{"id":4891,"date":"2010-04-13T00:55:23","date_gmt":"2010-04-13T03:55:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4891"},"modified":"2010-04-29T18:37:55","modified_gmt":"2010-04-29T21:37:55","slug":"cinema-um-sonho-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/13\/cinema-um-sonho-possivel\/","title":{"rendered":"Cinema: Um Sonho Poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-4892\" title=\"umsonhopossivel\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/umsonhopossivel.jpg\" alt=\"\" width=\"249\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/umsonhopossivel.jpg 249w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/umsonhopossivel-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 249px) 100vw, 249px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O politicamente correto \u00e9 uma merda. \u00c9 simples assim. E \u00e9 uma merda, pois faz o mundo perder o senso de humor. Qualquer piadinha (com ga\u00fachos, cariocas, portugueses, gays, bambis, corintianos, negros, a lista segue noite adentro) vira um exerc\u00edcio de an\u00e1lise de direitos humanos e, voil\u00e1, era uma vez a alegria do pov\u00e3o. Por\u00e9m, esse \u00e9 um dos lados da moeda. Do outro temos um sentimento t\u00e3o perigoso quanto: o policiamento dos pseudo-rebeldes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">William Blake escreveu, certa vez, que \u201co caminho do excesso leva ao pal\u00e1cio da sabedoria\u201d, mas esqueceu de dizer que nem todo mundo conseguiu encontrar a chave para abrir as portas deste castelo. Assim, para o prazer di\u00e1rio, o prov\u00e9rbio mais correto \u00e9 aquele que diz que qualquer coisa em excesso faz mal. Qualquer coisa! Exemplo: dor de dente? Quanto mais d\u00f3i, mais fode a vida da gente. Outro: amor.\u00a0 Em excesso, chega a sufocar e n\u00e3o adianta afrouxar a gravata e desabotoar a camisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isto, uma das divers\u00f5es da tribo do policiamento dos pseudo-rebeldes \u00e9 detonar tudo aquilo que soe politicamente correto. E a v\u00edtima recente da primeira turma foi \u201cUm Sonho Poss\u00edvel\u201d, filme que deu o Oscar (merecido) de melhor atriz para Sandra Bullock, e que conta a hist\u00f3ria ver\u00eddica de Michael Oher, um jovem de origem pobre que \u00e9 acolhido por uma fam\u00edlia rica, que al\u00e9m de lhe dar um teto, carinho e comida, o ap\u00f3ia nos estudos pensando em seu futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm Sonho Poss\u00edvel\u201d \u00e9, provavelmente, o filme mais piegas dos \u00faltimos cinco anos, mas carrega uma beleza que merece ser valorizada. Leigh Anne Tuohy (o personagem oscarizado de Sandra Bullock) \u00e9 uma decoradora texana que n\u00e3o conhece negros, muito menos republicanos. Seu marido \u00e9 dono de todas as principais franquias de fast-food dos Estados Unidos, e o casal vive em uma bela e imensa casa com seu filho pequeno e uma filha adolescente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo dia, Leigh Anne est\u00e1 voltando tarde da noite com a fam\u00edlia pra casa quando percebe um jovem negro, imenso (n\u00e3o \u00e0 toa seu apelido na escola \u00e9 Big Mike), voltando para o col\u00e9gio. Leigh Anne d\u00e1 meia volta no carro, para ao lado do rapaz, e o interroga. O choque de personalidades \u00e9 imenso. Ela \u00e9 mandona. \u201cOnde voc\u00ea est\u00e1 indo, Big Mike?\u201d Ele \u00e9 retra\u00eddo. \u201cPara o gin\u00e1sio\u201d. Ela continua: \u201cN\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m l\u00e1\u201d. Da parte dele, sil\u00eancio. Ela insiste, insiste, e ele responde: \u201cL\u00e1 \u00e9 quente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daqui pra frente voc\u00ea j\u00e1 descobriu tudo o que acontece, certo. A hist\u00f3ria \u00e9 extremamente previs\u00edvel, o que n\u00e3o quer dizer que seja rotineira. Leigh Anne leva o rapaz pra casa, que dorme, e com seu peso \u201cdestr\u00f3i\u201d um sof\u00e1 de 3 mil d\u00f3lares. Ela n\u00e3o sabe o que est\u00e1 fazendo, muito menos ele, e o bom roteiro de John Lee Hancock (que tamb\u00e9m assina a