{"id":49625,"date":"2019-01-08T23:50:52","date_gmt":"2019-01-09T01:50:52","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=49625"},"modified":"2019-03-14T12:09:20","modified_gmt":"2019-03-14T15:09:20","slug":"cinema-rasga-coracao-de-jorge-furtado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/08\/cinema-rasga-coracao-de-jorge-furtado\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cRasga Cora\u00e7\u00e3o\u201d, de Jorge Furtado"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-49628\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/rasgacoracao2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"678\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/rasgacoracao2.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/rasgacoracao2-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o seminal e obrigat\u00f3rio \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6Ubm-OqAodg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ilha das Flores<\/a>\u201d (1989) at\u00e9 o genialmente divertido \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/07\/20\/cinema-saneamento-basico-o-filme-de-jorge-furtado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Saneamento B\u00e1sico, o Filme<\/a>\u201d (2007), o ga\u00facho Jorge Furtado construiu uma forma muito pr\u00f3pria de olhar a sociedade e o Brasil, sempre atrav\u00e9s de um humor ir\u00f4nico, que conseguia ser questionador e ainda assim extremamente comunic\u00e1vel com diferentes p\u00fablicos. Nesse sentido, seu antepen\u00faltimo filme, \u201cReal Beleza\u201d (2015), era uma curva fora da rota, uma esp\u00e9cie de romance pequeno burgu\u00eas que parecia falhar em suas tratativas, tanto que escrevemos \u00e0 \u00e9poca: \u201cColocado ao lado da filmografia pregressa de Jorge Furtado, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/08\/06\/cinema-real-beleza-de-jorge-furtado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u2018Real Beleza\u2019 \u00e9 mais do que ruim, \u00e9 uma enorme decep\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 2015 para c\u00e1, Furtado seguiu trabalhando de forma ampla na televis\u00e3o, com presen\u00e7a nas s\u00e9ries \u201cMister Brau\u201d (de sua cria\u00e7\u00e3o), \u201cSob Press\u00e3o\u201d e \u201cNada Ser\u00e1 Como Antes\u201d, todas exibidas pela Rede Globo e recebidas de forma extremamente positiva por p\u00fablico e cr\u00edtica. J\u00e1 no final de 2018 chegou aos cinemas seu nono longa-metragem, \u201cRasga Cora\u00e7\u00e3o\u201d, uma adapta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a de mesmo nome de Oduvaldo Vianna Filho e agora podemos dizer sem d\u00favida que Jorge Furtado retornou a sua melhor forma enquanto criador questionador e instigante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nova, a pe\u00e7a de Vianninha \u00e9 dos anos 70, por\u00e9m o roteiro de Furtado, Ana Luiza Azevedo e Vicente Amorim consegue atualiz\u00e1-lo de forma plena para o Brasil atual, de uma forma que nem Furtado poderia prever. O diretor h\u00e1 anos queria adaptar a pe\u00e7a para as telas, por\u00e9m sentia que o texto estava defasado em meio a um governo de esquerda do PT, por\u00e9m \u00e9 a partir da virada das manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 que a pe\u00e7a come\u00e7a a fazer mais sentido em nosso tempo e ganha ares fundamentais na virada de 2018 para 2019, quando uma direita fascista chega ao poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cRasga Cora\u00e7\u00e3o\u201d acompanha o conflito geracional de uma fam\u00edlia claramente linkada com quest\u00f5es pol\u00edticas: Cust\u00f3dio (Marco Ricca) \u00e9 um pai de fam\u00edlia de classe m\u00e9dia da zona sul carioca, funcion\u00e1rio p\u00fablico bem estabelecido que leva uma vida comezinha ao lado de sua esposa Nena (Drica Moraes), por\u00e9m seu filho adolescente Luca (Chay Suede) enfrenta uma fase de questionamentos identit\u00e1rios; vegano, sem celular e ligado em ideias diferentes da fam\u00edlia, o jovem se envolve em um embate sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero dentro de sua escola, quando sua namorada Mil (Luisa Arraes) \u00e9 proibida de entrar no espa\u00e7o por causa de suas vestes masculinizadas. Nesse cen\u00e1rio, o pai relembra os seus tempos de ativista de esquerda na \u00e9poca da ditadura, quando atendia pela alcunha de Manguari Pistol\u00e3o (Jo\u00e3o Pedro Zappa), ao lado de seu amigo Bundinha (George Sauma).