{"id":48588,"date":"2018-09-03T10:47:09","date_gmt":"2018-09-03T13:47:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=48588"},"modified":"2018-10-19T21:10:10","modified_gmt":"2018-10-20T00:10:10","slug":"cinebh-2018-tres-perguntas-edgard-navarro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/09\/03\/cinebh-2018-tres-perguntas-edgard-navarro\/","title":{"rendered":"CineBH 2018 &#8211; Tr\u00eas Perguntas: Edgard Navarro"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/08\/31\/cinebh-2018-abaixo-a-gravidade-de-edgard-navarro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Abaixo a Gravidade<\/a>\u201d (2018), o cineasta baiano Edgard Navarro oferece uma discuss\u00e3o centrada na dicotomia raz\u00e3o vs f\u00e9. Mais do que isso, ele revisita um tema que lhe \u00e9 recorrente em sua filmografia: a transgress\u00e3o como forma de sobreviv\u00eancia. Desde \u201cSuperOutro\u201d (1989), quando Bertrand Duarte gritou a frase que batiza esse novo filme, passando por \u201cO Homem que N\u00e3o Dormia\u201d (2011), quando a mesma frase ele proferiu em um momento de entrega \u00e0 lucidez (e \u00e0 morte), Navarro aborda essa ideia de sa\u00edda de um lugar comum a partir da racionalidade n\u00e3o como um norte estanque, mas, sim, como uma op\u00e7\u00e3o. Nessa entrevista, concedida durante a Mostra CineBH 2018, ele aprofundou essa proposta de cinema que, apesar de galgado em temas fant\u00e1sticos, tem seu direcionamento em temas bem reais e que atormentam muitos dos seus espectadores.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-48589 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/navarro-FOTO-Jafar-Barreiro.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/navarro-FOTO-Jafar-Barreiro.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/navarro-FOTO-Jafar-Barreiro-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O tema gravidade est\u00e1 presente em diversos dos seus filmes. Mas, percebe-se ser algo que vai al\u00e9m de qualquer conceito f\u00edsico. H\u00e1 um aprofundamento percept\u00edvel nesse aspecto em \u201cAbaixo a Gravidade\u201d. Como voc\u00ea buscou desenvolver esse conceito aqui, dentro de uma ideia mais psicol\u00f3gica nos seus personagens?<\/strong><br \/>\nA minha vida foi uma luta mais ou menos constante contra os fantasmas da opress\u00e3o, das coisas que atraem a gente para baixo. As coisas do peso que vemos na fala de Nietzsche, por exemplo. Eu exponho isso claramente no filme. Algo com a coisa do esp\u00edrito da gravidade, que atrai tudo para baixo. Essa ideia inicial que j\u00e1 come\u00e7a l\u00e1 com \u201cSuperOutro\u201d. Essa ideia bebe ali no cap\u00edtulo do \u201cAssim Falou Zaratustra\u201d, quando Nietzsche menciona isso sobre o esp\u00edrito da gravidade. Aquilo que puxa tudo para baixo. Essa burocracia, essa coisa de uma seriedade empostada da sociedade, da hipocrisia, das rela\u00e7\u00f5es de poder. Eu acho que tudo isso est\u00e1 mascarado com uma co-penetra\u00e7\u00e3o, aquele cenho franzido, aquela suposta seriedade. Essa gravidade, falando de gravidade como uma coisa s\u00e9ria, um estado de gravidade. Um estado de sa\u00fade que \u00e9 grave. E grave tem a ver com peso. A palavra gravitar, gravidade, tudo isso tem a ver com peso, com empoderamento, tem uma coisa assim como uma conspira\u00e7\u00e3o dos conceitos que est\u00e3o lidando com esse assunto, esse campo gravitacional que ajuda a formular esse feeling do filme desde sempre. Ele se repete e ele continua atual para mim, porque eu vejo que o mundo gravita em torno de coisas que s\u00e3o polos de atra\u00e7\u00e3o falsos. Que s\u00e3o coisas que s\u00e3o colocadas de fora para dentro. Que, na verdade, o grande potencial da gravita\u00e7\u00e3o em n\u00f3s, seres humanos, a nossa arquitetura lida com uma gravidade que est\u00e1 aqui, no centro, digamos, no