{"id":51289,"date":"2019-04-18T00:32:29","date_gmt":"2019-04-18T03:32:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=51289"},"modified":"2019-06-16T01:02:34","modified_gmt":"2019-06-16T04:02:34","slug":"cinema-matangi-maya-m-i-a-de-steve-loveridge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/18\/cinema-matangi-maya-m-i-a-de-steve-loveridge\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cMatangi \/ Maya \/ M.I.A.\u201d, de Steve Loveridge"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0Texto por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">M.I.A. \u00e9 uma estrela pop que sempre v\u00ea seu nome atrelado aos ep\u00edtetos \u201cpol\u00eamica\u201d, \u201cincontrol\u00e1vel\u201d ou \u201cexagerada\u201d e \u00e9 sobre esse universo que o document\u00e1rio \u201cMatangi \/ Maya \/ M.I.A.\u201d, de Steve Loveridge, se debru\u00e7a. Lan\u00e7ado em festivais ao redor do mundo em 2018, o filme estreou no Brasil em uma \u00fanica e concorrida sess\u00e3o no Music Video Festival \u2013 mvf 2018, em S\u00e3o Paulo. Dispon\u00edvel no pa\u00eds pelo iTunes, o filme tamb\u00e9m foi visto pela pr\u00f3pria cantora em sites de downloads ilegais, o que gerou tweets dela falando que n\u00e3o se importava de o filme estar em c\u00f3pias ilegais (\u201cDesde que fosse em qualidade 1080p\u201d), pois, segundo ela, \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o vir\u00e1 atrav\u00e9s do establishment\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa perspectiva da artista perante a obra \u00e9 um bom ponto de partida para todo o universo que o diretor Loveridge tenta englobar nesse document\u00e1rio: compreender as pequenas revolu\u00e7\u00f5es que a artista M.I.A. busca construir e assim expandir discuss\u00f5es importantes sobre imigra\u00e7\u00e3o, xenofobia, ind\u00fastria cultural e jornalismo. A artista de origem t\u00e2mil nasceu no Sri Lanka, onde passou a inf\u00e2ncia, at\u00e9 que sua fam\u00edlia se mudou refugiada para a Inglaterra, onde Maya \u2013 batizada Mathangi Maya Arulpragasam \u2013 passou parte da adolesc\u00eancia. J\u00e1 na faculdade, a garota decidiu que queria ser documentarista, come\u00e7ando a registrar diferentes momentos de sua vida, o que renderam quase 500 horas de material bruto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amigo pessoal de M.I.A., Steve Loveridge teve acesso livre a todo esse material que acompanha desde a inf\u00e2ncia da artista at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o do clipe de \u201cBorders\u201d, em 2016, num recorte complexo, que d\u00e1 um panorama amplo sobre a evolu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da obra e da intimidade de Maya. O longa passa por delicados fatos, como o distanciamento de sua fam\u00edlia com o pai, que era um revolucion\u00e1rio t\u00e2mil na guerra civil do Sri Lanka, e toda a complexidade de ser uma refugiada na Inglaterra. Ali\u00e1s, um ponto fundamental na hist\u00f3ria da artista e na constru\u00e7\u00e3o do filme se d\u00e1 quando, aos 21 anos, ela decide fazer uma esp\u00e9cie de viagem investigativa ao seu pa\u00eds de origem e reencontra familiares, a sua antiga casa e passa a se comunicar de forma mais s\u00f3lida com a cultura local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outro prisma, o filme tamb\u00e9m acompanha a amizade pr\u00f3xima da protagonista com Justine Frischmann, vocalista do Elastica e incentivadora inicial da carreira de M.I.A. \u2013 a cantora inclusive revela que muitas de suas composi\u00e7\u00f5es iniciais eram pensadas para Justine cantar. O filme, ali\u00e1s, n\u00e3o deixa muito claro o momento decisivo em que a artista decide deixar os sonhos de documentarista e investir de verdade na m\u00fasica, tanto que o roteiro promove um salto e logo chega ao debute \u201cArular\u201d (2005), deixando de lado \u201cPiracy Funds Terrorism\u201d (2004), mixtape realizada ao lado de Diplo e que traz algumas das can\u00e7\u00f5es primordiais que formariam o disco de estreia de M.I.A.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-51290\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/matangi2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/matangi2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/matangi2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a rela\u00e7\u00e3o com Diplo, ali\u00e1s, \u00e9 vista muito \u2018en passant\u2019 no longa, apenas apresentando-o como um namorado fortuito da artista, com o qual ela trabalhou em seu disco de estreia. Diplo, por\u00e9m, \u00e9 fundamental para a rela\u00e7\u00e3o dela com o funk carioca (ela mesma conta isso em <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/06\/20\/entrevista-m-i-a\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entrevista publicada no Scream &amp; Yell em 2005<\/a>) e ambos passaram pelo Brasil em 2005, no finado Tim Festival, quando ela inclusive cantou ao lado de Deize Tigrona. Relatos da pr\u00f3pria M.I.A. falam que sua rela\u00e7\u00e3o com o produtor teria sido conturbada, beirando o abusivo, tanto que ela registra que ap\u00f3s assinar seu contrato com a gravadora Interscope, Diplo teria quebrado todo o quarto de hotel em que eles estavam por raiva. Enfim, o filme tenta fugir dessa linha \u201crelacionamento de casais\u201d e deixa a rela\u00e7\u00e3o dos dois como secund\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, \u201cMatangi \/ Maya \/ M.I.A.