{"id":51401,"date":"2019-04-25T14:21:36","date_gmt":"2019-04-25T17:21:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=51401"},"modified":"2019-05-31T11:19:21","modified_gmt":"2019-05-31T14:19:21","slug":"entrevista-vitor-pirralho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/25\/entrevista-vitor-pirralho\/","title":{"rendered":"Entrevista: Vitor Pirralho"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<\/strong><strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/zambi.ananda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ananda Zambi<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/VitorPirralhoOficial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vitor Pirralho<\/a> \u00e9 realmente um menino danado. O rapper e professor de literatura que d\u00e1 aula a alunos do ensino m\u00e9dio chegou a catar o e-mail da Ellen Ol\u00e9ria em uma mensagem encaminhada e enviar uma mensagem privada, al\u00e9m de deixar uma demo do seu trabalho com a produ\u00e7\u00e3o do Pedro Lu\u00eds depois de um show do Monobloco. O resultado desses atos \u2013 um tanto corajosos \u2013 foi a concretiza\u00e7\u00e3o de duas das sete parcerias presentes no seu terceiro disco, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/5OmKIcngzZbPlcGL9pQSeS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Inven\u00e7\u00e3o \u00e9 a M\u00e3e das Necessidades<\/a>\u201d (2019) &#8211; download gratuito em <a href=\"http:\/\/www.vitorpi.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.vitorpi.com.br<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meio alagoano meio pernambucano, Pirralho \u2013 que tem esse apelido por que era menor que seus colegas na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia \u2013 come\u00e7ou sua carreira quando ganhou um edital estadual, o Alagoas em Cena, em 2003, cujo pr\u00eamio era a grava\u00e7\u00e3o de um disco. Por\u00e9m, por quest\u00f5es burocr\u00e1ticas, o primeiro CD de Vitor Pirralho e U.N.I.D.A.D.E., o \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/5kuJxPysgwrRVOTVOS65mV\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Devora\u00e7\u00e3o Cr\u00edtica do Legado Universal<\/a>\u201d, s\u00f3 foi lan\u00e7ado em 2008. Em 2009 saiu seu segundo disco, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/4YhGvplf1YjeKv67UuduQI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pau-Brasil<\/a>\u201d, viabilizado atrav\u00e9s do Projeto Pixinguinha.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-51403\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/vitorpirralho2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/vitorpirralho2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/vitorpirralho2-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/vitorpirralho2-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi nesse mesmo 2009 que aconteceu o momento mais importante da carreira do rapper at\u00e9 agora: sua aproxima\u00e7\u00e3o com ningu\u00e9m mais ningu\u00e9m menos que Ney Matogrosso \u2013 acontecimento que Pirralho chama de \u201csorte\u201d, j\u00e1 que ela se deu quando o ex-Secos e Molhados estava em Macei\u00f3 e, por acaso, leu o caderno cultural de um jornal local que fizera uma mat\u00e9ria sobre o rapper. Ney se interessou pelo trabalho de Pirralho e escolheu a m\u00fasica \u201cTupi Fus\u00e3o\u201d para interpretar na sua turn\u00ea \u201cAtento aos Sinais\u201d e gravar em DVD, em 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho de Vitor Pirralho tem forte