{"id":49084,"date":"2018-10-26T15:52:33","date_gmt":"2018-10-26T18:52:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=49084"},"modified":"2022-04-17T21:33:32","modified_gmt":"2022-04-18T00:33:32","slug":"entrevista-lazaro-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/10\/26\/entrevista-lazaro-ramos\/","title":{"rendered":"Entrevista: L\u00e1zaro Ramos"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ator, apresentador, cineasta e escritor de literatura infantil, o baiano Lazaro Ramos mergulha na hist\u00f3ria dos 25 anos do Bando de Teatro Olodum em \u201cBando, Um Filme de\u201d (2018), document\u00e1rio em que assina a dire\u00e7\u00e3o ao lado de Thiago Gomes e que busca \u201cplantar uma semente de reconhecimento\u201d sobre um projeto teatral que n\u00e3o apenas o moldou (\u201cEu fui cozido nesse caldo\u201d) como \u00e9 \u201cum grupo de teatro com uma composi\u00e7\u00e3o imensa de atores negros que tem a maior longevidade da Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criado em Salvador nos anos 90 em parceria com o Grupo Cultural Olodum, a companhia Bando de Teatro Olodum foi respons\u00e1vel por lan\u00e7ar L\u00e1zaro Ramos e tamb\u00e9m \u00c9rico Br\u00e1s. O document\u00e1rio foi lan\u00e7ado na Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo (h\u00e1, ainda, uma exibi\u00e7\u00e3o agendada para o dia <a href=\"http:\/\/42.mostra.org\/br\/filme\/9615-BANDO,-UM-FILME-DE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">29\/10, \u00e0s 17h50, no Espa\u00e7o Ita\u00fa Frei Caneca<\/a>) e compila imagens de arquivo (como cenas e extras do filme \u201c\u00d3, Pai, \u00d3\u201d, de 2007), material coletado de extensas entrevistas com membros do Bando de v\u00e1rios \u00e9pocas, colaboradores e outros convidados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m desse resgate, o filme tamb\u00e9m traz a imprescind\u00edvel quest\u00e3o da resist\u00eancia de uma companhia de teatro cujas dificuldades enfrentadas v\u00e3o de encontro com a sua incr\u00edvel longevidade. \u201cComo conseguiu resistir por tanto tempo? Era justamente esse assunto que a gente queria tratar\u201d, explica L\u00e1zaro. \u201c\u00c9 sobre resist\u00eancia, e como, durante esses 25 anos, foi produzido teatro na nossa terra\u201d, completa. Sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia pol\u00edtica e social da obra e de sua carreira, o ator baiano falou com exclusividade com o Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/269278124?app_id=122963\" width=\"747\" height=\"317\" frameborder=\"0\" title=\"BANDO UM FILME DE: - TEASER\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em \u201cBando, Um Filme de\u201d mais do que a documenta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica dos 25 anos do Bando de Teatro Olodum, o que temos \u00e9 um registro do grupo como s\u00edmbolo de resist\u00eancia art\u00edstica e pol\u00edtica. Desde o primeiro esbo\u00e7o era essa a inten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nO lugar inicial foi justamente esse. T\u00ednhamos as imagens da leitura de \u201c\u00d3 Pa\u00ed \u00d3\u201d, que eram apenas registros que a gente queria fazer, mas que se tornou uma pergunta, na verdade. Uma pergunta que era muito forte, pelo menos no meu cora\u00e7\u00e3o: como \u00e9 que esse grupo t\u00e3o grande de pessoas conseguiu permanecer por tanto tempo em atividade, muitas vezes sem remunera\u00e7\u00e3o, falando coisas que n\u00e3o estavam usualmente no palco? Como conseguiu resistir por tanto tempo? Era justamente esse assunto que a gente queria tratar. \u00c9 sobre resist\u00eancia, \u00e9 sobre processo criativo, e \u00e9 como, durante esses 25 anos, foi produzido teatro na nossa terra. No filme, voc\u00ea v\u00ea que a gente fala um pouco de outros grupos que existiam, mas n\u00f3s t\u00ednhamos o bando como protagonista dessa hist\u00f3ria. Mais ainda: t\u00ednhamos esses atores e suas hist\u00f3rias de vida como protagonistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme, neste aspecto, traz uma imprescind\u00edvel mensagem relacionada \u00e0 urg\u00eancia e \u00e0 perman\u00eancia do Bando. Inclusive, o ator Jorge Washington fala da necessidade de ser ativista quando tamb\u00e9m se \u00e9 ator em Salvador.