{"id":5047,"date":"2010-05-03T21:41:32","date_gmt":"2010-05-04T00:41:32","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=5047"},"modified":"2024-09-19T11:17:49","modified_gmt":"2024-09-19T14:17:49","slug":"tudo-pode-dar-certo-woody-allen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/03\/tudo-pode-dar-certo-woody-allen\/","title":{"rendered":"Cinema: Com &#8220;Tudo Pode Dar Certo&#8221;, Woody Allen segue fazendo pensar enquanto conta piadas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83748\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s quatro filmes seguidos em cidades europ\u00e9ias, Woody Allen volta para a sua amada Nova York com \u201cTudo Pode Dar Certo\u201d (\u201cWhatever Works\u201d, 2009), uma com\u00e9dia tipicamente alleniana de primeira hora, que lembra seus primeiros filmes, mas destaca um texto que n\u00e3o carrega a amargura que seus longas iniciais deixavam por tr\u00e1s dos sorrisos f\u00e1ceis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo bem que \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ver amargura em Boris Yellnikoff (Larry David, roterista genial da s\u00e9rie Seinfeld, soa um pouco desajeitado no papel, como se estivesse vestindo uma roupa grande demais), um velho judeu ranzinza metido a g\u00eanio, que foi indicado ao Nobel de F\u00edsica, mas n\u00e3o ganhou, e agora fica premiando o mundo com sua vis\u00e3o soberana que defende que a ra\u00e7a humana \u00e9 burra demais para ser feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrito em 1977, o roteiro de \u201cTudo Pode Dar Certo\u201d foi tirado da gaveta devido \u00e0 greve de roteiristas e atores em 2008\/2009. Um olhar aprofundado revelar\u00e1 algumas id\u00e9ias que Woody Allen iria usar nos seus filmes seguintes, notadamente \u201cAnnie Hall\u201d e \u201cManhattan\u201d (onde Woody \u00e9 um escritor de meia idade que namora uma jovem de 17 anos, mas n\u00e3o enxerga futuro no relacionamento at\u00e9 se descobrir apaixonado).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83749\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boris \u00e9 um suicida fracassado que, segundo os amigos, tem um \u201ctotal del\u00edrio de grandeza\u201d. Exc\u00eantrico at\u00e9 o \u00faltimo fio de cabelo, Boris passa o tempo tocando piano com os amigos e lecionando xadrez para crian\u00e7as \u2013 idiotas, segundo ele. Sabe o Clint Eastwood de \u201cGran Torino\u201d? \u00c9 quase a mesma coisa, sendo que a grande diferen\u00e7a \u00e9 que as tiradas humor\u00edsticas de Boris muitas vezes s\u00e3o impag\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Boris, o problema central do mundo \u00e9 que pessoas como Jesus Cristo e Karl Marx, entre tantas outras, acreditam que as pessoas s\u00e3o fundamentalmente decentes, e n\u00e3o s\u00e3o est\u00fapidas, ego\u00edstas, gananciosas, covardes, de vis\u00e3o curta. \u201cLamento dizer, somos criaturas que falham\u201d, explica ele logo no come\u00e7o da pel\u00edcula, antes de se aprofundar em um mon\u00f3logo de deixar o espectador sem ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 assim: Woody Allen defende sua doutrina nos tr\u00eas primeiros minutos do filme. \u201cSe tiver que comer nove por\u00e7\u00f5es de frutas e legumes por dia para viver, eu prefiro n\u00e3o viver. Odeio essas malditas frutas e legumes\u201d. Depois, outra estocada no peito do fregu\u00eas: \u201cVoc\u00ea pega o jornal e l\u00ea sobre algum massacre ou algum \u00f4nibus de escola que explodiu, e diz: \u2018o terror\u2019. Ent\u00e3o vira a p\u00e1gina e continua tomando o caf\u00e9 da manh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83751\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rotina de nosso amigo muda at\u00e9 que uma loirinha adolescente, Melodie (Evan Rachel Wood bastante convincente), entra em sua vida de forma abrupta, e se apaixona por ele. Como escreveu um critico norte-americano, esse n\u00e3o \u00e9 o cen\u00e1rio perfeito para uma com\u00e9dia, mas sim para um delito penal, e d\u00e1 exatamente o tom perfeito do politicamente incorreto que Woody usa com