{"id":49731,"date":"2019-01-18T07:06:24","date_gmt":"2019-01-18T09:06:24","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=49731"},"modified":"2019-02-19T19:24:33","modified_gmt":"2019-02-19T22:24:33","slug":"bebendo-cerveja-com-olavo-rocha-lestics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/18\/bebendo-cerveja-com-olavo-rocha-lestics\/","title":{"rendered":"Bebendo cerveja com Olavo Rocha (Lestics)"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcelo.costa.5855\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos tr\u00eas pilares que movem o Scream &amp; Yell hoje s\u00e3o as entrevistas (os outros dois s\u00e3o os lan\u00e7amentos do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/selo-scream-yell\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Selo Scream &amp; Yell<\/a> e as pautas ibero-americanas \u2013 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conex\u00e3o Latina<\/a> + <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/portugal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Portugal<\/a>), e as entrevistas sempre foram um foco do site desde a primeira hora, um modo de aproximar o leitor do artista num bate papo mais \u00e0 vontade, leve, mas n\u00e3o menos aprofundado. Em determinado momento, extrapolamos os limites da conversa com os enormes entrevist\u00f5es, algo sensacional de fazer, mas chatissimo de decupar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dai ap\u00f3s a frustra\u00e7\u00e3o de \u201cperder\u201d o timming de decupar duas grandes entrevistas (Dinho Zampier e Adriano Cintra) surge a s\u00e9rie \u201cBebendo cerveja com\u201d, um bate papo mais curto (mas nem tanto) e mais direto acompanhado de cervejas, afinal, algumas das melhores conversas acontecem no boteco. Para a estreia desta s\u00e9rie, o convidado \u00e9 Olavo Rocha, letrista e vocalista da Lestics, que bebeu comigo uma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/23\/boteco-cinco-paises-dez-cervejarias-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wittekerke Wild<\/a>, uma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/12\/boteco-mais-cinco-cervejas-do-clube-wals-madlab-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">W\u00e4ls MadLab Foeders White Oak Sour<\/a>, uma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/08\/04\/boteco-12-paises-12-cervejas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Waterloo Strong Kriek<\/a>, uma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/09\/19\/boteco-cinco-cervejarias-nacionais-dez-cervejas-3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">D\u00e1diva Golden Stout<\/a> e uma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/12\/boteco-mais-cinco-cervejas-do-clube-wals-madlab-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">W\u00e4ls MadLab Terracota<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa, foco no disco \u201c<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/album\/breu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Breu<\/a>\u201d (2018), oitavo \u00e1lbum do Lestics, que trouxe consigo um caprichado fanzine que dialoga com as letras de Olavo. Mas tamb\u00e9m houve espa\u00e7o no bate papo para revisitar alguns discos da carreira da banda, debater o karma da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, conversar sobre inspira\u00e7\u00e3o, letras, <a href=\"http:\/\/www.lestics.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">discografia<\/a> e sobre ser ouvido. \u201cSou inspirado por tudo que est\u00e1 acontecendo, basicamente, mas no \u2018Breu\u2019 eu n\u00e3o queria nem ser panflet\u00e1rio nem comentar o momento\u201d, pontua Olavo Rocha. Abra uma cerveja e nos acompanhe.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pHHamwZmdBY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBreu\u201d \u00e9 o oitavo disco do Lestics. Tempos atr\u00e1s, conversando com Wado, ele me falava que j\u00e1 n\u00e3o estava mais t\u00e3o focado na divulga\u00e7\u00e3o de um disco, mas sim da discografia, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/10\/28\/entrevista-wado-2015\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acho que foi na \u00e9poca pr\u00e9-\u201cIvete\u201d<\/a> (2016), o nono disco dele. E ele falava isso buscando enaltecer a carreira, a trajet\u00f3ria. Como \u00e9, para voc\u00ea, ter oito discos lan\u00e7ados?