{"id":51547,"date":"2019-05-08T00:04:19","date_gmt":"2019-05-08T03:04:19","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=51547"},"modified":"2019-06-09T15:13:28","modified_gmt":"2019-06-09T18:13:28","slug":"entrevista-los-pajaritos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/05\/08\/entrevista-los-pajaritos\/","title":{"rendered":"Entrevista: Los Pajaritos"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Habitando um universo um tanto quanto fant\u00e1stico, a estreia do duo Los Pajaritos \u00e9 um trabalho que une MPB, jazz, m\u00fasica erudita e outras vertigens em prol de uma sonoridade on\u00edrica, que caminha na corda bamba entre o pop e o experimental. Curtinho, com pouco mais de 20 minutos, o disco \u201cLos Pajaritos\u201d (2018) \u00e9 o casamento perfeito e surpreendente entre a poesia e o canto. Como disse o poeta Augusto de Campos este disco \u00e9 \u201cum presente ao pa\u00eds do passado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O duo Los Pajaritos \u00e9 resultado da uni\u00e3o de dois Antonios: Farinaci e Sobral. Farinaci \u00e9 m\u00fasico e produtor e j\u00e1 colaborou com artistas como Suzana Salles, Rodolpho Parigi e Stereo Total; Sobral \u00e9 artista visual e escritor, diretor da resid\u00eancia S\u00e3o Jo\u00e3o, em S\u00e3o Jos\u00e9 do Vale do Rio Preto (RJ), e da editora Deep. Juntos, eles trabalharam durante tr\u00eas anos na produ\u00e7\u00e3o do disco autointitulado de Los Pajaritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/4Vl9huTFSZc5opoxxVy6uJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Los Pajaritos<\/a>\u201d, o disco, est\u00e1 sendo editado de forma independente em vinil e o duo estrear\u00e1 seu novo show em S\u00e3o Paulo, dia 31 de maio, no Blue Note. Antes disso, os Antonios j\u00e1 se apresentaram de forma pocket na Casa Plana e foi nessa noite que batemos um papo com a dupla sobre os mais variados temas: desde a produ\u00e7\u00e3o do disco at\u00e9 a composi\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es, passando pelo fetiche do vinil, a poesia e a m\u00fasica brasileira. Confira o papo abaixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-51549\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Los-Pajaritos-vinil.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"663\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Los-Pajaritos-vinil.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Los-Pajaritos-vinil-300x265.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/strong><br \/>\n<strong>Voc\u00eas j\u00e1 possuem diferentes e longas carreiras. Em que momento sentiram a necessidade e decidiram gravar um disco juntos?<\/strong><br \/>\nAntonio Farinaci: Foi acontecendo, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antonio Sobral: Aconteceu bastante naturalmente, pois no nosso primeiro encontro a gente ficou cantando o dia todo sem parar e da\u00ed aconteceu uma parceria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: H\u00e1 tr\u00eas anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Eu estava come\u00e7ando a compor, ele j\u00e1 tem todo um trabalho na m\u00fasica. Eu sou artista pl\u00e1stico, escritor, tenho um outro caminho. E a gente come\u00e7ou a compor juntos, a fazer as can\u00e7\u00f5es juntos e a gente ficou tr\u00eas anos. Da\u00ed foi sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Foi sozinho e uma hora a gente percebeu que tinha um disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: A gente come\u00e7ou a trabalhar para o disco, ficamos tr\u00eas anos compondo e gravando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: A gente ia compondo e gravando meio despretensiosamente, mas no fundo da mente, havia sempre aquela ideia de algo, se n\u00e3o a gente n\u00e3o ia gravando. O nosso inconsciente de alguma maneira estava querendo fazer esse disco, mas uma hora a gente olhou e falou assim: \u201cnossa, tem 10 m\u00fasicas e daria para fazer um disco\u201d e a\u00ed a gente come\u00e7ou a de fato viabilizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: \u00c9, eu acho que partiu de um ambiente, de uma atmosfera, que era o que a gente vivia juntos: se encontrando, compartilhando m\u00fasica, literatura e esse clima de tranquilidade, de dar risada, ent\u00e3o acho que esse clima foi o que moldou o disco. A gente viu a necessidade de ele existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E em que momento voc\u00eas decidiram pelo nome Los Pajaritos?