o em m\u00e3o para muitas pessoas. Eu tinha uma c\u00f3pia da fita e o Jair Marcos (que tocava tamb\u00e9m no Funziona) tinha outra, e \u00e9 engra\u00e7ado como as fitas foram parar em lugares estranhos. O Clayton (Martin), que toca comigo hoje e eu n\u00e3o conhecia na \u00e9poca, ouviu a outra fita quando ele foi morar em Arraial d&#8217;Ajuda. Ele era da Mooca, e o Jair tamb\u00e9m, e conseguiu a fita. Foi morar em Arraial d&#8217;Ajuda e aprendeu a tocar viol\u00e3o tirando as m\u00fasicas da fita! (risos). Depois (desse show com o Chico), o Devotos do \u00d3dio me chamou para fazer um show tocando Doors (risos). Em janeiro ainda, o Paulo Andr\u00e9 me chamou para tocar no Abril Pro Rock. O Living In The Shit ia me acompanhar. Fui pra Macei\u00f3 ensaiar com eles. Fiquei um m\u00eas. Nessa \u00e9poca, a Lara Hanouska (banda de Stela em S\u00e3o Paulo) j\u00e1 estava desativada. Ningu\u00e9m acreditava que eu ia voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O repert\u00f3rio desses shows no Recife j\u00e1 era o do seu primeiro disco, \u201cFim De Semana\u201d?<\/strong><br \/>\nStela: N\u00e3o, eram coisas minhas do Lara Hanouska. Em maio eu estava l\u00e1 ainda, e j\u00e1 estava na hora de decidir o que fazer. Ent\u00e3o remontei o Lara Hanouska (em Recife). Comecei a trabalhar com r\u00e1dio, o programa se chamava \u201cMangue Beat\u201d, e eu fiquei&#8230; seis anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Minha hist\u00f3ria \u00e9 o contr\u00e1rio. Eu estava l\u00e1, vim de f\u00e9rias pra c\u00e1 e fui ficando. Mas \u00e9 engra\u00e7ado como \u00e9 a influ\u00eancia de Pernambuco pra mim: \u00e9 minha historinha de fam\u00edlia. N\u00e3o \u00e9 muito uma hist\u00f3ria musical, porque pra mim as coisas s\u00f3 aconteceram musicalmente aqui em S\u00e3o Paulo. L\u00e1, enquanto estava rolando todo esse movimento, eu era uma adolescente nerd que ficava em casa, e perdi muita coisa. Enquanto o pessoal sa\u00eda, eu ficava em casa com os livros. Ent\u00e3o s\u00f3 na faculdade que eu comecei a ter mais contato com algumas bandas, mas mesmo assim j\u00e1 estava quase vindo pra c\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/arielmartini\/3526804152\/in\/set-72157615949976534\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5144 aligncenter\" title=\"foto3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto3.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 tinha tido todo aquele boom que jogou um holofote sobre a cidade&#8230;<\/strong><br \/>\nLulina: Fui a shows do Chico (Sicence), quando ele j\u00e1 estava prestes a estourar, na minha adolesc\u00eancia. Ele j\u00e1 era famoso em Recife, mas n\u00e3o tinha estourado nacionalmente. Fui com a turma sem saber direito o que estava acontecendo. N\u00e3o vivi mesmo isso. Mas comecei a compor minhas coisas l\u00e1. Era uma coisa entre quatro paredes, quietinha. N\u00e3o tinha banda. S\u00f3 na faculdade que o pessoal come\u00e7ou a pedir pra eu colocar na roda as minhas m\u00fasicas, ent\u00e3o montei uma banda com uns caras que admirava. Quando eles quiseram montar uma banda pra mim, pensei, \u201cquem sou eu pra chegar perto desse povo? Eles tocam com uma galera massa, e agora querem tocar comigo?\u201d Mas, mesmo assim, montamos e come\u00e7amos a tocar em lugares pequeninhos, porque, pelo menos no meu tempo, o indie era muito jogado de canto. Se voc\u00ea n\u00e3o tinha um batuque no meio&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: A gente tinha um pouco disso tamb\u00e9m, porque eu nunca fui da turma do batuque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Exatamente. Ent\u00e3o o que sobrava de Recife, o lugar mais tosquinho, era onde enfiavam a gente. Iam 20, 30 pessoas, no m\u00e1ximo. Eu admirava a galera que fazia esse movimento. Nessa \u00e9poca conheci o pessoal que viria a formar o Coquetel (Molotov), e me lembro deles conversando comigo, querendo entrevistar, falando que queriam montar um esquema. Dois anos depois, eles me chamaram pra ir pra l\u00e1 quando o Coquetel ainda era feito num lugar pequenininho, bem no comecinho, ainda n\u00e3o era um festival. Eu fazia minhas coisas totalmente independente da cena, porque achava que a cena era uma galera da qual eu n\u00e3o fazia parte. Quando vim pra S\u00e3o Paulo, vim pra passar um tempinho de f\u00e9rias, e acabei ficando e comecei a tocar mais. Senti uma grande diferen\u00e7a de p\u00fablico, achei a galera aqui muito mais interessada. Comecei a mostrar minhas m\u00fasicas, porque em Recife eu tocava mais covers, ainda n\u00e3o tinha muita seguran\u00e7a. L\u00e1 o pessoal que ia aos meus shows queria mais identifica\u00e7\u00e3o com coisas que eles conheciam, at\u00e9 porque a cena era pequenininha. Ent\u00e3o eles queriam algu\u00e9m que tocasse Velvet Underground, e n\u00e3o uma coisa diferente. Aqui em S\u00e3o Paulo a recep\u00e7\u00e3o foi muito grande. O primeiro show que eu fiz lotou, s\u00f3 no boca a boca. Mas esse momento de Recife passou batido (pra mim).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea fala que estava tocando as coisas no seu quarto, compondo, voc\u00ea \u00e9 autodidata? Aprendeu a tocar como?<\/strong><br \/>\nLulina: Aprendi s\u00f3, com essas revistinhas de viol\u00e3o. Os meninos da rua desciam com essas revistinhas, peguei uma emprestada, e tinha um viol\u00e3o no guarda-roupa, que era da minha m\u00e3e. Comecei brincando. Nas revistinhas s\u00f3 tinha m\u00fasica de Raul Seixas (risos), e eu n\u00e3o aguentava mais tocar Raul, queria tocar Nirvana, mas n\u00e3o tinha revistinha das bandas que eu gostava na adolesc\u00eancia. Ent\u00e3o comecei a tirar as m\u00fasicas de ouvido. Tinha uma facilidade. \u00c0s vezes tirava errado, mas beleza.