{"id":49153,"date":"2018-11-05T13:13:45","date_gmt":"2018-11-05T15:13:45","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=49153"},"modified":"2019-01-09T20:33:42","modified_gmt":"2019-01-09T22:33:42","slug":"entrevista-maria-beraldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/05\/entrevista-maria-beraldo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Maria Beraldo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/beraldomaria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maria Beraldo<\/a> tem curr\u00edculo extenso: j\u00e1 trabalhou ao lado de gente como Arrigo Barnab\u00e9, Romulo Fr\u00f3es, Negro Leo e Iara Renn\u00f3; \u00e9 clarinetista, claronista, cantora e compositora; mestre em M\u00fasica e Bacharel em M\u00fasica Popular pela Unicamp; e este ano foi indicada como uma das revela\u00e7\u00f5es do Superj\u00fari do Pr\u00eamio Multishow de M\u00fasica Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a indica\u00e7\u00e3o \u00e9 just\u00edssima, j\u00e1 que 2018 \u00e9 seu ano: Maria lan\u00e7ou sua estreia solo, o excelente \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2VW7FzFPVuGetRhV8J7jt9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cavala<\/a>\u201d; lan\u00e7ou a estreia do seu grupo <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/3sxAbk6KPeOlK3Ka5H9tcf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Trio Bolerinho<\/a>, ao lado de Luisa Toller e Marina Beraldo Bastos; e lan\u00e7ou o segundo disco do grupo Quartab\u00ea, o tamb\u00e9m excelente \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/1a0LNkqpiAUHcuClTPVTtO\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Li\u00e7\u00e3o #2: Dorival<\/a>\u201d, baseado na obra de Dorival Caymmi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheia de projetos e em plena ebuli\u00e7\u00e3o, Maria tirou um tempo para conversar com o Scream &amp; Yell sobre diferentes temas que a movem: sua m\u00fasica, sua arte e sua express\u00e3o. Falamos sobre sua sexualidade \u2013 Maria \u00e9 l\u00e9sbica e esse \u00e9 um dos cernes de seu disco \u201cCavala\u201d \u2013, sobre feminilidade, sobre suas composi\u00e7\u00f5es e sobre suas influ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fala mansa e tranquila, Maria Beraldo \u00e9 do tipo que te envolve no papo e fala sobre temas complexos e duros de forma coerente e instigante, por isso mesmo vale muito a pena conferir o nosso papo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HttXojsV8z8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse ano voc\u00ea est\u00e1 com v\u00e1rios trabalhos, ent\u00e3o vamos separar um momento para cada um. Vamos come\u00e7ar falando do seu disco solo, o \u201cCavala\u201d: em que momento voc\u00ea sentiu a necessidade de ter um trabalho assinado com o seu nome?<\/strong><br \/>\nFoi uma coisa que eu n\u00e3o tinha planos de fazer. Acho que tem muita gente de grupo que pensa \u201cah, quando eu tiver meu trabalho solo\u201d. Eu n\u00e3o tinha essa vontade. S\u00f3 que a\u00ed comecei a compor can\u00e7\u00e3o quando cheguei em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 uns tr\u00eas anos atr\u00e1s, acho que em 2014. Com essas composi\u00e7\u00f5es eu comecei a ter vontade de ter um trabalho meu, por que s\u00e3o composi\u00e7\u00f5es muito \u00edntimas, acho que me identifiquei muito com esse lugar de compositora. \u00c9 um lugar onde me realizo muito, onde estou bem aterrada. E comecei a compor quando comecei a cantar, na verdade. Comecei a tocar com o Arrigo [Barnab\u00e9] e