dire\u00e7\u00e3o) permite ao espectador ir descobrindo com os personagens qual a melhor maneira de lidar com a situa\u00e7\u00e3o \u2013 mas n\u00e3o se engane, n\u00e3o h\u00e1 receita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 l\u00f3gico que o filme tem final feliz, mas isso, caro leitor, voc\u00ea vai ter que ver no cinema. O que interessa aqui \u00e9 debater essa atitude mesquinha do policiamento dos pseudo-rebeldes. \u201cUm Sonho Poss\u00edvel\u201d \u00e9 acusado de paternalista. \u00c9 uma defesa perigosa e a linha \u00e9 extremamente t\u00eanue, mas existem pessoas \u2013 como Big Mike \u2013 que necessitam de um empurr\u00e3o, de algu\u00e9m que lhes indique a dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as igrejas se multiplicam como pragas em lavoura. Mas h\u00e1 casos e casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma cr\u00edtica pedante ataca o filme por valorizar o que \u00e9 apresentado como assistencialismo. \u00c9 quando os ricos (uma classe perfeitamente atac\u00e1vel, vamos corroborar) usam os pobres para se envaidecer. \u00c9 uma cr\u00edtica interessante, e que acontece a todo o momento (Bono que o diga), mas se Big Mike n\u00e3o tivesse se transformado em Michael Oher, uma das lendas recentes do futebol americano, sua hist\u00f3ria provavelmente n\u00e3o teria vindo \u00e0 tona \u2013 e nem aos cinemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm Sonho Poss\u00edvel\u201d merece um voto de confian\u00e7a, assim como cr\u00edticas. John Lee Hancock poderia ter aprofundando o tema do racismo nas escolas norte-americanas, mas passa um leve verniz assim como pincela os ricos que n\u00e3o sofreram a mudan\u00e7a de Leigh Anne de forma pat\u00e9tica, mas isso tudo ainda n\u00e3o \u00e9 o ponto central da hist\u00f3ria, nem a coda que fa\u00e7a a vida de Michael Oher ficar rodeando a cabe\u00e7a do espectador (ok, s\u00f3 de alguns) por mais tempo que as duas horas na sala de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que fica martelando as id\u00e9ias \u00e9 a possibilidade de se olhar para o lado e ver o outro. O gesto de Leigh Anne \u00e9 de uma beleza rara no mundo moderno, um mundo que coloca milhares de pessoas em seus carros milion\u00e1rios enquanto deixa outras tantas procurando comida nos restos deixados no lixo. Leigh Anne olhou para uma pessoa dessas, mas quantos olham? Quantos questionam a culpa do Estado, do governo, a sua pr\u00f3pria culpa nesse cen\u00e1rio desolado?\u00a0 Quantos fazem algo para tentar mudar o mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chega a ser pat\u00e9tico criticar algu\u00e9m por ajudar algu\u00e9m usando isso como se fosse um defeito. \u201cUm Sonho Poss\u00edvel\u201d est\u00e1 (bem) longe de ser uma obra prima cinematogr\u00e1fica, mas tem seu valor num mundo dominado pelo irrealiz\u00e1vel. \u00c9 preciso despir-se do cinismo para entender Leigh Anne. Voc\u00ea pode cham\u00e1-la de paternalista e at\u00e9 mesmo assistencialista, mas antes seria de bom grado olhar no espelho, pra dentro do \u00e2mago, e perceber que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho no mundo. Talvez as coisas comecem a mudar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4893 aligncenter\" title=\"umsonhopossivel1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/umsonhopossivel1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nBreve an\u00e1lise do policiamento dos pseudo-rebeldes sobre os politicamente corretos, dois grupos iguais&#8230; mas de lados opostos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/13\/cinema-um-sonho-possivel\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4891"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4891"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4891\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4897,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4891\/revisions\/4897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4891"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4891"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4891"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}