\u00a0 Comecei a compor aos 15 anos, porque eu n\u00e3o queria tocar mais as mesmas m\u00fasicas. Algumas que fiz nessa \u00e9poca entraram em discos caseiros que gravei anos depois. Comecei a gravar em 2001, mas desde os 15 j\u00e1 estava l\u00e1, compondo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea come\u00e7ou a tocar, Stela? <\/strong><br \/>\nStela: Foi muito parecido. Eu fiz pior, porque minha m\u00e3e achava que eu tinha que tocar piano, porque quem tocava viol\u00e3o cantava desafinado, e eu queria um viol\u00e3o, mas ela dizia que n\u00e3o. Lembro que pequei emprestado um viol\u00e3o de uma menina na escola e n\u00e3o devolvi mais. Minha m\u00e3e come\u00e7ou a ficar com vergonha, e me deu um viol\u00e3o. Cheguei a estudar um pouco, mas eu n\u00e3o tinha saco pra ficar estudando, gostava de ficar inventando minhas musiquinhas. Sempre fui meio rebelde. Nessa \u00e9poca, estudei piano com o Ricardo Brem, que era um cara superlegal. Eu era crian\u00e7a e participava de umas coisas no col\u00e9gio. A diretora queria aparecer, ent\u00e3o ela colocava a gente em um monte de coisas pra ganhar pr\u00eamio, e rolava uma coisa tipo \u201cvestibular da can\u00e7\u00e3o\u201d. Eles davam um tema, e a gente tinha 40 minutos pra ficar numa cabine e inventar. Era superlegal porque me tiravam da aula pra ir pra essas coisas, pra ganhar pr\u00eamio pro col\u00e9gio. Fic\u00e1vamos eu e um cara, que sabia tocar um pouco mais, compondo. A gente ganhou um programa, dois, e eu pensei que nunca mais ia estudar! Ent\u00e3o conheci o Ricardo, que foi uma pessoa importante, porque a diretora contratou ele pra fazer o arranjo da m\u00fasica que \u00edamos levar ao programa. Ele abriu minha cabe\u00e7a pra essa coisa de arranjo. Aquilo que eu tinha feito no viol\u00e3o virava m\u00fasica! Foi um divisor de \u00e1guas. Ele me fez ver as coisas de um modo diferente. Cheguei a fazer umas aulas de piano com ele, e depois de um tempo ele montou uma escola de m\u00fasica. Mas sempre fui muito mal (na aula). Decorava o neg\u00f3cio, tirava de ouvido, e nunca estudava. Abandonei. Um dia dei um disco pra ele, acho que foi o primeiro, \u201cC\u00e9u de Brigadeiro\u201d (1999), e ele me disse que eu era um caso que ele nunca conseguiu entender, a quem ele nunca conseguiu convencer de que teoria era bom. Mas ele convenceu, s\u00f3 n\u00e3o conseguiu me fazer aprender (risos). Sempre foi esse drama da intui\u00e7\u00e3o, de passar pros outros (m\u00fasicos). Seria muito mais f\u00e1cil se eu soubesse teoria&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: \u00c0s vezes, chego e falo: \u201c\u00c9 uma nota que \u00e9 assim\u201d. E eu tenho que mostrar porque n\u00e3o sei o nome dela (risos). Ao mesmo tempo ajuda porque voc\u00ea come\u00e7a a compor de um jeito meio esquisito. Acho que minhas m\u00fasicas s\u00e3o muito simples, mas (os m\u00fasicos) me falam que fa\u00e7o uma l\u00f3gica que \u00e9 diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: A limita\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser uma instrumentista faz com que com voc\u00ea tenha que ser criativa com o pouco que voc\u00ea tem. N\u00e3o sei como \u00e9 pra voc\u00ea, mas pra mim essas coisas de bateria sempre foram um inferno. Achei legal quando veio o computador, essa coisa eletr\u00f4nica, mas e a bateria? Que raios! Como \u00e9 que vai ser? Porque precisa sempre da bateria pra voc\u00ea poder pensar o resto. Tinha um programinha que o Helder me deu, muito safado, que tinha umas bolinhas que voc\u00ea ia batendo e elas iam fazendo umas batidas. Fiquei experimentando e inventei umas batidas muito loucas, que acabaram entrando no \u201cFim de Semana\u201d (2002), porque era t\u00e3o esquisito que o Maur\u00edcio (Bussab) falou: \u201cO que voc\u00ea fez?\u201d. E eu n\u00e3o fiz! Aconteceu na sorte. A tecnologia ajudou bastante pra compor arranjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As gravadoras foram muito importantes em uma \u00e9poca em que n\u00e3o havia como voc\u00ea entrar em um est\u00fadio e gravar uma coisa de qualidade. Hoje em dia se grava um disco muito bom no fundo de casa&#8230;<\/strong><br \/>\nStela: Agora democratizou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO C\u00e9u do Brigadeiro\u201d foi gravado em Recife. Voc\u00ea chegou a gravar alguma coisa com a banda antes?<\/strong><br \/>\nStela: O Lara Hanouska nunca teve CD. Chegamos a gravar uma demo mais ajeitada, com cinco m\u00fasicas, mas era na \u00e9poca da fita K7, ent\u00e3o ficou por isso mesmo. \u201cO C\u00e9u de Brigadeiro\u201d j\u00e1 s\u00e3o umas coisas que eu experimentava meio sozinha, paralelamente \u00e0 banda. Eu e o Adriano (Le\u00e3o), que tocava comigo. Esse disco reflete bem essa fase de experimenta\u00e7\u00f5es. Na verdade, a banda tinha um formato muito mais fechado, rock \u2018n\u2019 roll, e sozinha pude fazer uma coisa mais aberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea gosta desses discos antigos hoje em dia?<\/strong><br \/>\nStela: Gosto. Tem uma ou outra coisa que talvez n\u00e3o goste tanto. Outro dia fui gravar uma m\u00fasica (antiga), e at\u00e9 que era legal. Mas n\u00e3o fico ouvindo meus discos. Estamos pensando em fazer uma colet\u00e2nea, ent\u00e3o vou ter que ouvir, mas acho estranho ficar me ouvindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como que voc\u00ea lida com isso? Voc\u00ea ouve aqueles primeiros discos que voc\u00ea fez?<\/strong><br \/>\nLulina: O legal de ter gravado tudo na hora em que eu estava sentindo as coisas \u00e9 que funciona como uma biografia, misturada \u00e0 fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea n\u00e3o tinha di\u00e1rio, ent\u00e3o voc\u00ea gravava (risos).<\/strong><br \/>\nLulina: Isso. Obviamente, tudo muito distorcido, mas era um reflexo do ano. Tem um disco, \u201cAbduzida\u201d (2003), que quando estou triste coloco e gargalho. Funciona como uma inje\u00e7\u00e3o de humor, porque vem toda aquela atmosfera, o neg\u00f3cio de ter sido gravado com aquelas bases de computador, no ch\u00e3o, todo mundo sentado, viol\u00e3o, cerveja, barulho de copo, algu\u00e9m fazendo a bateria em caixa de sapato, ao vivo praticamente. Voc\u00ea come\u00e7a a gargalhar, porque voc\u00ea ouve algu\u00e9m gritando: \u201cJu dan\u00e7ando\u201d, porque tem ela dan\u00e7ando (risos). Fico pensando: como \u00e9 que tive coragem de gravar um neg\u00f3cio desses? E agora esse neg\u00f3cio est\u00e1 na internet! Estou queimada (risos). \u00c0s vezes escuto esses. Existem outros que gravei durante \u00e9pocas muito tristes. \u201cSangue de E.T.