{"id":48304,"date":"2018-07-31T13:49:12","date_gmt":"2018-07-31T16:49:12","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=48304"},"modified":"2018-09-25T16:46:34","modified_gmt":"2018-09-25T19:46:34","slug":"james-benning-o-joao-gilberto-dos-filmmakers","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/07\/31\/james-benning-o-joao-gilberto-dos-filmmakers\/","title":{"rendered":"James Benning: o Jo\u00e3o Gilberto dos filmmakers"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caioboscocerebral\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Caio Bosco<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso mesmo, James Benning \u00e9 o Jo\u00e3o Gilberto dos filmmakers! Ainda que este norte-americano de Milwaukee tenha um estilo muito mais pr\u00f3ximo ao pr\u00e9 grunge de Neil Young &amp; Crazy Horse do que do nosso baob\u00e1 baiano, sempre elegante em suas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, com seus ternos, gravatas e sapatos italianos, \u00e9 na est\u00e9tica e na sensibilidade art\u00edstica que o trabalho de ambos se viram um de frente para o outro. Assim como Jo\u00e3o, o que Benning faz \u00e9 retirar toda a superficialidade e as camadas das conven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, para revelar uma eleg\u00e2ncia complexamente simples, tecnicamente avan\u00e7ada, utilizando tecnologias populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Benning filmou seus principais t\u00edtulos com uma simples e \u00fanica c\u00e2mera 16mm; para a capta\u00e7\u00e3o do \u00e1udio ele usou o m\u00edtico Nagra e, a partir de 2009, o diretor come\u00e7a a utilizar equipamentos digitais enquanto Jo\u00e3o Gilberto usa somente seu viol\u00e3o Di Giorgio modelo Tarrega e a sua voz restando uma integral contempla\u00e7\u00e3o da natureza. N\u00e3o \u00e0 toa, Baby Consuelo, uma Jo\u00e3o Gilbertiana convicta, ficou conhecida no meio dos m\u00fasicos por pedir acordes com sons de \u201ccoqueiros balan\u00e7ando\u201d. A natureza \u00e9 a imagem da m\u00fasica do bruxo de Juazeiro, o rio S\u00e3o Francisco, os tais coqueiros balan\u00e7ando, o mar, o sol, o c\u00e9u azul, o pato e as lagoas, as montanhas e morros, enfim, uma imagem em que n\u00f3s, humanos, somos retirados de cena, assumindo o papel de mero admirador de uma paisagem nada in\u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Benning nasceu em 1942, o ano dos ovos de ouro, que marca o nascimento de patrim\u00f4nios como Jimi Hendrix, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Curtis Mayfield, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Paul McCartney, Brian Jones e Brian Wilson, entre muitos outros, e come\u00e7ou a estudar cinema apenas aos 33 anos pela universidade de Wisconsin ap\u00f3s se formar em matem\u00e1tica, de envolver-se profundamente na luta pelos direitos civis e pelo fim do racismo na segregada Milwaukee. Antes disso, Benning foi na sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia jogador de basebol, o que \u00e9 tema de um document\u00e1rio de 2013 chamado \u201cDouble Play\u201d. Dirigido pelo brasileiro Gabe Klinger, \u201cDouble Play\u201d mostra as similaridades e diferen\u00e7as nas trajet\u00f3rias e na vida do filmmaker e de Richard Linklater (ele tamb\u00e9m fora jogador de basebol), seu amigo h\u00e1 mais de 30 anos (e respons\u00e1vel por, entre outras obras, &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/02\/cinema-boyhood-de-richard-linklater\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Boyhood<\/a>&#8221; e a trilogia \u201cAntes do Amanhecer\u201d, \u201cAntes do P\u00f4r-do-sol\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/06\/30\/antes-da-meia-noite-richard-linklater\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antes da Meia-Noite<\/a>\u201d).