tudo isso tem a ver com a minha chegada em S\u00e3o Paulo. Comecei a tocar com o Arrigo, ele me colocou para cantar, j\u00e1 \u00e9 uma m\u00fasica super que me instigou, me transformou, s\u00f3 pela m\u00fasica mesmo, e a\u00ed ele me colocou para cantar e o Arrigo tem uma rela\u00e7\u00e3o muito singular com a m\u00fasica, com a palavra, com a performance. Ele no palco \u00e9 um artista muito completo, ent\u00e3o isso me moveu muito e a\u00ed ele estava cantando aquelas coisas super agudas, que as grandes cantoras cantaram, tipo Suzana Salles, V\u00e2nia Bastos, o [disco] \u201cClara\u201d [Crocodilo]. Da\u00ed comecei a cantar isso e fui fazer aula de canto para resolver coisas t\u00e9cnicas, com a Regina Machado. A gente estava tentando encontrar o repert\u00f3rio que fazia sentido pra eu cantar e comecei a estudar o \u201cJ\u00f3ia\u201d, do Caetano [Veloso], tirei esse disco inteiro, fiquei bem mergulhada nele, durante uns seis meses eu s\u00f3 ouvia o \u201cJ\u00f3ia\u201d, tirei tudo, todos os viol\u00f5es, todas os arranjos e esse disco tem essa caracter\u00edstica de serem estruturas bem concisas, meio minimalista, ele \u00e9 um disco pequeno, n\u00e3o \u00e9 um disco de banda. E mesmo as composi\u00e7\u00f5es, elas s\u00e3o meio com essa estrutura mesmo, mas concisa, minimal. E estudando esse disco eu fiz a minha primeira m\u00fasica, que \u00e9 a \u201cDa Menor Import\u00e2ncia\u201d, que foi mergulhada nesse universo do Caetano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse sentido, as suas can\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m t\u00eam alguma coisa desse m\u00ednimo l\u00e1 do Caetano, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim, acho estudar isso, essas can\u00e7\u00f5es do Caetano, me instigaram a compor e a\u00ed minha linguagem tem muito a ver com isso, acho que tamb\u00e9m se relaciona com a m\u00fasica do Rodrigo Campos, que s\u00e3o m\u00fasicas simples, de um certo ponto de vista, complexo de outros, s\u00e3o poucos elementos mesmo, melodias; muita repeti\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes curtas dura\u00e7\u00f5es e muito conte\u00fado na letra, mesmo que as letras sejam curtas. Por exemplo, a m\u00fasica \u201cJ\u00f3ia\u201d, do Caetano, s\u00e3o dois versos, uma melodia super simples e m\u00e2ntrica, pra mim aquilo \u00e9 antropologia em dois versos. Fala de muita coisa, sabe? E acho que a minha composi\u00e7\u00e3o tem um pouco disso, por causa desse mergulho. Acho que me encontrei nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea falou, as suas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bastante \u00edntimas, e como foi expor isso para todo mundo na hora de lan\u00e7ar o disco? Deu algum frio na barriga?<\/strong><br \/>\nPensar em lan\u00e7ar isso n\u00e3o me deu nenhum frio na barriga porque pra mim s\u00f3 fez sentido por causa dessa caracter\u00edstica, ent\u00e3o s\u00f3 senti vontade de dizer, de me colocar publicamente, como indiv\u00edduo, por causa dessa caracter\u00edstica, porque a minha m\u00fasica \u00e9 assim. Ao mesmo tempo, no dia que o disco foi pro ar, deu uma emo\u00e7\u00e3ozinha. E acho que tem a quest\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma coisa bem forte pra mim, porque realmente \u00e9 uma abertura muito grande. Mesmo as redes sociais e as minhas can\u00e7\u00f5es, eu acho que \u00e9 realmente muito \u00edntimo e a\u00ed tem o lado dif\u00edcil de expor a minha vida, mas acho que isso se justifica pelo fato de que, para mim, \u00e9 uma escolha pol\u00edtica isso