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse cen\u00e1rio, as quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais afloram de forma complexa, criando um painel amplo sobre a sociedade brasileira atual. Os personagens jovens s\u00e3o a representa\u00e7\u00e3o clara de uma gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-2013 que busca constantemente aten\u00e7\u00e3o para suas lutas independente de quaisquer outras coisas, isso para o bem e para o mal. Al\u00e9m disso, a tens\u00e3o entre pai e filho no filme explora o desgaste que a esquerda possui com uma parcela da juventude e como o tempo de poder do PT gerou rachaduras complexas no cen\u00e1rio nacional. Mais que isso, o filme debate sobre o amadurecimento de uma gera\u00e7\u00e3o que chega cheia de privil\u00e9gios e parece n\u00e3o compreender a realidade em que vive parecendo desconhecer o passado do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa tens\u00e3o \u00e9 exposta com a presen\u00e7a do personagem Talita (Cin\u00e2ndrea Guterres), jovem negra e estudante de escola p\u00fablica que cria uma dicotomia com o olhar dos jovens brancos da zona sul. Na cena mais simb\u00f3lica, os jovens participam de um debate na escola particular onde Luca estuda, Talita ent\u00e3o apresenta quest\u00f5es latentes para uma parcela da juventude brasileira: \u201cprecisamos de infraestrutura, de professores qualificados\u201d, entre outros, mas ela \u00e9 constantemente silenciada por Mil, a jovem branca de classe m\u00e9dia, que afirma que o mais importante naquele momento \u00e9 discutir g\u00eanero e deixar que os alunos entrem na escola de saia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessante de \u201cRasga Cora\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 que o filme pontua essas dicotomias de forma sensata: as quest\u00f5es de g\u00eanero, o veganismo, as d\u00favidas de Luca s\u00e3o apresentadas de forma s\u00e9ria e complexa, por\u00e9m o filme n\u00e3o deixa de expor as incongru\u00eancias desses discursos, que parecem ignorar ou silenciar diferentes universos. Nesse mesmo sentido, o filme esmi\u00fa\u00e7a as quest\u00f5es do passado de Cust\u00f3dio (Ricca) e busca uma tentativa de autocr\u00edtica (palavra inclusive usada de forma ir\u00f4nica no filme) sobre a escalada da esquerda no poder e todos os pr\u00f3s e contras que isso acarretou para o Brasil de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os apontamentos pol\u00edticos de \u201cRasga Cora\u00e7\u00e3o\u201d s\u00e3o muitos: a atualidade pol\u00edtica brasileira, as tens\u00f5es geracionais, a import\u00e2ncia de diferentes pautas e a an\u00e1lise cr\u00edtica das nossas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o quest\u00f5es que surgem de forma m\u00faltipla, mesmo assim o filme n\u00e3o se torna panflet\u00e1rio ou moroso em nenhum momento, pois mais que tudo isso trata-se de um filme sobre afetos, sobre fam\u00edlia, sobre amizade e amor. \u00c9 sobre como a pol\u00edtica atravessa todas essas quest\u00f5es, desde a rela\u00e7\u00e3o entre pais e filhos at\u00e9 as nossas micro rela\u00e7\u00f5es cotidianas, isto \u00e9, nossas perspectivas perante tudo que nos cerca no dia a dia. O exemplo mais claro disso \u00e9 a cena inicial do filme: um corpo estendido na cal\u00e7ada, bem na vista da janela da casa de Cust\u00f3dio \u00e9 tema de conversa, de forma frugal, enquanto eles fazem a