<\/strong><br \/>\nFarinaci: Eu n\u00e3o lembro, mas foi ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Eu n\u00e3o sei quando foi que isso aconteceu, a gente nunca conversou a respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: N\u00e3o, sabe o que \u00e9, tinha uma fita cassete de um coro do seu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: N\u00e3o era, voc\u00ea que achou essa K7! Os cantos antonianos, \u201cCanti Antonioni\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Que \u00e9 um coral de, sei l\u00e1, da It\u00e1lia, de n\u00e3o sei de onde, que eles cantam c\u00e2nticos de louvor a Santo Ant\u00f4nio e era uma fita que seu pai tinha te dado e da\u00ed a gente ouviu. N\u00e3o tivemos coragem de abrir a fita, mas a gente achou no YouTube, ouviu e s\u00e3o uns cantos em louvor de Santo Ant\u00f4nio, mas a gente achou que \u201cCanti Antonioni\u201d ia ser um nome muito pretensioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Mas como chegou nos Pajaritos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: N\u00e3o sei. Foi nesse dia que a gente estava pensando qual ia ser o nome e da\u00ed era uma coisa mais comprida. O Antonio falou \u201cLos Pajaritos Cantantes de n\u00e3o sei o que\u201d e eu falei \u201cIh, n\u00e3o, muito comprido, (que tal s\u00f3) Los Pajaritos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: E pronto, a gente n\u00e3o ficou debatendo, foi tipo ok.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Comecei a escrever Los Pajaritos nos IDs das m\u00fasicas. Para a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o dos arquivos, e como j\u00e1 estava, continuei usando esse nome. Nunca discutimos se ia ficar isso ou n\u00e3o e acabou ficando. E como tinham duas m\u00fasicas em espanhol no nosso repert\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Tem isso. A gente curte cantar can\u00e7\u00f5es francesas, italianas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Eu tenho uma hist\u00f3ria com o espanhol, fui meio alfabetizado em espanhol e, por coincid\u00eancia, a primeira m\u00fasica que a gente fez era em espanhol, que \u00e9 \u201cMovimiento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Comecei a compor ela na Bol\u00edvia e a gente continuou compondo juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como funcionava a composi\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nFarinaci: Ele mora numa fazenda no interior do Rio de Janeiro e eu moro em S\u00e3o Paulo. Quando ele vinha pra c\u00e1 a gente ficava intensivamente, a gente se internava e ficava em casa \u2013 eu tenho um est\u00fadio em casa \u2013 e ficava fazendo coisas l\u00e1, gravando, gravando, gravando e da\u00ed ele ia embora, e eu ficava produzindo aquilo, pensando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Pensando em muitos arranjos, convidando m\u00fasicos para gravar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Eu chamava pessoas para fazerem participa\u00e7\u00f5es quando eu imaginava alguma coisa diferente ou a mais no arranjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco, ali\u00e1s, tem muitos instrumentos.