tudo, ent\u00e3o s\u00f3 faz sentido eu me expor tanto e eu s\u00f3 topo me expor tanto porque eu sei que as mulheres l\u00e9sbicas s\u00e3o totalmente oprimidas e invisibilizadas, ent\u00e3o tem que fazer uma for\u00e7a grande para que as pessoas vejam que eu existo enquanto mulher l\u00e9sbica, ent\u00e3o \u00e9 isso que me faz topar esse n\u00edvel de exposi\u00e7\u00e3o. E me fez muita falta na minha adolesc\u00eancia ter representatividade. Quando descobri que era l\u00e9sbica eu n\u00e3o tinha nenhuma mulher como exemplo, nenhuma refer\u00eancia, ent\u00e3o sei como isso \u00e9 necess\u00e1rio, ent\u00e3o vale a pena. E a\u00ed tamb\u00e9m isso mudou muito, o p\u00fablico e o privado, essa \u00e9 uma coisa que eu tenho de fato refletido muito, quero estudar um pouco sobre isso tamb\u00e9m; mas \u00e9 isso, minha vida \u00e9 um livro aberto total. E eu acho tamb\u00e9m que fazer m\u00fasica sempre \u00e9 se expor, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o fale objetivamente, acho que voc\u00ea fica totalmente fragilizado. Voc\u00ea tem que se fragilizar para poder encostar nas pessoas, para poder tirar as cascas e acontecer o contato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora, antes de eu vir, eu estava pensando que marcamos e hoje (a entrevista foi realizada em 29 de agosto) \u00e9 o Dia da Visibilidade L\u00e9sbica. Desde que voc\u00ea lan\u00e7ou o disco, voc\u00ea sentiu algum tipo de retorno negativo? Eu vi que voc\u00ea postou esses dias uma mensagem negativa que voc\u00ea recebeu depois de participar do Cultura Livre. Como voc\u00ea tem lidado com esse tipo de retorno?<\/strong><br \/>\nEu recebi, n\u00e3o \u00e9 a maior parte, mas recebo volta e meia. Tanto de haters ou pessoas, como no caso dessa mensagem, um cara que \u00e9 totalmente desinformado, ele acha que est\u00e1 mandando uma mensagem para me ajudar. E tem amigos que tamb\u00e9m falam comigo, geralmente pessoas mais velhas, mas j\u00e1 rolou. Na \u00e9poca em que eu estava com o meu Catarse aberto, teve uns amigos que vieram falar \u201cent\u00e3o, se voc\u00ea se expor menos, n\u00e3o precisa ficar falando isso\u201d, \u201cisso\u201d, a pessoa nem fala a palavra. Eu recebo e a maneira que lido na verdade \u00e9: n\u00e3o fico irritada, nem nada disso, n\u00e3o tenho muita raiva das pessoas, acho que a minha raiva \u00e9 com o todo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa individual, n\u00e3o \u00e9 aquele indiv\u00edduo que est\u00e1 fazendo aquilo, \u00e9 uma coisa de conjunto. O que tento fazer \u00e9 informar, acho que isso tudo est\u00e1 baseado na desinforma\u00e7\u00e3o. Eu acho que quando uma pessoa \u00e9 homof\u00f3bica ela \u00e9 desinformada, porque isso envolve muitas quest\u00f5es pol\u00edticas, j\u00e1 que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa pol\u00edtica. Se voc\u00ea tem uma popula\u00e7\u00e3o, uma comunidade que \u00e9 informada, voc\u00ea ter\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica e a\u00ed todas as quest\u00f5es pol\u00edticas relacionadas a isso, v\u00e1rios governos, v\u00e1rias&#8230; enfim, a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais valioso que a gente tem. Ent\u00e3o trato essas pessoas como pessoas desinformadas e explico. Pra esse cara \u201ceu s\u00f3 fico dizendo que eu sou l\u00e9sbica, e que muitas mulheres l\u00e9sbicas s\u00e3o assassinadas por serem l\u00e9sbicas, ent\u00e3o se pra voc\u00ea n\u00e3o importa\u201d, e \u00e9 claro que pra ele importa, porque ele ficou incomodado. Mas tento informar e todo