<\/strong><br \/>\nCaramba, j\u00e1 come\u00e7ou com uma pergunta dif\u00edcil (risos)&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 que voc\u00ea fez um post no Facebook esses dias mais ou menos nessa linha&#8230;<\/strong><br \/>\nAhhh, sim, o \u201cvida e obra\u201d. Cara, \u00e9 inevit\u00e1vel. Voc\u00ea come\u00e7a a acumular uma experi\u00eancia, e, hummm, experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a palavra correta para falar do Lestics, porque a forma\u00e7\u00e3o da banda muda muito. O Lestics come\u00e7ou com dois discos, s\u00f3 eu e o Umba (Umberto Serpieri), e depois entrou o (Marcelo) Patu (no terceiro \u00e1lbum, \u201c<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/album\/hoje\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hoje<\/a>\u201d, de 2009), que est\u00e1 na banda desde 2008. Dai em diante a forma\u00e7\u00e3o sempre variou muito, e cada disco \u00e9 uma descoberta da din\u00e2mica com essas forma\u00e7\u00f5es. E apesar dessa forma\u00e7\u00e3o est\u00e1vel da banda ser s\u00f3 eu mesmo, \u00e9 muito evidente que o som do Lestics n\u00e3o existe em fun\u00e7\u00e3o do que eu fa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hummm&#8230;<\/strong><br \/>\nN\u00e3o mesmo (risos). Tem um tanto do meu trabalho, porque a letra \u00e9 muito importante para a banda, e tamb\u00e9m as melodias vocais, o que dentro do pop tamb\u00e9m \u00e9 muito importante&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tirando <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/23\/dois-discos-para-voce-baixar-agora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">os dois primeiros com o Umberto<\/a>, que s\u00e3o discos bem folks, ac\u00fasticos, voc\u00ea acha t\u00e3o distante assim a sonoridade do \u201cHoje\u201d (2009) para o \u201cBreu\u201d (2018), ou seja, do terceiro para o oitavo disco?<\/strong><br \/>\nO \u201cHoje\u201d \u00e9 um disco problem\u00e1tico! E voc\u00ea foi o cara que botou o dedo na ferida e disse \u201cesse disco n\u00e3o rolou&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XkYkbK7XVmI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem duas m\u00fasicas fodas ali!<\/strong><br \/>\nEu adoro TODAS as m\u00fasicas, tirando uma de que n\u00e3o curto muito. As composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bacanas, por\u00e9m o disco n\u00e3o rolou. Ele n\u00e3o soa como ele deveria ou poderia soar. E voc\u00ea n\u00e3o se esquivou de dizer e falou isso com muita eleg\u00e2ncia, mas com contund\u00eancia. E ele n\u00e3o rolou. \u00c9 foda dizer isso, mas n\u00e3o rolou. Quando voc\u00ea acaba de fazer um disco, voc\u00ea n\u00e3o tem muita no\u00e7\u00e3o, porque voc\u00ea est\u00e1 envolvido em todo o processo. Voc\u00ea n\u00e3o saca o que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Woody Allen fala muito isso, sobre o quanto todos os filmes s\u00e3o perfeitos no papel. Dai vem a produ\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea fica muito envolvido, e \u00e9 preciso respiro e distanciamento para entender mais ou menos o que aconteceu. \u00c9 obvio que a minha impress\u00e3o a respeito das coisas \u00e9 vari\u00e1vel, mas a minha impress\u00e3o sobre o \u201cHoje\u201d \u00e9 razoavelmente consolidada como um disco que o som dele n\u00e3o funcionou. Tanto que vez em quando eu e Patu ficamos: \u201cVamos regravar o \u2018Hoje\u2019 para ele soar como as m\u00fasicas deveriam soar?\u201d (risos). N\u00f3s est\u00e1vamos muito precipitados, na pilha de gravar logo, mas eu sei como essas m\u00fasicas soam, e elas n\u00e3o soam no disco como deveriam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ok, mas sonoramente voc\u00ea o acha t\u00e3o distante do \u201cBreu\u201d?