{"id":5105,"date":"2010-05-12T16:07:34","date_gmt":"2010-05-12T19:07:34","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5105"},"modified":"2023-03-29T01:08:29","modified_gmt":"2023-03-29T04:08:29","slug":"entrevista-graveola-e-o-lixo-polifonico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/12\/entrevista-graveola-e-o-lixo-polifonico\/","title":{"rendered":"Entrevista: Graveola e o Lixo Polif\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-5115\" title=\"graveola1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/graveola1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/graveola1.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/graveola1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/igorlage\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Igor Lage<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os integrantes do Graveola e o Lixo Polif\u00f4nico n\u00e3o s\u00e3o muito bons de data. Segundo eles, a banda foi formada \u201cmais ou menos em 2004\u201d, quando os estudantes Luiz Gabriel Lopes, Jos\u00e9 Lu\u00eds Braga e Marcelo de Podest\u00e1 se reuniam para tocar um pouco de tudo no viol\u00e3o. O trio resolveu levar a brincadeira a s\u00e9rio e montar uma \u201coficina de experimenta\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, uma banda de verdade. A id\u00e9ia foi ganhando adeptos e, \u201cmais ou menos em 2007\u201d, eles come\u00e7aram as apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo em cidades como Ouro Preto e Tiradentes. Em 2009, com incentivos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte, lan\u00e7aram seu primeiro disco, hom\u00f4nimo, que foi muito bem recebido pelos freq\u00fcentadores da cena independente local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE agora estamos a\u00ed com esse trabalho novo, o \u2018Um e Meio\u2019, que n\u00e3o \u00e9 bem um disco e tamb\u00e9m n\u00e3o tem nada de muito novo\u201d, explica confundindo Luiz Gabriel Lopes, um dos vocalistas e principais compositores do Graveola (para citar algumas fun\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que todo mundo faz um pouco de tudo na banda). Gravado de forma experimental na casa de alguns dos integrantes do grupo, \u2018Um e Meio\u2019 foi lan\u00e7ado \u201cmais ou menos no Carnalval desse ano\u201d somente em formato digital. O \u00e1lbum pode ser baixado gratuitamente no site oficial da banda: <a href=\"http:\/\/www.graveola.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.graveola.com.br<\/a>, onde tamb\u00e9m podem ser encontradas faixas b\u00f4nus, grava\u00e7\u00f5es ao vivo, produ\u00e7\u00e3o multim\u00eddia e tamb\u00e9m o disco de estreia. E \u00e9 sobre o \u2018Um e Meio\u2019 que Luiz Gabriel fala ao Scream &amp; Yell, em uma entrevista que aborda tamb\u00e9m distribui\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas pela internet e a cena indie de Minas Gerais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco novo de voc\u00eas saiu bastante r\u00e1pido, apenas um ano depois do \u00e1lbum de estreia. Como foi o processo de produ\u00e7\u00e3o do \u201cUm e Meio\u201d?