{"id":50280,"date":"2019-01-31T09:54:19","date_gmt":"2019-01-31T11:54:19","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=50280"},"modified":"2019-04-03T12:17:22","modified_gmt":"2019-04-03T15:17:22","slug":"cinema-fevereiros-de-marcio-debellian","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/31\/cinema-fevereiros-de-marcio-debellian\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cFevereiros\u201d, de Marcio Debellian"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-50282\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fevereiros.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"666\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fevereiros.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fevereiros-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Beth\u00e2nia \u00e9 figura m\u00edstica, misteriosa, a abelha rainha, dona do dom, entre outros ep\u00edtetos que seu|s f\u00e3s repetem. Por isso diversos document\u00e1rios tentam desvendar universos de Beth\u00e2nia: o cl\u00e1ssico \u201cBeth\u00e2nia Bem de Perto &#8211; A Prop\u00f3sito de um Show\u201d (1966), de J\u00falio Bressane e Eduardo Escorel, apresenta uma cantora em in\u00edcio carreira, por\u00e9m de pulso firme, uma jovem decidida e quase impenetr\u00e1vel. \u201cM\u00fasica \u00e9 Perfume\u201d (2006), de Charles Gachot, \u00e9 quase m\u00edtico ao criar ares de diva a pequenos atos de Beth\u00e2nia. J\u00e1 \u201cPedrinha de Aruanda\u201d (2006), de Andrucha Waddington, se aproxima da intimidade de Beth\u00e2nia, de sua fam\u00edlia, adentra a casa dos Veloso, mas ainda assim parece sempre apresentar um olhar de outrem sobre a fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a chegada de \u201cFevereiros\u201d (2018), de Marcio Debellian, que consegue criar um retrato bastante \u00edntimo de Beth\u00e2nia, completamente despojada de sua aura de diva, por\u00e9m n\u00e3o menos m\u00edstica. O longa de document\u00e1rio parte do enredo campe\u00e3o de 2016 da escola de samba Mangueira, que versava sobre Beth\u00e2nia e suas rela\u00e7\u00f5es religiosas, para tra\u00e7ar um interessante retrato das cren\u00e7as da baiana e assim desenhar um cen\u00e1rio rico sobre o Brasil, o sincretismo, o samba e a negritude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcio Debellian foi respons\u00e1vel pela reedi\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico livro \u201cMaria Beth\u00e2nia Guerreira Guerrilheira\u201d, de Reynaldo Jardim, e depois produziu \u201c(O Vento L\u00e1 Fora)\u201d (2014), filme que traz leituras da professora Cleonice Berardinelli e de Beth\u00e2nia sobre a obra de Fernando Pessoa. Esse hist\u00f3rico j\u00e1 faz de Debellian algu\u00e9m mais pr\u00f3ximo da cantora, com uma proximidade que, atrelada a um forte respeito \u00e0 artista e a sua religiosidade, lega ao filme uma intimidade e um cuidado que conseguem transmitir ao p\u00fablico a presen\u00e7a sincera de Beth\u00e2nia. O filme acompanha de forma modesta a prepara\u00e7\u00e3o do desfile da Mangueira, dando conta especialmente dos rituais religiosos que a cantora participa em sua cidade natal, Santo Amaro, na Bahia, especialmente a festa de Nossa Senhora da Purifica\u00e7\u00e3o, no final de janeiro e in\u00edcio de fevereiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apelando para a m\u00edstica de um Brasil sincr\u00e9tico, \u201cFevereiros\u201d opta por um olhar mais positivo desse cen\u00e1rio. Quando pensamos nas atrocidades cometidas no pa\u00eds e no mundo em nome da religi\u00e3o, essa parece n\u00e3o ser a melhor escolha; quando se pensa na sisudez do catolicismo ou nos preconceitos espalhados pelo neopentecostalismo, essa parece ainda mais uma escolha datada. Por\u00e9m, de forma contr\u00e1ria, \u201cFevereiros\u201d consegue apresentar uma genuinidade nesse olhar, que leva \u00e0 tela uma religiosidade que vai muito al\u00e9m de igrejas ou religi\u00f5es, mas que cultiva a f\u00e9 como possibilidade de enfrentar o mundo e criar formas de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa religiosidade que faz o filme navegar pela hist\u00f3ria do samba e cria v\u00ednculos fortes entre a Bahia e o Rio de Janeiro, bem como entre Santo Amaro e a Mangueira. Nesse recorte m\u00edstico, o roteiro consegue abarcar uma linha temporal bastante ampla, que vai da liberta\u00e7\u00e3o dos escravos no final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do samba enquanto descend\u00eancia clara das religi\u00f5es de matriz afro. \u00c9 um cen\u00e1rio bastante amplo e \u00e9 essa \u00e9 uma das qualidades do filme de Debellian: em nenhum momento ele se perde nessa l\u00f3gica, isso por que o diretor escolhe n\u00e3o abordar as quest\u00f5es com