{"id":49391,"date":"2018-12-05T15:24:05","date_gmt":"2018-12-05T17:24:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=49391"},"modified":"2019-01-17T11:16:50","modified_gmt":"2019-01-17T13:16:50","slug":"entrevista-ze-misanthrope-omfalos-a-peste-e-godtoth","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/12\/05\/entrevista-ze-misanthrope-omfalos-a-peste-e-godtoth\/","title":{"rendered":"Entrevista: Z\u00e9 Misanthrope (Omfalos, A Peste e Godtoth)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/breadandkat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Guilherme Lage<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas coisas chamam aten\u00e7\u00e3o no <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/omfalossavants\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Omfalos<\/a> de imediato. A primeira \u00e9 a sonora bicuda dada pelo duo brasiliense aos limites do black metal. Ao subg\u00eanero, popular nas paragens escandinavas, acopla-se influ\u00eancias de p\u00f3s punk e rock g\u00f3tico, death metal e hardcore.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda \u00e9 a brutal honestidade. Seu material l\u00edrico \u00e9 um v\u00f4mito existencial sa\u00eddo de est\u00f4magos que emulsionam com crueza os dissabores e as sensa\u00e7\u00f5es humanas, retratando doen\u00e7as como a depress\u00e3o e o transtorno afetivo bipolar. O desabafo \u00e9 tal que as letras de seus dois \u00e1lbuns &#8220;Idiots Savants&#8221; (2011) e \u201cCotton Candy Rendezvous\u201d (2013) permanecem at\u00e9 hoje sem publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As faixas, assim como na doen\u00e7a man\u00edaco-depressiva, acontecem em ciclos e contam vis\u00f5es fragmentadas de uma mesma exist\u00eancia, trazendo \u00e0 tona sentimentos dos mais \u00edntimos. A m\u00fasica da dupla comp\u00f5e uma narrativa inovadora no que tange o conte\u00fado de uma vertente quase estanque no cen\u00e1rio heavy metal brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conversa com o vocalista Z\u00e9 Misanthrope (com a camiseta do Facada na foto que abre o texto), batemos um papo sobre a arte da banda, os projetos A Peste e Godtoth, o segundo ao lado dos membros do Facada, influ\u00eancias liter\u00e1rias e, claro, metal extremo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YOuOXmhYTbE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode contar um pouco sobre como foi seu in\u00edcio na m\u00fasica? Como voc\u00ea come\u00e7ou a tocar. Foi em Bras\u00edlia mesmo ou em outra cidade?<\/strong><br \/>\nMeu in\u00edcio na m\u00fasica tem um come\u00e7o bem peculiar. Meu pai, apesar de ser um sujeito totalmente quadrado e careta gostava muito de m\u00fasica, especialmente de heavy metal. Ent\u00e3o eu cresci tendo acesso a uma cole\u00e7\u00e3o bem consider\u00e1vel de cl\u00e1ssicos logo muito novo. Desde muito cedo ouvi coisas como Iron Maiden, Testament, AC\/DC e tantos cl\u00e1ssicos do final dos 80 e come\u00e7o dos 90. Da\u00ed foi natural pra mim acabar enveredando pelos caminhos mais extremos do rock. Como se fosse uma progress\u00e3o l\u00f3gica. Sobre eu come\u00e7ar a mexer com m\u00fasica, eu comecei a tocar em Bras\u00edlia mesmo. Comecei a me perceber vocalista no ano de 1996 fazendo algumas bandas com amigos da escola. Nada muito s\u00e9rio. Em 2000 eu respondi a um an\u00fancio de uma banda de Death Metal local chamada Brutalized, chegamos a gravar uma demo, fazer alguns shows e isso foi o come\u00e7o da minha caminhada. Curioso que esse ano reencontrei alguns membros da banda e estamos em contato constante, estamos at\u00e9 considerando escrever algumas m\u00fasicas novas e matar a saudade das antigas. Estou animado pra ver o que sai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre o Omfalos, eu acho uma das bandas mais aut\u00eanticas do metal extremo brasileiro. Como voc\u00eas tiveram a ideia de come\u00e7ar a banda? Porque \u00e9 algo raramente feito no Brasil. Uma banda de black metal que acopla influ\u00eancias de outros estilos.