<\/strong><br \/>\nEsse disco \u00e9 uma tentativa de expandir os territ\u00f3rios de linguagem do Graveola. Foi um processo de experimenta\u00e7\u00e3o que a gente se prop\u00f4s a vivenciar em grupo, buscando novos caminhos dentro da banda. Depois de um determinado tempo de trabalho juntos, as pessoas v\u00e3o se assentando em algumas fun\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo em que isso gera uma maturidade e torna o processo de cria\u00e7\u00e3o mais consistente, pode criar o risco de as pessoas ficarem acomodadas. O que a gente tentou foi dar uma voz maior para as \u201cviagens\u201d individuais de cada integrante. Se voc\u00ea olhar as fichas t\u00e9cnicas do encarte, vai ver que tem umas tr\u00eas ou quatro m\u00fasicas que foi uma pessoa s\u00f3 que gravou tudo. No primeiro disco, as m\u00fasicas s\u00e3o todas minhas e do Z\u00e9 [Jos\u00e9 Lu\u00eds Braga]. No caso do \u2018Um e Meio\u2019, tem m\u00fasica do Yuri [Vellasco], do Marcelo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo assim, ainda tem a cara do Graveola&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso a\u00ed sou eu que te pergunto. Voc\u00ea acha que tem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, o \u201cUm e Meio\u201d \u00e9 bem mais experimental, como voc\u00ea mesmo falou, mas ainda acho que d\u00e1 para identificar uma sonoridade t\u00edpica do Graveola. At\u00e9 porque v\u00e1rias das m\u00fasicas desse disco caberiam no primeiro&#8230;<\/strong><br \/>\nTem muita m\u00fasica a\u00ed que era de gaveta e n\u00e3o tinha entrado no primeiro disco por motivos variados. Mas foi uma onda de cada um investir no que podia. A gente nem sabia se isso ia virar um disco, na verdade. O processo de grava\u00e7\u00e3o aconteceu todo na minha casa e na casa do Z\u00e9. Todo mundo pegava a chave, entrava e sa\u00eda na hora que queria. Um dia, por exemplo, n\u00f3s est\u00e1vamos cansados de gravar e decidimos sair. A\u00ed o Yuri, que estava meio por fora disso tudo, resolveu ficar l\u00e1. Ele varou a madrugada e de manh\u00e3 tinha duas m\u00fasicas prontas: \u201cDois Camelos Sem Assunto ou Meu Primo Coreano\u201d e \u201cV Simp\u00f3sio Latinoamericano de Neurologia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quanto tempo voc\u00eas ficaram nesse processo de grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAcho que foi mais ou menos uns dois meses. Talvez dezembro e janeiro&#8230; S\u00f3 uma m\u00fasica do disco, \u201cPero no Mucho\u201d, que \u00e9 um pouco anterior a isso. Ela j\u00e1 estava no meu MySpace [<a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/lglopes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.myspace.com\/lglopes<\/a>] h\u00e1 mais tempo e acabou entrando de \u00faltima hora no lugar de outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe alguma previs\u00e3o para lan\u00e7arem a vers\u00e3o f\u00edsica do disco?<\/strong><br \/>\nAinda n\u00e3o. Estamos tentando viabilizar isso e, se rolar, deve sair em uma tiragem bem pequena, s\u00f3 para quem estiver muito afim mesmo. N\u00e3o acho que \u00e9 um disco para cair na m\u00e3o de qualquer ouvinte. \u00c9 um trabalho para pessoas que j\u00e1 t\u00eam o m\u00ednimo de contato com a banda e que possam entend\u00ea-lo enquanto disco de experimenta\u00e7\u00e3o. N\u00f3s assumimos as arestas do trabalho, os problemas de imaturidade tanto composicional quanto de arranjos. As m\u00fasicas est\u00e3o ali em uma vers\u00e3o beta. N\u00e3o tem nada finalizado. As can\u00e7\u00f5es s\u00e3o um pouco imaturas, mas isso foi feito conscientemente. Inclusive, o \u2018Um e Meio\u2019 tem uma esp\u00e9cie de subt\u00edtulo que \u00e9 \u201cColet\u00e2nea Bootleg Caravana Holiday\u201d. Esse conceito de bootleg foi muito importante para a produ\u00e7\u00e3o do disco. No fim, n\u00f3s casamos todas essas coisas: a vontade de experimentar, a possibilidade de produzir isso em casa e o conceito de poder lan\u00e7ar tudo isso despretensiosamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um trabalho como o \u201cUm e Meio\u201d talvez s\u00f3 seja poss\u00edvel com a internet. Voc\u00ea concorda com isso? Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o da banda em rela\u00e7\u00e3o a disponibilizar o trabalho na internet de gra\u00e7a?<br \/>\n<\/strong>O Graveola s\u00f3 tem o p\u00fablico que tem gra\u00e7as a possibilidade que a internet criou de que n\u00f3s envi\u00e1ssemos nosso trabalho para o mundo e que ele chegasse \u00e0s pessoas que se interessariam. Temos conseguido as coisas gradualmente porque a banda tem uma postura muito ativa de comunica\u00e7\u00e3o na internet. Todos os espa\u00e7os est\u00e3o sempre atualizados, com novos conte\u00fados. Temos a preocupa\u00e7\u00e3o de movimentar o site e de tamb\u00e9m gerar uma produ\u00e7\u00e3o audiovisual. O \u201cUm e Meio\u201d, por exemplo, tem tr\u00eas b\u00f4nus tracks tamb\u00e9m dispon\u00edveis no site para download: um curta-metragem louco chamado \u201cO S\u00edndico\u201d, o \u201cFunk da Praia da Esta\u00e7\u00e3o\u201d e um v\u00eddeo de \u201cSujeito a Mudan\u00e7a\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica que n\u00e3o est\u00e1 no disco, mas \u00e9 dessa mesma \u00e9poca. Enfim, a gente tem uma rela\u00e7\u00e3o muito ben\u00e9fica e potencializadora com as possibilidades que a internet nos oferece. Inclusive porque eu e o Marcelo nos formamos em Comunica\u00e7\u00e3o Social, e a Luiza Rabello e a Fl\u00e1via Mafra estudaram Belas Artes. Portanto, existem interesses no Graveola para al\u00e9m da m\u00fasica, para um paradigma novo de banda como uma inst\u00e2ncia de produ\u00e7\u00e3o de signos de toda ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, uma quest\u00e3o que deveria ser mais debatida \u00e9 a figura do compositor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 internet. Vamos pegar como exemplo o Marco Ant\u00f4nio Guimar\u00e3es, compositor do Uakti. No conceito atual de m\u00fasico, ele, que parou de se apresentar com o grupo h\u00e1 muito tempo, n\u00e3o teria direito de ganhar nada por causa de Creative Commons, copyright e sei l\u00e1 mais o qu\u00ea. S\u00f3 que a\u00ed as pessoas usam as trilhas do cara e tocam as m\u00fasicas dele sem a inten\u00e7\u00e3o de remuner\u00e1-lo pelo seu trabalho. Eu acho isso tudo pol\u00eamico&#8230; Estou com 23 anos, sou compositor, e estou no auge da minha vontade de tocar, mas, pra mim, ainda d\u00e1 para pensar que eu posso me sustentar atrav\u00e9s dos meus shows. Por que esse \u00e9 o discurso atual do indie, n\u00e9? Voc\u00ea n\u00e3o vai ganhar dinheiro com r\u00e1dio, com jab\u00e1, com direito autoral. Voc\u00ea vai ganhar dinheiro fazendo show. Mas vai que eu n\u00e3o quero ou n\u00e3o posso mais fazer shows? Ser compositor se torna uma atividade n\u00e3o remunerada e isso eu acho uma coisa problem\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, eu sou totalmente a favor de que r\u00e1dios comerciais paguem direito autoral. Acho que tem que pagar mesmo porque essas r\u00e1dios grandes se sustentam com publicidade, ent\u00e3o por que n\u00e3o pagar direito autoral para os autores das m\u00fasicas que ela est\u00e1 tocando? S\u00f3 que, ao mesmo tempo, ainda existe um modelo de programa\u00e7\u00e3o musical que \u00e9 muito tradicional. Olhando aqui em Belo Horizonte, as r\u00e1dios que se dizem abertas \u00e0 nova produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 tocam alguma coisa de bandas como o Graveola, o Transmissor e o Quebra-Pedra, mas a porcentagem disso \u00e9 muito irrelevante. Toca mais o que vem do Rio e de S\u00e3o Paulo, o mainstream injetado aqui gra\u00e7as a uma pol\u00edtica que \u00e9 direcionada para isso. \u00c9 triste que n\u00e3o haja uma pol\u00edtica de fomento \u00e0s novas cenas independentes nas r\u00e1dios comerciais porque, se existisse, seria capaz de gerar outro tipo de ouvinte, j\u00e1 que o cara que ouve MySpace, last.fm etc. faz parte de p\u00fablico muito elitizado. Agora pergunta para as pessoas fora desse c\u00edrculo da m\u00fasica independente quem \u00e9 Graveola. Ningu\u00e9m nunca ouviu falar, entendeu? Quem \u00e9 Transmissor, Kristoff Silva, \u00c9rika Machado? Ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A internet cria uma condi\u00e7\u00e3o maravilhosa de voc\u00ea, se tiver um trabalho consistente, botar ele no mundo e conseguir angariar algum tipo de respaldo atrav\u00e9s das ferramentas que voc\u00ea tem em m\u00e3os. Mas, ao mesmo tempo, ela gera uma ilus\u00e3o de democracia e possui muitos pontos que precisam ser revistos e debatidos como, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica de download remunerado. No caso do Graveola, n\u00f3s decidimos disponibilizar os dois discos para download gratuito porque a gente acreditava na consist\u00eancia desses trabalhos e quer\u00edamos atingir o m\u00e1ximo de pessoas poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu tamb\u00e9m acho que est\u00e1 em jogo uma mudan\u00e7a de mentalidade do consumidor. O contato entre artista e f\u00e3 \u00e9 muito mais direto e isso proporciona uma consci\u00eancia maior do cara que \u00e9 o consumidor. Eu gosto de tal banda, vou ao show dos caras, compro o CD, a camiseta&#8230; \u00c9 uma coisa de \u201ceu apoio esse artista\u201d. \u00c9 uma mudan\u00e7a de mentalidade geral mesmo. \u00c9 uma teia de rela\u00e7\u00f5es que precisa ser mais debatida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5116   aligncenter\" title=\"graveola3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/graveola3.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por falar em p\u00fablico, o de voc\u00eas \u00e9 bastante fiel: vai aos shows, canta junto, ap\u00f3ia a banda. Como voc\u00ea explica essa rela\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFelizmente, o Graveola tem bastante p\u00fablico. Os shows n\u00e3o s\u00e3o sempre lotados, mas tamb\u00e9m nunca s\u00e3o vazios. A gente tem essa identifica\u00e7\u00e3o forte com o p\u00fablico e eu n\u00e3o sei bem porque isso acontece. \u00c0s vezes, acho que \u00e9 sorte mesmo, mas tem um outro ponto que \u00e9 a nossa preocupa\u00e7\u00e3o constante em manter um canal aberto com as pessoas. Estamos sempre produzindo e disponibilizando conte\u00fado novo. O site funciona como o lugar de depositar o lixo mesmo: grava\u00e7\u00e3o de ensaio, demo, jam session&#8230; Tudo a gente joga l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, a banda possui uma vontade muito natural de tentar se relacionar com o p\u00fablico de uma forma pr\u00f3xima. Todo dia, n\u00f3s recebemos e respondemos um ou dois e-mails. Enquanto isso for poss\u00edvel de ser feito, eu acho totalmente proveitoso, at\u00e9 para termos um feedback do nosso trabalho. Tem v\u00e1rias pessoas que n\u00e3o curtem o Graveola e a gente tem acesso a isso, o que \u00e9 muito interessante tamb\u00e9m. O contato que a internet proporciona \u00e9 essencial para movimentar essa troca constante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Scream &amp; Yell publicou recentemente uma entrevista com o Romulo Fr\u00f3es na qual ele reclama que os pr\u00f3prios artistas e companheiros da cena n\u00e3o s\u00e3o p\u00fablico uns dos outros. O que voc\u00ea acha disso? Isso tamb\u00e9m acontece em Belo Horizonte?