{"id":4862,"date":"2010-04-11T18:23:03","date_gmt":"2010-04-11T21:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4862"},"modified":"2023-03-28T23:36:09","modified_gmt":"2023-03-29T02:36:09","slug":"entrevista-henrique-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/11\/entrevista-henrique-rodrigues\/","title":{"rendered":"Entrevista: Henrique Rodrigues"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-4863\" title=\"comosenaohouvessemanha\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/comosenaohouvessemanha.jpg\" alt=\"\" width=\"244\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/comosenaohouvessemanha.jpg 244w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/comosenaohouvessemanha-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 244px) 100vw, 244px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Rafael Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formada em 1982, a Legi\u00e3o Urbana \u00e9, talvez, a mais bem-sucedida banda de rock brasileira. Suas m\u00fasicas embalaram, e ainda embalam, os sonhos, as alegrias, as tristezas e os amores de muita gente. Mesmo tendo encerrado suas atividades de maneira n\u00e3o planejada e tr\u00e1gica, devido a morte de Renato Russo em 1996, a Legi\u00e3o continua presente na mente e nos cora\u00e7\u00f5es de milh\u00f5es de pessoas. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 surpresa algumas de suas can\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m sirvam de inspira\u00e7\u00e3o para muitos artistas em atividade no Brasil. Incluindo escritores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prova maior disso \u00e9 o livro de contos \u201cComo se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3\u201d, organizado pelo escritor Henrique Rodrigues, que traz vinte hist\u00f3rias inspiradas em m\u00fasicas do grupo de Bras\u00edlia, cada uma escrita por um autor diferente. Os contos tratam de temas universais como amor, perda, revolta, indigna\u00e7\u00e3o, morte e seguem por uma via delicada, profunda e inquietante. Henrique Rodrigues fala um pouco de sua paix\u00e3o pela banda de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonf\u00e1 e conta como foi organizar o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que a Legi\u00e3o Urbana e n\u00e3o Bar\u00e3o Vermelho ou Cazuza, por exemplo? O que a Legi\u00e3o Urbana tem de t\u00e3o interessante? Por que a banda marcou tanto n\u00e3o apenas uma, mas v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nA obra da Legi\u00e3o Urbana conseguiu n\u00e3o s\u00f3 ser um sucesso pop na \u00e9poca, mas tamb\u00e9m atingir um nervo l\u00edrico de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Talvez por isso eles consigam dizer coisas at\u00e9 para pessoas bem novas, que nasceram depois que banda acabou. Isso \u00e9 algo que acontece com os Beatles tamb\u00e9m. Voc\u00ea de repente v\u00ea adolescentes cantando e curtindo sem que nenhum adulto tenha imposto nada. Assim, a Legi\u00e3o consegue estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com pessoas de diferentes idades e, em vez de ser datado e local, tornou-se atemporal e universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea lembra como conheceu a Legi\u00e3o Urbana? E qual impacto ela teve em sua vida?<\/strong><br \/>\nEu era bem pequeno e ouvia no r\u00e1dio os hits dos dois primeiros discos. Mas l\u00e1 pelos meus onze anos foi na escola, quando toda a garotada se reunia para ler em voz alta e decorar a letra de \u201cFaroeste Caboclo\u201d, que o encanto come\u00e7ou. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o parei mais de ouvir e ficar atento a tudo o que sa\u00eda da Legi\u00e3o. Ali\u00e1s, quando me entregaram o diploma na formatura (Letras, Uerj, 1999), a m\u00fasica que tocou foi o final de \u201cMetal Contra as Nuvens\u201d. Ironicamente, eu n\u00e3o costumo ouvir m\u00fasica o tempo todo, n\u00e3o sou dessas pessoas que \u201cn\u00e3o conseguem fazer nada sem m\u00fasica\u201d. Mas ouvir Legi\u00e3o \u00e9 diferente, pois \u00e9 como estar em companhia de uma pessoa querida. Ali\u00e1s, a ideia deste livro surgiu de tanto eu ouvir enquanto dirigia. Deu vontade de criar uma hist\u00f3ria a partir daquelas letras.