{"id":49652,"date":"2019-01-10T10:39:02","date_gmt":"2019-01-10T12:39:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=49652"},"modified":"2019-02-15T04:34:51","modified_gmt":"2019-02-15T06:34:51","slug":"entrevista-teto-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/10\/entrevista-teto-preto\/","title":{"rendered":"Entrevista: Teto Preto"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2016, o grupo Teto Preto lan\u00e7ou um EP chamando \u201cGasolina\u201d, com duas faixas, a can\u00e7\u00e3o original que dava t\u00edtulo ao trabalho e uma vers\u00e3o de \u201cJ\u00e1 Deu Pra Sentir\u201d, de Itamar Assump\u00e7\u00e3o. Esse lan\u00e7amento j\u00e1 dava o sinal de que dever\u00edamos prestar aten\u00e7\u00e3o nesse pessoal. De l\u00e1 pra c\u00e1, o grupo mudou de forma\u00e7\u00e3o \u2013 atualmente s\u00e3o Laura Diaz (a Carneosso), Pedro Zopelar (o Zop), S\u00e1vio de Queiroz, Bica e Lo\u00efc Koutana \u2013 e lan\u00e7ou seu disco de estreia, o excelente \u201cPedra Preta\u201d, presente em in\u00fameras listas de melhores de 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Teto Preto nasceu como esp\u00e9cie de jam session que rolava na Mamba Negra, uma festa eletr\u00f4nica que leva a fama de dar novo f\u00f4lego \u00e0 noite paulistana ao lado de outros rol\u00eas alternativos, afirmativos e inclusivos que t\u00eam criado outras formar de badalar em SP. A Mamba \u00e9 um projeto que tamb\u00e9m tem a m\u00e3o de Laura Diaz, que assume a persona Carneosso frente ao Teto Preto e que gera performances alucinantes no palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Despida ou com looks que mais mostram que escondem, Laura e o Teto Preto percorreram importantes palcos nacionais: RecBeat, Meca, Bananada, Dekmantel, sem falar em suas sessions geniais para o Boiler Room. De \u201cGasolina\u201d (cujo refr\u00e3o, bomb\u00e1stico, pede: \u201cGasolina neles\u201d) para o \u00e1lbum \u201cPedra Preta\u201d, a banda teve a sa\u00edda do produtor L_cio, que focou de vez em sua carreira solo e lan\u00e7ou o excelente disco \u201cPoema\u201d, em 2018, mas definiu o performer Lo\u00efc Koutana de vez como um dos integrantes. Franc\u00eas de origem costa-marfinense, Lo\u00efc \u00e9 um espet\u00e1culo \u00e0 parte: estrela do clipe de \u201cGasolina\u201d,Lo\u00efc se aproxima do but\u00f4 japon\u00eas, como que um Kazuo Ohno dos tr\u00f3picos, propiciando um jogo de dan\u00e7a e performance no palco, que instiga o p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um show alucinante \u2013 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/24\/balanco-festival-mecabras-festival-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conforme j\u00e1 contamos no balan\u00e7o do Meca Festival<\/a> \u2013 e um disc\u00e3o que leva a MPB para um passeio no techno, no punk e em outras praias, o Teto Preto \u00e9 uma das bandas mais instigantes da atualidade. J\u00e1 hav\u00edamos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/01\/tres-perguntas-teto-preto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conversado rapidamente com a banda em 2016<\/a>, antes ainda do primeiro \u00e1lbum, e agora estendemos o papo com Laura Diaz para falar sobre \u201cPedra Preta\u201d e entender mais sobre o grupo, as suas perspectivas pol\u00edticas e o que os move. Nosso papo rolou nos bastidores do festival Meca, em 2018, e voc\u00ea pode conferir na \u00edntegra abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5nflC6GkQ8Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/01\/tres-perguntas-teto-preto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conversei com voc\u00eas quando do lan\u00e7amento do single \u201cGasolina\u201d<\/a>, de l\u00e1 pra c\u00e1 voc\u00eas participaram de muitos festivas, a banda cresceu e agora voc\u00eas est\u00e3o lan\u00e7ando o primeiro disco. Como foi esse processo? Voc\u00ea sente um amadurecimento ou uma mudan\u00e7a de l\u00e1 pra c\u00e1?