\u201d se aprofunda de forma bastante forte num momento conturbado da carreira de M.I.A.: ela foi indicada ao Oscar de Melhor Can\u00e7\u00e3o por \u201cO&#8230; Saya\u201d, da trilha de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/22\/quem-quer-ser-um-milionario\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Quem Quer Ser um Milion\u00e1rio?<\/a>\u201d (Danny Boyle, 2008) e ao Grammy por sua faixa \u201cPaper Planes\u201d, que tamb\u00e9m estava na trilha do mesmo filme. Nesse momento que sua carreira crescia, seu pa\u00eds Sri Lanka entrava numa das fases mais tensas de sua guerra civil e M.I.A. decidiu usar esse espa\u00e7o na m\u00eddia para falar sobre o tema mundialmente, em principal na TV norte-americana. \u00c9 nesse ponto do filme que as quest\u00f5es mais complexas aparecem: M.I.A. \u00e9 acusada de ser terrorista, passa por entrevistas em que \u00e9 tratada com deboche e tentam repetidamente diminuir a import\u00e2ncia de suas discuss\u00f5es pelo fato de ela ter dinheiro \u2013 um discurso que geralmente atinge pessoas n\u00e3o-brancas em ascens\u00e3o. Esse cen\u00e1rio complexo \u00e9 superimportante para que se compreenda, em retrocesso, todas as tens\u00f5es que surgem no disco \u201cMaya\u201d (2010), seu trabalho mais violento e pesado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, o diretor ainda dedica um bom tempo \u00e0 exagerada pol\u00eamica do dedo do meio que M.I.A. exibe em sua apresenta\u00e7\u00e3o no Superbowl de 2012, em show ao lado de Madonna e Nicki Minaj. Essa passagem serve para mostrar um bocado da caretice do p\u00fablico norte-americano (lembrando bastante a anterior pol\u00eamica com o mamilo de Janet Jackson em um dos antigos Superbowl), mas mais que isso, exp\u00f5e a virul\u00eancia das respostas que M.I.A. recebeu, expondo um p\u00fablico essencialmente racista, xenof\u00f3bico e mis\u00f3gino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No todo, \u201cMatangi \/ Maya \/ M.I.A.\u201d debru\u00e7a-se sobre o esfor\u00e7o que M.I.A. faz para ser uma artista pop de grande alcance e ainda assim ser congruente com sua hist\u00f3ria e seu passado. Ser uma refugiada n\u00e3o-branca no Ocidente \u00e9 um fato que perpassa grande parte das atitudes da artista e v\u00ea-la em movimento \u00e9 ver tamb\u00e9m todos os recha\u00e7os que ela sofre de um universo que ainda tem a xenofobia e a misoginia como norma. O filme, mesmo que deixando de lado fatos que tamb\u00e9m poderiam ser relevantes, consegue criar um panorama interessant\u00edssimo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre arte e pol\u00edtica, sobre como utilizar o universo pop para questionar pode ser um terreno espinhoso e o quanto M.I.A. luta constantemente contra um sistema que vira e mexe tenta diminu\u00ed-la ao papel de louca em busca de pol\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final das contas, esse document\u00e1rio \u00e9 necess\u00e1rio para muito al\u00e9m dos f\u00e3s de M.I.A., ele \u00e9 fundamental para qualquer pessoa que pense as rela\u00e7\u00f5es entre arte e pol\u00edtica; que busque entender a rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre cultura pop ocidental e preconceitos de origem e g\u00eanero; que busque entender os meandros do jornalismo de cultura para al\u00e9m das colunas de fofoca e, acima de tudo, para quem busca entender a complexidade de ser uma artista mulher n\u00e3o-branca que busca ser dona de si. \u201cMatangi \/ Maya \/ M.I.A.\u201d \u00e9 um film\u00e3o que merece ser visto e debatido.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zsb1dgsFvpM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Tamb\u00e9m colabora com o site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um document\u00e1rio para muito al\u00e9m dos f\u00e3s de M.I.A., ele \u00e9 fundamental para qualquer pessoa que pense as rela\u00e7\u00f5es entre arte e pol\u00edtica; que busque entender a rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre cultura pop ocidental e preconceitos de origem e g\u00eanero&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/18\/cinema-matangi-maya-m-i-a-de-steve-loveridge\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":51291,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[3664],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51289"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51289"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":51297,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51289\/revisions\/51297"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51291"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}