influ\u00eancia do Movimento Antropof\u00e1gico, manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica modernista que consistia em devorar, metaforicamente, o inimigo ou o estrangeiro e ressignificar aquilo em uma cultura pr\u00f3pria. Consequentemente, o cantor tamb\u00e9m aborda frequentemente a quest\u00e3o ind\u00edgena. Em janeiro deste ano, o rapper lan\u00e7ou o clipe de \u201cRumos e Rumores\u201d, que conta com a participa\u00e7\u00e3o do Ney no papel de um paj\u00e9 que recebe uma garrafa com um pen-drive dentro contendo v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es e avisos sobre o futuro, representado pelo pr\u00f3prio Pirralho. \u201cA Inven\u00e7\u00e3o \u00e9 a M\u00e3e das Necessidades\u201d foi lan\u00e7ado em fevereiro e tamb\u00e9m conta com as participa\u00e7\u00f5es de Zeca Baleiro, Tonho Crocco (Ultramen), Boby CH e Luiz de Assis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, Vitor Pirralho fala com detalhes sobre sua rela\u00e7\u00e3o com Ney Matogrosso (&#8220;\u00c9 um cara incr\u00edvel, fant\u00e1stico, sens\u00edvel e muito politizado&#8221;), explica o conceito do novo \u00e1lbum (&#8220;Sempre gostei desse discurso de pegar a pop art, a world music e consumir aquilo n\u00e3o com subservi\u00eancia, mas pra se tornar mais forte&#8221;), comenta sobre o rap nacional e nordestino (&#8220;O pessoal est\u00e1 se movimentando no Nordeste, tudo gente nova de 20 e poucos anos&#8221;), desabafa sobre conciliar a vida de m\u00fasico com a de professor de literatura e define Chico Science como um antrop\u00f3fago. Confira:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gowWMn6vUCE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como come\u00e7ou sua rela\u00e7\u00e3o com o Ney Matogrosso?<\/strong><br \/>\nFoi sorte, a verdade \u00e9 essa. Em 2009 \u2013 v\u00ea como as coisas s\u00e3o mais antigas at\u00e9 chegar nesse disco novo \u2013 ele veio fazer um show aqui (em Macei\u00f3). Coincidentemente, a gente tinha rec\u00e9m lan\u00e7ado o disco \u201cPau-Brasil\u201d, nosso segundo disco, e o jornal Gazeta de Alagoas, o principal daqui, queria fazer uma mat\u00e9ria de capa do Caderno B, o caderno cultural, sobre o lan\u00e7amento desse disco, j\u00e1 que ele foi viabilizado por causa de um pr\u00eamio nacional bastante conhecido, o Projeto Pixinguinha. A coincid\u00eancia foi que o show do Ney Matogrosso foi numa sexta e no s\u00e1bado saiu essa mat\u00e9ria, e no hotel em que ele estava hospedado aqui, o pessoal deixou no quarto dos h\u00f3spedes o jornal pra eles lerem. Ney foi direto no caderno cultural e estava l\u00e1 minha cara. Ele se interessou porque dizia que era \u201crap antropof\u00e1gico\u201d e que o discurso das letras era no eu-l\u00edrico do \u00edndio, ou seja, a primeira pessoa era como \u00edndio. Ele leu aquilo comigo dizendo sobre o disco ser conceitual, baseado em Oswald de Andrade, nessa coisa da antropofagia da cultura ind\u00edgena, devorar o inimigo para se tornar mais forte, a vis\u00e3o do disco tendo essa vis\u00e3o da primeira-pessoa do \u00edndio. Ele disse: \u201cP\u00f4, todo rap que eu vi at\u00e9 hoje, a primeira pessoa \u00e9 o descendente africano, do africano escravizado\u201d. O rap tem muito essa coisa n\u00e9, da cultura negra, do sofrimento do negro e tal, que tamb\u00e9m \u00e9 uma etnia importante, claro, na forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, s\u00f3 que quando tudo come\u00e7ou era o \u00edndio que estava aqui. Ent\u00e3o decidi trazer essa vis\u00e3o que, a