meu trabalho \u00e9 em prol da informa\u00e7\u00e3o, na verdade. Acho que \u00e9 tudo quest\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, recebo muito mais mensagens de pessoas que se identificam, que se sentem mais livres a partir das m\u00fasicas que eu fa\u00e7o, que se sentem incentivadas a exercer as suas liberdades e lutar por elas, ent\u00e3o tenho at\u00e9 certa d\u00f3 dessas pessoas homof\u00f3bicas. Claro que quando vejo not\u00edcia de assassinatos e viol\u00eancia com as outras pessoas, fico muito irritada, mas quando \u00e9 essa viol\u00eancia verbal comigo, eu em geral fico muito mal, mas tento explicar para pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tamb\u00e9m o retorno que voc\u00ea teve positivo foi bem grande em um tempo bem curto. As pessoas falando do disco, comentando.<\/strong><br \/>\n\u00c9, acho que isso me faz ser mais forte para conseguir lidar com a parte ruim. Teve um retorno muito bom do disco, bem maior do que eu esperava. Foi tudo meio de supet\u00e3o, eu comecei a compor, a\u00ed eu falei \u201cah, vou fazer um disco\u201d, decidi fazer o disco ano passado, entrei no est\u00fadio em fevereiro e sa\u00ed com o disco mixado no final de mar\u00e7o, assim. Foi tudo muito r\u00e1pido, ent\u00e3o n\u00e3o tinha nenhuma expectativa espec\u00edfica. Mas ao mesmo tempo trabalhei direito para que ele fosse uma coisa boa, me dediquei muito, foi tudo minucioso, ent\u00e3o rolou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tamb\u00e9m, agora pouco, voc\u00eas lan\u00e7aram um disco do Trio Bolerinho, depois de muitos anos de trabalho. Como foi chegar enfim a esse disco, como foi o processo de produ\u00e7\u00e3o dele?<\/strong><br \/>\nO Bolerinho tem um processo totalmente diferente do meu. A gente tem o grupo h\u00e1 11 anos e ele come\u00e7ou como um encontro, l\u00e1 na Unicamp ainda, um grupo de estudos mesmo. A gente nem tinha uma vontade mercadol\u00f3gica, n\u00e3o \u00e9ramos profissionais da m\u00fasica ainda, e a medida que a gente foi se profissionalizando, isso veio junto com o amadurecimento pessoal e com transforma\u00e7\u00f5es pessoais de n\u00f3s tr\u00eas. A minha irm\u00e3 [Marina Beraldo Bastos] teve duas filhas. Desde que a gente decidiu gravar o disco, ela ficou gr\u00e1vida da Cec\u00edlia, depois ficou gr\u00e1vida da Helena; a Luisa [Toller] tamb\u00e9m se envolveu muito com o feminismo; eu tive a minha virada de sa\u00edda do arm\u00e1rio e comecei a compor; ent\u00e3o n\u00f3s tr\u00eas viramos compositoras e o disco veio nesse momento em que ele precisava vir. S\u00e3o 11 anos de matura\u00e7\u00e3o mesmo, mas o processo \u00e9 bem mais lento. \u00c9 isso: nasceram duas crian\u00e7as durante o disco! As crian\u00e7as trazem um outro tempo pra gente, \u00e9 uma coisa muito terrena voc\u00ea ter um filho\/uma filha, muda o rel\u00f3gio mesmo, ent\u00e3o acho que tem isso de muito lindo no disco do Bolerinho, que \u00e9 um tempo interno mesmo, n\u00e3o tem o tempo de mercado. Ele \u00e9 um disco que surgiu no tempo da nossa transforma\u00e7\u00e3o, do nosso amadurecimento. E \u00e9 muito lindo perceber os tempos diferentes, como o meu foi uma coisa de explos\u00e3o e o do Bolerinho foi uma coisa de matura\u00e7\u00e3o. E o meu disco tamb\u00e9m foi maturado por todo esse tempo, no fundo eu fiz ele agora, mas tudo que eu sempre fui est\u00e1 nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ainda tem o disco da Quartab\u00ea (\u201cLi\u00e7\u00e3o #2: Dorival\u201d foi lan\u00e7ado dia 30 de agosto), que \u00e9 o disco em que voc\u00eas trabalham sobre a obra de Dorival Caymmi.