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TxEK-l4ssm8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das maneiras de definir a obra de Benning \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o da paisagem como \u201cpassagem do tempo\u201d, uma c\u00e2mera mostrando a natureza e sua eros\u00e3o humana, algo que parece est\u00e1tico, que nunca muda, mas que muda o tempo todo, quase que uma medita\u00e7\u00e3o Zen, uma pr\u00e1tica de Yogui e Yoguines, a arte de transcender atrav\u00e9s da disciplina de se fazer a mesma coisa. Opa, mas pera l\u00e1: estamos falando de Benning ou de Jo\u00e3o interpretando \u201cChega de Saudade\u201d, \u201cEstate\u201d, \u201cPra Que Discutir Com Madame?\u201d, \u201cAos P\u00e9s da Santa Cruz\u201d, \u201cDesafinado\u201d ou \u201cAdeus Am\u00e9rica?\u201d \u00c9 poss\u00edvel perceber essa analogia? Essa inquieta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">James Benning fez seu primeiro filme em 1971, mas de sua obra recente destacam-se \u201cDeseret\u201d (1995), a trilogia sobre a Calif\u00f3rnia com \u201cEl Valley Centro\u201d (2000), \u201cLos\u201d e \u201cSogobi\u201d (2001), e seus \u00faltimos filmes em 16mm, \u201cCasting a Glance\u201d e \u201cRR\u201d, ambos de 2007. \u201cDeseret\u201d est\u00e1 presente no comp\u00eandio \u201c1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer\u201d (editado no Brasil pela Sextante), livro que \u00e9 uma assertiva porta de entrada para um cin\u00e9filo iniciante. No final da d\u00e9cada passada era poss\u00edvel encontrar filmes raros como \u201cDeseret\u201d (e tamb\u00e9m \u201cO Salmo Vermelho\u201d, de Mikl\u00f3s Jancs\u00f3; \u201cKiller of Sheeps\u201d, de Charles Burnett; \u201cA Cor da Rom\u00e3\u201d, de Sergei Parajanov, entre outros) em excelentes blogs de cin\u00e9filos, mas o projeto de lei Sopa\/Pipa, de 2012, um atentado \u00e0 liberdade da internet, passou a combater a pirataria em rede atingindo sobretudo blogs e sites de armazenamento gratuitos, arruinando um per\u00edodo dourado da grande rede e fortalecendo ainda mais o Facebook como ferramenta de compartilhamento de arquivos a partir de ent\u00e3o, impossibilitando que obras art\u00edsticas dif\u00edceis de serem encontradas circulassem com maior facilidade. Para sua sorte, caro leitor, o selo alem\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.edition-filmmuseum.com\/advanced_search_result.php?XTCsid=aec2e7d9bdf36681c04440cf2fc05b8b&amp;keywords=james+benning&amp;x=0&amp;y=0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filmmuseum<\/a> lan\u00e7ou (em 2014) 11 filmes de James Benning divididos em seis DVDs, <a href=\"https:\/\/www.edition-filmmuseum.com\/product_info.php\/info\/p151_Deseret---Four-Corners.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">incluindo \u201cDeseret\u201d<\/a> \u2013 h\u00e1 uma vers\u00e3o no Youtube, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2zB4YQCRdPs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por\u00e9m, sem som<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-48306 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/deseret.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/deseret.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/deseret-300x168.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, \u201cDeseret\u201d mudou minha maneira de enxergar o cinema. Lan\u00e7ado em 1995, o filme faz parte da s\u00e9rie \u201cFilme-Texto\u201d, mostrando as paisagens de Utah com a locu\u00e7\u00e3o de Fred Gardner narrando 93 trechos de mat\u00e9rias publicadas no New York Times entre 1852 at\u00e9 1991, cobrindo desde as remotas chegadas dos m\u00f3rmons, que, expulsos de Illinois chegam a Salt Lake City liderados por Brigham Young (O Mois\u00e9s m\u00f3rmon); a dificuldade da adapta\u00e7\u00e3o no deserto; o fim do estado provis\u00f3rio de \u201cDeseret\u201d proposto pelos religiosos em 1949 para uma parte das terras conquistadas do M\u00e9xico; a forma\u00e7\u00e3o do estado de Utah; o embate entre o governo norte-americano e os habitantes que ainda praticavam a poligamia; o confronto com os nativos; o confronto dos m\u00f3rmons e nativos contra as