<\/strong><br \/>\nO primeiro palc\u00e3o que a gente pegou como banda foi em fevereiro do ano passado, no carnaval, no RecBeat e a gente ainda estava com a primeira forma\u00e7\u00e3o do Teto, mas de alguma maneira foi um start para a gente come\u00e7ar a delinear um pouco melhor as nossas can\u00e7\u00f5es, as nossas composi\u00e7\u00f5es e tudo mais. Mas desse meio tempo at\u00e9 hoje a gente teve mudan\u00e7as na forma\u00e7\u00e3o e isso foi uma coisa para encerrar esses ciclos do EP \u201cGasolina\u201d e come\u00e7ar esse novo ciclo do \u201cPedra Preta\u201d, esse amuleto de transforma\u00e7\u00e3o do luto em luta. Ent\u00e3o teve a entrada do S\u00e1vio [de Queiroz] e a formaliza\u00e7\u00e3o do Lo\u00efc [Koutana] como membro da banda. Ent\u00e3o acho que s\u00e3o muitas coisas que s\u00e3o novas e muitas experi\u00eancias fortes que a gente teve nesses festivais, nesses espa\u00e7os que a gente teve para tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse sentido que voc\u00ea fala do \u201cPedra Preta\u201d, ele funciona de uma forma muito mais pol\u00edtica, que \u00e0s vezes o techno e a m\u00fasica eletr\u00f4nica n\u00e3o se imp\u00f5em tanto dessa forma, nesse sentido de can\u00e7\u00f5es, letras e tal. Voc\u00ea sente algum tipo de resist\u00eancia dentro do universo da m\u00fasica eletr\u00f4nica?<\/strong><br \/>\nNa verdade, eu n\u00e3o frequento (esse universo) e a Mamba (Negra) tamb\u00e9m acho que n\u00e3o frequenta esse lugar do techno ou dos g\u00eaneros espec\u00edficos do eletr\u00f4nico. Acho que a gente frequenta especificamente o oposto desses lugares, ent\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, eu n\u00e3o tenho visto resist\u00eancia nenhuma, eu vejo muito fasc\u00ednio, na verdade, no que o Teto apresenta, por que a gente rasga as composi\u00e7\u00f5es, a gente rasga os formatos e a gente \u00e9 uma banda, sabe? E acho que tem muitas liga\u00e7\u00f5es entre v\u00e1rias pessoas a\u00ed na cena se articulando que encaram assim tamb\u00e9m o som, como uma coisa pol\u00edtica. A Linn da Quebrada, mesmo, acho que \u00e9 o melhor exemplo que eu tenho, mas tem a Maria Beraldo, tem a Ava Rocha, os Deaf Kids, as Rakta, ent\u00e3o s\u00e3o v\u00e1rias pessoas que t\u00e3o se fortalecendo e se descobrindo para colocar novas quest\u00f5es no cen\u00e1rio brasileiro, que est\u00e1 muito estagnado, de alguma maneira, est\u00e1 muito acomodado em privil\u00e9gios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caso, voc\u00ea falou da Mamba Negra, esse tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o que voc\u00eas tentam criar, buscando revitalizar a cidade, bem como criando um espa\u00e7o de acolhimento para as mulheres cis e trans e para os gays. \u00c9 um espa\u00e7o em que voc\u00eas buscam essa liberdade.<\/strong><br \/>\nFoi uma necessidade para a gente poder existir enquanto mulher, enquanto artista, enquanto canal, enquanto tudo na cidade, na verdade. Ent\u00e3o acho que \u00e9 nessa forma que as mulheres se unem, por mulheres, em todo esse feminino que tem se colocado de uma maneira muito rica, pra maioria da sociedade, cada vez mais. \u00c9 claro que talvez a gente sofra muitos retrocessos com o Bolsonaro, e da nossa parte, pelo menos, a gente se fortalece, entendeu? Por que a gente se prepara para o pior. E acho que \u00e9 isso, esse foi meio que o ponto de contato entre as manas trans, as manas pretas e a gente, que mesmo com todos os privil\u00e9gios que a branquitude ainda tem e apresenta, a gente tamb\u00e9m sofre muitas viol\u00eancias e precisou construir esses espa\u00e7os de liberdade, seja na Mamba, sejam em outras festas independentes que movimentam essa cena e retroalimentam essa cena, por que isso cria um contexto para que projetos como o Teto poderem existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fala nesse sentido de criar espa\u00e7os, voc\u00ea tamb\u00e9m atua em diferentes frentes enquanto profissional. Voc\u00ea trabalha como artista, mas tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o e todo esse trabalho mais bra\u00e7al.<\/strong><br \/>\n\u00c9 por que isso \u00e9 o que todas as manas fazem pra poder existir, a gente n\u00e3o pode se dar ao luxo de ser \u201cai, eu sou s\u00f3 artista\u201d, n\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 multiartista, ent\u00e3o dentro dessas restri\u00e7\u00f5es a gente tamb\u00e9m se reinventa de uma maneira muito poderosa e muito ampla, por que a gente \u00e9 obrigada a fazer tudo, \u00e9 aprender a fazer tudo e fazer direito; por que a mulher o tempo inteiro tem que provar o porqu\u00ea ela est\u00e1 l\u00e1, por que ela merece estar nos lugares em que est\u00e1. Isso acontece desde rela\u00e7\u00f5es com os t\u00e9cnicos de som at\u00e9 coisas muitos piores, mas \u00e9 meio isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse sentido do feminino, h\u00e1 tamb\u00e9m o fato de voc\u00ea usar o seu corpo como ve\u00edculo de seu trabalho. Voc\u00ea j\u00e1 teve algum tipo de rea\u00e7\u00e3o negativa de alguma forma?