{"id":4929,"date":"2010-04-16T18:58:50","date_gmt":"2010-04-16T21:58:50","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4929"},"modified":"2023-03-29T00:05:51","modified_gmt":"2023-03-29T03:05:51","slug":"o-dia-da-coruja-leonardo-sciascia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/16\/o-dia-da-coruja-leonardo-sciascia\/","title":{"rendered":"O Dia da Coruja, Leonardo Sciascia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4930\" title=\"odiadacoruja\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/odiadacoruja.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/rlevino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rodrigo Levino<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A id\u00e9ia geral da m\u00e1fia italiana sedimentada no imagin\u00e1rio coletivo, muito pelo modo como foi retratada no cinema, tem mais a ver com mafiosos italianos agindo ou adaptados aos Estados Unidos do que a organiza\u00e7\u00e3o quase tribal que at\u00e9 hoje perdura, por exemplo, na Sic\u00edlia, sul da It\u00e1lia, desde o fim da idade m\u00e9dia. Capos e consiglieres\u00a0 fazendo fortuna &#8211; e matando por isso &#8211; com os lucros de neg\u00f3cios ligados ao lixo, a constru\u00e7\u00e3o civil e mais recentemente ao com\u00e9rcio de drogas dizem pouco a respeito de costumes rudes dos padrinos antepassados<\/p>\n<p>Aqui e ali, vide a temporada de Michael Corleone na terra natal do pai, Don Vito, recluso ap\u00f3s vingar o atentado sofrido pelo chefe do cl\u00e3 retratado na saga &#8220;O Poderoso Chef\u00e3o&#8221;, ou nas digress\u00f5es do estupendo \u2018Honrados mafiosos\u2019, de Gay Talese, ouvem-se ecos de como viveram e a que tipo de regras e costumes estavam submetidos os, digamos, \u00fcber mafiosos, numa Sic\u00edlia agr\u00e1ria e semi-feudal. A atual gera\u00e7\u00e3o, de fanfarr\u00f5es, que n\u00e3o foi abatida pelas a\u00e7\u00f5es do juiz Giovanni Falcone na d\u00e9cada de 90, est\u00e1 bem documentada em &#8216;Gomorra&#8217;, do jornalista Roberto Salviano.<\/p>\n<p>\u00c9 um extrato da realidade crua e roots que trata o escritor italiano Leonardo Sciascia no indispens\u00e1vel &#8220;O Dia da Coruja&#8221; (Alfaguara), relan\u00e7ado no Brasil, originalmente escrito no come\u00e7o dos anos 60 e considerado um cl\u00e1ssico contempor\u00e2neo da literatura italiana.<\/p>\n<p>Sciascia, um prol\u00edfico intelectual, autor de dezenas de romances e ensaios, lan\u00e7ou m\u00e3o de um romance policial com elementos de noir \u2013 n\u00e3o fosse a Sic\u00edlia uma regi\u00e3o irremediavelmente ensolarada! \u2013 para engendrar um enredo onde a m\u00e1fia destila seus m\u00e9todos cru\u00e9is e paradoxalmente cercado de princ\u00edpios \u00e9ticos indivis\u00edveis.<\/p>\n<p>Um c\u00f3digo particular onde roubar \u00e9 um crime mais grave do que matar. E sobre matar, a certa altura um dos personagens explana ao ser perguntado se \u2018parece coisa de homem matar ou mandar matar outro homem?\u2019: \u2018Nunca fiz nada parecido. Mas j\u00e1 que est\u00e1 perguntando como passatempo, s\u00f3 para discutir coisas da vida, se \u00e9 justo tirar a vida de um homem, eu digo: primeiro tem de ver se \u00e9 um homem\u2019. Leia-se homem, algu\u00e9m que se encaixe dentro da estrutura daquela famiglia, cujo car\u00e1ter de cada membro \u00e9 moldado pela viol\u00eancia, pela lealdade e at\u00e9 pela religiosidade.<\/p>\n<p>A trama tem como fio condutor a misteriosa morte de um pequeno empreiteiro (baseado no fato real do assassinato de um sindicalista, em 1947), descrita de uma maneira minimalista e ainda assim capaz de p\u00f4r o leitor diante de uma tela em que a express\u00e3o de cada uma das testemunhas diz mais a respeito do acontecido do que se fosse o caso de descrever os tiros em si. Sciascia \u00e9 seco e eficaz como o estampido dos disparos.