\u201d (2005) foi gravado quando minha av\u00f3 faleceu, ent\u00e3o se coloco pra ouvir, choro. Gravei sozinha todos os instrumentos, at\u00e9 teclado, fazendo bateria em latinha de cerveja com hashi. Mas n\u00e3o escuto. S\u00f3 escuto o \u201cAbduzida\u201d quando estou triste, pra gargalhar. E escuto pela refer\u00eancia hist\u00f3rica, n\u00e3o pela grava\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 nem pra ser cr\u00edtica, porque \u00e9 tosco. Gravamos o primeiro disco no Windows, com barulho de buzina, de MSN, e foi melhorando. O \u00faltimo (o duplo \u201cAceita\u00e7\u00e3o do 14 \/ Aos 28 Anos Dei Reset na Minha Vida\u201d, 2008) est\u00e1 muito bem gravado. Investi em microfone bom. L\u00e9o (Monstro) comprou um equipamento, ficou quase profissional. A gente gravou as faixas separadas \u2013 antes era tudo um bolo s\u00f3. Esse disco duplo reflete o retorno de Saturno. N\u00e3o acredito muito nessas coisas m\u00edsticas, mas coincidiu de ser uma fase complicada pra mim, de pensar muito e fazer pouco, e eu sou muito de fazer. Eu e o Leo ficamos um bom tempo sem sentar e gravar, ent\u00e3o num m\u00eas cheguei e disse: \u201cEst\u00e1 aqui\u201d. E ele tamb\u00e9m. Fizemos cinco m\u00fasicas em dois dias. Algumas coisas eu gravava s\u00f3 guitarra e passava pra ele. \u201cCompleta\u201d. E eu confio nele. Ele ficava brincando, brincando, depois me mandava por e-mail. Eu ouvia e respondia: \u201cAdorei\u201d ou \u201cdetestei\u201d, e ele me respeita muito. Outras vezes eu chegava na casa dele e gravava um monte de coisas que tinha na cabe\u00e7a. Rolou assim. Estava com uma pressa t\u00e3o grande que saiu de uma vez. Marquei um showzinho de lan\u00e7amento um m\u00eas antes. A gente terminou de gravar duas horas antes do show. E foi o mais organizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando \u00e9 que foi o primeiro?<\/strong><br \/>\nLulina: O primeiro foi o \u201cAcoustique de France\u201d (2001). Eu estava na casa de um namorado em Olinda, e estava chovendo. Ent\u00e3o ele me mostrou um programinha que permitia gravar coisas de viol\u00e3o. \u201cVou gravar os meus agora\u201d. Com vergonha de mostrar para qualquer pessoa, recorri \u00e0 ironia e gravei como se fosse uma cantora brasileira que ningu\u00e9m gosta, que foi pra Fran\u00e7a e estourou l\u00e1. Esse disco \u00e9 como se fosse um programa de entrevistas em uma r\u00e1dio francesa com m\u00fasica ao vivo. Esse meu namorado da \u00e9poca bancou o apresentador, mesmo sem falar nada de franc\u00eas. Ele ficava \u201cMerci, bonsoir, bonjour\u201d. E eu: \u201c\u00c9. Exatamente. Esse disco&#8230;\u201d (risos) Gravei, fiz uma capinha com um frame de um filme do Truffaut e mandei pros amigos. Eles se divertiram e pediram para eu fazer mais. Ent\u00e3o decidi brincar e todo final de ano fazer um. Eu juntava as m\u00fasicas e via a tem\u00e1tica. O segundo foi o \u201cCochil\u00e2ndia\u201d (2002), porque tinha muita m\u00fasica sobre sono, sonho, narcolepsia. O terceiro, \u201cAbduzida\u201d, j\u00e1 foi aqui em S\u00e3o Paulo, e tem coisas da minha viagem para a Amaz\u00f4nia. Tem \u201cBalada do Paulista\u201d, que eu compus nessa \u00e9poca ainda. Tudo foi meio que por acaso. A Stela estava falando da m\u00e3e dela e o viol\u00e3o, e em casa minha m\u00e3e me via tocando e nem sabia que eu tinha aprendido uma nota. Minha fam\u00edlia se formou a partir de uma banda amadora, e eles faziam umas reuni\u00f5es familiares, todo mundo b\u00eabado, e sempre tinha um amplificador e uma guitarrinha. Uma noite em Itamarac\u00e1 tomei coragem, peguei a guitarra e comecei a tocar e cantar. Quando a minha av\u00f3 estava viva ela pedia para eu cantar \u201cMeu Pr\u00edncipe\u201d. E eu morria de vergonha, porque tinha a parte dos orgasmos e eu n\u00e3o podia cantar isso pra minha av\u00f3 (risos). Quando eu gravei o disco, fiquei pensando que minha m\u00e3e iria ouvir eu cantando sobre orgasmos, mas a recep\u00e7\u00e3o foi boa. Minhas tias cantam em casa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Nessa coisa de confus\u00e3o com a fam\u00edlia, o Luciano (Buarque, marido e parceiro de Stela) fez uma m\u00fasica que se chama \u201cOs \u00daltimos Dias do Tio S\u00e1vio\u201d, que est\u00e1 no \u201cC\u00e9u de Brigadeiro\u201d. S\u00f3 que tio S\u00e1vio \u00e9 o tio S\u00e1vio dele mesmo. E a letra fala que o tio S\u00e1vio comprou uma corda, riscou os dias do calend\u00e1rio, tio S\u00e1vio quer ir embora, uma letra um tanto pesadinha. E o tio S\u00e1vio de fato tinha comprado a corda, e o Luciano contou como era. Um dia a m\u00e3e dele liga: \u201cMeu filho, sua av\u00f3 est\u00e1 muito brava com voc\u00ea. O que voc\u00ea foi falar do tio S\u00e1vio?\u201d (risos). N\u00e3o se sabe como o disco foi parar na m\u00e3o da av\u00f3. E o tio S\u00e1vio n\u00e3o olha na nossa cara at\u00e9 hoje! (risos). E a m\u00e3e dele ficava: \u201cMeu filho, porque voc\u00ea n\u00e3o colocou tio F\u00e1bio\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Como foi gravar o \u201cC\u00e9u de Brigadeiro\u201d?<\/span><\/strong><br \/>\nStela: A gente gravou umas coisas em casa e depois conseguiu umas horas em um Conservat\u00f3rio (em Recife) para gravar, mas era pouco tempo, e a gente n\u00e3o tinha dinheiro para pagar mais. Ent\u00e3o tivemos que ensaiar muito para n\u00e3o dar errado. O Loop B apareceu nessa \u00e9poca. Convidei ele para ajudar na produ\u00e7\u00e3o e a \u00fanica coisa que ele exigiu foi que eu marcasse um show para ele em Recife. Topei. A gente j\u00e1 tinha visto show dele. O cara era doido e iria ficar legal produzindo. Ent\u00e3o ele mandou um fax com os itens que ele precisava para o show dele&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Porta de geladeira&#8230; (risos)<\/strong><br \/>\nStela: E n\u00e3o era s\u00f3 isso. Era: \u201cuma tampa de Brastemp assim, assado. Uma porta de Chevette\u201d (risos). Eu e Adriano (Le\u00e3o) sa\u00edmos de ferro-velho em ferro-velho procurando a tal da porta. E eu ligava pra ele e dizia: \u201cLoop B, tem uma carca\u00e7a de m\u00e1quina de lavar, mas n\u00e3o \u00e9 Brastemp\u201d. E ele: \u201cAh, n\u00e3o d\u00e1\u201d (risos). Foi um problema, mas n\u00f3s conseguimos. O plano era o seguinte: ele vinha, tocava, ficava quatro dias na minha casa, a gente gravava o disco e ele ia embora. Mas a gente n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o do quanto ele era workaholic. O show dele foi numa sexta. A gente dormiu tipo umas seis da manh\u00e3. Quando deu 8h ele j\u00e1 estava acordando todo mundo. \u201cGente, vamos l\u00e1, vamos come\u00e7ar, porque a gente tem pouco tempo\u201d (risos). Ele n\u00e3o bebe nada, mas \u00e9 acelerado. A gente ficou o dia inteiro fazendo as bases com ele. Uma coisa insana. No segundo dia fomos dormir \u00e0s 