<\/strong><br \/>\nFarinaci: Tem piano el\u00e9trico, viol\u00e3o, fagote, bateria, viola, violino e tem teclados em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Sim, teclados sintetizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Ah, tem teremim! Em \u201cMovimiento\u201d, ali\u00e1s, tem teremim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Acho que o processo de composi\u00e7\u00e3o reflete um pouco o nosso background, j\u00e1 que a maioria das letras eu que escrevi, e na verdade toda a parte de arranjo, de musicaliza\u00e7\u00e3o e de composi\u00e7\u00e3o a partir das letras, essa parte ele que fez. A coisa da letra e da m\u00fasica d\u00e1 pra ver que veio mais de mim e a m\u00fasica mais dele, embora tudo tenha sido feito juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00eas tamb\u00e9m trocavam muitas refer\u00eancias dessas duas coisas, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSobral: Sim! Inclusive o Antonio trazia refer\u00eancias, a gente discutia. E eu sou apaixonado por m\u00fasica e tamb\u00e9m tenho as minhas predile\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 um pouco dif\u00edcil, porque o Antonio \u00e9 r\u00edgido, estrito e eu sou uma coisa\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Como assim?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: \u2026\u201cvamos improvisar\u201d e ele \u201cn\u00e3o!\u201d, enfim, mas acho que isso tamb\u00e9m gera um embate estimulante, das duas abordagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Mas eu n\u00e3o fiz nada a contragosto, t\u00e1? Para deixar bem claro. [Risos]. N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas at\u00e9 constru\u00edram uma playlist que tem um pouco das refer\u00eancias.<\/strong><br \/>\nFarinaci: Ah, voc\u00ea ouviu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ouvi! E est\u00e1 no Spotify, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nFarinaci: Sim, est\u00e1 no Spotify.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Da\u00ed voc\u00ea v\u00ea esse samba ecl\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Sim, ali tem muitas refer\u00eancias que a gente ouve e \u00e9 superengra\u00e7ado, pois coisas que eu \u00e0s vezes mostrava pro Antonio achando que era uma coisa super obscura que s\u00f3 eu conhecia e a\u00ed ele falava \u201cai, adoro fulano de tal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Como Moondog, que essa semana a gente estava conversando. Eu \u201cah, amo Moondog, estou baixando\u201d, e ele \u201cah, est\u00e1 na nossa playlist\u201d, que ele que tinha feito. Esses cruzamentos improv\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: H\u00e1 muitos cruzamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Tem influ\u00eancia de m\u00fasica experimental, tem muita influ\u00eancia de m\u00fasica popular, para lugares do jazz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: M\u00fasica cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: M\u00fasica cl\u00e1ssica, que \u00e9 um background dele. Ele \u00e9 cantor l\u00edrico, n\u00e9? Antonio j\u00e1 cantou na \u00f3pera de Manaus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: N\u00e3o! De Manaus n\u00e3o, de Bel\u00e9m! Ah, era um festival, n\u00e3o vale.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Ele tem toda uma trajet\u00f3ria dentro da m\u00fasica. E tamb\u00e9m do estudo da m\u00fasica cl\u00e1ssica, da execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam uma coisa muito de poesia no disco, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFarinaci: Tem, que \u00e9 a parte dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E as m\u00fasicas tamb\u00e9m tem algo que \u00e9 entre o canto e a fala.