<\/strong><br \/>\nEu acho que essa \u00e9 uma mensagem important\u00edssima para esses tempos: estar no palco \u00e9 ser ativista, sim, hoje em dia. Permanecer no palco, lutando para levar arte para a vida das pessoas, levar reflex\u00e3o para a vida das pessoas, tentar transformar as realidades, \u00e9, sim, resistir. \u00c9, sim, lutar para que a gente viva em um pa\u00eds com menos barb\u00e1rie do que a gente est\u00e1 se encaminhando para viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No processo de constru\u00e7\u00e3o, com a estrutura seguindo o formato de entrevistas cont\u00ednuas, houve algum receio de que o ritmo do filme fosse prejudicado?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o temi isso, n\u00e3o. Por uma coisa: eu acho que esses atores e atrizes, os entrevistados, t\u00eam tanto a dizer que isso, por si s\u00f3, j\u00e1 seria importante e cativante. Um dos fatos que ajudou foi o de eu n\u00e3o ser o entrevistador durante a feitura do filme, pois eles n\u00e3o estavam falando nada para L\u00e1zaro, para o amigo e o parceiro de trabalho. Muito pelo contr\u00e1rio. As perguntas todas eram feitas para os instigarem, deixando que eles falassem por muito tempo. O material bruto \u00e9 gigantesco, porque as pessoas queriam muito falar. Era a busca pela voz do individuo que est\u00e1 ali no bando. De todas as gera\u00e7\u00f5es. E isso acontecia de uma maneira muito linda. A gente teve uma dificuldade para chegar a esse formato final, porque as pessoas queriam muito falar. Queriam muito ter aquele espa\u00e7o, aquele microfone que muitas vezes \u00e9 negado a esses atores individualmente. \u00c0s vezes, em um grupo de teatro, voc\u00ea fala do coletivo, um ou outro tem a oportunidade de dar uma entrevista quando vai divulgar uma pe\u00e7a. Quando se tem um trabalho solo, fala um pouco mais. Mas, eu senti muito de que era um momento \u00fanico para esses atores todos. E isso produziu p\u00e9rolas. As pessoas dizem coisas que \u00e0s vezes eu at\u00e9 converso: &#8220;gente, voc\u00eas sabem o que estavam dizendo? Compartilhando com o mundo?&#8221; (risos). Mas \u00e9 esse desejo de ser escutado e ter o microfone na m\u00e3o. S\u00e3o hist\u00f3rias que se misturam hist\u00f3rias de vida e hist\u00f3rias pessoais das pessoas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-49085 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/BANDO-UM-FILME-DE-TRILOGIA-DO-PELO-FOTO-DE-ISABEL-GOUVEA.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/BANDO-UM-FILME-DE-TRILOGIA-DO-PELO-FOTO-DE-ISABEL-GOUVEA.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/BANDO-UM-FILME-DE-TRILOGIA-DO-PELO-FOTO-DE-ISABEL-GOUVEA-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi revisitar sua mem\u00f3rias no Bando, o grupo no qual voc\u00ea foi criado? Foi dif\u00edcil?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, foi muito f\u00e1cil. Eu queria muito falar sobre isso. Tem uma coisa que eu acho que a gente fala pouco. Que a nossa pr\u00f3pria terra reconhece pouco, e o Brasil nem se fala. Mas a gente tem na Bahia, em Salvador, um grupo de teatro com uma composi\u00e7\u00e3o imensa de atores negros que tem a maior longevidade da Am\u00e9rica Latina. A gente n\u00e3o fala isso. Isso \u00e9 um t\u00edtulo important\u00edssimo de ser reconhecido. E eu sempre falo isso. Em todas as entrevistas, em todos os lugares. Porque eu acho que isso \u00e9 importante demais para n\u00e3o ser reconhecido, valorizado e celebrado. Isso \u00e9 nosso! Essa \u00e9 a nossa hist\u00f3ria. Essa \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o para a cultura do nosso pa\u00eds que ainda n\u00e3o foi devidamente reconhecida. Eu acho, inclusive, que esse document\u00e1rio \u00e9 pouco. Eu acho que muito mais poderia ser falado. Esse \u00e9 mais um tra\u00e7o da nossa hist\u00f3ria que a gente eclipsa. Que a gente silencia. E o document\u00e1rio vem justamente para isso. Para plantar uma semente de reconhecimento. E hoje em dia, posso at\u00e9 acrescentar, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o bando. Eu acrescento que \u00e9 o teatro feito na Bahia e que \u00e9 o teatro que nos forma, que me formou e \u00e9 onde est\u00e3o os meus primeiros \u00eddolos. \u00c9 o teatro onde a gente tem artistas e uma m\u00e3o de obra que \u00e9 \u00fanica no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe uma quest\u00e3o que me incomoda no cen\u00e1rio art\u00edstico baiano que \u00e9 uma aus\u00eancia de um posicionamento pol\u00edtico. Com algumas exce\u00e7\u00f5es, diversos cantores e atores baianos se eximem dessa responsabilidade como formadores de opini\u00e3o. Voc\u00ea, como algu\u00e9m sempre presente nessa quest\u00e3o, acha o que dessa in\u00e9rcia?