<br \/>\n<strong><br \/>\nComo foi feita a escolha dos autores? H\u00e1 escritores de v\u00e1rios estados do Brasil&#8230; Voc\u00ea j\u00e1 os conhecia? Como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nBom, quando bateu a vontade de escrever um conto a partir de \u201cAcrilic on canvas\u201d, comentei com o Maur\u00edcio de Almeida (um dos autores que comp\u00f5em a colet\u00e2nea), que achou legal a ideia e disse que escreveria um sobre \u201cSagrado cora\u00e7\u00e3o\u201d. Da\u00ed a ideia foi se espalhando com entusiasmo entre outros escritores. Quando a Record topou publicar, fui atr\u00e1s do grupo. Inicialmente eu pensava em uns doze ou quatorze contos, mas a ideia foi t\u00e3o abra\u00e7ada que ficaram vinte. Alguns escritores eu j\u00e1 conhecia, outros s\u00f3 pelos seus livros ou blogs. Com alguns eu s\u00f3 tive contato por e-mail. O crit\u00e9rio foi ser assumidamente f\u00e3 da banda e ter um bom texto, independente de ser um autor conhecido ou n\u00e3o. Acredito que, no final, ficou um grupo bem ecl\u00e9tico, e ter representantes de v\u00e1rios estados, al\u00e9m de mostrar o quanto a Legi\u00e3o est\u00e1 presente no Brasil, nos d\u00e1 um retrato tamb\u00e9m da nossa diversidade liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma curiosidade: autores diferentes escolheram a mesma m\u00fasica? Se sim, como foi resolvido o impasse?<\/strong><br \/>\n\u00c0 medida que os autores iam chegando para o livro, eu informava a todos quais letras j\u00e1 haviam sido escolhidas.\u00a0 Acho que mais de um quis fazer sobre determinada letra, mas muitas m\u00fasicas da Legi\u00e3o suscitam hist\u00f3rias, de modo que n\u00e3o teve nenhum problema. No fim, tivemos pelo menos uma m\u00fasica de cada disco no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muitos escritores dizem que alguns personagens de contos e romances simplesmente surgem do nada, ou seja, n\u00e3o estava nos planos do autor criar determinados personagens. O que faz isso poss\u00edvel \u00e9 a liberdade que o escritor tem, no momento de cria\u00e7\u00e3o. No caso dos contos inspirados em m\u00fasicas como &#8220;Eduardo e M\u00f4nica&#8221; e &#8220;Faroeste caboclo&#8221;, ambas com personagens conhecidos, os autores j\u00e1 tinham os protagonistas de seus contos. E mesmo em letras sem personagens denominados, h\u00e1 uma certa limita\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de &#8220;script&#8221; a ser seguido. Como foi lidar com essas quest\u00f5es? Voc\u00ea acha que houve mesmo limita\u00e7\u00f5es ou, ao contr\u00e1rio, a liberdade de criar em cima de uma cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma que a de &#8220;criar do nada&#8221;?<\/strong><br \/>\nA liberdade de cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em todos os contos. Inicialmente eu pensava ser bem dif\u00edcil o modo como os autores iriam criar os contos sobre letras que j\u00e1 s\u00e3o narrativas por si s\u00f3. Mas \u00e9 justamente a capacidade criativa dos autores que permitiu imaginar o fim do casal Eduardo e M\u00f4nica, ou uma intriga pol\u00edtica em Bras\u00edlia envolvendo Maria L\u00facia ou \u201cFaroeste Caboclo\u201d. Pessoalmente, curto muito esses desafios de criar um texto liter\u00e1rio a partir de um tema. As letras sugerem hist\u00f3rias, e o modo de trabalhar esse \u201cscript\u201d \u00e9 que comp\u00f5e o jogo liter\u00e1rio, que cada um tratou \u00e0 sua maneira. Foi mais ou menos como olhar a lua e querer fazer um soneto. Voc\u00ea tem um assunto e uma forma, e a liberdade est\u00e1 em como vai trabalhar esse material.<br \/>\n<strong><br \/>\nVoc\u00ea, como poeta, j\u00e1 escreveu versos inspirados em prosa alheia (o contr\u00e1rio do que \u00e9 feito em &#8220;Como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3&#8221;)? Al\u00e9m da invers\u00e3o do g\u00eanero, h\u00e1 mais diferen\u00e7as?