{"id":4842,"date":"2010-04-03T23:30:08","date_gmt":"2010-04-04T02:30:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4842"},"modified":"2022-07-19T02:19:52","modified_gmt":"2022-07-19T05:19:52","slug":"dvd-closer-de-mike-nichols","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/03\/dvd-closer-de-mike-nichols\/","title":{"rendered":"DVD: &#8220;Closer&#8221;, de Mike Nichols"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4843 aligncenter\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"closer\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/closer.jpg\" alt=\"\" width=\"237\" height=\"350\"><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Texto publicado no Scream &amp; Yell originalmente em 01\/02\/2005<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor existe? Voc\u00ea j\u00e1 o viu? J\u00e1 o tocou? Por favor, nada de met\u00e1foras rom\u00e2nticas. A pergunta \u00e9 simples: o amor \u00e9 real ou \u00e9 uma mentira que as pessoas contam para serem felizes? \u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil assim confundir amor com paix\u00e3o? Voc\u00ea j\u00e1 amou realmente algu\u00e9m, com todas as letras? Ok, esque\u00e7a tudo isso, por enquanto. E lembre-se que nos tempos de nossos av\u00f3s as coisas eram bem diferentes. E eram diferentes porque: 1) a sociedade constru\u00eda fachadas durante o dia para as pervers\u00f5es que aconteciam durante a noite; 2) a religi\u00e3o cat\u00f3lica era forte, e o casal era &#8220;for\u00e7ado&#8221; a ficar junto, mesmo que j\u00e1 n\u00e3o houvesse mais amor; 3) seguir a tradi\u00e7\u00e3o era o lema principal do povo, e quem caminhasse em sentido contr\u00e1rio era logo tachado de diferente, o que, naquela \u00e9poca, podia desgra\u00e7ar a vida de qualquer um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cortamos para os anos 2000: 1) Pervers\u00f5es d\u00e3o lucros, pra que escond\u00ea-las? 2) A lei do div\u00f3rcio entrou em vigor e a religi\u00e3o cat\u00f3lica ficou parada no tempo; 3) Ningu\u00e9m mais segue ningu\u00e9m, e todo mundo segue todo mundo. Sim, sim, o mundo mudou um bocado nos \u00faltimos cinq\u00fcenta anos. E o amor? Qual sua rela\u00e7\u00e3o com tudo isso? Bem, antigamente, nossos tatarav\u00f4s casavam e ficavam juntos 40, 50, 60, 70 anos. Hoje em dia, uma rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 merece brinde de champagne quando dura mais de uma semana. Isso quer dizer que sobrava amor antigamente e est\u00e1 faltando agora? Hummmm, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficar junto com algu\u00e9m n\u00e3o quer dizer, necessariamente, que se ama esse algu\u00e9m. H\u00e1 respeito, h\u00e1 admira\u00e7\u00e3o, h\u00e1 carinho, h\u00e1 at\u00e9 paix\u00e3o e um monte de outros sentimentos que podem passar perto do que alguns chamam de amor, mas n\u00e3o s\u00e3o amor. Antigamente, sociedade e igreja mantinham pessoas juntas. Hoje em dia, as pessoas ficam juntas se estiverem a fim (e se Deus quiser, e o Diabo deixar). O mundo dos relacionamentos nos anos 2000 virou de cabe\u00e7a pra baixo, ainda mais depois da &#8220;populariza\u00e7\u00e3o&#8221; da Internet. O amor a um toque do mouse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Closer &#8211; Perto Demais&#8221;, o cineasta Mike Nichols filma fragmentos destas rela\u00e7\u00f5es humanas nos \u00faltimos tempos. Al\u00e9m do bom jogo do roteiro, que vai e volta e tem cortes geniais, o espectador \u00e9 brindado com os melhores di\u00e1logos do cinema em 2004 em uma por\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias \u00f3bvias com personagens extremamente estereotipados. E \u00e9 da jun\u00e7\u00e3o da obviedade com o estere\u00f3tipo que &#8220;Closer &#8211; Perto Demais&#8221; se aproxima da perfei\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. \u00c9 um filme leve e tenso e surpreendente e acachapante. Nada mais impressiona do que tudo aquilo que n\u00f3s pr\u00f3prios vivemos fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, os estere\u00f3tipos: o olhar de um sonhador se cruza com o de uma menina inocente logo na primeira cena do filme. Ele \u00e9 o jornalista Dan (Jude Law) e ela \u00e9 a stripper Alice (Natalie Portman). A paix\u00e3o a primeira vista atropela (literalmente) a menina de cabelo rosa e ela acorda nos bra\u00e7os do amado. Corte. Dan precisa ser fotografado para a &#8220;orelha&#8221; de seu primeiro romance. A fot\u00f3grafa \u00e9 a insegura Anna (Julia Roberts) e Dan acaba fisgado por sua lente, por\u00e9m, h\u00e1 um problema: Dan \u00e9 compromissado, e Anna foge. Puto da vida, Dan acaba jogando o m\u00e9dico mach\u00e3o Larry (Clive Owen) nos bra\u00e7os de Anna. Temos, acima, quatro esteri\u00f3tipos&#8230; e um bel\u00edssimo filme. Deveria ser tratado como uma com\u00e9dia, n\u00e3o como um drama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo, a obviedade: Alice \u00e9 completamente apaixonada por Dan, que se apaixona por Anna, que ama Dan, mas acaba casando com Larry, que transa com Alice. Alice sabe desde o primeiro momento que Dan est\u00e1 apaixonado por Anna, mas n\u00e3o abre m\u00e3o de seu amor. Aceita, em sil\u00eancio, e espera tudo se resolver com o tempo (quem n\u00e3o fez isso ao menos uma vez na vida?). Dan \u00e9 feliz com Alice, mas sonha ser mais feliz ainda com Anna, por isso, rompe tudo com a namorada para ficar com a &#8220;paix\u00e3o&#8221; da sua vida. As cenas que marcam o fim de relacionamento do casal v\u00e3o ser boas para rememorar hist\u00f3rias de muitas pessoas (quem n\u00e3o fez aquelas mesmas perguntas? Quem n\u00e3o deu aquelas mesmas respostas?