3h. \u00c0s 7h ele j\u00e1 estava acordando todo mundo de novo. \u201cGente, vamos todo mundo pra sala. E tem que dan\u00e7ar. Se n\u00e3o dan\u00e7ar \u00e9 porque a m\u00fasica n\u00e3o ficou legal\u201d (risos). No final deu certo. J\u00e1 o \u201cFim de Semana\u201d&#8230; Eu tinha voltado pra S\u00e3o Paulo e conheci o Mauricio Bussab. Ele gostava do \u201cC\u00e9u de Brigadeiro\u201d e me convidou pra fazer um disco novo no est\u00fadio que ele tinha em casa. E o disco foi surgindo. Decidimos fechar num conceito porque sentimos o choque de voltar pra S\u00e3o Paulo, tr\u00e2nsito na Marginal, trabalho, rotina. O \u201cFim de Semana\u201d reflete bem o que a gente sentia nesses primeiros anos de retorno. Depois voc\u00ea acostuma. Ent\u00e3o o Mauricio come\u00e7ou a gravar, mas como era na casa dele a gente gravava na hora que dava. E ele tinha seus compromissos, viajava, e o disco demorou uns dois anos para ficar pronto. Isso permitiu que a gente fizesse o disco curtindo cada coisinha. Foi um disco muito trabalhado nos m\u00ednimos detalhes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o \u201cMustang Bar\u201d (2009)?<\/strong><br \/>\nStela: Foi r\u00e1pido. Juntando todas as sess\u00f5es deu 48 horas. Eu e o Clayton temos um entrosamento grande, e quer\u00edamos muito trabalhar juntos. Acabou sendo o meu primeiro disco que tem mais cara de banda. Fui com as ideias, mas o Clayton e o Mission\u00e1rio Jos\u00e9 introduziram muitas coisas.\u00a0 H\u00e1 uma participa\u00e7\u00e3o muito maior. Tem coisas que foram direto do meu computador, e eles acrescentaram coisas sobre aquela base. Mas tamb\u00e9m teve m\u00fasica que mudou de cara. No primeiro dia fizemos tr\u00eas m\u00fasicas. Mostrei as demos e sa\u00edram coisas muito interessantes. E a m\u00e9dia foram duas m\u00fasicas por dia. A gente finalizava a m\u00fasica e levava para o Conselho dos Justos, que \u00e9 o Luciano (risos). A gente \u00e9 muito franco um com o outro. E ele estava gostando do disco todo at\u00e9 que chegou uma que ele n\u00e3o aprovou. \u201cTem que refazer sua voz. N\u00e3o ficou bom\u201d. Voltei e falei com o Clayton, e fizemos de novo. Ele n\u00e3o gostou. \u201cO disco todo est\u00e1 bom, mas essa&#8230;\u201d. A gente fez ela pela terceira vez, foi a \u00fanica no disco que fizemos isso. Colocamos uns efeitos e voltamos pra ele. \u201cNossa, agora sim. Essa \u00e9 a melhor m\u00fasica do disco\u201d. Era \u201cLaura Te Espera Com Uma Arma Na M\u00e3o\u201d. Mas foi um disco muito focado. O disco ficou pronto em duas semanas. Tamb\u00e9m \u00e9 um disco que n\u00e3o tem participa\u00e7\u00e3o especial&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/arielmartini\/3387918165\/in\/set-72157615949985166\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5143 aligncenter\" title=\"foto2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto2.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente ficou aqui pensando&#8230; o que voc\u00ea foi fazer na Amaz\u00f4nia, Lulina?<\/strong><br \/>\nLulina: Fui de f\u00e9rias. Fiquei 20 dias l\u00e1 e depois vim passar uma semana em S\u00e3o Paulo. S\u00f3 que fiquei. N\u00e3o tinha planejado nada, mas foram aparecendo oportunidades, empregos, e a minha mala cheia de bugigangas da Amaz\u00f4nia. N\u00e3o tinha roupa, n\u00e3o tinha nada, apenas apitos e chocalhos. Foi legal porque usei nesse disco&#8230;\u00a0 (risos). Eu tocava bem pouco em Recife. Os meninos estavam me convencendo a ter banda. Era um pessoal que tocava com o Bonsucesso Samba Clube, com o China, e eles me chamaram pra cantar. Mas eu n\u00e3o tinha tempero. Eu achava divertido, mas morria de vergonha que as pessoas descobrissem que eu tinha aprendido a tocar com revistinha de viol\u00e3o (risos). Tinha vergonha das minhas m\u00fasicas! Tocava uma vez a cada tr\u00eas meses e olhe l\u00e1 com essa turminha que agitava a cena indie de l\u00e1, mas era o indie do indie. Essa turma que tocava comigo come\u00e7ou a morar em S\u00e3o Paulo no ano passado. Foi exatamente quando metade da minha banda daqui pediu pra sair. Chamei esse pessoal de Recife e deu tudo certo. Um ciclo se fechou. Eu lancei o meu primeiro disco por gravadora tocando com a banda que me empurrou pra come\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi gravar o \u201cCristalina\u201d?<\/strong><br \/>\nLulina: Quando a YB me chamou, eu disse: \u201cEu vou, mas liberdade total\u201d. Eles brincaram: \u201cN\u00e3o. A gente vai querer que voc\u00ea se vista de astronauta porque isso pode ser legal para voc\u00ea no palco\u201d (risos). Demorei tr\u00eas anos e meio para gravar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e9rio? A gente achava que voc\u00ea tinha recebido o convite, entrado e gravado.<\/strong><br \/>\nLulina: N\u00e3o! Cheguei aqui em 2003 e conheci o Mauricio Tagliari. Um amigo me apresentou e disse: \u201cGrave pro Mauricio os discos que voc\u00ea fez em Olinda\u201d. E eu pensando que ele iria achar uma merda. Gravei. O Mauricio curtiu tanto que na mesma semana me mandou um contrato: \u201cVamos gravar dois discos\u201d. Acabou que nem rolou o contrato porque fiquei t\u00e3o amiga dele, que ele acabou produzindo o disco. Foi bom porque fui amadurecendo. Ele quis que eu gravasse um disco a partir dos dois primeiros caseiros que ele ouviu, mas depois que ouviu os outros ficou mais convencido ainda que queria gravar. S\u00f3 que foi um longo tempo. O convite rolou em 2003, mas s\u00f3 fomos entrar em est\u00fadio em 2005. E era s\u00f3 nas horas vagas. Como eu trabalhava o dia todo, a gente gravava \u00e0 noite. Eu chegava \u00e0s 21h com o Mission\u00e1rio Jos\u00e9 e ficava at\u00e9 meia noite, para poder pegar o metr\u00f4 e n\u00e3o gastar dinheiro com t\u00e1xi. Gravava um m\u00eas seguido, parava dois meses por algum motivo, gravava mais um m\u00eas, e assim ia. Bem devagar. No come\u00e7o eu at\u00e9 achava legal, mas depois bateu aquela ang\u00fastia por estar demorando demais. Comecei a enjoar das m\u00fasicas. Quando tivemos que gravar as vozes, estava t\u00e3o nervosa que ficava com dor de garganta, me sabotando. Ao mesmo tempo, rolava uma ansiedade. Era muito contradit\u00f3rio. Eu queria lan\u00e7ar, mas morria de medo. Quando terminaram as grava\u00e7\u00f5es, passou mais de um ano e meio com o disco pronto, e come\u00e7aram as burocracias de mixagem, masteriza\u00e7\u00e3o, capa, contratos&#8230; Eu nunca tinha tido essa experi\u00eancia. Muita burocracia. Mas quando come\u00e7ou a sair o neg\u00f3cio, me apaixonei de novo. De repente era o momento mesmo. Agora estou mais madura. Lan\u00e7ar um disco com 30 anos \u00e9 melhor do que lan\u00e7ar com 27.