<\/strong><br \/>\nEu tinha passado uns anos no Canad\u00e1 e voltei a morar em Bras\u00edlia em 2008. Um belo dia, por meio de uma grande amiga em comum, eu conheci o Thormianak (segunda metade da banda: guitarra, baixo e teclados). Todo mundo que gosta de black metal no Brasil sabe a import\u00e2ncia que o Miasthenia tem no cen\u00e1rio nacional, e, apesar de fazermos parte da mesma cena, at\u00e9 aquele momento eu nunca tinha conversado com ele. No mesmo momento percebemos que t\u00ednhamos muito em comum. Al\u00e9m do black metal, descobrimos uma fascina\u00e7\u00e3o m\u00fatua pelo g\u00f3tico, pelo punk e pela arte de vanguarda em geral. Naquele mesmo dia, combinamos que montar\u00edamos uma banda. Passamos uns dois anos tentando estabilizar uma forma\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que em 2010 decidimos que ser\u00edamos apenas n\u00f3s dois na banda e convidar\u00edamos um baterista pra nos ajudar. Talvez esse diferencial que voc\u00ea fala venha do fato de que nossa cria\u00e7\u00e3o veio de um lugar muito honesto, pois n\u00f3s dois lutamos contra a doen\u00e7a mental. Ent\u00e3o toda aquela f\u00faria veio causada pelo nosso pr\u00f3prio tormento. Da nossa incapacidade de lidar com nossos problemas na \u00e9poca. De modo que para exprimir esse sentimento t\u00e3o visceral de um jeito realmente honesto, n\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos nos prender a dogmas estil\u00edsticos. Tudo ia correndo livremente sem filtros. Claro que isso tamb\u00e9m tem o seu lado negativo, pois por a m\u00fasica ter vindo de um lugar t\u00e3o dolorido, as letras de modo geral sempre refletiram toda a nossa dor e hist\u00f3ria de vida. Ent\u00e3o n\u00e3o foi um processo agrad\u00e1vel revisitar essas mem\u00f3rias angustiantes e isso causou um dano emocional enorme em nos dois. Tanto ele quanto eu entramos em crises emocionais profundas ao final do \u00faltimo show de 2016 e ainda estamos nos recuperando disso. Mas sobre a variedade sonora, posso dizer que facilita muito o fato de sermos pessoas muito ecl\u00e9ticas. A gente \u00e9 bastante inspirado por muitas coisas fora do metal, e at\u00e9 mesmo da m\u00fasica. Sempre fui muito interessado por literatura e essa influ\u00eancia se faz muito presente nas coisas que fa\u00e7o at\u00e9 hoje. Ent\u00e3o foi muito natural fazer o som desse jeito, nunca pensamos necessariamente em fazer algo diferente, simplesmente saiu assim. At\u00e9 porque o sucesso da banda n\u00e3o foi algo que antecipamos, pelo contr\u00e1rio, ficamos muito surpresos que as pessoas se interessaram pelo projeto. Apenas fizemos algo do cora\u00e7\u00e3o, pra deixar a gente feliz e celebrar nossa parceria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos dois discos existe algo como uma assinatura da banda. Mas fica claro que s\u00e3o dois trabalhos distintos com influ\u00eancias diferentes. Voc\u00ea diria que os dois \u00e1lbuns s\u00e3o conceituais?<\/strong><br \/>\nSim, s\u00e3o conceituais, mas de modos diferentes. Eu costumo dizer que o \u201cCotton Candy Rendezvous\u201d \u00e9 a conclus\u00e3o l\u00f3gica do \u201cIdiots Savants\u201d. O \u201cIdiots\u201d, apesar dos elementos distintos de punk e grindcore, \u00e9 um disco mais constante dentro do metal. \u00c9 uma sequ\u00eancia de m\u00fasica bem brutal at\u00e9 a s\u00e9tima m\u00fasica quando entram em cena as tr\u00eas m\u00fasicas que fecham o \u00e1lbum bum clima mais Doom e g\u00f3tico. E se voc\u00ea reparar bem, o \u201cCotton\u201d come\u00e7a exatamente onde o \u201cIdiots\u201d parou. A diferen\u00e7a \u00e9 que o \u201cCotton\u201d foi um \u00e1lbum bem mais lapidado, cheio de camadas e muito mais denso e mel\u00f3dico. Mas sem d\u00favida, existe uma conex\u00e3o clara entre os dois. Em termos l\u00edricos, o \u201cIdiots\u201d pode ser considerado um disco conceitual por todos os temas estarem ligados \u00e0 doen\u00e7a mental, mas n\u00e3o existe ali uma hist\u00f3ria propriamente dita, como \u00e9 o caso do \u201cCotton\u201d. No \u201cCotton\u201d busquei fazer as letras contando uma hist\u00f3ria tal como os discos do King Diamond e Queensr\u00ffche. Fiz uma hist\u00f3ria sobre um enterro de uma pessoa onde os parentes e amigos se encontram e d\u00e3o, cada um, uma vis\u00e3o diferente daquele morto. Para escrever isso, eu imaginei como as pessoas pr\u00f3ximas a mim reagiriam com a minha morte, ent\u00e3o cada faixa corresponde a vis\u00e3o de uma pessoa que fazia parte da minha vida naquele momento sobre a minha morte. Por causa dessa conex\u00e3o emocional t\u00e3o grande, eu n\u00e3o consigo ouvir o disco at\u00e9 hoje e tamb\u00e9m n\u00e3o me sinto \u00e0 vontade para compartilhar as letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota-se muito essa densidade nas faixas, realmente d\u00e1 pra perceber que s\u00e3o vis\u00f5es fragmentadas. Todas soam um pouco diferente uma da outra.