plexo solar do ser humano (apontando para o pr\u00f3prio peito). E n\u00e3o na intelig\u00eancia. A intelig\u00eancia \u00e9 um sat\u00e9lite. E isso daqui (o centro do peito) seria um centro de gravidade do ser humano. Eu fa\u00e7o elucubra\u00e7\u00f5es em torno desse assunto. Varia\u00e7\u00f5es, mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu filme anterior, \u201cO Homem que N\u00e3o Dormia\u201d, j\u00e1 trabalhava esse contexto de f\u00e9 vs racionalidade. Agora, voc\u00ea desenvolve isso com ainda mais aprofundamento, inserindo personagens niilistas, vaidosos, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0queles mais ligados a uma ideia de f\u00e9. \u00c9 um contraponto curioso observar, por exemplo, o embate entre Galego e Ben\u00e9. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o espelho tem\u00e1tico entre Maselfe e o mesmo Ben\u00e9. Qual o equil\u00edbrio que voc\u00ea colocou como meta nesse equiparar de elementos?<\/strong><br \/>\nGalego, com seu niilismo, representa esse mundo de tr\u00eas dimens\u00f5es. Um mundo de onde voc\u00ea n\u00e3o pode escapar. Eu, desde sempre, visto a camisa da f\u00e9. Eu tomo a f\u00e9 como aquilo que vai me defender. N\u00e3o a f\u00e9 religiosa, que lida com uma mitologia. Eu lido com v\u00e1rias mitologias, porque todas elas, qualquer uma delas, pode servir. Por exemplo, a camisa que Ben\u00e9 est\u00e1 usando fala assim: &#8220;quem tem f\u00e9 tem tudo&#8221;. N\u00e3o \u00e9 f\u00e9 em alguma coisa. \u00c9 f\u00e9 como pot\u00eancia de vida. De desejo. Uma coisa que tem a ver com vontade de poder. Uma coisa que est\u00e1 para al\u00e9m da raz\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma coisa racional. Voc\u00ea usa a raz\u00e3o. O filme de alguma forma quer colocar esse axioma a\u00ed, que \u00e9 colocado por (Carlos) Castaneda (escritor peruano), e \u00e9 dito no filme. Mas o centro do ser humano n\u00e3o est\u00e1 no racioc\u00ednio l\u00f3gico. Esse racioc\u00ednio l\u00f3gico levou a gente para o niilismo. Levou a gente para uma coisa de buscar. O Galego apenas encarna de uma forma meio instintiva, intuitiva, essa for\u00e7a da natureza. Mas, para mim, a coisa mais forte est\u00e1 no Maselfe. Porque ele est\u00e1 numa influ\u00eancia direta desse racioc\u00ednio que traz a gente para tentar. E ele desmascara isso. Ele \u00e9 o enviado do filme para desmascarar isso. Quando ele tira a peruca, quando ele diz que existe nele um deus. Nesse momento, ele denuncia o racionalismo da filosofia ocidental como o grande vil\u00e3o do esp\u00edrito antigravidade. Ele \u00e9 O Pensador. \u00c9 aquele que tenta resolver o problema atrav\u00e9s do intelecto. E ele sonha com o momento em que O Pensador vai desfazer essa postura e vai se libertar, e vai dan\u00e7ar e vai poder at\u00e9 voar, possu\u00eddo pelo Exu. E eu trabalho a\u00ed com essas duas mitologias que s\u00e3o a filosofia ocidental, encarnada no Pensador de Rodin, como sendo o pensamento ocidental. Ali est\u00e1 a l\u00f3gica, todos os fil\u00f3sofos, todo o racionalismo que o ser humano conquistou e do qual se fez presa. Ent\u00e3o, eu coloco, confrontando com essa coisa, uma mitologia africana, onde o Exu, que \u00e9 para al\u00e9m da raz\u00e3o, para al\u00e9m do cognosc\u00edvel. Ele, literalmente, enraba o pensador. \u00c9 uma esp\u00e9cie de vingan\u00e7a minha tamb\u00e9m, de dizer que o destino do pensador, e ali o pensador \u00e9 Mierre, que t\u00e1 tentando tirar alguma grana com aquela coisa de postura de homem est\u00e1tua. Ele tem um Exu que o acomete de vez em quando. Tem aqueles acessos que n\u00e3o sabe direito o que \u00e9. Ele teve uma coisa na inf\u00e2ncia que \u00e9 um trauma de que ele foi violentado por uma turma de garotos maiores. \u00c9 um trauma e ele leva e inventa uma fantasia de que foi o ET quem fez isso com ele. O ET