meu ver, pouco tinha sido trabalhada na m\u00fasica. N\u00e3o inventei isso, mas pouco se trabalhava a vis\u00e3o de ter o \u00edndio como um representante nacional. O rap, de fato, \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da etnia negra, dos descendentes de toda a hist\u00f3ria vergonhosa da escravid\u00e3o. Dai que quando o Ney leu a mat\u00e9ria, ele falou com a produtora local do show, e perguntou se me conhecia. Ela disse que sim e ele disse que queria me conhecer. Ela me ligou na hora avisando. Eu n\u00e3o tinha lido a mat\u00e9ria ainda, era s\u00e1bado pela manh\u00e3, eu ainda ia sair de casa pra comprar o jornal. Fui l\u00e1 e o conheci. Entreguei o disco, falei mais ou menos o que ele j\u00e1 tinha lido, bati um papo\u2026 Ele j\u00e1 estava ali esperando no sagu\u00e3o do hotel o carro vir busc\u00e1-lo pra ele ir pro aeroporto e ir embora, ent\u00e3o foi tudo muito r\u00e1pido. Uns tr\u00eas meses depois, ele me ligou dizendo: \u201cGostei demais do disco e\u2026 vou gravar\u201d, sem dizer ainda qual faixa gravaria. Fiquei bem emocionado. A gente continuou desenvolvendo uma rela\u00e7\u00e3o, sempre conversando, sempre trocando ideia. Quando ele come\u00e7ou a ensaiar e fazer o show novo \u2013 ele fez um show pra depois fazer o disco \u2013, o Ney come\u00e7ou a me mandar os ensaios, e pra minha surpresa e pra surpresa de todo mundo foi \u201cTupi Fus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que surpresa?<\/strong><br \/>\nPorque ela \u00e9 ou talvez seja a m\u00fasica mais legal do disco, e \u00e9 a minha m\u00fasica de trabalho mesmo, tanto que tem um clipe de anima\u00e7\u00e3o, de fato a gente apostou nela. Mas surpresa porque o refr\u00e3o dela fala meu nome, eu me apresento na m\u00fasica. Eu falo \u201cVitor Pi, vim em tupi, pra entupir de ideia a cabe\u00e7a de toda a trupe\u201d. Eu pensei: \u201cEssa est\u00e1 fora, n\u00e3o vai ser essa porque fala meu nome\u201d. Entre os amigos e a fam\u00edlia ficou meio que uma aposta, e, claro, todo mundo j\u00e1 tinha descartado essa. Mas foi essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ele fala mesmo teu nome?<\/strong><br \/>\nEle disse: \u201cComo no refr\u00e3o voc\u00ea diz o seu nome, n\u00e3o posso dizer \u2018Vitor Pi, vim em tupi\u2019, como se fosse voc\u00ea, vou modificar uma palavra do refr\u00e3o. Eu vou dizer \u2018Vitor Pi, vive em tupi\u2019. Tem algum problema?\u201d Eu disse: \u201cProblema nenhum\u201d. Isso foi em 2009, quando ele come\u00e7ou a ensaiar e a sair em turn\u00ea pra depois gravar o disco. Quando ele gravou, era 2013. Ele escolheu compositores mais jovens \u2013 nesse disco n\u00e3o tem quase ningu\u00e9m consagrado. Tem o Dani Black, a banda Tono, o Dan Nakagawa\u2026 Ent\u00e3o assim, ele fez a turn\u00ea por esse tempo todo. Quando eu vi a possibilidade de fazermos um disco e um clipe novo \u2013 com quem ia conseguindo gravar, eu ia gravando e guardando \u2013 , contei a hist\u00f3ria a ele, qual era o conceito do disco \u201cA Inven\u00e7\u00e3o \u00e9 a M\u00e3e das Necessidades\u201d, a ideia que eu queria ter, e disse: \u201cTem uma m\u00fasica que quero compor pra voc\u00ea, pra voc\u00ea participar no meu disco e fazer um clipe com ela.\u201d Contei a hist\u00f3ria do clipe (\u201cRumos e Rumores\u201d) e ele se amarrou na ideia cinematogr\u00e1fica, gostou tamb\u00e9m porque falei que ele iria interpretar um personagem, que n\u00e3o ia ser clipe cantando pra c\u00e2mera. Ele gostou porque, na verdade, o sonho da vida dele era ser ator, ele achava que cantar era um recurso pra atuar. Ent\u00e3o rolou. J\u00e1 faz 10 anos que a gente vem trocando essa ideia e o Ney \u00e9 um cara incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00eas mant\u00eam contato?