{"id":48327,"date":"2018-08-03T17:31:27","date_gmt":"2018-08-03T20:31:27","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=48327"},"modified":"2018-09-14T12:06:10","modified_gmt":"2018-09-14T15:06:10","slug":"sob-o-cel-musica-negra-da-diaspora-revolucao-e-ressignificacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/08\/03\/sob-o-cel-musica-negra-da-diaspora-revolucao-e-ressignificacao\/","title":{"rendered":"Sob o CEL: M\u00fasica Negra da Di\u00e1spora &#8211; Revolu\u00e7\u00e3o e Ressignifica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #333333;\">Sob o CEL #33<br \/>\nM\u00fasica Negra da Di\u00e1spora &#8211; Revolu\u00e7\u00e3o e Ressignifica\u00e7\u00e3o<br \/>\npor<\/span> <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carloseduardo.lima.90\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carlos Eduardo Lima<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 pouco menos de um ano, estava eu estudando para o processo seletivo do doutorado em Hist\u00f3ria Social do PPGH-UFF (Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Federal Fluminense) e me deparei com um texto do soci\u00f3logo norte-americano, radicado em Londres, Paul Gilroy. Fiquei feliz porque Gilroy \u00e9 um dos meus autores preferidos \u2013 junto com o falecido jamaicano Stuart Hall \u2013 sobre os assuntos que pesquiso: m\u00fasica popular, cultura e sociedade. Tanto Gilroy quanto Hall s\u00e3o respons\u00e1veis pela ilumina\u00e7\u00e3o do estudo da cultura negra mundial e foram respons\u00e1veis por derrubar mitos abjetos \u2013 entre eles o da democracia racial no Brasil \u2013 que aprisionavam a interpreta\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interculturais entre pessoas nascidas na \u00c1frica e pessoas, descendentes de africanos, nascidos fora dela. N\u00f3s, inclusive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao texto de Gilroy: l\u00e1 estava o cap\u00edtulo 3 do imperd\u00edvel livro &#8220;O Atl\u00e2ntico Negro&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/11\/03\/entrevista-wado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que batizou um disco do brasileiro Wado<\/a>), intitulado &#8220;M\u00fasica Negra e a Pol\u00edtica da Autenticidade&#8221;. Nele, o autor fala das rela\u00e7\u00f5es entre os negros africanos e seus descendentes em v\u00e1rios campos do conhecimento, especialmente na m\u00fasica. Para Gilroy, a identifica\u00e7\u00e3o dos africanos e descendentes com a m\u00fasica popular e a dan\u00e7a se deu por conta da n\u00e3o-erudi\u00e7\u00e3o poss\u00edvel nestas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, algo que inclu\u00eda imediatamente todos os negros como indiv\u00edduos capazes de aprend\u00ea-las e us\u00e1-las, pois n\u00e3o era necess\u00e1ria a leitura e o aprendizado formal. E a m\u00fasica popular seguiu esta l\u00f3gica ao longo do s\u00e9culo 20, a da inclus\u00e3o. Ao passar dos anos, mais e mais gente foi capaz de desfrutar dela, de apreci\u00e1-la e de interferir, tanto nos processos de realiza\u00e7\u00e3o quanto no de frui\u00e7\u00e3o, modificando-a a partir disso. N\u00e3o fosse pelos descendentes de negros, de hisp\u00e2nicos, de europeus white-trash (os n\u00e3o anglo-sax\u00f5es) e demais contingentes populacionais segregados em grandes cidades estadunidenses, como Nova York e Los Angeles, a m\u00fasica popular n\u00e3o teria passado por uma revolu\u00e7\u00e3o contundente e sensacional, logo ali, na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, os contingentes populacionais nas periferias urbanas da terra do Tio Sam s\u00e3o apenas parte do quebra-cabe\u00e7a. A eletr\u00f4nica teve seu papel aumentado na produ\u00e7\u00e3o musical desde fins dos anos 1960 e adentrou a nova d\u00e9cada com import\u00e2ncia decisiva no mundo da m\u00fasica&#8230; de vanguarda. Cada vez mais as t\u00e9cnicas de grava\u00e7\u00e3o tornaram-se importantes na manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e, no caso, na composi\u00e7\u00e3o de melodias e sequ\u00eancias harm\u00f4nicas. Aos poucos, gente como Brian Eno foi se interessando por isso e incorporando esta forma de trabalho em suas cria\u00e7\u00f5es. De Eno para David Bowie, Kraftwerk e os japoneses da Yellow Magic Orchestra, foi, como se dizia antigamente, &#8220;um pulo&#8221;. Tanto que a YMO, liderada por um certo Ryuichi Sakamoto, leva o pr\u00eamio por ter gravado a primeira composi\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria a conter o que seria conhecido mais tarde como &#8220;sample&#8221; de outra m\u00fasica. A can\u00e7\u00e3o, \u201cFirecracker\u201d, surgiu no primeiro disco do grupo, lan\u00e7ado em 1978, apenas com seu nome. Na verdade, a cria\u00e7\u00e3o da YMO continha trechos da grava\u00e7\u00e3o original de \u201cFirecracker\u201d, composta pelo norte-americano Martin Denny, em 1959. Denny foi um dos grandes nomes do que se chamou de Space Age Pop, aquela galera que usava e abusava de grava\u00e7\u00f5es ex\u00f3ticas em v\u00e1rios canais simult\u00e2neos. N\u00e3o espanta que ele fosse um dos \u00eddolos do pessoal da YMO.