<\/strong><br \/>\nCara, se posicionar politicamente depende de v\u00e1rias coisas. Primeiro do desejo, segundo do repert\u00f3rio. A gente \u00e0s vezes acha que todo artista tem um repert\u00f3rio vasto de conhecimento sobre todos os assuntos. E \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 assim. \u00c0s vezes, quando a pessoa vai falar, ela se exp\u00f5e nas suas fragilidades, na sua ignor\u00e2ncia, tamb\u00e9m. Acho que a gente precisa reconhecer isso. E tem as estrat\u00e9gias pol\u00edticas de cada pessoa. Tem gente que opta por outras coisas. Eu posso falar de mim, da minha hist\u00f3ria. Eu fui cozido nesse caldo. Eu comecei a fazer teatro com 15 anos de idade no Bando de Teatro Olodum. Foi assim que eu fui capacitado. Os meus interesses art\u00edsticos e cidad\u00e3os, as informa\u00e7\u00f5es que eu vou buscando para me capacitar, s\u00e3o muito nesse sentido. E isso \u00e9 um repert\u00f3rio que \u00e9 muito particular. Eu n\u00e3o fa\u00e7o fogo amigo contra a minha classe, entende? Eu posso falar de mim, da minha viv\u00eancia, daquilo que o Bando me deu e me ensinou. E tamb\u00e9m daquilo que a minha fam\u00edlia, que muitos deles moram na periferia de Salvador, ou em bairros pobres da nossa cidade, vivem no dia a dia e isso \u00e9 algo que eu enxergo. E por isso me motiva. Nem todo mundo tem essa viv\u00eancia e capacita\u00e7\u00e3o. Inclusive, para mim o inimigo n\u00e3o \u00e9 esse cara (esse artista que n\u00e3o se posiciona). Para mim o inimigo \u00e9 o que fala a favor da barb\u00e1rie, quem incentiva a viol\u00eancia, quem n\u00e3o incentiva a escuta, quem acha que n\u00e3o vai ser t\u00e3o ruim assim. Para mim \u00e9 mais importante falar contra a barb\u00e1rie. E essa barb\u00e1rie n\u00e3o vem desse lugar. Vem de outro que \u00e9 o risco iminente e que s\u00f3 vai aumentar a nossa luta. E que j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 muitos anos. Na verdade, agora, para te falar bem a verdade, eu estou recolhendo for\u00e7as por saber que a luta continuar\u00e1 e talvez aumente. E essa \u00e9 uma luta que n\u00e3o come\u00e7a agora, pelo menos na minha vida. Principalmente por vir de um bairro como o Garcia e da Federa\u00e7\u00e3o, em Salvador, que tem demandas muito ligadas \u00e0s quest\u00f5es sociais. Por ser um homem negro, por ser nordestino, por ser ator de teatro, desse que \u00e9 o Bando de Teatro Olodum. E isso convoca a gente todos os dias. A convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 luta \u00e9 uma coisa que \u00e9 permanente na vida. E quando a gente acha que vai descansar, na verdade a gente percebe que a luta permanecer\u00e1. \u00c9 um momento recolher for\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A luta e a arte s\u00e3o indissoci\u00e1veis nesse caso.<\/strong><br \/>\nA gente vem lutando h\u00e1 anos, cara. Isso \u00e9 uma loucura. A luta permanece. \u00c9 uma vida sem descanso. Mas vamos l\u00e1. \u00c9 isso. No meu caso, pelo menos, eu acho que algo que alenta \u00e9 ter a arte como arma, tamb\u00e9m. E que bate em um outro lugar. Que bate no emocional, na afetividade, e que \u00e9 muito poderosa. Eu acredito muito no poder da palavra, da afetividade e da arte. E disso a\u00ed a gente n\u00e3o pode abrir m\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-49086 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/BANDO-DE-TEATRO-OLODUM-FOTO-DE-DINEY-ARAUJO.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/BANDO-DE-TEATRO-OLODUM-FOTO-DE-DINEY-ARAUJO.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/BANDO-DE-TEATRO-OLODUM-FOTO-DE-DINEY-ARAUJO-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>. As fotos s\u00e3o, por ordem sequencial na p\u00e1gina, de Bob Wolfenson, Isabel Gouvea e Diney Araujo \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A gente vem lutando h\u00e1 anos, cara. Isso \u00e9 uma loucura. A luta permanece. \u00c9 uma vida sem descanso. Mas vamos l\u00e1. \u00c9 isso. 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