for\u00e7as armadas estadunidenses; o terr\u00edvel e criminoso massacre da montanha Meadow cometido pela mil\u00edcia m\u00f3rmon em que foram mortas 120 pessoas n\u00e3o m\u00f3rmons, entre elas, mulheres e adolescentes; as v\u00e1rias tentativas de mudar o nome do estado de Utah para Deseret (uma maneira de dizer mel de abelha no livro dos m\u00f3rmons, ou seja, a terra prometida); a constru\u00e7\u00e3o da estrada de ferro que cruza todo o pa\u00eds; as tentativas desastrosas de tornar uma parte do estado local para testes nucleares, desenvolvimento de armas biol\u00f3gicas e despejo de lixo t\u00f3xico; as emiss\u00f5es de gases venenosos e poluentes que mataram milhares de ovelhas e uma parte do ecossistema; golpistas, frald\u00e1rios e assassinos cults como Melvin Dummar, Gary Gilmore e Mark Hofmann s\u00e3o mencionados nas partes finais da pel\u00edcula; tudo parece ser negativo em Utah, uma das poucas exce\u00e7\u00f5es \u00e9 o maravilhoso Spiral Jetty de Robert Smithson (tema do filme \u201cCasting a Glance\u201d, de 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aspecto visual do filme merece um par\u00e1grafo a parte: acompanhando tomadas que mudam a cada senten\u00e7a do texto, as imagens s\u00e3o belas, grandiosas e evocativas, uma heran\u00e7a direta da arte na\u00eff americana de Bill Traylor, Mart\u00edn Ramirez e Henry Darger, um equivalente imag\u00e9tico <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/01\/08\/disco-da-semana-i-am-the-resurrection-tribute-john-fahey\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aos cl\u00e1ssicos \u00e1lbuns de John Fahey<\/a>, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/tag\/bob-dylan-com-cafe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a primeira encarna\u00e7\u00e3o de Bob Dylan<\/a> e a poesia de Gary Snyder. O filme tem toda a sua primeira parte em preto e branco, e, cronologicamente, quando vira o s\u00e9culo, passa para um colorido igualmente magistral. Talvez por manter uma dist\u00e2ncia dos textos escritos de maneira parcial pelo New York Times, Benning tem a sabedoria de descolar a imagem da cronologia do texto, dando \u00eanfase ao in\u00edcio e ao final, deixando as lacunas livres para as pr\u00f3prias interpreta\u00e7\u00f5es do espectador, nos mostrando usinas, trens, cidades, florestas, campos de agricultura pesada, rios, canyons, placas, petr\u00f3glifos dos povos Anasazis, cemit\u00e9rios, igrejas, fast foods, lojas de conveni\u00eancias, estradas de terra e pavimentadas, embaralhadas dentro da cronologia textual. \u201cDeseret\u201d registra um pico art\u00edstico que faz brilhar os filmes passados do diretor e sua matem\u00e1tica estruturalista complexa de montagem tanto quanto ilumina os que ir\u00e3o por vir, com suas tomadas monumentais sobre a paisagem e a natureza, resgatando a cultura folk e arremessando ao contempor\u00e2neo num processo meticuloso e solit\u00e1rio, assim como o mestre Jo\u00e3o, que resgata os compositores populares brasileiros, dando as suas can\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas e complexas estruturas harm\u00f4nicas, tamb\u00e9m arremessando e iluminando, de maneira solit\u00e1ria e perfeccionista, o passado direto ao futuro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/u0Cq-UpkJQc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 2000 e 2001, Benning realizou a trilogia sobre a Calif\u00f3rnia (<a href=\"https:\/\/www.edition-filmmuseum.com\/product_info.php\/info\/p147_California-Trilogy.