<\/p>\n<p>Um assassino de cara limpa reconhecido por dezenas de passageiros que jamais falar\u00e3o, regidos que est\u00e3o pela lei do sil\u00eancio; um trabalhador bra\u00e7al que na rua em frente \u00e0 pra\u00e7a onde se d\u00e1 o acontecido some sem deixar vest\u00edgios, trazendo ang\u00fastia \u00e0 sua esposa infiel; um ministro e um deputado discorrendo sobre corrup\u00e7\u00e3o em empreitadas p\u00fablicas e c\u00f3digos de honra, em Roma, distante centenas de quil\u00f4metros dali. Elementos aparentemente sem liga\u00e7\u00e3o entre si que aos poucos, com rara habilidade, Sciascia sob o mando do competente e honesto capit\u00e3o Bellodi, designado para a elucida\u00e7\u00e3o do crime.<\/p>\n<p>Com meticulosidade e frieza, Bellodi, um forasteiro destemido, enfrenta senhores aparentemente honrados e honestos, religiosos, vigorosos pais de fam\u00edlia (\u2018Para o siciliano a fam\u00edlia \u00e9 o que mais lhe importa, o Estado representa o que h\u00e1 de pior: repress\u00e3o, impostos, leis\u2019), tamb\u00e9m maus, c\u00ednicos, dissimulados, achacadores e completamente alheios ao mundo tal qual o conhecemos com suas leis e limites.<\/p>\n<p>V\u00ea-se em cada emocionante duelo nos depoimentos que Bellodi arranca dos signores uma no\u00e7\u00e3o particular de como deve ser regido o mundo, pela for\u00e7a e pelo dinheiro, onde democracia (\u2018uma palavra cheia de vento\u2019) e justi\u00e7a variam conforme o sobrenome ou a falange a que perten\u00e7a cada um deles, capazes inclusive de fazer o poder p\u00fablico desacreditar da exist\u00eancia da m\u00e1fia como organiza\u00e7\u00e3o criminosa por d\u00e9cadas. \u2018O que \u00e9 essa tal de m\u00e1fia? Ela existe?\u2019, pergunta um deputado no decorrer dos fatos.<\/p>\n<p>Em alguns instantes, Sciascia, atrav\u00e9s de Bellodi, intromete-se na obra deixando um pouco ao largo a trama para tecer esclarecedores coment\u00e1rios hist\u00f3ricos sobre a m\u00e1fia, a ofensiva a que resistiu do fascismo, o que alimentou um monstro ainda mais perigoso: reprimidos pelo movimento fascista no pr\u00e9-guerra, os mafiosos recolheram-se por certo per\u00edodo (para atacar adiante) dando a impress\u00e3o \u00e0 plebe de que a ditadura traria enfim a liberdade, vejam s\u00f3, sempre almejada diante da arbitrariedade com que era tratada pelas famiglias. Um contra-senso, assim como o desfecho melanc\u00f3lico mas \u00fanico poss\u00edvel diante de uma realidade t\u00e3o engessada, tratada nesta novela de maneira esmerada na linguagem e nas imagens, mesmo que em nenhum momento um mafioso irrompa a cena com uma espingarda de cano curto ao som de &#8220;Gimme Shelter&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Levino \u00e9 jornalista, distribui sabedorias no twitter <a href=\"http:\/\/twitter.com\/rlevino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@rlevino<\/a> e escreve na revista Poder al\u00e9m de colaborar com diversas publica\u00e7\u00f5es, entre elas, o jornal O Estado de S\u00e3o Paulo e a revista Piau\u00ed<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Rodrigo Levino\nA imagem da m\u00e1fia italiana que se sedimentou ao longo do tempo no imagin\u00e1rio coletivo, muito pelo modo&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/16\/o-dia-da-coruja-leonardo-sciascia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4929"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4929"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4929\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73604,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4929\/revisions\/73604"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}