{"id":50524,"date":"2019-02-21T12:10:32","date_gmt":"2019-02-21T15:10:32","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=50524"},"modified":"2019-04-17T09:03:18","modified_gmt":"2019-04-17T12:03:18","slug":"weezer-teal-album-e-a-consagracao-da-ironia-preguicosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/02\/21\/weezer-teal-album-e-a-consagracao-da-ironia-preguicosa\/","title":{"rendered":"Weezer, &#8220;Teal Album&#8221; e a consagra\u00e7\u00e3o da ironia pregui\u00e7osa"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem defende que o meme \u00e9 uma nova forma de humor, o novo \u00e1lbum do Weezer \u2013 12\u00ba na carreira da banda \u2013 deve ser hil\u00e1rio. Afinal, o disco nasceu de um meme iniciado por um f\u00e3, que pediu que a banda regravasse \u201cAfrica\u201d, hit do Toto, uma dessas cafonas bandas de soft rock que o revisionismo do tempo permite que seu trabalho seja visto como cult ou kitsch (algu\u00e9m ainda usa esses termos?). A partir dessa ideia, a banda n\u00e3o s\u00f3 atendeu ao pedido como fez um \u00e1lbum inteiro de covers. Como os de 1994, 2001, 2008 e 2016, este leva o nome da banda, recebendo na sequ\u00eancia o apelido da cor predominante da capa (\u201cBlue\u201d, \u201cGreen\u201d, \u2018Red\u201d, \u201cWhite\u201d e agora, \u201cTeal\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que nem todo mundo acha meme engra\u00e7ado. Tente contar um meme para algu\u00e9m \u2013 n\u00e3o funciona. \u00c9 um humor que s\u00f3 d\u00e1 certo na sua forma, e dentro de um contexto particular ao grupo que \u00e9 endere\u00e7ado. Al\u00e9m disso, \u00e9 algo de vida curta \u2013 ou voc\u00ea conhece algum meme \u201ceterno\u201d? Pois \u00e9 mais para esse lado que esse \u201cTeal Album\u201d caminha: o da descartabilidade. Tudo \u00e9 feito para durar o tempo de um meme \u2013 tanto que o disco foi lan\u00e7ado sem aviso pr\u00e9vio, e a banda j\u00e1 sinalizou que logo vai concentrar seus esfor\u00e7os em divulgar o novo \u00e1lbum (\u201cBlack\u201d, dessa vez), a ser lan\u00e7ado no come\u00e7o de mar\u00e7o. Ainda assim, esse \u201cTeal\u201d conseguiu atingir o quinto posto na parada da Billboard, e olha que est\u00e1 dispon\u00edvel apenas em formato digital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem gente anunciando essa hist\u00f3ria como uma prova da \u201cesperteza\u201d e da \u201cousadia\u201d da trupe de Rivers Cuomo, que \u201cfaz o que quer\u201d e \u201cdesafia as normas da ind\u00fastria\u201d \u2013 enumerando \u201cevid\u00eancias\u201d como a falta de divulga\u00e7\u00e3o \u201coficial\u201d do \u00e1lbum (e as redes sociais, s\u00e3o o que?), a \u201cautossabotagem\u201d que \u00e9 lan\u00e7ar um disco de covers antes de um \u00e1lbum de in\u00e9ditas e coisas do tipo. O mais impressionante do marketing \u00e9 que sempre vai ter quem compre a ideia como profunda, e ousada n\u00e3o importa qu\u00e3o rasa ela seja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cWeezer (Teal Album)\u201d \u00e9 um disco que n\u00e3o entrega nada musicalmente, e que n\u00e3o tem nenhuma \u201cousadia\u201d em sua estrat\u00e9gia de lan\u00e7amento. \u00c9 um disco pregui\u00e7oso, que compila recria\u00e7\u00f5es de hits massivos, testados e comprovados, em vers\u00f5es que parecem ser executadas por uma banda de casamentos, n\u00e3o por uma com 25 anos de carreira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mk5Dwg5zm2U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco \u00e9 tomado por nostalgia, com o devido acr\u00e9scimo da \u201cironia\u201d e da \u201cfalta de preconceito est\u00e9tico\u201d t\u00e3o comuns a essa era digital. Assim, d\u00e1 para ter baladinha sessentista (\u201cHappy Together\u201d, dos Turtles), hip hop noventista (\u201cNo Scrubs\u201d, das TLC), pop sintetizado dos anos 80 (Tears for Fears, Eurythmics, A-ha), soft rock (Toto, ELO), hard rock (uma deslocad\u00edssima \u201cParanoid\u201d, do Black Sabbath, na voz do guitarrista Brian Butler) e soul muisc (\u201cStand By Me\u201d, do Ben E. King). Quando s\u00f3 emula o original, timbre por timbre e nota por nota, \u00e9 simplesmente oco. Mas quando o original \u00e9 algo que requer um pouco de alma, o resultado \u00e9 intrag\u00e1vel e\/ou digno de pena \u2013 caso de \u201cStand By Me\u201d e de uma pat\u00e9tica vers\u00e3o de \u201cBillie Jean\u201d, de Michael Jackson.