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foram os primeiros shows em S\u00e3o Paulo?<\/strong><br \/>\nLulina: O primeiro foi esse que amigos organizaram. Lotou e foi muito legal a recep\u00e7\u00e3o. Eu tocando pela primeira vez as minhas m\u00fasicas e todo mundo interessado. Choveu email no dia seguinte. \u201cBota mais m\u00fasica na Trama Virtual\u201d, e eu pensando \u201cNossa, que legal\u201d. S\u00f3 que a minha banda nessa \u00e9poca era muito louca. \u00c9 uma galera legal que eu adoro at\u00e9 hoje, mas aquilo foi a minha adolesc\u00eancia musical. \u201cN\u00e3o precisa ensaiar. Pega a guitarra e vamos tocar\u201d. S\u00f3 que isso n\u00e3o funciona tanto comigo porque a minha voz \u00e9 fraquinha, baixinha. \u00c9 legal ter instrumentos e equipamentos de som bons. Ent\u00e3o tinha show que a galera nem ouvia a minha voz. Era muita tosqueira. Era divertido pra mim, mas talvez n\u00e3o tanto para o p\u00fablico. Amigos meus diziam: \u201cP\u00f4, Lu, se valoriza. As letras s\u00e3o legais, a gente quer prestar aten\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o ouviu nada hoje\u201d. E eu: \u201cQue nada! Vamos nos divertir! Eu quero tomar cerveja e tocar! N\u00e3o t\u00f4 nem a\u00ed\u201d (risos). Rolava isso. Teve uma vez que n\u00f3s tocamos na Funhouse e foi engra\u00e7ado. Minha banda em Recife era Lulina e os Pininhos. Aqui em S\u00e3o Paulo \u00e9 Lulina e os Causadores. A palavra \u201ccausador\u201d surgiu desse show porque foi o primeiro e \u00fanico que teve uma coisa ruim por parte do p\u00fablico. E isso me destruiu. Se rolasse hoje em dia, eu diria \u201cSobe aqui, vem cantar comigo\u201d. Eu ia brincar. Mas naquela \u00e9poca eu era muito insegura. Era o meu primeiro ano (aqui). E foi o seguinte: a gente ia abrir para uma banda inglesa na Funhouse, e o p\u00fablico queria ver a banda inglesa, obviamente, e n\u00e3o queria ver a gente. J\u00e1 no finzinho do show, um cara que nem estava vendo (segundo meus amigos contaram) colocou a cabe\u00e7a no meio da cortina e gritou: \u201cHorr\u00edvel. Acaba logo isso\u201d. Na hora eu gelei. Sabe quando fica tudo em c\u00e2mera lenta, todo mundo olhando pra sua cara, um esquema bem filme americano? Ent\u00e3o um pessoal que estava na plateia, meus amigos, come\u00e7aram a gritar pro cara: \u201cHorr\u00edvel \u00e9 tua m\u00e3e\u201d. O show parou. Meu guitarrista falou: \u201cVoc\u00ea \u00e9 mais um indiezinho de merda que quer ver uma bandinha de merda da Inglaterra\u201d. Come\u00e7ou a confus\u00e3o geral. Algu\u00e9m brincou: \u201cCausa\u00e7\u00e3o, a gente vai causar\u201d, e ficou: Lulina e os Causadores. Foi a \u00fanica coisa boa que a gente tirou disso. E tirando esse show, esse indie ortodoxo, foi tudo bem (em meus shows) at\u00e9 hoje. Receptividade m\u00e1xima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Eu nunca tive problemas assim&#8230; Teve no Abril Pro Rock, uma vez com o Lara Hanuska, de uns metaleiros ficarem fazendo gestos (obscenos), muita gente (risos). Uma vez em Curitiba&#8230; O Clayton falou alguma doideira no microfone que n\u00e3o caiu bem com o povo, e rolou um stress p\u00f3s-show. Nesse show caiu o amplificador no p\u00e9 do Ryan (Batista), que tocava com a gente, e ele quebrou o p\u00e9. Na \u00faltima m\u00fasica! Teve um show de lan\u00e7amento que uma amiga minha quebrou o p\u00e9&#8230; \u00c9 meio tradi\u00e7\u00e3o (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00eas v\u00eaem esse cen\u00e1rio atual?<\/strong><br \/>\nStela: A caracter\u00edstica do som \u00e9 uma coisa que se destaca bastante nesse momento. Essa coisa dos instrumentos vintage, de pegar aquele tecladinho, tudo isso d\u00e1 uma certa identidade para essa turma. \u00c9 uma coisa de reviver a MPB de uma \u00e9poca legal, com timbres, guitarras. Existe um cuidado com essa coisa dos arranjos que resulta em uma sonoridade legal. As letras s\u00e3o legais. E tem a ver com essa coisa de fazer em casa, de experimentar, de buscar informa\u00e7\u00e3o. As pessoas captaram muita coisa nesses anos todos. As gera\u00e7\u00f5es v\u00e3o se aprimorando, v\u00e3o ouvindo mais&#8230; Talvez essa coisa de baixar m\u00fasicas possa ter contribu\u00eddo para garimpar mais coisas, muito embora quem gosta de m\u00fasica sempre garimpou a vida inteira. Est\u00e1 sempre ali, procurando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O interessante \u00e9 que o pessoal vai atr\u00e1s desses instrumentos j\u00e1 sabendo o som que vai tirar. Antigamente, o pessoal tocava com esses instrumentos porque era o que eles tinham de mais novo. Quando chegava algo mais avan\u00e7ado, deixavam de lado o instrumento velho, trocavam. Agora, quando algu\u00e9m vai atr\u00e1s de um instrumento desses j\u00e1 sabe o som que vai conseguir. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o. <\/strong><br \/>\nStela: Eu particularmente gosto do som dessa \u00e9poca, dos anos 60, 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Al\u00e9m da sonoridade, est\u00e1 rolando uma parada muito mais autoral que faz parecer que todo mundo resolveu assumir quem \u00e9. \u201cN\u00e3o vou seguir fulano, n\u00e3o vou seguir sicrana, vou botar o que eu penso aqui\u201d. \u00c9 assim. Tem muita gente compondo. Isso \u00e9 massa. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea um (cara como o) Catatau, que descreve uma realidade que \u00e9 s\u00f3 dele. O Romulo (Fr\u00f3es), o Bruno (Morais)&#8230; \u00c9 muito diversificado. N\u00e3o \u00e9 como um movimento que junta todo mundo numa mesma sonoridade, por mais que existam esses pontos em comum. \u00c9 um movimento individual. S\u00f3 que com todo mundo contribuindo um pro outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: O trabalho que eu fa\u00e7o n\u00e3o est\u00e1 vinculado a uma cena ou a outra. Eu continuo fazendo a minha hist\u00f3ria e o que eu acredito. O interessante de quando surge um movimento, uma cena, \u00e9 que \u00e9 um momento em que as pessoas se interessam em ouvir o que est\u00e1 acontecendo. Cena \u00e9 o momento em que as pessoas param e percebem que tem muita gente bacana fazendo uma coisa legal. O p\u00fablico come\u00e7a a querer conhecer, os m\u00fasicos come\u00e7am a se ouvir. \u00c9 algo paralelo \u00e0 coisa musical. E nesse contexto \u00e9 interessante estar fazendo parte dessa cena atual, pois mais pessoas podem ficar interessadas, se bem que o som que eu fa\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/arielmartini\/3403443359\/in\/set-72157615949985166\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5145 aligncenter\" title=\"foto4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto4.