<\/strong><br \/>\nFarinaci: Ah, tem, que \u00e9 uma coisa de canto-fala. \u00c9 muito engra\u00e7ado isso: quando algu\u00e9m de um grupo considerado m\u00fasica experimental faz uma coisa com canto falado, as pessoas falam assim \u201cai, olha, tem canto falado, \u00e9 experimental\u201d, sendo que o tempo inteiro as pessoas est\u00e3o fazendo um canto que \u00e9 meio falado em qualquer g\u00eanero e ningu\u00e9m fica apontando e achando estranho. Ent\u00e3o eu acho que essa intersec\u00e7\u00e3o do canto com a fala \u00e9 uma coisa que est\u00e1 totalmente desvendada, utilizada. Acho que houve uma \u00e9poca em que isso causava uma estranheza muito maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Sim, mas acho que, para al\u00e9m disso, o fato de a gente ter escolhido, obviamente n\u00e3o foi um modismo, e sim o universo do disco, que \u00e9 um universo muito imag\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: E um universo que fala com a poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Sim, que fala com a poesia, ent\u00e3o tem muitas descri\u00e7\u00f5es de imagens, um aspecto surrealista, enfim. Acho que o lugar da palavra cantada, da palavra lida no disco \u00e9 esse, de trazer as imagens, de trazer tamb\u00e9m ao p\u00e9 do ouvido, n\u00e9, acho que foi o Daniel Jablonksy que falou isso na resenha dele sobre o disco, que \u00e9 uma coisa muito legal para a din\u00e2mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Mas \u00e9 engra\u00e7ado, porque na hora que est\u00e1 compondo muitas coisas ou fazendo arranjos, voc\u00ea n\u00e3o pensa conscientemente. \u00c0s vezes t\u00eam decis\u00f5es que voc\u00ea toma ao fazer um arranjo ou a falar \u201cn\u00e3o, a linha mel\u00f3dica n\u00e3o vai por aqui\u201d, voc\u00ea toma decis\u00f5es ali que s\u00e3o, em certa medida, deliberadas, mas em certa medida elas v\u00eam de um lugar dentro de voc\u00ea que \u00e9 a sua hist\u00f3ria com a m\u00fasica. Ent\u00e3o voc\u00ea vai resolver as coisas a partir daquele grande repert\u00f3rio passivo de m\u00fasica que voc\u00ea tem ali e que vai se manifestar no que voc\u00ea est\u00e1 fazendo. Ent\u00e3o, quando ele diz que eu sou r\u00edgido: eu detesto m\u00fasica que n\u00e3o tem uma\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Que n\u00e3o \u00e9 consciente de sua estrutura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: \u00c9, em que \u00e9 s\u00f3 uma melodia flutuando sobre uma harmonia que podia ir para qualquer lado, sabe? Fico um pouco chateado [risos] com esse tipo de composi\u00e7\u00e3o. E acho que isso \u00e9 uma coisa que n\u00f3s dois t\u00ednhamos, de quando as melodias estavam indo para um lado que parecia que\u2026 a gente falava assim \u201cn\u00e3o! N\u00e3o pode ir para esse lado, \u00e9 muito \u00f3bvio\u201d. A gente tomava decis\u00f5es deliberadas de fazer coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Tem composi\u00e7\u00e3o serialista, inclusive, a\u00ed ele vai explicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: \u00c9, tem uma m\u00fasica que o arranjo e a melodia foram feitas em cima de uma s\u00e9rie criada a partir dos fonemas que t\u00eam no poema e, enfim, mas que \u00e9 um tipo de m\u00fasica tamb\u00e9m que sempre me fascinou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Voc\u00ea n\u00e3o explicou direito o que \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: N\u00e3o, mas \u00e9 uma coisa chata isso, para os leitores, ningu\u00e9m quer saber. Enfim, \u00e9 uma m\u00fasica que a composi\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de ser baseada em acordes e numa melodia bonita, \u00e9 baseada numa s\u00e9rie de notas criadas arbitrariamente que voc\u00ea define uma regra para voc\u00ea criar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Uma s\u00edlaba corresponde a uma nota espec\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Por isso criei uma regra que era a partir dos fonemas do poema e coisas que derivavam a partir da poesia. E quando o Augusto de Campos ouviu, ele disse: \u201cEssa m\u00fasica voc\u00eas fizeram pra mim\u201d. E eu falei \u201cfoi, Augusto, foi pra voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse sentido do que as can\u00e7\u00f5es t\u00eam, \u201cC\u00f3smicas\u201d, por exemplo, tem muitas coisas. A faixa vai para muitos lados e voc\u00ea imagina milh\u00f5es de coisas.