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tamb\u00e9m lan\u00e7ada em DVD pela Filmmuseum<\/a>) solidificando seu nome no que alguns te\u00f3ricos chamam de \u201cEco Cinema\u201d. Logo na virada do s\u00e9culo, o p\u00fablico \u00e9 presenteado com \u201cEl Valley Centro\u201d (2000), pel\u00edcula dedicada totalmente ao papel do vale central e da Calif\u00f3rnia para os Estados Unidos: a agricultura. O primeiro plano come\u00e7a com um shot maravilhoso sobre a paisagem do desaguadouro do reservat\u00f3rio de Monticello Dam, no condado de Napa, mostrando a monstruosidade da monumental queda d\u2019agua em um grande c\u00edrculo vazado, em imagem e som, j\u00e1 que a partir daqui o som ambiente assume papel de protagonismo em seus filmes. Os mais de 60% de vegetais, frutas e castanhas consumidos no pa\u00eds s\u00e3o retratados nessa pel\u00edcula que exibe amendoeiras; o cultivo do arroz; os sofisticados sistemas de irriga\u00e7\u00e3o; caminh\u00f5es e tratores poderosos arando, ceifando o trigo e transportando entulhos; agricultores (pelo di\u00e1logo e pela m\u00fasica distante percebe-se que s\u00e3o latinos) e suas enxadas; p\u00e2ntano; vidas selvagens; gado. \u201cEl Valley Centro\u201d termina mostrando os aquedutos de Wheeler Ridge, ou seja, o filme come\u00e7a e finda com os poderosos engenhos de capta\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, sua import\u00e2ncia e sua amea\u00e7a, com as chocantes imagens de um po\u00e7o de petr\u00f3leo em chamas; uma usina nuclear desativada; petrol\u00edferas com suas torneiras abertas de manchas de \u00f3leo e queimadas na mata.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NZGxdGRJ3rg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano seguinte, 2001, \u00e9 a vez de \u201cLos\u201d, uma epopeia sobre o condado de Los Angeles, do qual o livro \u201cCidade de Quartzo\u201d, de Mike Davis, \u00e9 um acompanhamento indispens\u00e1vel para esse quebra cabe\u00e7a urban\u00edstico e cultural chamado L.A.. Esque\u00e7a o sonho ensolarado dos Mamas &amp; The Papas (a vers\u00e3o \u00e9 ador\u00e1vel, mas voc\u00ea ouviu \u201cCalifornia Dreamin\u2019\u201d com Jos\u00e9 Feliciano?); as mans\u00f5es das estrelas; a Topanga Canyon de Crosby, Stills and Nash e os letreiros de Hollywood eternizados por Ed Ruscha. O que Benning mostra da cidade glamour \u00e9 uma regi\u00e3o metropolitana desmistificada e sem maquiagem com sem-tetos; o porto de San Pedro; homens de neg\u00f3cios; o bairro coreano; engarrafamento; trabalhadores; o rio seco de Los Angeles (loca\u00e7\u00e3o utilizada nos \u00e9picos \u201cPoint Blank\u201d, de John Boorman; e \u201cChinatown\u201d, de Roman Polanski) e, somente na \u00faltima cena, o oceano pac\u00edfico de Malibu. A sabedoria do diretor \u00e9 eliminar os dois extremos mais mitificados, Berverly Hills de um lado e Compton do outro, deixando ao espectador uma Los Angeles mais neutra e humana.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lglqWrmpQS0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mesmo ano vem \u201cSogobi\u201d (que significa \u201cTerra\u201d na l\u00edngua nativa americana da tribo shoshone) e aqui a rainha soberana \u00e9 a natureza, por ela mesma. Os primeiros 20 minutos s\u00e3o paisagens totalmente desertas e esplendorosas como praias, florestas de carvalhos, montanhas nevadas do norte, as torres de Tufa, colinas, chaparral e sequoias-gigantes. Nos raros casos em que acontecem a\u00e7\u00f5es humanas, elas se d\u00e3o na forma de meios de transportes invadindo a paisagem com helic\u00f3pteros, carros, guindastes moveis ou um outdoor em branco no meio do nada. A \u00faltima cena do filme e da trilogia \u00e9 o mesmo local do come\u00e7o de \u201cEl Valley Centro\u201d, o reservat\u00f3rio de Monticello Dam, mas aqui vazio e desativado, nos deixando uma imagem clara: estamos destruindo a natureza, mas, com certeza, ela nos destruir\u00e1 antes e se regenerar\u00e1, ao contr\u00e1rio de n\u00f3s. Benning adota uma maneira estrutural e sim\u00e9trica de montagem: cada filme tem 36 tomadas (incluindo os cr\u00e9ditos finais) de 150 segundos cada, fazendo com que cada pel\u00edcula some exatos 90 minutos e a trilogia, no total, 270 minutos de contempla\u00e7\u00e3o hipn\u00f3tica. Outro ponto interessante \u00e9 o uso das trilhas: em \u201cEl Valley Centro\u201d, o filme termina com uma can\u00e7\u00e3o mexicana; em \u201cLos\u201d, com uma can\u00e7\u00e3o country &amp; western e em \u201cSogobi\u201d, um canto ind\u00edgena, totalizando em som e imagem um retrato profundo sobre a Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iaUU3Rs_jbk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus dois \u00faltimos filmes feitos em 16mm foram produzidos simultaneamente entre 2005 e 2007 e ambos focam em paisagens naturais alteradas pela cria\u00e7\u00e3o humana (eles tamb\u00e9m est\u00e3o dispon\u00edveis em DVD pelo selo Filmmuseum). O primeiro, \u201cRR\u201d (2007), \u00e9 uma ode as linhas ferrovi\u00e1rias (RR vem de \u201crailroads\u201d) e consiste somente em tomadas de trens passando pelos campos de Iowa, Alabama, Illinois, Kentucky, Louisiana, Minnesota, Mississippi, Nebraska, Ohio, Pennsylvania, Wisconsin e Wyoming. As tomadas variam de tempo, dependendo da velocidade da m\u00e1quina e da quantidade de vag\u00f5es, as cenas duram desde a chegada do trem, vindo de maneiras e lugares inesperados, se misturando com a paisagem at\u00e9 sumir da tela. O que se mostra presente \u00e9 a import\u00e2ncia desse engenho altamente tecnol\u00f3gico para o desenvolvimento urbano durante o s\u00e9culo 19 e para a log\u00edstica infraestrutural de distribui\u00e7\u00e3o transcontinental atual, nesse sentido, algo misterioso e fantasmag\u00f3rico nos aparece constantemente nas 43 tomadas do filme, pois podemos sentir a presen\u00e7a dos milhares e milhares de imigrantes chineses, mexicanos, trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis, prisioneiros e negros escravos que constru\u00edram essas estradas desde o s\u00e9culo 18, tendo o seu per\u00edodo mais pulsante entre 1850 a 1900 (s\u00f3 em 1850 foram constru\u00eddos mais de 14 mil km de estradas de ferro nos Estados Unidos). O design sonoro do filme \u00e9 deslumbrante, misturando sons da natureza e, por vezes, o silencio, com apitos e engrenagens, e, em alguns momentos Benning adiciona elementos hist\u00f3ricos como uma emiss\u00e3o radiof\u00f4nica de uma final de um campeonato de basebol em 1991; o discurso do presidente Eisenhower em 1961 contra o poder do complexo industrial militar estadunidense e trechos do Apocalipse de Jo\u00e3o. Mais uma vez temos um \u201csound and vision\u201d profundamente reflexivo entre o selvagem e o perpetuamente modificado; a observa\u00e7\u00e3o est\u00e1tica e meditativa da natureza contra o desiderato humano de locomo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dHIb9GINSQs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo filme lan\u00e7ado em 2007 por Benning foi \u201cCasting a Glance\u201d e aqui vemos uma linda homenagem \u00e0 arte, ou melhor, ao marco inaugural da land-art, o \u201cSpiral Jetty\u201d do grande Robert Smithson. Trata-se de uma obra de arte de 1970 em forma de espiral constru\u00edda com lama, pedras basaltos, cristais de sal e \u00e1gua, uma instala\u00e7\u00e3o com 460 metros de comprimento e 4,6 metros de largura no grande lago salgado de Utah. Filmado entre 16 viagens que Benning fez ao \u201cciclone im\u00f3vel\u201d de 16 de abril de 1970 at\u00e9 15 de maio de 2007, estruturado em 16 sequ\u00eancias e 78 planos, o filme se divide em um hiato at\u00e9 sua conclus\u00e3o. De 1970 at\u00e9 1971, Benning cobre a transforma\u00e7\u00e3o da paisagem em cada esta\u00e7\u00e3o, desde a primeira primavera da obra; a seca do come\u00e7o do outono e o sal que resta sobre a pedra preta deixando tudo branco; o inverno que deixa tudo branco de novo, mas agora com a neve e as altas do lago com o derretimento do gelo nas primaveras de 1971 e 1973, a partir dessa data, \u201cSpiral Jetty\u201d ser\u00e1 coberta pelas cheias por 30 anos. O diretor ainda iria duas vezes, em 1984 e 1988, mas filma somente \u00e1gua at\u00e9 retomar os trabalhos em 2002, quando o lago come\u00e7a a baixar e a instala\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto mais legend\u00e1ria da Am\u00e9rica mostra sua bela silhueta escura. Momentos felizes aparecem com crian\u00e7as brincando na espiral, mas at\u00e9 