<\/strong><br \/>\nSim, captou bem essa ideia de vis\u00f5es conflitantes sobre o mesmo fato. Tem algumas escolas de pensamento que dizem justamente isso, n\u00e9? Que tudo s\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es. Na \u00e9poca eu estava lendo muito um livro sobre teoria de identidades de um sujeito chamado Stuart Hall e ele tem um conceito interessante de que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o seres unos e constantes. Que na verdade somos um amontoado de facetas. De v\u00e1rios papeis sociais diferentes que a gente assume pra multiplicidade da vida. E o interessante \u00e9 que muitos desses pap\u00e9is sociais s\u00e3o conflitantes entre si. A\u00ed tentei colocar essa ideia de identidade fragmentada nas letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comentou agora sobre Stuart Hall e falou que se interessa muito por literatura. Por &#8220;The Naked Lunch&#8221; (quarta faixa do primeiro disco \u201cIdiots Savants\u201d) imagino que o Burroughs seja uma grande influ\u00eancia, n\u00e9? Quais outros autores te inspiram?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida Burroughs \u00e9 enorme na minha vida. Eu sou muito f\u00e3 dos m\u00e9todos dele de escrita autom\u00e1tica e processo criativo com colagens.Eu sempre fui muito apaixonado pela vis\u00e3o de mundo mais sens\u00edvel e multifacetada do Milan Kundera. Admiro muito a literatura russa, gosto de quase todos os g\u00f3ticos e rom\u00e2nticos&#8230;Mas eu ando numa fase de amor muito grande com a escrita marginal brasileira. De uns tempos pra c\u00e1 eu decidi escrever minhas letras em portugu\u00eas para transmitir toda a visceralidade da nossa l\u00edngua. E nessa de pesquisar os livros para escrever as letras eu redescobri Lima Barreto, que tem sido minha maior inspira\u00e7\u00e3o, e uma infinidade de escritores de fora dos grandes centros urbanos no Brasil. Gente como Ferr\u00e9z, Marcelino Freitas, C\u00e1tia Cernov, Wesley Barbosa, Cidinha da Silva, Ni Brisant, Valdeci Nascimento e tantos outros.A obra desse pessoal surge do Brasil real, o Brasil que sangra, chora e grita para n\u00e3o ser esquecido. Me identifico muito com isso e estou absorvendo loucamente o que essas pessoas t\u00eam a dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando pra m\u00fasica um pouco. Nos seus timbres, principalmente no \u201cCotton\u201d, eu noto uma certa aura Mike Patton. Ali naquelas \u00e9pocas de \u201cAngel Dust\u201d e \u201cKing For A Day (Fool For a Lifetime&#8230;)\u201d. Ele \u00e9 uma influ\u00eancia?<\/strong><br \/>\nAcertou na mosca. Faith no More \u00e9 sem d\u00favida minha maior influ\u00eancia vocal. Eu sempre fui muito apaixonado por essa coisa de vocalistas vers\u00e1teis. Gente como King Diamond, Mike Patton, o Kyo do Dir En Grey. Eles me inspiraram muito a quebrar os limites e explorar ao m\u00e1ximo os limites da minha voz. \u201cAlbum Of The Year\u201d \u00e9 meu disco de cabeceira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando um pouco sobre A Peste, como funciona pra voc\u00ea essa din\u00e2mica com dois vocalistas? Assim como o Omfalos, ali tem uma mistura muito louca de metal, punk e tudo isso, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nA Peste foi mais ou menos assim: uns amigos meus, tinham uma banda que n\u00e3o ia pra frente nunca. Eles tinham feito um monte de m\u00fasicas mais puxadas pro punk que eram muito legais, mas por conta de alguns desencontros, nunca acabaram sendo gravadas devidamente. Um belo dia eu os chamei pra tocar comigo e trouxe um guitarrista