{"id":49559,"date":"2018-12-20T13:16:48","date_gmt":"2018-12-20T15:16:48","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=49559"},"modified":"2019-03-13T16:58:26","modified_gmt":"2019-03-13T19:58:26","slug":"cinema-roma-de-alfonso-cuaron","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/12\/20\/cinema-roma-de-alfonso-cuaron\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cRoma\u201d, de Alfonso Cuar\u00f3n"},"content":{"rendered":"<h2><strong><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/roma2.jpg\"><\/strong><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Resenha por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colonia Roma \u00e9 um bairro de classe m\u00e9dia pr\u00f3ximo ao centro da Cidade do M\u00e9xico. Foi nessa localidade que o cineasta Alfonso Cuar\u00f3n cresceu e onde agora toma vida o seu longa \u201cRoma\u201d (2018), lan\u00e7ado diretamente na Netflix. Esp\u00e9cie de colcha de retalho de mem\u00f3rias, o longa \u00e9 um retorno de Cuar\u00f3n ao M\u00e9xico depois do sucesso de \u201cGravidade\u201d (2013), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Diretor (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/03\/02\/meus-caraminguas-sobre-o-oscar-2014\/\" data-wplink-edit=\"true\">e outras seis estatuetas<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cRoma\u201d acompanha o circular dia a dia da empregada Cleo num casar\u00e3o de classe m\u00e9dia, enquanto cuida dos filhos dos patr\u00f5es e vive nesse eterno jogo de ser \u201cquase da fam\u00edlia\u201d. Ela \u00e9 o elo central do filme, sendo os dramas da fam\u00edlia os eixos laterais, sempre \u00e0s margens. Nesse sentido, o longa se inicia com a ida do patriarca para uma viagem de trabalho ao Canad\u00e1, ap\u00f3s isso o espectador acompanha o n\u00e3o-retorno dele, a perspectiva da esposa possivelmente abandonada e as rela\u00e7\u00f5es com as crian\u00e7as; paralelamente, v\u00ea-se Cleo se envolvendo em uma rela\u00e7\u00e3o amorosa conturbada, que influi no seu cotidiano de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas cr\u00edticas, inclusive em grandes portais brasileiros, repetem a bobagem de dizer que \u201cRoma\u201d quase n\u00e3o tem hist\u00f3ria ou que pouco acontece no filme. O ritmo do filme \u00e9 realmente mais contemplativo e bastante distinto das cartilhas hollywoodianas, por\u00e9m as mais de duas horas da trama acompanham uma dezena de acontecimentos que formam o todo dessas personagens: s\u00e3o quase um ano na vida de Cleo e de sua fam\u00edlia de patr\u00f5es, nesse meio tempo todos os personagens se transformam e se modificam de diferentes formas pelos acontecimentos apresentados. Para um p\u00fablico extremamente acostumado a persegui\u00e7\u00f5es e explos\u00f5es, pode parecer que um carro tentando entrar na garagem ou uma ida ao cinema n\u00e3o s\u00e3o necessariamente \u201chist\u00f3rias\u201d em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em in\u00fameros textos tamb\u00e9m se observa uma constante compara\u00e7\u00e3o entre \u201cRoma\u201d e o brasileiro \u201cQue Horas Ela Volta?\u201d (2015), de Anna Muylaert. A compara\u00e7\u00e3o surge sempre pelo car\u00e1ter mais expl\u00edcito das tens\u00f5es de classe do longa nacional em compara\u00e7\u00e3o com o de Cuar\u00f3n. Em \u201cRoma\u201d as tens\u00f5es de classe conduzem o filme, mas elas n\u00e3o s\u00e3o questionadas ou implodidas, \u00e9 como se Cleo vivesse num c\u00edrculo do qual n\u00e3o conseguiria sair \u2013 o que n\u00e3o deixa de ser uma realidade de uma grande parcela da popula\u00e7\u00e3o latino-americana. Idealizar uma ascens\u00e3o social atrav\u00e9s da tomada de consci\u00eancia daquela fam\u00edlia seria como reescrever o passado com o olhar de hoje. J\u00e1 o filme de Anna Muylaert reflete o nosso tempo e por isso tensiona essas quest\u00f5es de outro modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em perspectiva, \u201cRoma\u201d se comunica mais com \u201cSantiago\u201d (2007), document\u00e1rio de Jo\u00e3o Moreira Salles, em que o diretor constr\u00f3i um retrato delicado sobre o personagem t\u00edtulo, que foi mordomo de sua fam\u00edlia durante 