<\/strong><br \/>\nIsso. A Quartab\u00ea tem essa caracter\u00edstica de que n\u00f3s somos arranjadoras, a princ\u00edpio, mas esse disco do Dorival, n\u00e3o sei, \u00e9 muito diferente do disco do Moacir [Santos], a gente n\u00e3o fez arranjos de m\u00fasica, a gente comp\u00f4s uma faixa \u00fanica a partir do estudo da obra do Dorival, ent\u00e3o a gente transcreveu muitas coisas, a gente tirou todas as m\u00fasicas. Ouvimos tudo, escolhemos algumas, tiramos arranjos; a gente dilatou, fez se\u00e7\u00f5es de improvisa\u00e7\u00e3o com esses fragmentos de m\u00fasica que conhecemos, enfim, a gente tirou os arranjos dele, os originais, selecionamos peda\u00e7os de m\u00fasica (cada um selecionou tipo 15, 16, \u00e0s vezes at\u00e9 mais) e fizemos se\u00e7\u00f5es de improvisa\u00e7\u00e3o, os quatro juntos, cada um tocando um peda\u00e7o de uma m\u00fasica; sempre trabalhando com elementos como dilata\u00e7\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o, expans\u00e3o, enfim, v\u00e1rias maneiras de transformar aqueles peda\u00e7os. E a\u00ed \u00e9 isso, a gente na verdade virou compositora nesse disco, \u00e9 um disco em que a gente faz arranjos. Esse \u00e9 um disco de composi\u00e7\u00e3o mesmo, mas totalmente mergulhados na obra do Dorival.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas est\u00e3o lan\u00e7ando esse disco ao vivo e voc\u00ea ainda est\u00e1 com uma turn\u00ea do \u201cCavala\u201d, mais outras coisas que voc\u00ea faz.<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma loucura! Tem esses outros trabalhos: eu toco na banda de alguns amigos, eu toco com a Iara [Renn\u00f3], toco com o Romulo [Fr\u00f3es], com o Rodrigo Campos, mas tamb\u00e9m agora \u00e9 o momento de eu ver at\u00e9 aonde vai cada coisa. Acho que tem um foco meu na \u201cCavala\u201d, principalmente, por que sou s\u00f3 eu, e tem um foco tamb\u00e9m na Quartab\u00ea e no Bolerinho, que s\u00e3o os meus projetos, e agora, enfim, est\u00e1 come\u00e7ando a surgir muita demanda para a \u201cCavala\u201d, de show e tal, estou ainda entendendo como que vai ser essa nova fase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu fui naquele show do Ita\u00fa Cultural, mas n\u00e3o consegui entrar, assim como muita gente que ficou pra fora devido a lota\u00e7\u00e3o esgotada&#8230;<\/strong><br \/>\nAi, que triste! Lotou e eles n\u00e3o vendem antes, ent\u00e3o as pessoas tem que ir e dar de cara na porta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 aquela coisa: fiquei triste de n\u00e3o ter entrado, mas achei \u201cnossa, legal, primeiro show e tem gente aqui fora\u201d.<\/strong><br \/>\nE \u00e9, muita gente ficou pra fora. Mas est\u00e1 rolando uma coisa massa! Acho que tem a ver com o tamanho do meu envolvimento com esse disco e acho que ele esteticamente tem uma relev\u00e2ncia grande, porque a gente falou s\u00f3 do conte\u00fado pol\u00edtico e das letras e tal, mas a sonoridade da \u201cCavala\u201d, acho que \u00e9 uma sonoridade que tem uma sofistica\u00e7\u00e3o mesmo e se conecta um pouco com a m\u00fasica eletr\u00f4nica, um pouco com rap. Ele tem, ao mesmo tempo, uma conex\u00e3o grande com o cancioneiro brasileiro, tipo Caetano, Chico [Buarque]. N\u00e3o sei se voc\u00ea leu a cr\u00edtica do R\u00f4mulo [Fro\u00e9s], <a href=\"https:\/\/medium.com\/revista-bravo\/finjo-pego-e-viro-93348e200c74\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ele fala bastante sobre isso<\/a>, acho que tem esse contraste de eu estar muito ligada a essa composi\u00e7\u00e3o do Caetano e tal e a sonoridade do meu disco n\u00e3o \u00e9 a sonoridade desse tipo MPB.