{"id":50555,"date":"2019-02-25T11:09:50","date_gmt":"2019-02-25T14:09:50","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=50555"},"modified":"2019-03-28T02:36:31","modified_gmt":"2019-03-28T05:36:31","slug":"entrevista-fantastic-negrito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/02\/25\/entrevista-fantastic-negrito\/","title":{"rendered":"Entrevista: Fantastic Negrito"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDevo te chamar de Xavier ou de Negrito?\u201d, pergunta o rep\u00f3rter nos primeiros segundos da entrevista por telefone com o m\u00fasico norte-americano Fantastic Negrito. \u201cEu prefiro Xavier\u201d, responde. Ainda assim, os minutos seguintes apresentar\u00e3o muito pouco de Xavier Amin Dphrepaulezz, o ex-morador de rua, ex-ladr\u00e3o e traficante que h\u00e1 cerca de dois anos vem pirando a cabe\u00e7a de muita gente com uma m\u00fasica que mistura soul, blues, rock\u2019n\u2019roll, gospel e r&amp;b em doses poderosas e indistintas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/4YGfJVisHb0sZrNHDrSSbs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The Last Days of Oakland<\/a>\u201d (2016) e \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/76BB70ASc22gc7NcRTGSQl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Please, Don\u2019t Be Dead<\/a>\u201d (2018), ambos agraciados com o Grammy de Melhor \u00c1lbum de Blues Contempor\u00e2neo, s\u00e3o \u00f3timos \u00e1lbuns, precedidos por um bom EP ep\u00f4nimo de 2014. Essa \u00e9 a \u00edntegra da discografia creditada a Fantastic Negrito, mas h\u00e1 um \u00e1lbum de 1996, \u201cThe X Factor\u201d, assinado apenas como Xavier. A diferen\u00e7a entre os dois momentos \u00e9 gritante: \u201cThe X Factor\u201d \u00e9 um disco absolutamente ordin\u00e1rio, sem nada que indicasse o frescor e a inventividade que se manifestariam nos anos vindouros. Os recentes, por sua vez, usam a base dos mais not\u00e1veis g\u00eaneros musicais de origem negra dos EUA e a partir deles entrega algo poderoso: assimil\u00e1vel e identific\u00e1vel, mas com f\u00f4lego para ir muito al\u00e9m da surpresa inicial. Pesado e pungente, sem abrir m\u00e3o de ser pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anos passados entre as duas etapas parecem ter sido definitivos para isso: segundo Dphrepaulezz tem contado em repetidas entrevistas, ap\u00f3s o disco de 1996 n\u00e3o dar em nada, ele voltou a cometer pequenos crimes, montou uma casa noturna clandestina supostamente frequentada por celebridades decadentes e sofreu um acidente de carro quase fatal que \u201co liberou\u201d das suas aspira\u00e7\u00f5es quase obsessivas ao estrelato. Passou, ent\u00e3o, a tocar de gra\u00e7a na rua e em esta\u00e7\u00f5es de transporte p\u00fablico, fazendo m\u00fasica com o objetivo de \u201ccontribuir para o mundo\u201d, e foi isso que, em sua vis\u00e3o, teria tornado sua m\u00fasica mais livre e com maior penetra\u00e7\u00e3o entre as pessoas. \u201cBastou eu parar de querer ser um rock star para que o reconhecimento viesse\u201d, costuma repetir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios pontos dessa hist\u00f3ria n\u00e3o fecham \u2013 n\u00e3o faz muito sentido \u201cn\u00e3o buscar fama\u201d e ao mesmo tempo gravar e divulgar um EP, participar de concursos (como o do Tiny Desk Concert, que acabou atraindo aten\u00e7\u00e3o sobre ele) e ser banda de apoio da \u00faltima turn\u00ea de Chris Cornell. Assim como ainda n\u00e3o houve quem checasse os fatos de seu propagado passado criminoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, a hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o merit\u00f3ria contada por Dphrepaulezz pegou na