<\/strong><br \/>\nSim e n\u00e3o. N\u00e3o sei diagnosticar isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, eu conhe\u00e7o o som do Lestics, e gosto pra caramba&#8230;<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o v\u00ea essa \u201cfratura\u201d devido \u00e0s mudan\u00e7as das forma\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o. Eu vejo uma sequencia natural de \u00e1lbuns. Ok, vamos ter uns mais ensolarados, dentro do que se pode dizer ensolarado no som derivado da po\u00e9tica de Olavo Rocha (risos), e uns mais escuros, e o nome \u201cBreu\u201d n\u00e3o poderia ser mais perfeito para este \u00faltimo&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, eu entendo. Tem uma l\u00f3gica. O que estou dizendo \u00e9: eu preciso muito da banda. N\u00e3o vejo o Lestics como \u201cOlavo + pessoas\u201d. \u00c9 sempre um trabalho feito muito junto e a sonoridade deriva disso. Por exemplo, o \u201c<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/album\/torto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Torto<\/a>\u201d (2016) foi feito em nove ensaios. Est\u00e1vamos com as m\u00fasicas rascunhadas e entramos com a banda em est\u00fadio saindo sempre com uma m\u00fasica inteira ap\u00f3s cada ensaio. 9 ensaios, 9 m\u00fasicas. Gravamos o disco ao vivo no est\u00fadio em que a gente fez as m\u00fasicas. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fazer isso se a banda estiver muito colada. Com o \u201cBreu\u201d (2018) n\u00e3o seguimos o mesmo processo. Desta vez escrevi as letras e o pessoal mandava para mim fragmentos, melodias ou mesmo m\u00fasicas mais ou menos prontas, e eu colocava as melodias vocais e a gente chegava ao est\u00fadio e emendava tudo. Mas a gente sempre saia com a ideia de mais ou menos como quer\u00edamos o disco, e fomos lapidando para que o disco chegasse, do ponto A para o ponto B, mais ou menos como a gente planejou junto l\u00e1 atr\u00e1s. (Pensativo). Eu n\u00e3o sei te falar, na real. A forma\u00e7\u00e3o mudou do \u201cHoje\u201d (2009) para \u201c<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/album\/aos-abutres\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aos Abutres<\/a>\u201d (2010), pois mudou o baterista. No \u201c<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/album\/seis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Seis<\/a>\u201d (2014) fomos fazer o disco e n\u00e3o t\u00ednhamos guitarrista! O Patu fez as m\u00fasicas no viol\u00e3o e a gente ensaiava assim&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/somfBWMkmPQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gosto muito do \u201cSeis\u201d, do som dele&#8230;<\/strong><br \/>\nEu tamb\u00e9m gosto bastante dele, e chegamos na coragem. Falamos para o produtor Marcio Tucunduva: \u201cTemos um disco e queremos gravar\u201d. E gravamos. Trouxemos uma galera para poder tocar junto e construir a sonoridade do disco. Acho que o Marcio n\u00e3o acreditava que o disco fosse soar como ele soou no final, mas a gente sabia que o disco iria soar bacana. A gente precisa confiar no processo. L\u00f3gico, aconteceram algumas coisas no percurso que fizeram ele soar ainda mais do caralho, na minha opini\u00e3o. O Neymar Dias veio fazer arranjo de cordas para o disco e os arranjos dele ficaram muito bonitos. Tem o Bocato, que entrou para fazer o trombone na abertura e, cara, n\u00e3o \u00e9 porque simplesmente ele \u00e9 fod\u00e3o, porque ele \u00e9 o Bocato, mas sim porque ele tem uma sensibilidade muito foda para m\u00fasica. Ele chegou para gravar e pediu: \u201cDeixa eu ouvir a m\u00fasca\u201d. E come\u00e7ou: \u201cEu vou fazer uma frase assim porque a letra est\u00e1 dizendo tal coisa e eu quero responder isso\u201d. N\u00e3o \u00e9 todo mundo que tem essa sensibilidade, de ouvir a m\u00fasica uma vez e ter alguma coisa para dizer sobre isso, e conversar com a m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dentro desse papo de discografia, onde o \u201cBreu\u201d se encaixa?<\/strong><br \/>\nEle tem uma produ\u00e7\u00e3o em que a gente procurou lapidar melhor em compara\u00e7\u00e3o com outras coisas que hav\u00edamos feito. Repetimos a experi\u00eancia do \u201cSeis\u201d, de trazer outras pessoas para tocarem junto. Quer\u00edamos um disco em que a produ\u00e7\u00e3o enriquecesse o resultado final, e nisso ele \u00e9 diferente do \u201cTorto\u201d, em que quer\u00edamos um disco cru, de rock, baixo, guitarra e bateria. Dessa vez quer\u00edamos mais. Essa foi a primeira vez que trabalhamos com um percussionista mesmo (Wellington Sancho), e percuss\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio muito rico. Trouxemos o Beto Sporleder para tocar flauta e sax e ele fez um trabalho lindo. E, por fim, o Guilherme Ribeiro, que \u00e9 um cara que j\u00e1 tinha tocado teclado com a gente, ou seja, com quem temos uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima. \u201cBreu\u201d \u00e9 um disco que eu apostava que iria ficar legal porque as letras s\u00e3o bacanas, e eu prestei mais aten\u00e7\u00e3o na carpintaria das letras do que havia feito no \u201cTorto\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entrando no assunto letras, o que te inspira?