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Percebo que a sua sonoridade \u00e9 muito pop, no sentido de se comunicar com o p\u00fablico de diferentes formas. De as pessoas entenderem de forma simples e se identificarem com aquilo de uma forma r\u00e1pida.<\/strong><br \/>\nTotal. E isso tem a ver com o meu encantamento com a m\u00fasica pop, tamb\u00e9m, porque venho de uma fam\u00edlia de m\u00fasicos: minha m\u00e3e \u00e9 compositora e saxofonista, toca jazz, flauta; meu pai era violonista erudito, ele toca coisas tipo Dorival Caymmi em casa, e dai conheci a m\u00fasica pop recentemente. Fiquei muito maravilhada! Teve uma \u00e9poca que eu s\u00f3 conseguia ouvir a Rihanna, mergulhei um pouco nisso e me identifiquei muito. Ent\u00e3o esse disco eu j\u00e1 tinha a ideia de fazer um disco pop mesmo. Ele \u00e9 um pop meio esquisito, mas ele \u00e9 pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Talvez ele tenha essas coisas meio da Bj\u00f6rk e de outras pessoas que pegam o pop e brincam em cima daquilo, para criar essas outras coisas.<\/strong><br \/>\n\u00c9, a Bj\u00f6rk \u00e9 uma refer\u00eancia tamb\u00e9m. Amo a Bj\u00f6rk!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o do disco \u201cCavala\u201d, voc\u00ea tamb\u00e9m tem uma preocupa\u00e7\u00e3o visual, voc\u00ea fez o clipe com a Laura Diaz e voc\u00ea tem outros clipes tamb\u00e9m. Era uma vontade sua de ter uma est\u00e9tica, digamos assim?<\/strong><br \/>\nAcho que, como \u00e9 um coisa muito \u00edntima assim, que tem muito a ver com a minha vida pessoal, \u00e9 meio tudo. Acho que a m\u00fasica nunca \u00e9 s\u00f3 m\u00fasica, ent\u00e3o, por exemplo, uma das coisas que contribuiu para minha sa\u00edda do arm\u00e1rio \u00e9 a minha imagem, essas foi uma das coisas que at\u00e9 tratei na terapia, muitos anos atr\u00e1s, como a imagem \u00e9 uma coisa importante, \u00e9 uma maneira de se comunicar. Eu tinha um cabelo de anjinho, enroladinho, grande. E cortei o cabelo e a minha vida mudou. Acho que tudo \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a minha imagem comunica tanto quanto a minha m\u00fasica, coisas diferentes, mas \u00e9 tudo muito integrado, acho que nesse trabalho \u00e9 tudo muito integrado mesmo. Penso muito num fractal: a composi\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o musical, como me visto no palco e fora do palco, os meus clipes, acho que \u00e9 tudo uma mesma coisa, est\u00e1 tudo dizendo uma mesma coisa, tudo no mesmo \u00edmpeto, ent\u00e3o \u00e9 super importante pra mim a parte visual. Ainda mais como mulher, pois sinto que a imagem da mulher \u00e9 um dos lugares onde a gente pode envolver mais pol\u00edtica, sabe? \u00c9 tudo muito estigmatizado para a mulher e tamb\u00e9m para o homem; a gente \u00e9 reduzido a uma imagem criada e eu sinto andando na rua que a minha imagem move. Tem a m\u00fasica \u201cSussussussu\u201d pro sovaco cabeludo: uma mulher que levanta o bra\u00e7o no \u00f4nibus com o sovaco cabeludo, ela vai fazer as pessoas refletirem muitas coisas, v\u00e1rios v\u00e3o sentir nojo, v\u00e1rios sei l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As pessoas v\u00e3o olhar.