imprensa, e Dphrepaulezz tem falado muito dela. Fala mais ainda sobre sua m\u00fasica \u201ccontribuir para o mundo\u201d, ainda que n\u00e3o diga de forma muito concreta como isso acontece. Algumas de suas letras certamente tratam de quest\u00f5es com as quais muitos podem se identificar \u2013 \u201cBad Guy Necessity\u201d, \u201cWorking Poor\u201d, \u201cLost in a Crowd\u201d s\u00e3o algumas delas. Mas quando ouve falar da situa\u00e7\u00e3o dos negros no Brasil, esse senhor de 51 anos escapa do assunto voltando aos seus temas de sempre. Confira o bate papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/djWziMwFVWw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos come\u00e7ar falando de m\u00fasica. Seus dois \u00faltimos \u00e1lbuns t\u00eam uma sonoridade muito diferente dos anteriores. O que levou a essa mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 crescimento. Acho que antes eu n\u00e3o era t\u00e3o disposto a oferecer coisas, eu era mais um taker, algu\u00e9m que est\u00e1 sempre querendo tomar coisas dos outros, sempre buscando por algo externo. Quando eu me tornei o Fatantstic Negrito, virei algo totalmente diferente, quase como se fosse uma entidade. Eu realmente acho que acontece uma encarna\u00e7\u00e3o \u2013 ou v\u00e1rias \u2013 quando me torno o Fantastic Negrito. S\u00e3o incorpora\u00e7\u00f5es. Tem a ver tamb\u00e9m com estar em um lugar diferente, espiritualmente falando. S\u00e3o prioridades distintas, vis\u00f5es diferentes. Acredito que Fantastic Negrito \u00e9 um artista que contribui mais do que Xavier contribu\u00eda, que contribui para seu p\u00fablico e para a tradi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica negra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pegando esse gancho: voc\u00ea repetidamente tem falado sobre seu trabalho ser \u201cm\u00fasica negra de raiz para todos\u201d. Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o sobre sua rela\u00e7\u00e3o com essas ra\u00edzes: voc\u00ea as revisita sob uma \u00f3tica moderna, reapresenta-as ao p\u00fablico com outra perspectiva, ou parte delas para criar algo novo?<\/strong><br \/>\nHonestamente, quero fazer algo \u00f3timo com uma grande tradi\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 o que procuro. Quero compartilhar essa tradi\u00e7\u00e3o com todas as pessoas que est\u00e3o nesse planeta. Existe muita riqueza nela que pode ser compartilhada com todos. O que fa\u00e7o \u00e9 trazer um ar fresco a elas, n\u00e3o acho que as reinvento. Uso-as tamb\u00e9m porque acredito que elas contribuem para mudar as muitas coisas que est\u00e3o erradas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iycmb2Zo3qI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, suas m\u00fasicas trazem temas sociais e raciais muito evidentes. Pensando nisso, e nessa vontade de mudar o que est\u00e1 errado, como voc\u00ea acha que sua m\u00fasica pode se comunicar com a por\u00e7\u00e3o cada vez maior do seu p\u00fablico que n\u00e3o fala ingl\u00eas? Voc\u00ea vem ao Brasil, por exemplo, e esse \u00e9 um pa\u00eds onde 77% das v\u00edtimas de homic\u00eddio s\u00e3o negros, onde a brutalidade policial \u00e9 constante, contra negros e pobres. Como sua m\u00fasica pode atingir esse p\u00fablico e contribuir com ele?