remete para uma coisa do cosmos, remete para esse asteroide vadio, vagabundo, brincalh\u00e3o que vem dar um rol\u00ea ali na Ba\u00eda de Todos os Santos. Ent\u00e3o, tudo isso favorece a met\u00e1fora e a fantasia do filme. A cria\u00e7\u00e3o dessa coisa que est\u00e1 no plano do sonho. Inclusive \u00e9 colocado no filme como um sonho coletivo dos dois, de Ben\u00e9 e do Maselfe. Desse asteroide que vem. E a gente n\u00e3o sabe direito se vem ou n\u00e3o. Se aquilo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma ilus\u00e3o. Porque ele tomou uma pastilha que a menina lhe deu dizendo que era jujuba. O que \u00e9 aquilo? De repente, ele est\u00e1 em um lugar e est\u00e1 em outro. Ele vira uma coisa ub\u00edqua. O corpo dele, quando ele acorda, ele est\u00e1 na cama do lugar onde ele mora. Ele nunca esteve voando em lugar nenhum, mas ele voa no filme. E o que voa nele \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o, \u00e9 a fantasia, entendeu? \u00c9 uma liberta\u00e7\u00e3o que vem de um deus exu africano que o liberta desse racionalismo. Dessa coisa das tr\u00eas dimens\u00f5es. Eu quis trabalhar com todo esse universo de coisas racionais e n\u00e3o, mas com a coisa principalmente de duas pot\u00eancias de, como se fala, cosmogonias. \u00c9 a cosmogonia branca, europeia, fundada na Gr\u00e9cia e nos fil\u00f3sofos que v\u00eam de l\u00e1, com esse pensamento positivo e fundado na ci\u00eancia, e outro que vem de um exu que \u00e9 uma coisa, um semideus, africano, que vem do umbigo, e n\u00e3o daqui desse centro do c\u00e9rebro. Eu estou deslocando, tentando empurrar isso, eu estou estuprando esse pensador. Que eu tenho sido acometido por ele, tamb\u00e9m. Ser pensador me levou para o lugar da n\u00e3o sa\u00edda, do labirinto mental. Que eu denuncio. Eu grito isso no filme atrav\u00e9s do Maselfe. T\u00e1 tudo misturado, (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 uma rima tem\u00e1tica em seu filme que \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o perceber, que \u00e9 a refer\u00eancia a Fellini com a imagem do Cristo sendo levado pelo helic\u00f3ptero. Aqui, \u00e9 o pensador que assume esse lugar.<\/strong><br \/>\nSim. Exato. O Cristo \u00e9 o Teocentrismo. E O Pensador \u00e9 o antropocentrismo. Na mesma condi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que, agora, prevalece na conting\u00eancia do filme essa liberta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da cosmogonia africana. E da coisa do teocentrismo. E n\u00e3o do antropocentrismo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4RR_wkdZ4IY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FJoy1KMp1aY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6p_sRzx4rsc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A cobertura do CineBH 2018 continua nos pr\u00f3ximos dias. Acompanhe na tag\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/CineBH2018\">#CineBH2018<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do <a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Neste r\u00e1pido bate papo, Edgard Navarro aprofunda uma proposta de cinema que, apesar de galgado em temas fant\u00e1sticos, tem seu direcionamento em temas bem reais e que atormentam muitos dos seus espectadores.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/09\/03\/cinebh-2018-tres-perguntas-edgard-navarro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":48590,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3182],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48588"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48588"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48588\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48592,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48588\/revisions\/48592"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}