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27396\" title=\"closer1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/closer1.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paralelamente, Anna se casa com Larry por acomoda\u00e7\u00e3o. E Larry se casa com Anna porque ela \u00e9 muito gostosa (ah, Julia). Anna se separa de Larry para ficar com Dan, que abandonou Alice, mas pequenas coisas v\u00e3o mudar o rumo da hist\u00f3ria destes quatro mitos rom\u00e2nticos dos tempos modernos. Dos quatro estere\u00f3tipos, Larry \u00e9 o que tem a personalidade mais forte. Dan \u00e9 sonhador, por isso, inseguro. \u00c9 jogado de l\u00e1 pra c\u00e1 como se fosse uma peteca. Anna \u00e9 insegura e acomodada. Alice \u00e9 espertamente ing\u00eanua. E Larry sabe muito bem que orgulho n\u00e3o \u00e9 algo para se ficar ostentando como um pr\u00eamio. E d\u00e1-lhe mentira. E quem nunca mentiu para seu par? E qual a relev\u00e2ncia de uma mentira? Quem nunca omitiu uma opini\u00e3o apenas para manter as coisas como elas est\u00e3o? Quem disse que o amor era a melhor coisa do mundo &#8211; e a mais justa &#8211; pregou uma grande pe\u00e7a em todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Closer &#8211; Perto demais&#8221; \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a hom\u00f4nima, escrita pelo ingl\u00eas Patrick Marber em 1997 e j\u00e1 montada no Brasil por Hector Babenco, em 2000. Mike Nichols tem 73 anos, 40 deles dedicados ao teatro e ao cinema, e s\u00f3 19 longas assinados, entre eles &#8220;Quem tem medo de Virginia Woolf?&#8221; (1966) e &#8220;A Primeira Noite de Um Homem&#8217; (1967). Sobretudo, Nichols \u00e9 craque em adaptar o teatro para o cinema (ou a TV, como exemplifica a s\u00e9rie &#8220;Angels In Am\u00e9rica&#8221;), e vice-versa (no momento, ele trabalha em uma adapta\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico &#8220;Monty Python e o C\u00e1lice Sagrado&#8221; para o tablado). Em &#8220;Closer &#8211; Perto Demais&#8221;, por\u00e9m, Nichols conseguiu algo mais do que adaptar uma pe\u00e7a: ele conseguiu manter o brilho do roteiro intacto, e, com sublime dire\u00e7\u00e3o, mexer as pe\u00e7as deste tabuleiro rom\u00e2ntico com insuspeita vis\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor exibe as entranhas de seus personagens como se estivesse fazendo uma cirurgia. O cora\u00e7\u00e3o, mito rom\u00e2ntico, quase p\u00e1ra. O homem, tra\u00eddo, precisa saber de todos os detalhes da trai\u00e7\u00e3o: &#8220;Quanto tempo? Voc\u00eas transaram em casa? Ele \u00e9 melhor do que eu?&#8221; A mulher, abandonada, foge para se esconder&#8230; em uma boate de stripper. Estamos, todos, sempre nos exibindo, e sempre nos escondendo. Em uma das \u00faltimas cenas, Dan insiste para que Alice conte-lhe a verdade sobre sua hist\u00f3ria com Larry. \u00c9 poss\u00edvel ver, a cada segundo que as imagens projetam o casal na tela, pedacinhos de um romance sendo levados pelo vento. Quando Dan fecha a porta para buscar cigarros, percebe a bobagem que fez. Todos percebemos. E essa hist\u00f3ria termina para outra come\u00e7ar. Mais uma vez, todos passaram perto demais do amor. E o amor existe? Voc\u00ea j\u00e1 o viu? J\u00e1 o tocou? Por favor, nada de met\u00e1foras rom\u00e2nticas. A pergunta \u00e9 simples: o amor \u00e9 real ou \u00e9 uma mentira que as pessoas contam para tentar serem felizes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o amor, a desilus\u00e3o e a sobreviv\u00eancia rom\u00e2ntica, &#8220;Closer &#8211; Perto Demai&#8221;s desenha um painel irretoc\u00e1vel das rela\u00e7\u00f5es humanas nos \u00faltimos tempos de maneira constrangedora, assustadora e levemente did\u00e1tica. Pena que ningu\u00e9m nunca aprende&#8230; Ou ainda bem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: a m\u00fasica que arrepia em Closer se chama &#8220;The Blower&#8217;s Daughter&#8221;, de Damien Rice. Ela abre e fecha o filme. E est\u00e1 liberada para download no site oficial de &#8220;Closer&#8221;. Ou\u00e7a a m\u00fasica, veja o filme e tente ser feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/y6PRzqoF0Ao\"><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/y6PRzqoF0Ao\"><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O amor existe? Voc\u00ea j\u00e1 o viu? J\u00e1 o tocou? Por favor, nada de met\u00e1foras rom\u00e2nticas. 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