<\/strong><br \/>\nBem, a m\u00fasica \u00e9 a \u00fanica coisa que une e redime a humanidade. A vibra\u00e7\u00e3o e o ritmo transcendem linguagens. Espero que a m\u00fasica que fa\u00e7o seja produtiva e atinja as pessoas. Como artista, eu n\u00e3o quero ver a injusti\u00e7a acontecer em nenhuma parte do Brasil, porque se isso acontece no Brasil, \u00e9 ruim para o mundo todo. Se isso acontece em Oakland, \u00e9 ruim para o mundo todo. Acredito que estamos conectados, quer gostemos ou n\u00e3o. As crian\u00e7as que ignoramos s\u00e3o as crian\u00e7as com as quais vamos conviver, quer gostemos ou n\u00e3o. E essas crian\u00e7as podem crescer com raiva e frustra\u00e7\u00e3o, ou ter outra vis\u00e3o do mundo. Eu sei, porque eu fui uma dessas crian\u00e7as. \u00c9 preciso fazer com que elas se sintam queridas, valorizadas. H\u00e1 anos eu cultivo algumas variedades de cannabis, e isso \u00e9 algo que gosto muito de fazer. Se eu amo essas plantas e dou a elas ar, liberdade e espa\u00e7o, v\u00e3o produzir algo bom. Mas se eu as deixo de lado ou as coloco em um lugar apertado e escuro, eu perco minha colheita, minhas sementes e meu investimento. Penso que \u00e9 assim com as pessoas tamb\u00e9m. Se n\u00e3o cuidarmos dessas crian\u00e7as, seja na parte do mundo que for, viveremos em constante estado de medo. Mas se as abra\u00e7armos, daremos a elas condi\u00e7\u00f5es de elas produzirem e frutificarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acredita que tem conseguido esses objetivos elevados que voc\u00ea se imp\u00f4s, de melhorar o mundo com sua m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nNunca vou conseguir atingir todos os meus objetivos. Posso produzir e escrever m\u00fasica que me deixe orgulhoso e mantenha minha cabe\u00e7a alta, esse j\u00e1 \u00e9 um objetivo para mim. E para isso, preciso ser aut\u00eantico e verdadeiro. Como Fantastic Negrito, eu n\u00e3o estava buscando fama e sim minha arte. Voc\u00ea sabe, n\u00e3o sou rapper nem uma cantora pop branca (risos). Digo porque s\u00e3o essas as coisas que as pessoas escutam hoje. Sou esse cara de meia-idade que tocava can\u00e7\u00f5es nas ruas. \u00c9 \u00f3timo que eu possa estar fazendo o que fa\u00e7o, valorizo muito isso, mas h\u00e1 muito ainda a fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pensando que at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s voc\u00ea tocava na rua, qual a sensa\u00e7\u00e3o que te acomete quando se v\u00ea diante de novas plateias e novas culturas, em lugares que antes podiam parecer inacess\u00edveis, como a Am\u00e9rica do Sul?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma grande honra e uma experi\u00eancia de humildade saber que essa m\u00fasica que fa\u00e7o atinge pessoas em todo o mundo. Seja na Am\u00e9rica, na \u00c1sia ou na Europa. \u00c9 minha prova de que estou fazendo o que eu devo fazer, contribuindo para melhorar as coisas com a minha arte. Estou fazendo a mesma coisa que eu fazia nas esta\u00e7\u00f5es de trem: as pessoas est\u00e3o l\u00e1, se movimentando na cidade, trabalhando em dois ou tr\u00eas empregos s\u00f3 para pagar o aluguel, e elas podem escutar uma m\u00fasica que d\u00e1 a elas for\u00e7a, al\u00edvio. A coisa mais importante \u00e9 que eu crio arte que move as pessoas e isso as aproxima. Eu chamo esses ouvintes de \u201cna\u00e7\u00e3o de apoio Negrito\u201d (risos). Eu levo a elas uma m\u00fasica que vem sido passada de av\u00f4 para pai, de pai para filho. \u00c9 um legado e uma tradi\u00e7\u00e3o muito forte. Quanto ao Brasil, eu vi umas coisas a\u00ed da Bahia, n\u00e3o saberia dizer o nome, mas foram coisas incr\u00edveis! \u00c9 t\u00e3o conectado com a \u00c1frica, e ao mesmo tempo t\u00e3o universal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0JurP6tybN0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/l27rcITyJGc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8KhU75RkbYQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Voc\u00ea sabe, n\u00e3o sou rapper nem uma cantora pop branca (risos). 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