<\/strong><br \/>\nFarinaci: Ent\u00e3o, \u201cC\u00f3smica\u201d foi uma m\u00fasica que ele chegou em casa com um monte de coisas anotadas no guardanapo, de conversas que ele ouviu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Balc\u00e3o de bar. Eu estava esperando a minha cerveja, olha o que eu ouvi: o cara do meu lado confessando para o barman que ele era de uma origem extraterrestre, no que o barman aproveitou a deixa para dizer que ele tamb\u00e9m e eles come\u00e7aram a trocar confid\u00eancias que eles eram, sei l\u00e1, reptilianos, n\u00e3o sei o que, come\u00e7aram a falar. Eu ouvindo aquilo e anotando, ta-ta-ta no guardanapo, assim, \u201ccara, n\u00e3o t\u00f4 acreditando\u201d. A\u00ed eu falei \u201c\u00f3, Antonio, toma\u201d. E ele comp\u00f4s a \u201cC\u00f3smicas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Essa \u00e9, na verdade, a \u00fanica letra minha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Essa \u00e9 a \u00fanica, as outras letras s\u00e3o minhas, menos uma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que \u00e9 um cover.<\/strong><br \/>\nFarinaci: Isso, \u00e9 um cover.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: A vers\u00e3o [de \u201cAmor de Primavera\u201d] do Tanguito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00eas chegaram a essa vers\u00e3o do Tanguito?<\/strong><br \/>\nSobral: Eu acho que \u00e9 legal por que ela \u00e9 muito diferente da do Tanguito, no sentido de que ele \u00e9 muito para fora e a gente fez uma coisa com muito ar na voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Pensativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: Uma coisa que voc\u00ea gosta de falar em impressionismo musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: \u00c9 bem impressionista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: A gente quis tamb\u00e9m trazer, em alguns momentos, esse ambiente difuso, dilu\u00eddo, impressionista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: \u00c9 que a m\u00fasica brasileira \u00e9 muita engra\u00e7ada \u2013 o jazz tem isso tamb\u00e9m \u2013 mas a m\u00fasica brasileira, via Tom Jobim, via aquele tipo de harmoniza\u00e7\u00f5es, deve muito ao impressionismo franc\u00eas, \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica francesa da \u00e9poca do impressionismo, s\u00e3o acordes que tem disson\u00e2ncias, que voc\u00ea ali. O Tom Jobim tinha essa forma\u00e7\u00e3o e ele come\u00e7ou a usar isso. Duke Ellington tamb\u00e9m faz isso, ele pega as harmonias que voc\u00ea ouve e fala \u201cnossa, isso aqui \u00e9 [Claude] Debussy\u201d e \u00e9 verdade, n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio, s\u00e3o pessoas que tinham contato com esse tipo de m\u00fasica, gostavam desse tipo de m\u00fasica e que levaram isso adiante, n\u00e3o s\u00f3 copiaram e imitaram. As harmonias do Duke Ellington, pelo amor de deus, aquilo ali \u00e9 g\u00eanio, as melodias, as harmonias n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 um campo harm\u00f4nico ali atr\u00e1s, as harmonias elas s\u00f3 poderiam ser aquele acorde, com aquela melodia, aquele acorde s\u00f3 pode ser aquele e isso \u00e9 genial. Mas isso \u00e9 um procedimento que, acho, vem muito \u2013 no meu repert\u00f3rio \u2013 da m\u00fasica cl\u00e1ssica, porque na m\u00fasica cl\u00e1ssica \u00e9 dif\u00edcil ter um grande compositor em que a harmonia \u00e9 casual, n\u00e3o \u00e9 casual, todas as notas soando simultaneamente, elas t\u00eam um sentido, e acho que na m\u00fasica brasileira a gente tem um ouvido que foi formado muito pelo tipo de m\u00fasica que o Tom Jobim fazia, voc\u00ea ouve as harmonias que ele faz no piano e a gente meio que toma isso de boa. A gente tem um ouvido que j\u00e1 ficou acostumado com isso, a gente n\u00e3o acha isso estranho, quando voc\u00ea toca isso para pessoas que n\u00e3o foram expostas a esse tipo de m\u00fasica as pessoas acham estranh\u00edssimo voc\u00ea fazer esse acorde. Eu tinha um amigo em Londres que eu ficava tocando muito viol\u00e3o, assim de brincadeira, em casa, fazendo uns acordes, ele ficava assim \u201cnossa, me ensina a fazer esse acorde, que acorde \u00e9 esse?