<\/strong><br \/>\nSou inspirado por tudo que est\u00e1 acontecendo, basicamente. No \u201cBreu\u201d eu n\u00e3o queria nem ser panflet\u00e1rio nem comentar o momento. Acho que o \u201cTorto\u201d \u00e9 bem mais explicito nisso, sobre o momento. Em \u201cC\u00e1lculo e Mem\u00f3ria\u201d, escrevo: \u201cO rei desfila nu e excitado \/ \u00e0 frente da parada militar \/Um globo ocular \u00e9 arrancado \/pra cada nota que a banda errar\u201d. \u00c9 um brother meu que teve o olho arrancado com tiro de bala de borracha da PM. Dentro do modo como consigo me expressar poeticamente, isso \u00e9 algo mais explicito. E, na real, \u00e9 bem isso: n\u00e3o sei dizer de outro jeito. Digo do jeito que dou conta, e tento colocar as coisas que sinto e vejo dentro da maneira que posso. N\u00e3o consigo sempre colocar senso de humor nas coisas, e se conseguisse, faria mais. Algumas das letras (que escrevi e) de que mais gosto s\u00e3o letras que consegui injetar senso de humor, e os letristas que mais admiro s\u00e3o capazes de fazer isso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem s\u00e3o eles?<\/strong><br \/>\nAldir Blanc, Bob Dylan, Chico Buarque, Leonard Cohen&#8230; n\u00e3o vou sair dos \u00f3bvios (risos). Mas, voltando, alguma coisa precisa sair do esquematismo, e o humor (que pode ser sombrio) \u00e9 uma coisa bacana de fazer. Gosto muito do Thomas Bernhard, por exemplo, que \u00e9 um escritor absolutamente sombrio, mas que tem um humor. Kafka tem humor \u2013 se voc\u00ea for a fim de enxergar isso nele. Quando consigo injetar (humor) na letra, sinto que fui mais bem sucedido. Tento tamb\u00e9m utilizar algo que h\u00e1 muito na m\u00fasica caipira, que \u00e9 a narrativa, e, tamb\u00e9m, algo que permita que eu imagine outra situa\u00e7\u00e3o, e invente. O \u201cBreu\u201d traz isso. A m\u00fasica \u201cMais do Que Isso\u201d, por exemplo, mistura narrativa temporal e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WGpzp4D8AOM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais os momentos que voc\u00ea considera os seus melhores em letra, tipo \u201caqui eu acertei a m\u00e3o\u201d?<\/strong><br \/>\nAcho que acertei em \u201cTempo de Partir\u201d (do \u00e1lbum \u201cSeis\u201d), gosto desse aspecto narrativo da letra. Gosto da gra\u00e7a de \u201cEnquanto Espero\u201d (do disco \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d) e acho que \u201cMais do Que Isso\u201d (do \u201cBreu\u201d) \u00e9 uma letra bem resolvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 um cara que mexe bastante com quadrinhos, e por que s\u00f3 agora, no oitavo disco, voc\u00eas pensaram em fazer um fanzine junto com o \u00e1lbum? (risos)<\/strong><br \/>\nEu fiz muito fanzine, cara! O primeiro fanzine que fiz eu ainda era bem moleque, e ele era mimeografado. Era muito tosco, mas j\u00e1 mostrava meu gosto por quadrinhos, por m\u00fasica, estava tudo mais ou menos proto proto proto colocado l\u00e1. N\u00e3o sei por que nunca fiz para o Lestics, n\u00e3o faz muito sentido n\u00e3o ter feito. O Guilherme (Caldas) fez a capa do primeiro disco do Lestics e dos tr\u00eas singles que lan\u00e7amos em 2015 (\u201cA Balada do Velho Crocodilo\u201d, \u201cChegar ao Fundo\u201d e \u201cCicatriz\u201d) al\u00e9m da capa do \u201cBreu\u201d, que ficou do caralho. N\u00e3o sei por que n\u00e3o fizemos antes, mas o motivo de fazer agora foi o seguinte: eu estava muito cansado das redes sociais, muito mesmo, e pensei \u201cfoda-se\u201d. N\u00e3o vou ficar divulgando porra nenhuma no Twitter, compartilhando no Facebook, vou procurar outro jeito, velho, f\u00edsico, material, e vou divulgar o disco assim. Mas&#8230; como fazer? Pensei no fanzine, em chamar uns brothers e fazer como eu fazia em 1992. Chamei o Guilherme e tamb\u00e9m o Murilo Martins, a gente chegou a fazer um fanzine junto quando entrei na ECA, e esse fanzine depois acabou virando o Candyland, <a href=\"http:\/\/www.candyland.