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Mas os m\u00fasicos da sua banda tocam em outras bandas que est\u00e3o nessa cena.<\/span><\/strong><br \/>\nStela: Sim, e \u00e9 super legal porque vem uma informa\u00e7\u00e3o junta que \u00e9 interessante. Na minha banda j\u00e1 tocou um monte de gente. O (Fernando) Catatau, o Ryan (Batista), o Cidad\u00e3o Instigado inteiro (risos). Eu conhecia o Catatau de termos tocado junto com o DJ Dolores num Abril Pro Rock, e quando voltei pra S\u00e3o Paulo, n\u00e3o tinha banda, ent\u00e3o chamei o Catatau para tocar em uns shows, e ele chamou o Ryan, que chamou o Mauricio Takara. Um tempo depois, o Catatau come\u00e7ou a fazer um monte de shows, e me apresentou o Clayton para tocar. Entrou o Z\u00e9 Guilherme (Mission\u00e1rio Jos\u00e9)&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: \u00c9 dif\u00edcil descrever esse neg\u00f3cio de cena estando inserido, porque a coisa est\u00e1 acontecendo. \u00c9 meio complicado descrever o presente. A gente n\u00e3o sabe onde \u00e9 que vai dar, ent\u00e3o n\u00e3o adianta teorizar muito. Por outro lado, \u00e9 legal algu\u00e9m sentar como o Romulo (Fr\u00f3es) e cobrar essa posi\u00e7\u00e3o porque descreve (o que est\u00e1 acontecendo) e parece que faz a coisa andar, organizar. O pessoal todo est\u00e1 meio solto, fazendo, fazendo. O neg\u00f3cio \u00e9 fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Cada um est\u00e1 fazendo o seu. \u00c9 diferente, por exemplo, de pegar aquela cena do mangue beat, que era uma coisa de conceito, organizada&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas n\u00e3o v\u00eaem unidade nenhuma nessa cena atual?<\/strong><br \/>\nLulina: \u00c9 uma unidade de individuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas podemos tocar \u201cLaura Te Espera Com Uma Arma Na M\u00e3o\u201d e \u201cMeu Pr\u00edncipe\u201d na sequ\u00eancia em um programa de r\u00e1dio, e isso n\u00e3o vai chocar. E depois emendar com uma do Romulo, que vai puxar uma do Bruno, depois uma do Cidad\u00e3o&#8230; <\/strong><br \/>\nStela: \u00c9 essa coisa da unidade musical at\u00e9 por serem as mesmas pessoas que est\u00e3o transitando nos discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Um contribui para o trabalho do outro. O Bruno (Morais) cantou no meu disco, eu cantei no do Romulo&#8230; A unidade \u00e9 mais de parceria do que de teoria. Eu enxergo separado porque \u00e9 como se eu visse uma personalidade em cada um. \u00c0s vezes, vejo o Romulo compondo samba, mas n\u00e3o quero admitir que componho samba. Mas fiz uma parceria com ele. Stela tem uma personalidade (musical) fort\u00edssima. Bruno tamb\u00e9m, mas eles n\u00e3o se chocam. \u00c9 tipo uma feijoada com tudo. Cada um \u00e9 um peda\u00e7o de um neg\u00f3cio contribuindo para um bolo, mas eu enxergo muitos peda\u00e7os&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 que se faz para mostrar essa cena sensacional para o povo? Como voc\u00eas pensam o mercado?<\/strong><br \/>\nLulina: Essa \u00e9 a pergunta da atualidade para qualquer m\u00fasico. \u00c9 a dor de cabe\u00e7a de todo o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Uma cr\u00edtica favor\u00e1vel de disco ajuda, mas isso n\u00e3o traz mercado, n\u00e3o traz p\u00fablico, mas eu n\u00e3o sei explicar por que n\u00e3o toca, por que n\u00e3o se rompe essa barreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Porque n\u00e3o estamos na grande m\u00eddia, TV e r\u00e1dio. Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea nenhum de n\u00f3s na r\u00e1dio bombando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Por mais que todo mundo dessa cena tenha m\u00fasicas acess\u00edveis, que poderiam tocar no r\u00e1dio. Algumas mais acess\u00edveis, outras menos, mas todo mundo tem hit nessa cena paralela. N\u00e3o sei se essa situa\u00e7\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: \u00c9 como o pr\u00f3prio Romulo disse na entrevista dele, que na \u00e9poca da m\u00e3e dele a r\u00e1dio tocava m\u00fasica boa. E isso fez o gosto musical dela. \u00c0s vezes tocava alguma coisa ruim no meio, mas era tanta coisa boa que o ruim se perdia. Agora \u00e9 o contr\u00e1rio. Toca muita coisa ruim e, infelizmente, isso faz o gosto da massa. Basta colocar algo bombando na r\u00e1dio que o pessoal aparece cantando na rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: As gravadoras est\u00e3o falindo, mas eles insistem em lan\u00e7ar coisas ruins. Do outro lado, a cena independente produz coisas boas. Ser\u00e1 que em algum momento vai mudar a cabe\u00e7a desse pessoal que promove a coisa ruim? Acho que n\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil mudar isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Eu sou otimista. Vejo cada vez mais pessoas se interessando pelo novo. Acho que uma parte da massa est\u00e1 cansada. Desde que lancei \u201cCristalina\u201d, o disco foi, foi, foi, e tem gente que escuta e vem falar comigo que eu nunca imaginaria que iria chegar naquela pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: A internet ajuda nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: A internet \u00e9 o nosso veiculo. Foi o que permitiu eu gravar um disco, sen\u00e3o nunca teria gravado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: E \u00e9 o que democratiza e que permite que outras pessoas conhe\u00e7am o seu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Ainda bem que a internet est\u00e1 crescendo, pois \u00e9 isso que est\u00e1 permitindo \u00e0 m\u00fasica chegar a mais pessoas. Mas seria \u00f3timo se houvesse mais espa\u00e7o na m\u00eddia tradicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Talvez tivesse que surgir algu\u00e9m que se destacasse mais dessa cena.