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o ouvinte tem 15 anos ou menos, talvez seja a primeira vez que ele vai ouvir as can\u00e7\u00f5es aqui contidas. Mas se o ouvinte \u00e9 um pouco mais velho fica dif\u00edcil entender a quem o \u00e1lbum apela \u2013 a n\u00e3o ser que se leve em conta esse fator da pregui\u00e7a e da ironia da era digital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem diga que a tend\u00eancia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de \u201cbolhas\u201d nos ambientes online nos tornou mais imperme\u00e1veis \u00e0s novidades. Queremos sempre mais, desde que seja mais do mesmo. E se \u201co mesmo\u201d for o que nos encantou nos nossos anos de forma\u00e7\u00e3o, melhor ainda. Porque parecemos ter cada vez mais dificuldade em envelhecer. Mas parafraseando Fabricio Nobre, organizador do festival Bananada, quem tem saudade da m\u00fasica que ouvia aos 20 anos n\u00e3o tem saudade necessariamente das can\u00e7\u00f5es, e sim de ter 20 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do estouro do \u201cBlue Album\u201d (1994) 25 anos atr\u00e1s, Rivers Cuomo fez um \u00e1lbum de adultesc\u00eancia, o excelente \u201cPinkerton\u201d (1996). Mas os f\u00e3s n\u00e3o aceitaram que aquele cara que cantava sobre isolar-se numa garagem cheia de RPGs e action figures agora cantasse sobre abusos qu\u00edmicos, estafa sexual e o desejo de se entregar a uma f\u00e3 japonesa de 18 anos. Para eles, Cuomo tinha que continuar sendo aquele nerd sexista, saudosista de um tempo que n\u00e3o viveu e obcecado por cultura pop. Cuomo parece ter atendido aos apelos dos f\u00e3s, e passou os anos seguintes se repetindo, cada vez com menos estofo musical, e a \u00fanica brecha para mudan\u00e7a eram acenos para o rock mais farofa ou o pop mais meloso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As resenhas no Scream &amp; Yell acompanharam esse processo: \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/weezergreen.htm\">Se perderam em inoc\u00eancia, ganharam em cinismo<\/a>\u201d escreveu Andr\u00e9 Fiori em 2001 sobre o \u201cGreen Album\u201d; O disco seguinte, \u201cMaladroit\u201d (2002), foi \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/weezermaladroit.htm\">feito com as m\u00e3os nas costas, sem muita obriga\u00e7\u00e3o e sem toda inspira\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d, resenhou Marcelo Costa; \u201cMake Believe\u201d surpreendeu Tomaz de Alvarenga: \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/weezerbelieve.htm\">\u00c9 um prato cheio pra quem tem fome de boa m\u00fasica<\/a>\u201d (2005); J\u00e1 no \u201cRed Album\u201d (2008) havia sinais do que contaminou a banda, pois ele \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/06\/04\/disco-da-semana-weezer-red-album-weezer\/\">soa pregui\u00e7oso (n\u00e3o confunda com simplicidade)<\/a>\u201d, palavras de Marcelo Costa, que bocejou, mas ainda dava cr\u00e9dito para banda em \u201cRaditude\u201d (2009 \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/30\/ben-kweller-weezer-e-lemonheads\/\">\u00c9 pouco, mas \u00e9 Weezer<\/a>\u201d) e perdeu a paci\u00eancia em \u201cHurley\u201d (2010 \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/09\/16\/cds-brandon-flowers-weezer-e-manics\/\">eles se divertem lan\u00e7ando algumas can\u00e7\u00f5es geniais perdidas em \u00e1lbuns rid\u00edculos<\/a>\u201d). Marco Antonio Bart deu sequencia ao legado falando de \u201cEverything Will Be Alright in the End\u201d (2014) \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/12\/13\/no-final-tudo-vai-dar-certo-rivers\/\">N\u00e3o seria o primeiro caso de uma banda que atinge seu \u00e1pice cedo demais e, exaurida, gasta o resto de sua discografia tentando buscar o brilho perdido<\/a>\u201d \u2013, e ningu\u00e9m se animou a mergulhar no rock farofa e no pop meloso de \u201cWhite Album\u201d (2016) e \u201cPacific Daydream\u201d (2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os f\u00e3s, por\u00e9m, parecem estar nessa pegada. Todo mundo chafurdando nas lembran\u00e7as do pr\u00f3prio passado por conta da incapacidade de encarar o presente. E se o presente pode ser entendido como \u201cCan\u2019t Knock the Hustle\u201d, med\u00edocre single do vindouro \u201cBlack Album\u201d (olha a repeti\u00e7\u00e3o de novo\u2026), d\u00e1 at\u00e9 para se apiedar de quem prefere o passado. O Weezer se tornou uma banda incapaz de criar algo s\u00f3lido, e que conta com meia d\u00fazia de truquezinhos para manter a engrenagem funcionando \u2013 truquezinhos que espelham a crescente falta de crit\u00e9rios que norteia o consumo de m\u00fasica em larga escala hoje. E com esse disco \u201cverde-azulado\u201d, conseguiu fazer pior que lan\u00e7ar um disco ruim: lan\u00e7ou um \u00e1lbum lament\u00e1vel.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/f7RwDnZI7Tw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com esse disco \u201cverde-azulado\u201d, o Weezer conseguiu fazer pior que lan\u00e7ar um disco ruim: lan\u00e7ou um \u00e1lbum lament\u00e1vel. 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