<\/strong><br \/>\nComo estudei literatura por v\u00e1rios anos, tanto teoricamente quanto na pr\u00e1tica, acabei experimentando criar textos de v\u00e1rias formas poss\u00edveis. J\u00e1 escrevi conto a partir de teatro, poesia a partir de prosa ou cinema, romance a partir de outro romance etc. \u00c9 interessante que cada categoria de texto tem um tempo de respira\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio, e \u00e9 preciso praticar para aprender a respirar com o texto \u2013 ou fazer ele respirar com o ritmo pretendido. Estudei muito a quest\u00e3o do humor na escrita, e isso tamb\u00e9m me permitiu simular registros de v\u00e1rios autores diferentes. O aspecto l\u00fadico de encarar o texto \u00e9 fundamental quando se pensa em lidar com g\u00eaneros diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Legi\u00e3o Urbana se originou de uma banda punk, o Aborto El\u00e9trico, e algumas m\u00fasicas da Legi\u00e3o contestam ideias e conven\u00e7\u00f5es sociais. Ou seja: quase todo jovem ouviu e gostou da Legi\u00e3o, enquanto a banda estava na ativa, j\u00e1 que quase todo jovem \u00e9 um contestador por natureza. Voc\u00ea acha que, por conta de sua popularidade, de certa forma a Legi\u00e3o moldou a gera\u00e7\u00e3o dos anos 1980, que foi a gera\u00e7\u00e3o que mais teve contato com o grupo?<\/strong><br \/>\nAcredito que sim, sobretudo nos primeiros discos da banda, que tinham um teor contestat\u00f3rio muito grande. Esse per\u00edodo de final de ditadura e retorno da democracia, em que os \u201cfilhos da revolu\u00e7\u00e3o\u201d se perguntavam \u201cque mundo \u00e9 esse que nos legaram?\u201d teve a Legi\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 como trilha sonora, mas tamb\u00e9m como porta-voz por meio das suas letras.<br \/>\n<strong><br \/>\nH\u00e1 uma caracter\u00edstica muito marcante nos contos, que \u00e9 o tom intimista deles. As letras da Legi\u00e3o Urbana meio que desarmam, despem o ouvinte?<\/strong><br \/>\nOs discos da Legi\u00e3o foram se tornando cada vez mais l\u00edricos e intimistas. Talvez por n\u00e3o se restringir \u00e0 quest\u00e3o sociopol\u00edtica e invadir a alma das pessoas com letras como as de \u201cPais e filhos\u201d, \u201cVento no litoral\u201d e \u201cGiz\u201d, a banda tenha se tornado t\u00e3o atemporal. Essa carga po\u00e9tica tende a ser captada pela literatura e recriada com o mesmo impulso nos contos.<br \/>\n<strong><br \/>\nComo as colet\u00e2neas ou shows da Legi\u00e3o, com certeza vai ter gente reclamando que faltou um conto sobre esta ou aquela m\u00fasica&#8230; Voc\u00ea est\u00e1 preparado para esses pedidos e quem sabe at\u00e9 para um &#8220;Como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3 &#8211; volume 2&#8221;?<\/strong><br \/>\nBom, eu mesmo gostaria de ter feito contos sobre v\u00e1rias m\u00fasicas de que gosto muito. Deve ser normal esse tipo de reclama\u00e7\u00e3o e pedido. Mas uma continua\u00e7\u00e3o dependeria da aceita\u00e7\u00e3o desse primeiro livro. Eu encararia com o maior prazer fazer outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A resposta \u00e9 \u00f3bvia, mas vamos l\u00e1: a Legi\u00e3o Urbana faz falta hoje? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\n\u201cComo se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3\u201d est\u00e1 sendo lan\u00e7ado quando o Renato Russo faria 50 anos, e\u00a0 quase 14 depois que a banda terminou. A Legi\u00e3o faz falta mas ao mesmo tempo est\u00e1 t\u00e3o presente nas nossas vidas que fizemos essa homenagem \u00e0 obra que nos deixaram e que contribuiu para a nossa educa\u00e7\u00e3o sentimental. Temos muita superficialidade na cultura pop hoje e acho que falta um pouco essa densidade da Legi\u00e3o. Isso, talvez, faz com que ela permane\u00e7a como uma refer\u00eancia t\u00e3o forte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Rafael Rodrigues\nComo se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3, organizado por Henrique Rodrigues, traz vinte contos inspirados em m\u00fasicas da Legi\u00e3o Urbana.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/11\/entrevista-henrique-rodrigues\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4862"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4862"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4862\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4870,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4862\/revisions\/4870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}