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que virou livro<\/a>. O Guilherme falou: \u201cBeleza\u201d. Mas o Murilinho, que \u00e9 muito mais agilizado e pilhado que eu, falou: \u201cP\u00f4, legal a ideia. Posso chamar mais gente pra fazer?\u201d. Ele come\u00e7ou a agitar e eu tamb\u00e9m comecei a chamar mais uma galera pra fazer e resultou nessa turma toda. Tem gente que eu j\u00e1 tinha trabalhado junto, gente que era amiga, conhecido, e gente que eu s\u00f3 vim a conhecer trabalhando no zine. E foi do caralho para mim. N\u00e3o mexi no neg\u00f3cio, s\u00f3 entreguei as letras e fiquei muito feliz com o resultado final. O fanzine ficou bonito, sens\u00edvel. Ajuda a desdobrar algumas coisas que est\u00e3o impl\u00edcitas nas letras, no que o disco quer dizer, e me interessa muito esse desdobramento para outras linguagens. E foi demais lidar com pessoas que trabalham com artes gr\u00e1ficas, dramaturgia, fotografia, literatura, porque sou apaixonado por essas coisas tamb\u00e9m. Pra mim fez todo sentido juntar essas pessoas e celebrar isso tudo. Foi uma alegria. O \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/23\/olavo-rocha-fala-da-cidade-das-aguas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cidade das \u00c1guas<\/a>\u201d j\u00e1 tinha algo assim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que para o nono disco j\u00e1 vir\u00e1 uma coisa assim ou foi acidental, s\u00f3 do \u201cBreu\u201d?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o foi acidental, e pode ser um grande autoengano, mas boto na minha cabe\u00e7a que n\u00e3o quero fazer algo igual. Nunca quero fazer a mesma coisa. Quem olha de fora pode achar tudo parecido (risos), mas dentro da minha cabe\u00e7a estou fazendo coisas diferentes. Me incomoda muito qualquer ideia de repeti\u00e7\u00e3o porque \u201cfoi bacana\u201d. N\u00e3o sou um cara muito embrenhado ou bem relacionando no meio musical. Sou muito t\u00edmido, muito na minha&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YvENlcPFec8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Te frustra n\u00e3o ser t\u00e3o bem relacionado? Olhando de fora, voc\u00eas t\u00eam grandes discos, grandes letras, s\u00e3o umas das bandas do cora\u00e7\u00e3o deste site, e \u00e0s vezes penso que voc\u00eas deveriam estar muito melhores posicionados neste cen\u00e1rio pop rock nacional do que est\u00e3o, ainda que pare\u00e7a que voc\u00ea lide muito bem com isso e que, por outro lado, a obra permane\u00e7a.<\/strong><br \/>\nVou come\u00e7ar de tr\u00e1s para frente: primeiro que n\u00e3o acredito em posteridade e perman\u00eancia. S\u00e3o duas coisas que n\u00e3o fazem o menor sentido para mim. Foda-se. Isso n\u00e3o me move. O que me move s\u00e3o a meia d\u00fazia de pessoas que curte o Lestics agora. N\u00e3o me move fazer m\u00fasica s\u00f3 para mim tanto quanto n\u00e3o me move a perspectiva de que \u201cum dia isso vai ser ouvido\u201d. N\u00e3o tenho nenhum interesse at\u00e9 porque num prazo razoavelmente longo nada ir\u00e1 ficar. Nada fica. Isso \u00e9 uma das coisas que acho bacana em teatro: rolou agora! N\u00e3o importa se tinha tr\u00eas pessoas na plateia. Rolou. \u00c9 a eternidade poss\u00edvel daquilo. Tinha 100, 200, 2 mil. Foi a eternidade poss\u00edvel daquilo. N\u00e3o fa\u00e7o m\u00fasica para registrar e ficar. Gosto das pessoas ouvirem agora, seja quantas pessoas forem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o a frustra\u00e7\u00e3o, isso s\u00e3o coisas que voc\u00ea equilibra. Para ter proje\u00e7\u00e3o, ter mais&#8230; fama (na falta de uma palavra melhor), \u00e9 basicamente preciso trabalhar para isso. Ou dar uma puta sorte, algo que a gente n\u00e3o pode ficar contando, apesar de que como dizia Nelson Rodrigues, sem sorte voc\u00ea n\u00e3o atravessa nem a rua. E o Lestics n\u00e3o \u00e9 uma banda que trabalhou ou trabalha suficientemente para chegar ao grande p\u00fablico. Preciso