<\/strong><br \/>\nEu acho que n\u00e3o. BH tem uma cena gigantesca, que vai desde Rafael Macedo, Quebra-Pedra e Kristoff Silva, uma galera que faz uma can\u00e7\u00e3o mais \u201cerudita\u201d, por assim dizer, at\u00e9 a galera de uma can\u00e7\u00e3o mais pop, onde eu incluo o Graveola. E eu acho que tem um tr\u00e2nsito legal entre esse pessoal. Eu, por exemplo, sempre vou aos shows das bandas que me interessa ver ao vivo e acho que isso \u00e9 importante. E tamb\u00e9m vou a shows de bandas que eu n\u00e3o conhe\u00e7o direito, como \u00e9 o caso da Monno, que eu vi outro dia sem nunca ter ouvido e achei do caralho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acredito que o fato do pessoal freq\u00fcentar os shows uns dos outros pode ser uma coisa positiva para se desenvolver um debate tamb\u00e9m. A cena se comunicar \u00e9 algo muito importante e que, felizmente, tem acontecido. N\u00e3o vou dizer que \u00e9 o cen\u00e1rio ideal, mas eu vejo uma comunica\u00e7\u00e3o interessante at\u00e9 entre esferas muito distintas. Outro dia, o Rafael Macedo cantou uma m\u00fasica no nosso show e ele \u00e9 um cara que tem um trabalho muito peculiar, muito diferente do nosso, uma coisa meio de vanguarda, sabe? Acho que essas possibilidades de tr\u00e2nsito s\u00e3o criadas at\u00e9 pelo fato de BH ser uma cidade pequena. Isso tem um lado muito positivo: as pessoas se conhecem, tomam cerveja juntas e, na medida do poss\u00edvel, se freq\u00fcentam e dialogam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, uma coisa que eu acho importante destacar \u00e9 que existe um momento musical muito f\u00e9rtil acontecendo aqui em Belo Horizonte que ainda n\u00e3o tomou a dimens\u00e3o que deveria ter tomado e parte da imprensa \u00e9 respons\u00e1vel por isso. A grande imprensa daqui \u00e9 feita de jornalistas pregui\u00e7osos, descompromissados e desinteressados. N\u00e3o sabem o que est\u00e1 rolando, n\u00e3o v\u00e3o aos shows. A galera nunca ouviu falar nem de Kristoff Silva, quanto mais de Graveola. Isso \u00e9 uma coisa que me preocupa muito, o fato de eles n\u00e3o terem uma postura de fomento \u00e0 cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sem a divulga\u00e7\u00e3o da imprensa daqui fica dif\u00edcil para o pessoal dos outros estados saberem o que acontece na cena local.<\/strong><br \/>\nExatamente. Quem mais precisaria comprar o peixe, n\u00e3o compra. A situa\u00e7\u00e3o da cena de Belo Horizonte \u00e9 dif\u00edcil porque ela \u00e9 uma cena invis\u00edvel para a imprensa oficial. Olha s\u00f3 que ironia: eu estou dando entrevista para um blog de S\u00e3o Paulo, mas, aqui em BH, n\u00e3o sai entrevista minha em lugar nenhum. N\u00e3o existe o mesmo interesse. Vamos l\u00e1, imprensa, vamos olhar pra c\u00e1! O que eu espero mesmo \u00e9 que a cena daqui cres\u00e7a a ponto de incomodar tanto a grande imprensa que eles se sintam obrigados a olhar para a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na sua opini\u00e3o, por que as bandas indies aqui de Minas Gerais n\u00e3o conseguem tanto destaque?<\/strong><br \/>\nAcho que tem uma coisa do \u201ccome quieto\u201d do mineiro que resulta em uma pregui\u00e7a da cena de se articular, se posicionar, se divulgar, fazer contato. Tanto que o Graveola \u00e9 uma banda que adota uma postura quase que solit\u00e1ria nesse campo porque a gente n\u00e3o tem pudor nenhum de dar entrevista, botar material no site, se divulgar mesmo. P\u00f4, pega o tanto de banda foda que tem s\u00f3 aqui em BH. Que faz um som mais pop tem Monno, Transmissor, Dead Lover\u2019s Twisted Heart, \u00c9rika Machado, Junkie Dogs, Fusile, Pequena Morte&#8230; A\u00ed do outro lado, com uma proposta de m\u00fasica menos pop, tem Juliana Perdig\u00e3o, Kristoff Silva, Pablo Castro, Makely