e um baterista pra gente come\u00e7ar algo. Eles sugeriram usar as m\u00fasicas que j\u00e1 tinham feito pra essa banda anterior e fazer mais algumas novas. A\u00ed o Marcelo, que era o vocalista da banda anterior pediu pra participar e topamos na hora. Pra mim \u00e9 sensacional ter dois vocais, pois a gente pode explorar uma gama de texturas muito grande e brincar muito nos arranjos. O Marcelo \u00e9 um vocalista sensacional e ele tem um estilo mais puxado pro hardcore que casa perfeito com a bagagem death\/black que eu trago. Mas \u00e9 interessante que essa \u00e9 minha segunda experi\u00eancia com dois vocais, pois no Godtoth que eu tenho com o pessoal do Facada, eu e o James dividimos os vocais. Sobre a parte sonora da Peste, todos na banda tamb\u00e9m s\u00e3o bastante abertos a outros tipos de som. Apesar de a veia mais death metal estar sendo a diretriz dos trabalhos mais recentes e do vindouro, sempre tem muita coisa de punk, Doom, noise no meio.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zDThs34d7rk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea falou sobre o Godtoth, o \u201cSatanic Holocaust\u201d \u00e9 um dos discos mais legais que eu ouvi no ano passado, que foi quando eu descobri o projeto.<\/strong><br \/>\nEsse ano estou indo em Fortaleza pra gravar o segundo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu adorei essa pegada do disco. Parece que \u00e9 um disco de metal pensado pra ser mais cru, mais direto ao ponto e ligado at\u00e9 a alguns &#8220;clich\u00eas&#8221; do metal extremo. Era essa a inten\u00e7\u00e3o mesmo? Um disco r\u00e1pido e divertido?<\/strong><br \/>\nA ideia do Godtoth \u00e9 justamente essa, ser um tributo a todos os clich\u00eas\/cl\u00e1ssicos do metal extremo. Ent\u00e3o \u00e9 um disco feito pra celebrar essas bandas incr\u00edveis que nos inspiram tanto. D\u00e1 pra reparar que ele \u00e9 cheio de pequenas refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es a v\u00e1rias bandas cl\u00e1ssicas. \u00c9 um disco que tenho muito orgulho de ter participado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pel&#8217;A Peste e tamb\u00e9m por algumas outras coisas, noto que voc\u00ea \u00e9 uma pessoa bem politizada. Agora h\u00e1 pouco o Bolsonaro foi eleito no Brasil e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, muitas pessoas no cen\u00e1rio metal eram eleitores e defensores ferrenhos. Como voc\u00ea enxerga isso?<\/strong><br \/>\nEu enxergo isso como uma constata\u00e7\u00e3o muito assustadora. \u00c9 lament\u00e1vel a falta de consci\u00eancia de classe e a incompreens\u00e3o das pessoas enquanto entes pol\u00edticos. \u00c9 triste ver quantas pessoas foram seduzidas pelo discurso f\u00e1cil do \u00f3dio e das solu\u00e7\u00f5es supersimplificadas. Mas tamb\u00e9m mostrou o quanto estamos cercados de intoler\u00e2ncia, racismo e \u00f3dio por todos os lados. O metal como uma micro representa\u00e7\u00e3o da sociedade tamb\u00e9m est\u00e1 incluso nessa triste realidade. Mas n\u00f3s, como banda, e entes pol\u00edticos nos posicionamos contra toda forma de opress\u00e3o e discurso de exclus\u00e3o que possa existir. Lutamos ferrenhamente contra toda forma de fascismo. E em tempos como esses, se posicionar claramente \u00e9 mais do que necess\u00e1rio. Mas curioso \u00e9 ver que dentro do punk e do hip hop essa praga tamb\u00e9m conseguiu se infiltrar. De um certo modo, acho que era at\u00e9 previs\u00edvel esse apoio por parte do metal, pois tem uma turma que sempre foi mais reacion\u00e1ria mesmo. Vide os black metal nazista que abundam por a\u00ed. Coer\u00eancia nunca foi o forte deles. Mas \u00e9 muito doido, o n\u00edvel do debate pol\u00edtico \u00e9 muito superficial. As pessoas n\u00e3o buscam se informar, nessas elei\u00e7\u00f5es mesmo boa parte do arcabou\u00e7o argumentativo das pessoas veio de opini\u00f5es de YouTubers e memes e isso \u00e9 assustador. Pouca gente tem lido, andado pelas quebradas e conversado com a popula\u00e7\u00e3o do Brasil profundo pra realmente entender o que se passa. Afortunadamente, a esmagadora maioria dos meus amigos e pessoas que admiro na cena foram contra esse retrocesso louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveitando, como voc\u00ea avalia a cena underground a\u00ed de Bras\u00edlia?