30 anos. Em determinado momento do filme, Salles compreende que durante todo o filme, fossem utilizados os mais diferentes artif\u00edcios poss\u00edveis, ele sempre era a figura do patr\u00e3o perante Santiago, e ele sempre se resguardava ao seu local de empregado. Uma l\u00f3gica opressora e obsoleta, mas extremamente latente que reverbera tamb\u00e9m em \u201cRoma\u201d: Cleo tem medo de ser demitida, tem medo de uma vida fora daquela casa, n\u00e3o vislumbra outras perspectivas al\u00e9m e isso cria uma personagem resignada e quase passiva perante alguns fatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As personagens femininas de \u201cRoma\u201d habitam dentro desse status quo dos anos 1970 e, por isso, esse retrato \u00e9 t\u00e3o acurado e t\u00e3o complexo: Cleo e a patroa tem seus defeitos; uma \u00e9 quase subserviente, a outra tem arroubos de descontrole; por\u00e9m ambas se irmanam na solid\u00e3o, no enfrentamento de um mundo que diz que a mulher \u00e9 sempre menos. E nisso, as personagens se mostram fortes ao seguirem firmes apesar de qualquer cen\u00e1rio intempestivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maternidade, nesse universo criado por Cuar\u00f3n, assume perspectivas m\u00faltiplas: h\u00e1 a maternidade desejada, bem-quista; a maternidade forjada nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas, aparte dos la\u00e7os sangu\u00edneos; e h\u00e1 o n\u00e3o-desejo pela maternidade, tudo isso orbitando sob o espectro feminino. Ainda hoje h\u00e1 uma cultura que relega a maternidade a uma pot\u00eancia quase sacra e qualquer mulher que tente desamarrar-se disso \u00e9 vista como menos digna. \u00c9 nisso que o filme de Cuar\u00f3n \u00e9 perspicaz, j\u00e1 que aquelas mulheres se mostram fortes e dignas ao assumirem suas idiossincrasias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As escolhas est\u00e9ticas de Cuar\u00f3n s\u00e3o fortes, e, n\u00e3o \u00e0 toa, a produ\u00e7\u00e3o liberou um \u201c<a href=\"https:\/\/myromamovie.com\/best-viewing-practices\">manual<\/a>\u201d de como assistir ao filme \u201ccorretamente\u201d em sua pr\u00f3pria TV via Neflix. Desde a escolha pelo preto e branco at\u00e9 os longos takes panor\u00e2micos em plano-sequ\u00eancia, o apuro est\u00e9tico \u00e9 at\u00e9 mesmo visto por muitos detratores como o elo problem\u00e1tico de \u201cRoma\u201d, pois a frieza (ou passividade) da c\u00e2mera perante tudo seria como o \u00e1libi do diretor para n\u00e3o assumir posi\u00e7\u00f5es mais pertinentes perante as tens\u00f5es que surgem na tela e quase nunca eclodem. De todo modo, \u00e9 essa composi\u00e7\u00e3o que cria uma m\u00edstica especial ao filme, j\u00e1 que cada take cria composi\u00e7\u00f5es densas e profundas, que desenham um panorama amplo da sociedade mexicana e, por conseguinte, de toda a cultura latino-americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A c\u00e2mera comumente sai de um pequeno quadro e de repente abarca situa\u00e7\u00f5es extremamente maiores. Por exemplo, Cleo desce do \u00f4nibus e, de repente, o \u00e2ngulo abre e engloba a toda uma comunidade pobre das periferias da Cidade do M\u00e9xico, com sua falta de saneamento b\u00e1sico e, at\u00e9 mesmo, uma esp\u00e9cie de circo pol\u00edtico armado ao fundo. Em outro momento, uma compra simples em uma loja apresenta um panorama doloroso sobre as manifesta\u00e7\u00f5es estudantis e a repress\u00e3o pol\u00edtica. Os quadros escondem e mostram coisas que transformam o espectador atento a um voyeur, a ver de longe. E assim, enquanto a fam\u00edlia sofre, vemos um casamento ao fundo; ou enquanto Cleo sofre uma desilus\u00e3o amorosa acompanhamos uma t\u00edpica matin\u00ea nos antigos cinemas de rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o pequenas composi\u00e7\u00f5es que (re)criam um universo \u00fanico, quase palp\u00e1vel, dando pano para compreendermos muito das sociedades latinas atuais, com todos os joguetes pol\u00edticos e todas as complexidades sociais. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que essa amplitude tamb\u00e9m acaba resvalando na superficialidade, j\u00e1 que a c\u00e2mera mira muitas dessas coisas, mas a maioria dela n\u00e3o \u00e9 aprofundada, s\u00e3o apenas mem\u00f3rias passageiras \u2013 o que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 necessariamente o caso de ser certo ou errado, j\u00e1 que o filme busca reconstruir mem\u00f3rias de um Cuar\u00f3n crian\u00e7a. Mesmo assim, algumas tens\u00f5es poderiam ser muito mais latentes: a cultura ind\u00edgena de Cleo perante a fam\u00edlia branca da cidade, o machismo, as rela\u00e7\u00f5es de classe, os problemas pol\u00edticos do M\u00e9xico, como a demarca\u00e7\u00e3o de terras, todas pontas de icebergs que Cuar\u00f3n apenas exibe sorrateiramente, dando pano para que o p\u00fablico fa\u00e7a suas pr\u00f3prias an\u00e1lises posteriores, pois o fundamental em \u201cRoma\u201d \u00e9 vivenciar essa experi\u00eancia ao lado daqueles personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso, o apuro est\u00e9tico do diretor cria cenas de beleza incontest\u00e1vel, como a sequ\u00eancia do mar \u2013 que ilustra o cartaz do filme \u2013, a sequ\u00eancia da maternidade e a sequ\u00eancia de Cleo ao lado de uma das crian\u00e7as no topo da casa (uma esp\u00e9cie de lavanderia \u2013 \u00e1rea de servi\u00e7o das casas mexicanas). Essa \u00faltima passagem \u00e9 de uma beleza lancinante em sua simplicidade e destreza, que logo no in\u00edcio do filme j\u00e1 mostra que a atriz Yalitza Aparicio \u00e9 uma estrela poderosa, de delicada atua\u00e7\u00e3o, em sua constru\u00e7\u00e3o de Cleo. Al\u00e9m de Yalitza, Marina de Tavira como a patroa Sofia tamb\u00e9m \u00e9 certeira na constru\u00e7\u00e3o de uma mulher que oscila entre a desilus\u00e3o e a for\u00e7a. Ainda se destaca a naturalidade de todas as crian\u00e7as, que trazem um efeito forte de naturalismo ao filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Yalitza Aparicio at\u00e9 j\u00e1 est\u00e1 sendo cotada para a categoria de melhor atriz no Oscar de 2019, sendo que foi escolhida como a melhor atua\u00e7\u00e3o do ano em lista da revista Time. Yalitza \u00e9 de ascend\u00eancia mixteca, uma das minorias amer\u00edndias do M\u00e9xico, assim como sua personagem Cleo, tanto que no filme ela fala em determinadas cenas o idioma Mixtec. A jovem de 25 anos era professora infantil em Oaxaca quando foi descoberta por Cuar\u00f3n, fazendo sua estreia aqui em \u201cRoma\u201d. Considerando a hist\u00f3ria e a ascend\u00eancia de Yalitza, \u00e9 importante reconhecer os espa\u00e7os que ela tem assumido depois do filme: ela j\u00e1 posou para as lentes da Vanity Fair e \u00e9 a capa da edi\u00e7\u00e3o de janeiro da Vogue M\u00e9xico, o que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa se pensarmos que o mundo da moda ainda tem muitos passos a dar no sentido da representatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final das contas, com todo esse burburinho, \u00e9 ineg\u00e1vel que \u201cRoma\u201d \u00e9 um acontecimento cinematogr\u00e1fico e, por isso mesmo, \u00e9 compreens\u00edvel que muitos lamentem o seu lan\u00e7amento direto no Netflix \u2013 a empresa at\u00e9 organizou algumas sess\u00f5es em salas de cinema, por\u00e9m concorrid\u00edssimas e com ingressos esgotados rapidamente. O ponto \u00e9: veja como for, na TV, no computador, no ipad, mas veja e deixe-se levar pela c\u00e2mera de Cuar\u00f3n, deixe-se banhar por esse universo que ele apresenta. S\u00e3o duas horas ao lado de Cleo e de sua \u201cfam\u00edlia\u201d em que identificamos as nossas dores, os nossos medos e vemos que a solid\u00e3o \u00e9 um sentimento universal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ICR6YvcyyJc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p_ycZeWy4bg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4sQjKQKT5Lw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>&nbsp;\u00e9 jornalista e colabora com o site&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>. Escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"S\u00e3o duas horas ao lado de Cleo e de sua \u201cfam\u00edlia\u201d em que identificamos as nossas dores, os nossos medos e vemos que a solid\u00e3o \u00e9 um sentimento universal. 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