Ka, Quebra-Pedra, Rafael Macedo. Fora as coisas instrumentais: Diapas\u00e3o, Ramo, Iconili&#8230; Tem uma galera muito boa aqui, com proposta autoral e que n\u00e3o consegue ganhar destaque. Por\u00e9m, ao mesmo tempo em que essas bandas possuem um trabalho genial, de potencialidade est\u00e9tica e identidade muito peculiar, uma parte delas n\u00e3o demonstra empreendedorismo. Junte isso \u00e0 falta de espa\u00e7os dispon\u00edveis para tocar na cidade e a\u00ed fica dif\u00edcil mesmo ganhar algum destaque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abrindo agora para al\u00e9m da cena mineira, muita gente tem falado que esse cen\u00e1rio da m\u00fasica atual \u00e9 um dos mais f\u00e9rteis que o pa\u00eds j\u00e1 teve. Voc\u00ea acredita nisso tamb\u00e9m?<br \/>\n<\/strong>Totalmente. Se eu fosse apostar em dois vetores respons\u00e1veis por essa fertilidade da cena atual na m\u00fasica nacional, eu diria o acesso que n\u00f3s temos a toda hist\u00f3ria da m\u00fasica e a possibilidade de produzir. E n\u00e3o s\u00f3 de produzir, mas mesmo de estudar. Hoje, eu posso baixar a discografia inteira do Sinh\u00f4, que \u00e9 um dos pioneiros do samba, e do Milton Nascimento, digerir isso e depois cuspir alguma coisa que tenha influ\u00eancia do que eu ouvi. Eu acredito nisso como uma premissa para se produzir m\u00fasica hoje. A fertilidade, essa coisa da mistura, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o do nosso tempo e \u00e9 tamb\u00e9m nossa grande pot\u00eancia. Vivemos em um terreno f\u00e9rtil para quem tem vis\u00e3o criativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea e o pessoal da banda mais \u201cestudam\u201d? Quais s\u00e3o as influ\u00eancias de voc\u00eas?<br \/>\n<\/strong>A influ\u00eancia do Graveola seria, na verdade, qualquer influ\u00eancia. \u00c9 tudo que a gente ouve. Come\u00e7a com Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo, essa gera\u00e7\u00e3o que, de certa forma, configurou o primeiro vocabul\u00e1rio de can\u00e7\u00e3o no Brasil. Depois passa por Dorival Caymmi, o bolero, a era do r\u00e1dio, Francisco Alves, Orlando Silva&#8230; A\u00ed tem o Jo\u00e3o Gilberto e a bossa nova. \u00c9 importante falar tamb\u00e9m da Tropic\u00e1lia, que eu vejo como um ponto de apoio muito forte do gestual que a gente se vale. Tem ainda o Clube da Esquina que, apesar de n\u00e3o ser uma refer\u00eancia clara, faz parte do nosso vocabul\u00e1rio tamb\u00e9m, at\u00e9 porque \u00e9 gen\u00e9tico, n\u00e3o tem como escapar. At\u00e9 o rock dos anos 80 e o ax\u00e9 e sertanejo dos anos 90, que s\u00e3o coisas que ouvimos meio que involuntariamente, acabam sendo refer\u00eancias importantes tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tem o Tom Z\u00e9, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de patrono conceitual de v\u00e1rias coisas nossas. Muito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica, mas muito em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento tamb\u00e9m. Tom Z\u00e9 \u00e9 um cara que eu queria abra\u00e7ar um dia porque ele tem uma radicalidade na sua inventividade, na necessidade de buscar o pr\u00f3prio deslocamento, que \u00e9 foda. Ele n\u00e3o se acomoda numa forma de fazer que seja eficaz e d\u00ea resultado. Ele mesmo se define como um pesquisador, um estudioso. Eu me lembro de ouvi-lo falar que nunca teve isso de parir uma melodia bonita, que nunca foi um grande cantor e que enxergava uma proximidade entre a enceradeira e o piano, e que por isso foi tocar a enceradeira. Ele resolveu potencializar essa caracter\u00edstica que poderia parecer uma incompet\u00eancia e isso eu acho genial. \u00c9 a utiliza\u00e7\u00e3o do limite enquanto recurso est\u00e9tico, o que, para mim, \u00e9 um dos princ\u00edpios de fazer arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando agora ao trabalho novo, como voc\u00eas pretendem divulg\u00e1-lo? Quais s\u00e3o os planos do Graveola para 2010?