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grava\u00e7\u00e3o de Sakamoto e seus amigos mesclava partes da melodia original com batidas eletr\u00f4nicas e ru\u00eddos de videogame. Ao mesmo tempo em que eles experimentavam e faziam hist\u00f3ria, al\u00e9m de Eno, Bowie e Kraftwerk, toda uma revolu\u00e7\u00e3o de inclus\u00e3o musical estava em andamento nas pistas da Disco Music e das subculturas dan\u00e7antes e noturnas que surgiam. Eram demandas por vers\u00f5es de can\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes, mas que poderiam ser mais longas para tocar nas pistas por mais tempo ou para que houvessem mais partes instrumentais que se prestassem ao &#8220;rapping&#8221;, que nascia nas festas de rua de distritos negros de Nova York. Tais demandas fizeram com que as formas digitais de manipula\u00e7\u00e3o da m\u00fasica entrassem em cena sob a alega\u00e7\u00e3o de baixo custo operacional por parte das gravadoras. Surgiram os remixes, os singles, os 12 polegadas e o sampler. Todas estas cria\u00e7\u00f5es s\u00e3o fruto da expans\u00e3o da m\u00fasica popular dan\u00e7ante para grandes p\u00fablicos &#8220;n\u00e3o-eruditos&#8221; e &#8220;desprivilegiados&#8221;. Gente pobre, LGBT, mal vista e sem qualquer chance numa sociedade como a estadunidense ou a inglesa. Ou a brasileira. Qualquer sociedade que tenha em sua popula\u00e7\u00e3o contingentes de negros da di\u00e1spora africana, os descendentes de pessoas trazidas da \u00c1frica para servirem como escravos em qualquer parte do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas pessoas, segundo Gilroy e Stuart Hall, t\u00eam tradi\u00e7\u00f5es, costumes, cultura e refer\u00eancias em comum. N\u00e3o importa se nasceu em Lagos, Salvador, Kingston ou Oakland, h\u00e1 pontos de interse\u00e7\u00e3o que falam muito alto e as unem numa mesma l\u00f3gica. E essa gente foi a arquiteta do processo de populariza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, de sua tradu\u00e7\u00e3o para sua realidade, se apropriando e reinterpretando constantemente. Eles transformaram a m\u00fasica popular planet\u00e1ria no sentido inclusivo e definitivo e nada \u00e9 como era, desde ent\u00e3o. A m\u00fasica popular est\u00e1 cheia dessas conquistas e mudan\u00e7as. Procur\u00e1-las \u00e9 um \u00f3timo meio de encontrar relev\u00e2ncia art\u00edsticas e cultural.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LKaBP2zckAY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OkkFST5qrLg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 CEL \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carloseduardo.lima.90\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carlos Eduardo Lima<\/a>\u00a0(<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/celeolimite\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@celeolimite<\/a>), respons\u00e1vel pela coluna Sob o CEL, vers\u00e3o renovada de sua primeira coluna no site,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/cel24.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O CEL \u00e9 o Limite<\/a>, que estreou em maio de 2002. Tamb\u00e9m \u00e9 locutor e produtor na empresa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/RadioVitrola.net\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">R\u00e1dio Vitrola<\/a>\u00a0e respons\u00e1vel pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/historiapormusica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hist\u00f3ria Por M\u00fasica<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A m\u00fasica popular est\u00e1 cheia dessas conquistas e mudan\u00e7as. Procur\u00e1-las \u00e9 um \u00f3timo meio de encontrar relev\u00e2ncia art\u00edsticas e cultural, afirma o jornalista e historiador Carlos Eduardo Lima em seu texto de retorno da coluna Sob o CEL\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/08\/03\/sob-o-cel-musica-negra-da-diaspora-revolucao-e-ressignificacao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":44,"featured_media":48331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[46],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48327"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48327"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48333,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48327\/revisions\/48333"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}