<\/strong><br \/>\nLulina: Mas \u00e9 um perigo, pois ao mesmo tempo pode tornar a coisa toda banal. Ent\u00e3o ficamos naquela: seria legal se mais gente escutasse, se a gente conseguisse ganhar dinheiro com m\u00fasica, que existissem convites legais (pra shows), com estrutura legal, mas ser\u00e1 que pra isso acontecer a gente vai ter que se vender? \u00c9 complicado, porque banaliza. \u00c9 muito sutil. \u00c9 um quebra-cabe\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Sucesso instant\u00e2neo&#8230; Esse caso da Mallu \u00e9 mais ou menos isso. Nada contra o trabalho dela, acho legal, mas deram aquela bombada. Foi uma coisa empurrada e meio atrapalhada que talvez fa\u00e7a ela repensar daqui algum tempo e ver que tinha que ter ido com calma. Essa corrida muitas vezes atrapalha o artista. Tudo tem seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Outra coisa que o Romulo falou, e que eu concordo: a gente est\u00e1 feliz com o que tem, porque tem muita gente interessada e muita coisa acontecendo. Se ficar nesse movimentinho de ir aumentando o p\u00fablico, \u00e9 massa. Pelo menos est\u00e1 acontecendo alguma coisa. Agora, se um de n\u00f3s chamasse mais a aten\u00e7\u00e3o&#8230; Estourar seria uma coisa muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Legal ouvir isso porque h\u00e1 muita gente que diz que o independente n\u00e3o quer fazer sucesso. <\/strong><br \/>\nStela: N\u00e3o \u00e9 verdade! Eu n\u00e3o vejo essa postura (de n\u00e3o querer o sucesso) nessa cena porque os discos s\u00e3o muito bem gravados. Existe um cuidado na apresenta\u00e7\u00e3o do trabalho. N\u00e3o existe esse descaso (para com o sucesso). Acho que as pessoas fazem suas m\u00fasicas acreditando no trabalho que est\u00e3o fazendo, e o resultado poderia estar tocando em qualquer lugar. Se eu tivesse uma proposta legal para viver de m\u00fasica, gravar o disco do jeito que quero, e ainda ganhar dinheiro com isso, seria excelente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: Seria maravilhoso. \u00c9 o sonho de todo mundo. Depende de uma grande gravadora ou algu\u00e9m acreditar que a gente possa render alguma coisa. Queremos encontrar o meio do caminho entre ganhar uma grana, ter certa liberdade, mas fazendo o que a gente acredita sem ter que mudar. Porque quando voc\u00ea vai para o mainstream, voc\u00ea cai numa teia que quer te modificar. Infelizmente. Porque tem muita coisa envolvida, grana demais. E o que est\u00e1 faltando na m\u00fasica brasileira \u00e9 personalidade, porque a galera fica t\u00e3o quadrada em gravadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Existem artistas que conseguiram romper essa barreira, mas s\u00e3o pouqu\u00edssimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulina: \u00c9 o medo de apostar no novo. A grana envolvida que faz o cara apostar no que j\u00e1 chama a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stela: Iria ajudar se aparecesse uma banda que, como o Nirvana, estourasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caso do Nirvana, a pr\u00f3pria ind\u00fastria percebeu que havia uma movimenta\u00e7\u00e3o muito maior e que n\u00e3o se esgotava s\u00f3 no modelo Nirvana. O problema aqui \u00e9 que quando surge algo interessante, as gravadoras n\u00e3o conseguem observar o todo que est\u00e1 vindo com aquilo. Eles v\u00e3o atr\u00e1s da f\u00f3rmula. E v\u00e3o procurar v\u00e1rias bandas iguais ao NXZero, v\u00e1rias meninas que toquem como a Mallu. Eles n\u00e3o conseguem observar que de onde saiu a Mallu tem uma Lulina, uma Stela, que n\u00e3o fazem exatamente a mesma coisa que a Mallu, mas s\u00e3o t\u00e3o interessantes quanto.<\/strong><br \/>\nStela: Fica tudo igual. Esse fen\u00f4meno das multid\u00f5es \u00e9 um neg\u00f3cio inacredit\u00e1vel. Dia desses eu estava zapeando e vi o Armandinho, que eu n\u00e3o conhecia. Ele faz um reggae com uma letra horr\u00edvel \u2013 \u201cQuando Deus te desenhou, ele tava namorando\u201d (risos gerais) \u2013 e tinha uma multid\u00e3o gigante cantando! E isso nunca tinha passado perto de mim. Como isso acontece?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Armandinho \u00e9 fruto do fen\u00f4meno Rio Grande do Sul, que \u00e9 aquele mercado de anos e anos que se basta. Ele estourou primeiro ali, depois foi para o pa\u00eds inteiro.<\/strong><br \/>\nStela: E eu nem conhecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi para voc\u00ea, Lulina, sair na capa da Ilustrada?<\/strong><br \/>\nLulina: Foi uma grande ajuda. At\u00e9 antes de lan\u00e7ar o \u201cCristalina\u201d, eu tinha uma vis\u00e3o envergonhada, t\u00edmida (do meu trabalho). Quando lancei, decidi assumir quem eu sou. S\u00f3 o fato de lan\u00e7ar um disco j\u00e1 ajuda as pessoas a observarem voc\u00ea como um artista profissional. A capa da Ilustrada carimbou isso. E a visibilidade foi absurda. Outros ve\u00edculos vieram me procurar depois para entrevista, e a maioria era pautada pelo que saiu na Ilustrada. Muita gente se interessou a partir dessa mat\u00e9ria. Ou seja: ela abriu portas para outras m\u00eddias, mas n\u00e3o para o p\u00fablico. Come\u00e7ou a aparecer show com estrutura e cach\u00eas melhores. N\u00e3o chega a ser uma TV ou uma r\u00e1dio tocando o tempo todo, mas foi muito legal. N\u00e3o sei se aumentou o meu p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 como o r\u00e1dio que a pessoa ouve e t\u00e1 no seu ouvido. Mas, por exemplo, tem o caso do cara do restaurante chin\u00eas em que almo\u00e7o. Ele chegou um dia pra mim e disse: \u201cLuciana, parab\u00e9ns. Eu vi a sua mat\u00e9ria da Lulil\u00e2ndia\u201d (risos). Ele n\u00e3o sabia o meu nome, soube pela mat\u00e9ria, mas n\u00e3o sei se ele foi atr\u00e1s (das m\u00fasicas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo porque pra gente \u00e9 f\u00e1cil ir atr\u00e1s das m\u00fasicas, mas se ele quiser ouvir o disco, ser\u00e1 que ele vai achar?<\/strong><br \/>\nStela: N\u00e3o sei se vai ouvir, mas o nome fica na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pode ser, mas o pessoal da internet j\u00e1 baixou, ouviu no My Space, conhece o disco e canta no show.