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s montamos um show novo, que tem m\u00fasicas do \u201cUm e Meio\u201d, m\u00fasicas do primeiro disco que a gente n\u00e3o tocava muito e algumas in\u00e9ditas tamb\u00e9m. A id\u00e9ia \u00e9 tocar esse repert\u00f3rio nos teatros aqui de Belo Horizonte. Por\u00e9m, nossa vontade maior para esse ano \u00e9 conseguir fazer mais shows fora. Queremos circular por todos esses canais: o Fora do Eixo, os festivais da Abrafin, todo esse circuit\u00e3o de festivais que est\u00e1 rolando Brasil afora&#8230; universidades, encontros de estudantes, casas de show, todo lugar que for poss\u00edvel de transitar. A gente est\u00e1 a fim de rodar. A quest\u00e3o est\u00e1 em equilibrar a necessidade e a possibilidade, conseguir se adequar \u00e0s estruturas que rolam sem que isso prejudique muito nosso som. Estamos tentando ultrapassar essa barreira da viabilidade, do fato de ser uma banda grande, que tem uma estrutura de som complicada, que trabalha com uma equipe pr\u00f3pria&#8230; Estamos tentando enxugar isso ao m\u00e1ximo. Fazer um show mais rock n\u2019 roll, sabe? Porque existe um lugar para isso na banda tamb\u00e9m. Temos m\u00fasicas que s\u00e3o feitas para tocar num teatro e musicas feitas para tocar num palco pra galera. As duas coisas convivem dentro da banda porque existe produ\u00e7\u00e3o para os dois lugares. Felizmente, a gente ainda n\u00e3o teve crise criativa: a produ\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 alta, ent\u00e3o queremos aproveit\u00e1-la enquanto podemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-5118 aligncenter\" title=\"graveola21\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/graveola21.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"622\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/graveola21.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/graveola21-217x300.jpg 217w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Igor Lage acredita em Bob Dylan e no jornalismo e assina o blog <a href=\"http:\/\/novadiscoteca.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nova Discoteca<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baixe os discos do Graveola e o Lixo Polif\u00f4nico: <a href=\"http:\/\/www.graveola.com.br\/\">http:\/\/www.graveola.com.br\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Entrevist\u00e3o com Romulo Fr\u00f3es, por Marcelo Costa e Tiago Agostini (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/01\/entrevista-do-mes-romulo-froes\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Igor Lage\nUma das boas surpresas musicais vindas de Minas Gerais, o sexteto Graveola est\u00e1 liberando seu segundo EP para download.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/12\/entrevista-graveola-e-o-lixo-polifonico\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":127,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[76,2444],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5105"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/127"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5105"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5105\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56319,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5105\/revisions\/56319"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}