<\/strong><br \/>\nMantemos. \u00c9 um cara incr\u00edvel, fant\u00e1stico, sens\u00edvel e muito politizado, gosta das coisas muito certas, \u00e9 muito profissional, e tamb\u00e9m \u00e9 um cara bastante normal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como que despertou esse interesse pelo movimento antropof\u00e1gico e pela quest\u00e3o ind\u00edgena? Queria tamb\u00e9m que voc\u00ea falasse um pouco sobre o conceito do disco novo e do clipe de \u201cRumos e Rumores\u201d, que mostra o cara do futuro tentando avisar sobre acontecimentos ao cara do passado pr\u00e9-colonial, que \u00e9 um paj\u00e9. Voc\u00ea n\u00e3o acha que essa quest\u00e3o vai pra al\u00e9m da causa ind\u00edgena? Ou melhor, voc\u00ea n\u00e3o acha que o Brasil e o mundo tamb\u00e9m est\u00e3o com esse mesmo problema?<\/strong><br \/>\nBasicamente a ideia \u00e9 essa, trazer esse conceito: o cara que est\u00e1 naquela distopia, que \u00e9 uma distopia at\u00e9 real, pois a gente est\u00e1 vivendo o que v\u00e1rios caras escreveram na literatura, como George Orwell em \u201c1984\u201d e Aldous Huxley em \u201cAdmir\u00e1vel Mundo Novo\u201d, esses governos ditatoriais&#8230; ent\u00e3o a ideia inicial do \u00edndio como o nativo que estava aqui (pelo menos no Brasil) antes de tudo isso acontecer, que eu j\u00e1 vinha trabalhando nos discos anteriores, (principalmente no \u201cPau-Brasil\u201d), eu decidi fazer no clipe. Um paj\u00e9 cuja casa e terra n\u00e3o tivessem sido invadidas ainda, e algu\u00e9m que est\u00e1 nessa distopia, nesse futuro-presente, no agora, que manda uma mensagem pro paj\u00e9 via pen drive, naquela imagem s\u00edmbolo da garrafa com um pen drive dentro, como se fosse um pergaminho, como antigamente se fazia, aquela mensagem na garrafa no oceano: \u201c\u00d3, tenta fazer alguma coisa porque tudo isso aqui que eu vou mandar de informa\u00e7\u00e3o pra voc\u00ea, essa tecnologia toda vai consumir a porra toda aqui e ela vai se tornar b\u00e9lica e as pessoas v\u00e3o se matar.\u201d \u00c9 nesse ponto que entra, como voc\u00ea observou, o conceito al\u00e9m do ind\u00edgena. Porque o n\u00edvel \u00e9 mundial. Eu tentei, a princ\u00edpio, trazer essa quest\u00e3o nacional, do \u00edndio brasileiro que est\u00e1 recebendo essas informa\u00e7\u00f5es, mas as imagens que s\u00e3o veiculadas no clipe s\u00e3o de guerra, de protestos, de bomba, de avi\u00e3o explodindo, essas coisas todas. Ent\u00e3o realmente a coisa vai al\u00e9m da quest\u00e3o ind\u00edgena apenas, mas tentei focar nessa ideia de quem estava no brasil antes da coloniza\u00e7\u00e3o e fiz esse recorte. Mas quando eu mando informa\u00e7\u00e3o pro \u00edndio, eu mando informa\u00e7\u00e3o no di\u00e1logo, do que t\u00e1 acontecendo no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrando na quest\u00e3o do interesse pela antropofagia e do interesse ind\u00edgena, \u00e9 por forma\u00e7\u00e3o mesmo. As minhas leituras l\u00e1 de Pernambuco, por exemplo, quando eu morava l\u00e1, eu lia muito Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, etc. Curti muito o Chico Science \u2013 aquela \u00e9poca (anos 1990) foi muito fervorosa, culturalmente falando. Quando conheci Oswald de Andrade, me amarrei no conceito de antropofagia e eu vi aquilo no Chico Science, essa coisa de