{"id":48511,"date":"2018-08-27T10:05:38","date_gmt":"2018-08-27T13:05:38","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=48511"},"modified":"2018-10-15T16:24:41","modified_gmt":"2018-10-15T19:24:41","slug":"cinema-o-animal-cordial-de-gabriela-amaral-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/08\/27\/cinema-o-animal-cordial-de-gabriela-amaral-almeida\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cO Animal Cordial\u201d, de Gabriela Amaral Almeida"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-48513 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/oanimalcordial2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"658\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/oanimalcordial2.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/oanimalcordial2-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cinema de g\u00eanero no Brasil \u00e9 sempre esparso, produzido de forma incont\u00ednua: aqui e acol\u00e1 surgem produ\u00e7\u00f5es que bebem no cinema de a\u00e7\u00e3o, de terror ou de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A impress\u00e3o \u00e9 de que os diretores por aqui parecem preocupar-se muito com um \u201ccinema de autor\u201d e fogem do cinema de g\u00eanero, que seria de algum modo menor \u2013 curiosamente, um dos maiores autores do cinema era um diretor de g\u00eanero: Alfred Hitchcock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, um pequeno grupo j\u00e1 vem a alguns anos criando meios de produzir cinema de g\u00eanero no Brasil, o trio Juliana Rojas, Marco Dutra e Gabriela Amaral Almeida. Marco e Juliana s\u00e3o respons\u00e1veis por \u201cTrabalhar Cansa\u201d (2011) e \u201cAs Boas Maneiras\u201d (2018), Marco ainda dirigiu sozinho \u201cQuando Eu Era Vivo\u201d (2014), que tem roteiro assinado ao lado de Gabriela. Depois de uma caminhada bem-sucedida com curtas-metragens, Gabriela Amaral lan\u00e7a agora \u201cO Animal Cordial\u201d (2018), considerado o primeiro slasher movie brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Slasher s\u00e3o filmes de psicopatas, onde a viol\u00eancia e a matan\u00e7a guiam o desenrolar da hist\u00f3ria. Em \u201cO Animal Cordial\u201d, a a\u00e7\u00e3o ocorre em uma noite, dentro de um restaurante de classe m\u00e9dia alta: o patr\u00e3o, os funcion\u00e1rios e tr\u00eas clientes entram num tour de force quando uma dupla de assaltantes invade o local. Em busca da defesa de seu patrim\u00f4nio e entrando numa espiral de loucura, o dono, interpretado por Mur\u00edlio Ben\u00edcio, decide come\u00e7ar um jogo de justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os, ajudado pela gar\u00e7onete Sara, interpretada por Luciana Paes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed temos litros de sangue espalhados pelas cenas e uma tens\u00e3o constante, que diz muito mais sobre o Brasil de 2018 do que qualquer filme de poesia. A tens\u00e3o de classe \u00e9 o fio condutor para muitos dos embates do filme: o patr\u00e3o e os funcion\u00e1rios, o policial e o bandido, o advogado, a mulher rica, o gay nordestino. As quest\u00f5es atravessam o filme, mas em nenhum momento o tornam panflet\u00e1rio: essas tens\u00f5es criam a base para o desenrolar de um filme \u00e1cido, mas acima de tudo divertido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tens\u00e3o nos deixa curiosos pelas pr\u00f3ximas cenas, pelo que vir\u00e1 a seguir, pelo que devemos esperar. E mesmo assim, Gabriela parece jogar com o espectador: se o p\u00fablico espera o sadismo, a viol\u00eancia gr\u00e1fica, ela os coloca em segundo plano, em contraplano. O terror e o medo s\u00e3o vistos no olhar de cada um dos personagens e, nesse sentido, o elenco \u00e9 louv\u00e1vel: Ernani Moraes consegue ir al\u00e9m de sua imagem sempre associada ao humor; Camila Morgado aparece aqui como a grande atriz que \u00e9, dando nuances a uma personagem complexamente real; j\u00e1 Irandhir Santos assume o papel de tensionar ainda mais as quest\u00f5es do filme enquanto gay afeminado e nordestino, que verbaliza muito dos medos e das