\u201d, eu falava assim \u201c\u00e9 s\u00f3 um d\u00f3 com 7\u00aa maior e 9\u00aa\u201d, ele falou assim \u201cn\u00e3o, pelo amor de deus, o que \u00e9 isso?\u201d, essas resson\u00e2ncias ao mesmo tempo. Porque a m\u00fasica popular brasileira absorveu isso e tornou isso uma coisa que a gente n\u00e3o d\u00e1 muito por isso, a gente n\u00e3o d\u00e1 muito valor a isso. E \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o que foi feita por esses caras, que formaram o nosso ouvido musical, que agora est\u00e1 tudo sendo destru\u00eddo de novo, mas\u2026 [risos]. Agora toda essa carpintaria ser\u00e1 destru\u00edda, mas tudo bem, a gente reconstr\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas lan\u00e7aram o disco em digital e agora optaram por lan\u00e7ar o trabalho tamb\u00e9m em vinil, qual a raz\u00e3o dessa escolha?<\/strong><br \/>\nFarinaci: Primeiro \u00e9 que a gente queria ter uma coisa f\u00edsica, pois n\u00e3o tem nada como uma capa de vinil, n\u00e3o existe. Como era aquela frase da Gilda? \u201cThere never was a woman like Gilda!\u201d, ent\u00e3o, \u201cthere never was a cover art like a cover art for a vinyl\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: \u201cThere never was a woman like Gilda!\u201d j\u00e1 deu. [risos]. N\u00e3o, mas al\u00e9m disso a longevidade do material gravado em disco, \u00e9 das m\u00eddias anal\u00f3gicas a que melhor sobrevive; a qualidade do som.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: \u00c9 que assim, uma coisa tem que ser dita. A qualidade do som do vinil \u00e9 pior do que a qualidade do digital \u2013 n\u00e3o a qualidade do digital do Spotify, porque ali tem uma compress\u00e3o que destr\u00f3i tudo, mas um arquivo digital 100% sem compress\u00e3o, ele tem possibilidades sonoras que o vinil n\u00e3o tem, por uma quest\u00e3o f\u00edsica. E voc\u00ea pode falar com qualquer aficionado de vinil que seja honesto que ele vai concordar comigo. Pergunta para o Arthur Joly, ele \u00e9 o cara que mais entende de vinil no Brasil. O Joly vai te dizer isso, tanto \u00e9 que a hora que voc\u00ea vai masterizar, tem coisas que voc\u00ea n\u00e3o pode fazer, tem coisas que voc\u00ea tem que limitar, porque sen\u00e3o pula a agulha, porque o efeito que voc\u00ea est\u00e1 achando que vai ter n\u00e3o vai rolar, ent\u00e3o assim, o vinil tem limita\u00e7\u00f5es; agora, o vinil tem um charme, uma textura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: \u00c9 muito bom, muito gostoso o som do vinil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: O vinil tem uma outra coisa, \u00e9 um fetiche.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a capa ficou linda, quem \u00e9 a respons\u00e1vel pela capa?<\/strong><br \/>\nFarinaci: Flora Rebollo, maravilhosa, que fez o desenho. Nossa amiga.<\/p>\n<p>Sobral: Ela \u00e9 uma grande artista e foi muito legal, por que ela mandou um monte de desenhos para a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Farinaci: Ela era muito amiga do Antonio, ele que me apresentou para ela e hoje ela gosta mais de mim do que dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobral: H\u00e1 controv\u00e9rsias! E o design do disco foi feito pela Marina Oru\u00ea. Ela pegou um detalhe do desenho da Flora, a\u00ed aquela tipografia g\u00f3tica fui eu que sugeri, enfim, a gente foi fazendo meio juntos, mas com o design gr\u00e1fico da Marina Noru\u00ea a partir dos desenhos da Flora Rebou\u00e7as.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Los pajaritos - Los pajaritos (\u00e1lbum completo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZGnM7leohFU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>&nbsp;\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. 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