devorar o inimigo, o estrangeiro, a cultura estrangeira e se tornar mais forte. O que Chico fazia? Ele pegava hip hop, funk, rock e botava frevo, maracatu. O Oswald fazia isso, pegava o texto do Pero Vaz de Caminha e fazia um texto dele. Ele ia devorando, assim como o \u00edndio fazia. Essa coisa toda me chamou aten\u00e7\u00e3o. Tanto que no meu trabalho de conclus\u00e3o de curso eu fiz essa ponte: coloquei que Chico Science praticava um novo modernismo na ponta final do s\u00e9culo XX. Mesmo sem nunca ter mencionado ou falado sobre Oswald de Andrade, Chico com certeza o leu, e conectou essa antopofagia na m\u00fasica, como Oswald fez na literatura, no teatro e tal. Sempre gostei desse discurso de pegar a pop art, a world music e consumir aquilo n\u00e3o com subservi\u00eancia, mas pra se tornar mais forte, como um processo identit\u00e1rio, de colocar a sua cara na parada. Ent\u00e3o foi minha forma\u00e7\u00e3o de leitura, musical e de adolesc\u00eancia. Oswald de Andrade usou como s\u00edmbolo o \u00edndio antrop\u00f3fago, que estava aqui quando o estrangeiro chegou e comeu ele. Comecei a me interessar tamb\u00e9m pela causa ind\u00edgena. Realmente, quem \u00e9 o nativo do Brasil? Quem estava aqui antes de tudo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tua principal profiss\u00e3o \u00e9 a de professor de literatura, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 a principal, \u00e9 a \u00fanica. N\u00e3o pago minhas contas com m\u00fasica. Fa\u00e7o m\u00fasica e poesia porque \u00e9 uma coisa fisiol\u00f3gica praticamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por isso eu queria perguntar: o que voc\u00ea sente de dificuldade em ganhar dinheiro com m\u00fasica?<\/strong><br \/>\n\u00c9 o tipo de m\u00fasica, eu acho. N\u00e3o tem nada em Macei\u00f3, por exemplo, com rela\u00e7\u00e3o a casas de shows. N\u00e3o tem casa de show pra convidar as bandas alternativas e autorais, principalmente. Ningu\u00e9m se interessa por isso. Aqui tem muita m\u00fasica baiana, ax\u00e9 music, pagode, sertanejo universit\u00e1rio \u2013 tem muita banda que toca cover disso. Ent\u00e3o \u00e9 o que rola na noite, nas casas noturnas. N\u00e3o tem espa\u00e7o aqui (para m\u00fasica autoral), o neg\u00f3cio \u00e9 esse. A minha vida toda eu viabilizei os meus produtos musicais \u2013 discos, shows \u2013 atrav\u00e9s de editais, festivais e concursos. Fico usando tudo o que est\u00e1 acontecendo. Todas as vezes que sa\u00ed pra tocar foi sempre por edital \u2013 Ita\u00fa, Vivo, etc. S\u00e3o nessas coisas que fico prestando aten\u00e7\u00e3o. Por exemplo, esse ano j\u00e1 est\u00e1 garantido que a gente vai pro Rio de Janeiro lan\u00e7ar o disco via BNDES. Mas agora est\u00e1 ficando cada vez mais dif\u00edcil, o nosso (atual) governo quer extinguir o Minist\u00e9rio da Cultura e fazer v\u00e1rios cortes de or\u00e7amento culturais. Se j\u00e1 era dif\u00edcil, agora est\u00e1 ficando praticamente imposs\u00edvel. Ent\u00e3o estou sempre antenado nessas coisas, porque pra viver disso eu teria que ser de uma dupla sertaneja, ou ser da swingueira, de um pagod\u00e3o, tocar cover, as m\u00fasicas do carnaval, do S\u00e3o Jo\u00e3o, das \u00e9pocas n\u00e9, pra voc\u00ea poder realmente viver fazendo cinco ou seis shows por semana. N\u00e3o tem circuito pra rap, pra rock, aqui em Macei\u00f3, principalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que em outro lugar seria diferente?