<\/strong><br \/>\nLulina: \u00c9 muito legal essa sensa\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m cantar (a sua m\u00fasica). Fico vendo alguns artistas, e sempre chega aquela hora em que eles dizem: \u201cVoc\u00eas\u201d. E o p\u00fablico canta. Nunca vou ter coragem de fazer uma coisa dessas. Imagina! \u201cVoc\u00eas\u201d. E fica todo mundo mudo (risos). Mas no \u00faltimo show do Sesc Pompeia, pela primeira vez ouvi algumas pessoas cantando, e pensei: \u201c\u00c9 a minha chance\u201d (risos). E fiz isso em \u201cMeu Pr\u00edncipe\u201d. E funcionou! Quase chorei (risos). Os meninos (da banda) at\u00e9 brincaram comigo: \u201cOlha, voc\u00ea deu a deixa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00eas pensam a carreira?<\/strong><br \/>\nStela: Eu gravo disco porque gosto, ent\u00e3o vou gravar sempre. Ali\u00e1s, disco f\u00edsico eu n\u00e3o sei se vou fazer mais. Tenho muito coisa para mostrar, e a gente n\u00e3o p\u00e1ra de ter ideias e projetos. O Luciano \u00e9 mais doido ainda. A gente nem bem acabou um disco e ele j\u00e1 est\u00e1 pensando no outro. Acho que a tend\u00eancia \u00e9 gravarmos mais em casa (nota do editor: os lan\u00e7amentos mais recentes de Stela foram disponibilizados para downlad gratuito no <a href=\"http:\/\/www.stelacampos.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">site<\/a> da compositora. Trata-se de um EP com cinco m\u00fasicas de Daniel Johnston e o single de &#8220;Laura Te Espera Com Uma Arma Na M\u00e3o&#8221;, que traz a cover de &#8220;Chico Buarque Song&#8221;, do Fellini, como faixa b\u00f4nus).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea pensa de carreira, Lulina? Os discos caseiros v\u00e3o continuar?<\/strong><br \/>\nLulina: V\u00e3o. Aquilo ali \u00e9 o meu esp\u00edrito. Demorei muito tempo para pensar a minha vida como carreira. Eu n\u00e3o queria assumir antes do \u201cCristalina\u201d o quanto isso era importante pra mim. No dia do show do lan\u00e7amento do disco, olhei no camarim, tanta gente envolvida acreditando nesse neg\u00f3cio, que chorei. Ent\u00e3o comecei a ver como carreira, como eu tinha que dar valor a uma coisa que me preenche de uma forma absurda, que \u00e9 a coisa mais importante da minha vida j\u00e1 h\u00e1 muito tempo, e eu n\u00e3o queria enxergar. Por\u00e9m, emocionalmente assumi como carreira, mas tento n\u00e3o planejar muito at\u00e9 porque cheguei at\u00e9 aqui sem planejamento. Acho que esse foi o maior ensinamento que tive: fazer o que acredito e ver o que acontece. Ent\u00e3o, pra mim nunca vai existir um disco ruim, porque ele \u00e9 aquilo que estou pensando naquele momento. Se as pessoas n\u00e3o se identificarem, que pena. Mas \u00e9 legal porque voc\u00ea n\u00e3o se censura e se permite experimentar. Fica sem medo. Pra mim j\u00e1 foi uma grande surpresa pessoas se identificarem e rirem com certas letras, que eu achava que eram piada interna, e me surpreenderam. J\u00e1 os meninos da banda n\u00e3o querem que eu fa\u00e7a mais os (discos) caseiros. \u201cN\u00e3o esconde o jogo n\u00e3o. Joga na roda que a gente quer participar de tudo\u201d. Os caseiros s\u00e3o, na verdade, uma forma de testar (as m\u00fasicas), inclusive com os rapazes da banda. Leo \u00e9 o cara que eu tenho mais intimidade, e \u00e9 o primeiro para quem eu mostro. \u201cEscuta a\u00ed. Se for uma merda me fala que eu j\u00e1 jogo fora\u201d. E eu respeito e escuto muito ele. Ent\u00e3o tem m\u00fasicas que ele vira e fala: \u201cIsso \u00e9 muito bom\u201d. E tem outras que n\u00e3o. Mas agora quero deixar a banda tomar conta. J\u00e1 tenho m\u00fasicas in\u00e9ditas para um pr\u00f3ximo disco, que n\u00e3o vai ser s\u00f3 de in\u00e9ditas porque tem muita coisa dos outros discos que eu queria dar uma chance. Sucesso? Tem muita gente que admiro que n\u00e3o fez tanto sucesso. Velvet Underground, Tom Z\u00e9&#8230; Se for igual a eles, j\u00e1 est\u00e1 \u00f3timo (risos).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.lulilandia.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>http:\/\/www.lulilandia.com.br\/<\/strong><\/a><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.stelacampos.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>http:\/\/www.stelacampos.com.br\/<\/strong><\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/arielmartini\/4387695831\/in\/set-72157615949976534\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5146 aligncenter\" title=\"foto5\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto5.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto5.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/foto5-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina o blog <a href=\"..\/..\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><br \/>\n&#8211; Tiago Agostini \u00e9 jornalista, colaborador da Rolling Stone e assina o blog <a href=\"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/tiagoagostini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Day in The Life<\/a><br \/>\n&#8211; Marco Tomazzoni \u00e9 jornalista e escreve no <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/cultura\/p1237569155697.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">iG Cultura<\/a><br \/>\n&#8211; Ariel Martini \u00e9 fot\u00f3grafo. Mais fotos aqui <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/arielmartini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.flickr.com\/photos\/arielmartini\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Entrevist\u00e3o do m\u00eas de abril: Romulo Fr\u00f3es (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/01\/entrevista-do-mes-romulo-froes\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevist\u00e3o com Wado, por Marcelo Costa (<a href=\"..\/2009\/11\/03\/entrevista-wado\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevist\u00e3o do m\u00eas de fevereiro: Nevilton e Heitor (Banda Gentileza) (<a href=\"..\/2010\/02\/21\/entrevista-do-mes-heitor-e-nevilton\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa e Tiago Agostini\nDuas personagens da m\u00fasica brasileira do s\u00e9culo XXI derrubam mitos que algumas pessoas querem vender como verdade.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/13\/entrevistao-lulina-e-stela-campos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6325,281],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5156"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5156"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69801,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5156\/revisions\/69801"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}