o fim da nossa jornada, a natureza com seu tempo e movimento pr\u00f3prios nos mostrar\u00e1 a repeti\u00e7\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es, mas com luzes e enfoques diferentes sobre as pedras que est\u00e3o por vezes escuras e por vezes brancas como a neve. Com uma metodologia parecida com \u201cRR\u201d para o design sonoro, ouvimos o som destacado das \u00e1guas e dos p\u00e1ssaros entrecortados por conversas de visitantes; som de avi\u00f5es; as crian\u00e7as ao fundo e a linda \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6ivVJzGgcq0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Love Hurts<\/a>\u201d, de Gram Parsons e Emmylou Harris, uma can\u00e7\u00e3o de 1973, ano da morte de Robert Smithson em um acidente de avi\u00e3o, que cai como uma linda homenagem de Benning, assim como Jo\u00e3o Gilberto cantando \u201cCorcovado\u201d, \u201c\u00c1guas de Mar\u00e7o\u201d, \u201cBahia com H\u201d e \u201cSamba da Minha Terra\u201d, ou, como dizem os jovens: muito amor envolvido!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de 2012 Benning passou a se isolar (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/07\/03\/tres-documentarios-som-sol-surf-saquarema-onde-esta-voce-joao-gilberto-e-eu-sou-o-rio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">outra semelhan\u00e7a com nosso Jo\u00e3o<\/a>) nas montanhas da Calif\u00f3rnia, construiu para si uma casa e duas cabanas de madeiras (uma \u00e9 a r\u00e9plica de Walden, de Henry David Thoreau, a outra, uma r\u00e9plica da cabana feita pelo Unabomber Ted Kaczynski), curtindo o isolamento e se dividindo entre a pintura e seus filmes. Ele diz n\u00e3o estar mais interessado em fazer bons filmes e sim em desenvolver uma nova linguagem, o que permite um paralelo com <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/04\/17\/os-10-primeiros-filmes-de-godard\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Godard<\/a> nesse sentido, mas a grande analogia ainda permanece: James Benning \u00e9 o Jo\u00e3o Gilberto dos filmmakers! Descubra este grande cineasta!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IeurHBq3BRI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Caio Bosco (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caioboscocerebral\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb\/caioboscocerebral<\/a>) \u00e9 cantor, compositor e m\u00fasico (<a href=\"https:\/\/caiobosco.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/caiobosco.com<\/a>), j\u00e1 lan\u00e7ou diversos trabalhos, tanto solo, quanto com o Radiola Santa Rosa. Cin\u00e9filo e pesquisador amador, j\u00e1 comp\u00f4s trilhas para curta-metragens internacionalmente premiados, planeja escrever sobre cinema avant-garde, experimental e alternativo, visando contribuir com pesquisas sobre realizadores que s\u00e3o pouco conhecidos no Brasil.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um passeio pelos filmes mais m\u00edticos do revolucion\u00e1rio filmmaker norte-americano James Benning e uma analogia em forma de carta aberta a Jo\u00e3o Gilberto.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/07\/31\/james-benning-o-joao-gilberto-dos-filmmakers\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":60,"featured_media":48305,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3120],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48304"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/60"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48304"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48304\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48307,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48304\/revisions\/48307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48305"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48304"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48304"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48304"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}