falsas apar\u00eancias do universo em que eles est\u00e3o inseridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, \u201cO Animal Cordial\u201d \u00e9 inteiramente de Murilo Ben\u00edcio e Luciana Paes: os olhares psic\u00f3ticos, a tens\u00e3o sexual latente, os di\u00e1logos bem pontuados, cada m\u00ednimo detalhe. Luciana j\u00e1 tinha mostrado que \u00e9 uma estrela em \u201cSinfonia da Necr\u00f3pole\u201d (2014), de Juliana Rojas, e aqui ela assume uma for\u00e7a quase monstruosa, ao criar com tanto requinte e com tantas nuances a sua personagem. J\u00e1 Murilo n\u00e3o aparecia em um bom filme h\u00e1 muitos anos, por isso chega a ser assustadora a sua transforma\u00e7\u00e3o nesse longa: quase irreconhec\u00edvel, o ator cria pequenos tiques para o seu personagem que ajudam a construir essa tens\u00e3o psic\u00f3tica.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel linkar o filme de Gabriela com \u201cO Psicopata Americano\u201d (2000), de Mary Harron, e \u201cRelatos Selvagens\u201d (2014), de Dami\u00e1n Szifron: as tens\u00f5es sociais e o dia a dia s\u00e3o propulsores para uma loucura e uma viol\u00eancia desmedida e os tr\u00eas filmes enxergam isso de forma \u00e1cida, corrosiva, fazendo com que o p\u00fablico ria e n\u00e3o entenda nem por que ri. Em diferentes momentos de \u201cO Animal Cordial\u201d voc\u00ea se pega rindo e se divertido com cenas que s\u00e3o absurdas se vistas por si s\u00f3, mas que dentro da hist\u00f3ria funcionam de forma mordaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Produzido por Rodrigo Teixeira, da RT Features (respons\u00e1vel por \u201cMe Chame Pelo Seu Nome\u201d e \u201cA Bruxa\u201d), \u201cO Animal Cordial\u201d ainda conta com uma trilha sonora bem anos 80, com uma vibe synthpop que cria um clima meio kitsch ao filme. Composta por Rafael Cavalcanti, a trilha \u00e9 extremamente interessante: o momento em que eles fazem uma vers\u00e3o de Vivaldi com sintetizadores \u00e9 maravilhoso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de todo o pano de fundo politizado, \u201cO Animal Cordial\u201d n\u00e3o deixa em nenhum momento de ser um filme de terror extremamente divertido e instigante. Ele funciona basicamente como um filme de psicopata, mas se desdobra em diferentes perspectivas quando se fala na viol\u00eancia urbana brasileira, no medo da popula\u00e7\u00e3o, no uso de armas como prote\u00e7\u00e3o e nas tens\u00f5es pol\u00edticas cada vez mais latentes em um ano de elei\u00e7\u00e3o. No final das contas, Gabriela Amaral Almeida consegue fazer um filme de estreia extremamente maduro e seguro, que consegue brincar com as regras do g\u00eanero de terror e ainda assim se comunicar de forma certeira com o Brasil, sem soar panflet\u00e1rio ou proselitista. Enfim, assista na tela grande!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Jc5qJZ7hpto?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista e colabora com o sites\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>. Escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;O Animal Cordial&#8221; consegue brincar com as regras do g\u00eanero de terror e ainda assim se comunicar de forma certeira com o Brasil, sem soar panflet\u00e1rio ou proselitista. Um filme excelente que merece ser assistido em tela grande!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/08\/27\/cinema-o-animal-cordial-de-gabriela-amaral-almeida\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":48512,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48511"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48511"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48511\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48514,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48511\/revisions\/48514"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48512"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48511"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48511"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48511"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}