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil em nenhum lugar, na verdade, mas principalmente Macei\u00f3, baseado na minha experi\u00eancia aqui. Mas, por exemplo, quando falo com meus amigos de Pernambuco, o pessoal fala que l\u00e1 tamb\u00e9m est\u00e1 dif\u00edcil. Por exemplo, sobre o lance do BNDES, quem nos deu uma for\u00e7a foi uma menina de l\u00e1 do Rio de Janeiro, que tamb\u00e9m me falou a mesma coisa. Enfim, est\u00e1 foda em todo lugar, mas aqui \u00e9 um dos piores lugares \u2013 posso falar porque estou aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas ainda assim, vejo que o rap t\u00e1 crescendo no Brasil. Pra voc\u00ea, por que isso aconteceu?<\/strong><br \/>\nDe fato, o rap no Brasil tem crescido. Tem um divisor de \u00e1gua a\u00ed: 2016. Dois caras se juntaram, o Baco Exu do Blues e o Diomedes Chinaski, um de Salvador e o outro de Recife, respectivamente, e fizeram uma m\u00fasica, a \u201cSulic\u00eddio\u201d. Na faixa, eles disparam contra os atuais MCs e rappers da cena do Sul e Sudeste \u2013 os caras sa\u00edram dizendo os nomes deles na m\u00fasica, mandam xingamentos e dizem que n\u00e3o presta pra nada o som dos caras, que \u00e9 tudo playboy de condom\u00ednio e tal, os caras detonam mesmo. Essa faixa deu uma zoada no Brasil de uma forma que todo mundo come\u00e7ou a responder, o pessoal que foi citado na faixa. Isso deu uma movimentada no rap, que \u00e9 a tal da diss (disrespect song), que j\u00e1 acontecia nos Estados Unidos com aquela hist\u00f3ria famosa de Tupac e Notorious B.I.G, que acabou com os caras se matando. Aqui come\u00e7ou um monte de gente, com seus 21, 22 anos, que \u00e9 a idade dos caras, a responder. Depois disso, deu uma visibilidade geral no rap, na nova gera\u00e7\u00e3o, na new school, e est\u00e1 bombando. Tem tamb\u00e9m a coisa do acesso \u00e0 tecnologia, voc\u00ea precisa s\u00f3 de um computador em casa pra fazer rap. Ent\u00e3o tem um monte de beatmaker, n\u00e9. E o que voc\u00ea mais tem hoje na internet \u00e9 curso. Os caras inventaram agora de fazer curso de como fazer suas pr\u00f3prias bases, como ser MC, como fazer sua pr\u00f3pria letra, a melodia, os trava-l\u00ednguas e tal. Todo mundo come\u00e7ou a criar um mercado em cima do rap. E a produ\u00e7\u00e3o audiovisual aumentou \u2013 a\u00ed a galera nova do audiovisual come\u00e7a a fazer clipe, ou seja, criam-se empresas de clipe e de cinema que d\u00e3o visibilidade a essas empresas e ao artista. E come\u00e7aram a fazer marcas, roupas, enfim, criou-se um mercado de 2016 pra c\u00e1. Tem produtoras, est\u00fadios de grava\u00e7\u00e3o, selos, s\u00f3 de rap. E Macei\u00f3 acompanha esse movimento. Tem muita gente nova aparecendo nesses g\u00eaneros novos, no trap, nessa vertente do rap. Tem o Boby CH, o Quarentena Sonora, o PH, a Arielly, o Monster House, que \u00e9 praticamente um selo e que trabalha s\u00f3 com isso&#8230; Ou seja, o pessoal t\u00e1 se movimentando, tudo gente nova de 20 e poucos anos. S\u00f3 que s\u00e3o eles mesmos que se juntam e fazem, n\u00e3o tem aquela coisa de um circuito. Eu acho que falta um espa\u00e7o na cidade mesmo, mas a cidade em si, os integrantes, est\u00e3o se movimentando no rap. \u00c9 uma quest\u00e3o de espa\u00e7o mesmo, e \u00e9 mais a periferia que se movimenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que a inven\u00e7\u00e3o \u00e9 a m\u00e3e das necessidades, e n\u00e3o o inverso, como diria Plat\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu penso que as necessidades humanas j\u00e1 foram supridas, apesar de n\u00e3o termos a distribui\u00e7\u00e3o