<\/strong><br \/>\nOlha, eu acho que a gente, de alguma maneira, criou uma rede de prote\u00e7\u00e3o, um pouco como uma bolha, nesse sentido da Mamba e tal, por aqui assim, mesmo quando a gente foi para outros lugares do Brasil, a gente atraiu pessoas que j\u00e1 tem muito a discuss\u00e3o pol\u00edtica presente, muita sede de ver alguma coisa acontecer. Ent\u00e3o na real \u00e9 uma resposta muito das mulheres, a enorme maioria, \u00e9 sempre uma barricada de mina e de gay, de bicha, de sapat\u00e3o que junta na frente dos shows do Teto. E a quest\u00e3o do meu corpo eu acho que foi uma maneira de eu me empoderar da repress\u00e3o e da viol\u00eancia, por que durante muito tempo eu senti que eu tive que me masculinizar para poder ser levada a s\u00e9rio na sociedade: engrossar a voz, tomar lugares de supostamente lideran\u00e7a, jogar futebol, fazer coisas que supostamente associam ao masculino e que eu acho tamb\u00e9m uma besteira. Mas vendo tudo isso e enxergando que na m\u00fasica brasileira a mulher pode ser s\u00f3 um peda\u00e7o de bife ou um objeto, ainda acho que existe esse estigma, eu resolvi me empoderar do meu pr\u00f3prio corpo e resolvi colocar essa liberdade, expandir essa liberdade a outros corpos. E eu acho que \u00e9 isso que eu sinto no feedback maior: as pessoas n\u00e3o v\u00eam \u201cai, parab\u00e9ns\u201d ou me bajular, \u00e9 sempre uma coisa muito honesta de troca que rola com o p\u00fablico e as pessoas falam de catarses mesmo, de processos, de ideias, de sentimentos, \u00e9 meio que essa a resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou outros artistas e outras cantoras da sua gera\u00e7\u00e3o, mas o que mais te inspira e te influencia, n\u00e3o s\u00f3 de m\u00fasica.<\/strong><br \/>\nEu acho que a falta de recursos, de alguma maneira. Apesar de ser consciente de que eu sou uma pessoa bastante privilegiada, tipo consegui fazer universidade p\u00fablica, enfim, eu acho que as restri\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre o que empurram a gente a sair da zona de conforto e come\u00e7ar a produzir por necessidade mesmo. Necessidade de pagar as contas, necessidade de se (de)formar enquanto artista, necessidade de atuar na cidade repressora com espa\u00e7os caretas e repressores, altamente repressores e elitizados, brancos, mesquinhos, ent\u00e3o assim, tenho refer\u00eancias de todas as coisas que me atravessam na cidade, nos filmes que eu vejo, nas coisas que eu leio. O Teatro Oficina tamb\u00e9m foi um lugar superimportante na minha (de)forma\u00e7\u00e3o e na minha desconstru\u00e7\u00e3o enquanto atriz, performer, cantora, produtora e tudo, ent\u00e3o \u00e9 meio isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HpP66_dykhA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/k0XzDN-Gv3A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SbPmnFaNgCE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Tamb\u00e9m colabora com o site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com um show alucinante \u2013 conforme j\u00e1 contamos no balan\u00e7o do Meca Festival \u2013 e um disc\u00e3o que leva a MPB para um passeio no techno, no punk e em outras praias, o Teto Preto \u00e9 uma das bandas mais instigantes da atualidade.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/10\/entrevista-teto-preto\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":49653,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3446,977],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49652"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49652"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49652\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49654,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49652\/revisions\/49654"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}