tanta sabedoria para provocar o espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a paix\u00e3o de uma jovem por um velho n\u00e3o \u00e9 o que move a trama de \u201cTudo Pode Dar Certo\u201d, mas sim o choque entre c\u00e9rebro e cora\u00e7\u00e3o, juventude e experi\u00eancia. Boris vive um momento da vida em que se relacionar com um mulher \u00e9 a \u00faltima coisa que pensa, mas Melodie traz \u00e0 tona uma das id\u00e9ias principais de Boris: agarre qualquer chance de felicidade que passar pela sua frente, pois no final tudo pode dar certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vindo de um cara t\u00e3o pessimista quanto Woody Allen, a id\u00e9ia de que n\u00e3o podemos perder uma chance sequer de ser feliz soa bastante interessante. Se tivesse lan\u00e7ado \u201cWhatever Works\u201d no final dos anos 70 \u00e9 bem prov\u00e1vel que o filme n\u00e3o soasse t\u00e3o leve quanto soa agora, tr\u00eas d\u00e9cadas e mais de 30 filmes depois. E essa percep\u00e7\u00e3o faz o filme ganhar muito mais brilho do que realmente tem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83750\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/certo4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 que \u201cWhatever Works\u201d seja ruim, pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 gra\u00e7a de sobra e uma poesia insuspeita que valorizam o filme, mas o pr\u00f3prio Woody defende que com\u00e9dias s\u00e3o, por natureza, inferiores. Assim, ap\u00f3s o sensacional \u201cMatch Point\u201d e o sedutor \u201cVicky Cristina Barcelona\u201d, dois filmes de cunho s\u00e9rio, \u201cTudo Pode Dar Certo\u201d \u00e9 um aceno do diretor \u00e0s com\u00e9dias e a Nova York, e seu melhor filme humor\u00edstico desde \u201cTrapaceiros\u201d (2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da for\u00e7a do personagem Boris Yellnikoff e da \u00f3tima qu\u00edmica da narrativa com Melodie, as melhores gags do filme giram ao redor de Patricia Clarkson (como Marietta) e Ed Begley Jr. (John), que interpretam a m\u00e3e e o pai da menina. Mais do que escadas para as tiradas cru\u00e9is de Boris, Marietta e John d\u00e3o flu\u00eancia ao filme, e refor\u00e7am a tese de que se deve aceitar qualquer coisa que os fa\u00e7a feliz enquanto experimentam m\u00e9nage \u00e0 trois e descobrem que, na verdade, Deus \u00e9 gay.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cWhatever Works\u201d come\u00e7a com &#8220;Hello, I Must Be Going!&#8221;, de Groucho Marx, uma introdu\u00e7\u00e3o perfeita. Woody Allen segue vivendo a vida e fazendo filmes porque \u00e9 isso que lhe resta. A vida \u00e9 um fardo, mas passa r\u00e1pido demais, j\u00e1 cravou certa vez Alvin Singer, de \u201cAnnie Hall\u201d. Aqui, ao final, ele cutuca o espectador: \u201cA maior parte de sua exist\u00eancia \u00e9 sorte, mais do que voc\u00ea gostaria de admitir\u201d. Woody Allen faz pensar mesmo quando est\u00e1 contando uma piada. Poucos sabem fazer isso t\u00e3o bem quanto ele.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Whatever Works | Official Trailer (2009)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7VeTEP3xoXo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Todos os filmes de Woody Allen, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/04\/26\/filmografia-todo-o-cinema-de-woody-allen\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nAp\u00f3s quatro filmes seguidos em cidades europ\u00e9ias, Woody Allen volta para a sua amada Nova York com uma com\u00e9dia tipica&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/05\/03\/tudo-pode-dar-certo-woody-allen\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":83746,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[264],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5047"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5047"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83752,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5047\/revisions\/83752"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83746"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}