correta. Tem gente ainda que est\u00e1 na mis\u00e9ria, tem pa\u00edses e pessoas, no Brasil mesmo, que passam necessidade e n\u00e3o t\u00eam acesso, mas tudo o que j\u00e1 podia ser feito na quest\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas, o ser-humano j\u00e1 chegou num n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o e tecnologia que ele j\u00e1 supriu tudo. Ent\u00e3o essa coisa b\u00e1sica de moradia, alimenta\u00e7\u00e3o, conforto necess\u00e1rio, o b\u00e1sico de sobreviv\u00eancia, de viver uma vida decente, j\u00e1 chegou num n\u00edvel que ele consegue sobreviver sem precisar inventar mais muita coisa. Ou seja, a tecnologia ficou t\u00e3o grande, t\u00e3o avan\u00e7ada nos \u00faltimos 15, 20 anos que as inven\u00e7\u00f5es passaram a ditar as nossas necessidades. Ent\u00e3o \u00e9 aquela coisa: saiu um celular que tem um aplicativo a mais do que o seu &#8211; o seu est\u00e1 bonzinho, mas voc\u00ea j\u00e1 se sente na necessidade de ter aquele novo. \u201cPorque o meu carro n\u00e3o t\u00e1 suprindo mais a minha necessidade\u201d, s\u00f3 que seu carro anda, faz tudo normal, n\u00e3o precisa de nada, mas voc\u00ea quer uma coisa que \u00e9 uma inova\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu vejo que os tempos em que a gente vive mudaram o ditado. O ditado acabou sendo, de fato, convertido, nessa outra situa\u00e7\u00e3o. Ou seja, a gente se sente necessitado a consumir, \u00e9 a \u00e9poca de consumismo. Por isso inverti o conceito. Eu n\u00e3o inventei, eu vi que a sociedade fez isso. Eu apenas nomeei, coloquei no papel que a inven\u00e7\u00e3o se tornasse a m\u00e3e das necessidades. \u00c9 assim que a gente vive hoje, infelizmente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rzEVfWp1zT4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5RcOwNBfbp8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TQDbEIlvQXg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/zambi.ananda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ananda Zambi<\/a> (@<a href=\"https:\/\/twitter.com\/anandazambi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">anandazambi<\/a>) \u00e9 jornalista e editora do <a href=\"http:\/\/www.nonada.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nonada &#8211; jornalismo travessia<\/a>. Nas horas vagas, tamb\u00e9m brinca de fazer m\u00fasica&#8221;. A foto que abre o texto \u00e9 de Gabriel Moreira \/ Panam Filmes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nome ativo na cena alagoana, Vitor Pirralho est\u00e1 lan\u00e7ando seu terceiro disco ao lado da Unidade, \u201cA Inven\u00e7\u00e3o \u00e9 a M\u00e3e das Necessidades\u201d, e fala sobre antropofagia, a amizade com Ney Matogrosso e o momento do rap no Brasil e no Nordeste\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/25\/entrevista-vitor-pirralho\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":68,"featured_media":51847,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3484],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51401"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/68"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51401"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51401\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":51848,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51401\/revisions\/51848"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51847"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51401"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}