didatismo ou um tom professoral. As quest\u00f5es do filme n\u00e3o s\u00e3o mastigadas ou explicadas (isso at\u00e9 pode afastar um pouco um p\u00fablico que n\u00e3o \u00e9 \u201centendido\u201d do universo de Beth\u00e2nia ou que n\u00e3o tem familiaridade com o Candombl\u00e9), \u00e9 a sensibilidade quase religiosa do ritmo do filme que nos conduz por constru\u00e7\u00f5es que alinhavam temas crassos da nossa forma\u00e7\u00e3o enquanto sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para construir esse painel, as imagens de arquivo tamb\u00e9m s\u00e3o enriquecedoras: M\u00e3e Menininha do Gantois, Jorge Amado, Cartola, entre outros, aparecem em arquivo. Cenas de longas como \u201cQuando o Carnaval Chegar\u201d (1972), de Cac\u00e1 Diegues, e \u201cDoces B\u00e1rbaros\u201d (1976), de Jom Tom Azulay, tamb\u00e9m completam esse cen\u00e1rio hist\u00f3rico de Beth\u00e2nia. De todo modo, desse ba\u00fa de antiguidades a maior rel\u00edquia \u00e9 um lindo trecho em que a cantora interpreta \u201cDe Manh\u00e3\u201d (a primeira faixa que Caetano comp\u00f4s, especialmente para ela), enquanto Dona Can\u00f4 e Dona Edith do Prato tocam seus pratos como instrumento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevistas bastante \u00edntimas, Beth\u00e2nia e Caetano Veloso contam hist\u00f3rias de suas inf\u00e2ncias e montam um painel sobre como as primeiras lembran\u00e7as formam quest\u00f5es pontuais da religiosidade de ambos: ela extremamente crente, com seus patu\u00e1s e suas santas protetoras; ele ateu e descrente de quase tudo. Essa dicotomia cria um belo olhar sobre liberdade religiosa e sobre crer no que te faz bem e, por isso, \u201cFevereiros\u201d soa como um filme fundamental num tempo em que se tenta cercear e delimitar muito da nossa esfera p\u00fablica, em que a religi\u00e3o parece querer impor ditames, em que a f\u00e9 de uns quer regular o corpo e as decis\u00f5es de outros. O document\u00e1rio \u00e9 sobre Beth\u00e2nia, sobre sua f\u00e9, mas traz uma vis\u00e3o que demonstra que \u00e9 poss\u00edvel se conviver em harmonia quando deixamos que a f\u00e9 seja algo \u00edntimo e pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Beth\u00e2nia cr\u00ea no seu Deus, acredita e louva as suas santas e os seus orix\u00e1s de forma extremamente verdadeira para si e \u00e9 isso que \u00e9 t\u00e3o encantador no filme: v\u00ea-la falando de forma natural, leve, a contar pequenos segredos, pequenas d\u00favidas e descobertas de uma pessoa em constante aprendizado com sua f\u00e9. Vemos Beth\u00e2nia a passear pelas ruas de Santo Amaro em prociss\u00e3o, a tomar chuva, a carregar a sua santa de devo\u00e7\u00e3o, vemos uma Beth\u00e2nia comum, extremamente humana em seu misticismo, extremamente brasileira, desse Brasil caboclo, mesti\u00e7o que ela tanto ama e canta. Em cena simb\u00f3lica, ela ergue um copinho americano com sua cerveja e brinda \u00e0 Nossa Senhora, de forma t\u00e3o simples, t\u00e3o singela e t\u00e3o forte para ela. \u00c9 essa Maria Beth\u00e2nia que transparece na tela: uma mulher que cr\u00ea e louva suas cren\u00e7as da forma que faz sentido para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFevereiros\u201d \u00e9 como que uma jun\u00e7\u00e3o do sagrado e do profano. \u00c9 o profano em nome do religioso; \u00e9 o sagrado sendo dessacralizado pelo profano; \u00e9 o samba como ora\u00e7\u00e3o. \u00c9 Beth\u00e2nia de carne e osso. No final das contas, \u00e9 um filme para f\u00e3s e n\u00e3o-f\u00e3s de Beth\u00e2nia, para crentes e ateus, para quem ainda acredita no Brasil apesar de tudo, para quem ainda acredita no povo e na sua for\u00e7a. Por isso, assista se deixando levar pelo m\u00edstico.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/22RpBRBwtfM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Tamb\u00e9m colabora com o site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cFevereiros\u201d soa como um filme fundamental num tempo em que se tenta cercear e delimitar muito da nossa esfera p\u00fablica, em que a religi\u00e3o parece querer impor ditames, em que a f\u00e9 de uns quer regular o corpo e as decis\u00f5es de outros.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/31\/cinema-fevereiros-de-marcio-debellian\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":50281,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[1545],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50280"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50280"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50280\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":50588,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50280\/revisions\/50588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}