<\/strong><br \/>\nA cena aqui t\u00e1 muito boa em termos de bandas, mas meio fraca de eventos. A safra de 2010 pra c\u00e1 tem sido sensacional, um monte de bandas muito originais como Absent, Extinction Remains, A Vala Comum, Caligo, Into The Dust, Burial Temple, Vox Nihili, Kurgan, Abismo, isso sem falar do legend\u00e1rio Subterror do nosso saudoso Samuel (RIP). Tem as bandas fuleragem, claro, mas as bandas legais sobressaem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode falar um pouquinho sobre suas atividades paralelas \u00e0 m\u00fasica? O que voc\u00ea faz profissionalmente.<\/strong><br \/>\nEu sou formado em comunica\u00e7\u00e3o e em direito. Hoje em dia eu tenho um curso de ingl\u00eas para empresas e tamb\u00e9m fa\u00e7o pesquisas na \u00e1rea de semiotica e filosofia da linguagem. Al\u00e9m disso, tenho um est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o com meu parceiro Nicolas d\u2019A Peste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comentou sobre a doen\u00e7a mental. E obviamente isso \u00e9 grande parte da sua arte. Voc\u00ea acha que criar arte, m\u00fasica, literatura, ajuda no tratamento ou pelo menos no al\u00edvio desses problemas?<\/strong><br \/>\nAjuda em v\u00e1rios sentidos. Primeiro que \u00e9 uma bela v\u00e1lvula de escape pra deixar sair todos esses turbilh\u00f5es de sentimento. Pra mim \u00e9 libertador colocar toda essa ang\u00fastia pra fora e, mais do que isso, perceber que n\u00e3o sou o \u00fanico a passar por isso. Na verdade eu acabei por descobrir a import\u00e2ncia de se dar visibilidade \u00e0 doen\u00e7a mental. V\u00e1rias pessoas entraram em contato comigo pra comentar sobre, que se sentiram representadas e at\u00e9 mesmo motivadas a buscar ou continuar seus tratamentos. E \u00e9 de uma alegria enorme saber que posso ajudar em algo nessa causa t\u00e3o s\u00e9ria que j\u00e1 levou embora tantos de n\u00f3s. Tento escrever de um modo que n\u00e3o glorifique ou romantize as condi\u00e7\u00f5es mentais, mas sim humanize e traga uma perspectiva diferente sobre esse tipo de transtorno. Temos que cuidar um do outro sempre. E n\u00e3o mistificar a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 um passo vital pra essa causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, para finalizar. Vi que voc\u00eas decidiram dar um tempo com o Omfalos, por que tomaram essa decis\u00e3o? E, sobre o Cotton voc\u00ea disse que n\u00e3o se sente confort\u00e1vel, mas algum dia ser\u00e1 que vamos ver as letras do \u201cIdiots Savants\u201d?<\/strong><br \/>\nA gente deu um tempo justamente para refrescar emocionalmente. O processo do \u201cCotton\u201d foi muito penoso pra gente, ent\u00e3o decidimos dar mais um tempo pra lan\u00e7ar o pr\u00f3ximo trabalho, que inclusive j\u00e1 est\u00e1 praticamente todo gravado. Como n\u00f3s dois tivemos essas crises emocionais, preferimos focar agora na nossa melhora pra poder voltar depois de um jeito mais sereno no lidar. Al\u00e9m disso, tem o fato de o Miasthenia ser uma banda mais ativa e estar num ciclo de tour pela Europa e pelo Brasil. Mas em breve vai sair o trampo novo, que est\u00e1 bem diferente! Sobre as letras, vou ver se solto ocasionalmente em uma colet\u00e2nea de textos que estou preparando pra lan\u00e7ar ano que vem. A\u00ed todo mundo vai poder ver o que aquela gritaria toda quer dizer.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/I6P21NHKOw8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Guilherme Lage (<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/breadandkat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.facebook.com\/breadandkat<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Vila Velha, ES.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Duas coisas chamam aten\u00e7\u00e3o no Omfalos. A primeira \u00e9 a sonora bicuda dada pelo duo brasiliense aos limites do black metal acoplando-se influ\u00eancias de p\u00f3s punk e rock g\u00f3tico, death metal e hardcore. 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