lista de compras e discutem os pre\u00e7os dos produtos. As quest\u00f5es da classe m\u00e9dia est\u00e3o expostas no filme de forma perspicaz, formando uma moldura para esses personagens, que querem realizar sonhos banais como trocar os tacos do apartamento ou pintar as paredes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das for\u00e7as do filme de Furtado est\u00e1 nas atua\u00e7\u00f5es: Marco Ricca \u00e9 excepcional em seu protagonista; j\u00e1 os jovens Chay Suede e Luisa Arraes preenchem de complexidade os seus jovens privilegiados &amp; revolucion\u00e1rios; George Sauma traz um humor e uma naturalidade a porra-louquice de seu personagem Bundinha, j\u00e1 Jo\u00e3o Pedro Zappa consegue construir um bom prel\u00fadio frente a maturidade de Ricca. De todo modo, \u00e9 Drica Moraes a grande estrela do filme. Sua personagem poderia ser histri\u00f4nica na m\u00e3o de outras atrizes, mas assume um car\u00e1ter extremamente real em sua atua\u00e7\u00e3o: n\u00f3s conhecemos aquela personagem, ela pode ser nossa m\u00e3e, nossa amiga, nossa vizinha. Ela tem certa amargura que se sobrepuja em humor, em ironia e isso traz leveza ao filme, uma identifica\u00e7\u00e3o engra\u00e7ada, que remete ao t\u00edpico humor de Furtado \u2013 mesmo que curiosamente muitas das sacadas da personagem j\u00e1 estivessem presentes no texto original de Vianninha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso tudo, a trilha sonora \u00e9 um deleite a parte: constru\u00edda apenas daquela MPB dita maldita, ela parece nova, mesmo que constru\u00edda com faixas j\u00e1 conhecidas. \u201cQualquer bobagem\u201d, de Tom Z\u00e9, \u201cGotham City\u201d, de Os Braz\u00f5es, \u201cMovimento dos barcos\u201d, de Jards Macal\u00e9 e \u201cDois Navegantes\u201d, do Ave Sangria comp\u00f5em o cen\u00e1rio ao lado da can\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica que d\u00e1 t\u00edtulo ao filme. Surpresa dessa trilha \u00e9 a faixa \u201cA Corda R\u00e9\u201d, m\u00fasica in\u00e9dita de Sergio Sampaio, que apenas havia sido gravada em um v\u00eddeo caseiro disponibilizado no Youtube; para o filme ela ganha acabamento do filho de S\u00e9rgio, Jo\u00e3o Sampaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso tudo, \u201cRasga Cora\u00e7\u00e3o\u201d define-se como um importante filme dentro da m\u00faltipla filmografia de Jorge Furtado. Expondo a tens\u00e3o das discuss\u00f5es ideol\u00f3gicas nos diferentes tempos, o longa \u00e9 um complexo olhar sobre o nosso tempo e deixa um amargor na boca ao mirar o futuro que parece n\u00e3o muito acolhedor. O ponto \u00e9 que precisamos ver este filme, conversar sobre ele, refleti-lo de diferentes formas e, mais que tudo, nos deixarmos levar pela emotividade e complexidade dessa hist\u00f3ria. Veja de cora\u00e7\u00e3o aberto e deixe-se rasgar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7EdKGEKE9aw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>&nbsp;\u00e9 jornalista e colabora com o site&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>. Escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cRasga Cora\u00e7\u00e3o\u201d acompanha o conflito geracional de uma fam\u00edlia claramente linkada com quest\u00f5es pol\u00edticas e como o tempo de poder do PT gerou rachaduras complexas no cen\u00e1rio nacional num complexo olhar sobre o nosso tempo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/01\/08\/cinema-rasga-coracao-de-jorge-furtado\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":49641,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3430],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49625"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49625"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49625\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":50763,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49625\/revisions\/50763"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}