reconhecer isso. Quem est\u00e1 nesse rol\u00ea de ser super conhecido est\u00e1 fazendo coisas que o Lestics n\u00e3o faz. Ent\u00e3o n\u00e3o posso fazer algo aqui e esperar um resultado diferente do que a l\u00f3gica diz que vai dar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 um pensamento complicado de ser tang\u00edvel no territ\u00f3rio art\u00edstico porque diz que quem trabalha, independente de ser bom ou ruim (mas podendo ser ruim), pode ser dar melhor de que quem n\u00e3o trabalha, mesmo esse segundo sendo muito melhor. Ou seja, a qualidade da m\u00fasica n\u00e3o interessa tanto, interessa mais \u201ctrabalhar\u201d.<\/strong><br \/>\nSendo 100% honesto, n\u00e3o sei dizer o que \u00e9 uma m\u00fasica boa e o que \u00e9 uma m\u00fasica ruim. Para mim, h\u00e1 coisas que voc\u00ea ouve e coisas que voc\u00ea n\u00e3o ouve. Bom ou ruim s\u00e3o par\u00e2metros pessoais. Mas, por exemplo, sou uma pessoa ecl\u00e9tica, ou\u00e7o de tudo, mas n\u00e3o escuto qualquer coisa. Consigo ouvir prazerosamente a maioria das coisas, mas tem coisa que n\u00e3o rola. A vida \u00e9 curta, o tax\u00edmetro est\u00e1 rolando, n\u00e3o d\u00e1 para perder tempo (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 eu consigo observar m\u00fasicas que s\u00e3o ruins, mas est\u00e3o fazendo sucesso porque h\u00e1 um grande dinheiro investido na massifica\u00e7\u00e3o delas.<\/strong><br \/>\nTem, tem, mas n\u00e3o sei se \u00e9 ruim. Tem coisa que est\u00e1 tocando pra caralho porque h\u00e1 muito dinheiro em cima, investindo, business. Nada menos business do que o Lestics.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar, ficamos aqui um pouco mais de meia hora conversando e bebendo cerveja. Pensando que a cerveja do Sepultura \u00e9 uma Weiss e a do Skank \u00e9 uma Stout, estilos que n\u00e3o combinam nada com o som que essas bandas fazem, como seria uma cerveja do Lestics?<\/strong><br \/>\nAcho que seria uma cerveja mais densa, mais encorpada, uma Barley Wine talvez, quem sabe uma Imperial Stout. Uma cerveja com assunto (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TUs8m7f2Z5o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Tw3KyUQ6iFw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/psy9CIPLSps?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;\u00a0Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Lestics (entrevista 2016): &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/10\/28\/entrevista-lestics-2016\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Acho que a gente t\u00e1 vivendo uma esp\u00e9cie de antiutopia<\/a>&#8221;<br \/>\n&#8211; Lestics ao vivo (2014): &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/07\/11\/lestics-ao-vivo-na-serralheria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O som urgente do come\u00e7o agora est\u00e1 mais calmo, reflexivo<\/a>&#8221;<br \/>\n&#8211; Lestics (entrevista 2014): &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/17\/entrevista-lestics-e-o-sexto-disco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Costumo dizer que vivo para a m\u00fasica, e n\u00e3o da m\u00fasica<\/a>&#8220;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 2018, o Lestics lan\u00e7ou seu oitavo \u00e1lbum, &#8220;Breu&#8221;, um disco bonito e melanc\u00f3lico que surgiu acompanhado de um fanzine com convidados inspirando-se nas letras de Olavo Rocha. Aqui, Olavo fala sobre o disco e mais! \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/18\/bebendo-cerveja-com-olavo-rocha-lestics\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":49732,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3456,899],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49731"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49731"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49731\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49733,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49731\/revisions\/49733"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49732"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49731"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49731"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49731"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}