<\/strong><br \/>\n\u00c9, e aquilo move. A pessoa reflete, mesmo que ela fale \u201cnossa, que horror\u201d, se voc\u00ea come\u00e7a a mexer nisso, se muitas mulheres come\u00e7am a mexer nessa imagem que se tem da mulher, a gente desloca. Acho que isso \u00e9 uma maneira de transformar, n\u00e3o s\u00f3 na hora de votar no presidente, isso \u00e9 uma coisa que a gente est\u00e1 aprendendo muito na pol\u00edtica do Brasil, que n\u00e3o adianta pensar s\u00f3 no presidente, tem que pensar em todas as esferas e todos os outros cargos pol\u00edticos, que talvez sejam mais importantes do que o presidente. Isso igualmente em todas as rela\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o a minha imagem n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o, mas na verdade \u00e9 um dos lugares importantes para me sentir bem, encontrar a minha paz, para me identificar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caso, voc\u00ea falou de ter outras refer\u00eancias de mulheres l\u00e9sbicas e, na nossa m\u00fasica, a gente sempre teve diversas cantoras e compositoras que s\u00e3o l\u00e9sbicas, mas era sempre uma coisa deixada meio de lado: algumas nunca falam e outras falam meio sem falar. S\u00e3o raras as que falam, como Angela Ro Ro ou Marina Lima, mas as outras est\u00e3o sempre numa linha meio \u201cn\u00e3o vamos falar disso\u201d. E agora a gente tem uma nova gera\u00e7\u00e3o de artistas que falam que s\u00e3o l\u00e9sbicas, comp\u00f5em sobre isso, criam em torno disso, e isso tem um impacto. Como voc\u00ea se v\u00ea no meio dessas outras artistas que temos agora, como a A\u00edla, a Juliana Perdig\u00e3o, o Musa H\u00edbrida, entre outras?<\/strong><br \/>\n\u00c9 de suma import\u00e2ncia a gente falar. Entendo tamb\u00e9m a gera\u00e7\u00e3o passada n\u00e3o ter falado e acho que a gente vai construindo juntas: elas constru\u00edram uma coisa e a gente t\u00e1 colhendo isso. Elas abriram espa\u00e7o para a gente falar, mas\u00a0 me sinto muito no dever de falar. Acho que \u00e9 isso: a gente precisa ser vista e acho que a omiss\u00e3o \u00e9 uma coisa muito violenta. Senti na pele, pois sabia que algumas pessoas eram l\u00e9sbicas, e lembro que quando eu era crian\u00e7a fui entendendo e quando ningu\u00e9m te fala aquilo, voc\u00ea entende que n\u00e3o \u00e9 para ser dito. Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 conduzida a omitir uma parte da sua vida que \u00e9 fundamental. E o que voc\u00ea omite? Coisas que n\u00e3o devem ser ditas. E voc\u00ea automaticamente entende que n\u00e3o deve sentir aquilo. Porque as mulheres n\u00e3o andam de m\u00e3os dadas? Mulheres que eu sei que s\u00e3o um casal! Isso \u00e9 muito s\u00e9rio. Acho a omiss\u00e3o uma coisa muita violenta, para mim foi muito violenta. E preciso falar sobre isso. \u00c9 fundamental. Acho que \u00e9 isso: tem muitas minas fazendo isso agora, acho que a gente se apoia, acho que a gente n\u00e3o pode ficar sozinha. Se voc\u00ea se sente sozinha, fica dif\u00edcil. Acho que uma ajuda a outra, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o coletiva mesmo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Nwhk0efSjdk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Uol1xtkN5cw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uIHj_2d6qqU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-x9jS48YehI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e colabora com o site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>. Escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cheia de projetos e em plena ebuli\u00e7\u00e3o, Maria tirou um tempo para conversar com o Scream &#038; Yell sobre diferentes temas que a movem: sua m\u00fasica, sua arte, sexualidade e sua express\u00e3o. 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