{"id":47896,"date":"2018-06-12T11:17:15","date_gmt":"2018-06-12T14:17:15","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=47896"},"modified":"2018-08-08T11:04:29","modified_gmt":"2018-08-08T14:04:29","slug":"a-banda-mais-bonita-da-cidade-e-o-poder-da-cancao-pop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/12\/a-banda-mais-bonita-da-cidade-e-o-poder-da-cancao-pop\/","title":{"rendered":"A Banda Mais Bonita da Cidade e o poder da can\u00e7\u00e3o pop"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por Ismael Machado<br \/>\nfotos por Rog\u00e9rio von Kr\u00fcger (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pg\/festivallevada\/photos\/?tab=album&amp;album_id=959958300845058\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">veja galeria completa<\/a>)<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos tempos uma discuss\u00e3o parece intermin\u00e1vel no mundo da m\u00fasica pop. H\u00e1 os artistas e bandas que ganham notoriedade (na maioria das vezes cult) por apostar em experimenta\u00e7\u00f5es, invencionices, radicalismos e fugas do \u2018formato\u2019 cl\u00e1ssico do rock ou pop. E h\u00e1 as bandas que insistem numa sonoridade moldada em uma formata\u00e7\u00e3o mais inserida numa tradi\u00e7\u00e3o musical que, aparentemente mais simples, consegue atingir camadas e camadas de beleza e profundidade. Algumas falas de artistas trazem essa discuss\u00e3o velada. Na abertura\/manifesto de seu primeiro disco, Chico Science provocava: \u201ccad\u00ea as notas que estavam aqui? N\u00e3o preciso delas, basta soar tudo bem aos ouvidos\u201d. Lou Reed cutucava a ferida: \u201cquatro acordes e o rock j\u00e1 vira jazz\u201d. Nos anos 80, Paula Toller provocava na Bizz: \u201cas bandas undergrounds sonham em ser mainstream\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escritor Nick Hornby tamb\u00e9m fez refer\u00eancia a isso no final do livro \u201c31 can\u00e7\u00f5es\u201d ao se referir a um pequeno show de Patti Smith, citando o fato de que era apenas uma can\u00e7\u00e3o pop de tr\u00eas acordes e como tal, podia qualquer coisa. Mas talvez Renato Russo tenha sido ainda mais feliz quando, ao tentar explicar o alcance da banda, disse que as can\u00e7\u00f5es da Legi\u00e3o eram \u2018amigas\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa frase vem \u00e0 cabe\u00e7a ainda no meio do show da Banda Mais Bonita da Cidade, no festival Levada, no Rio de Janeiro, na noite de 08 de junho. Esse \u00e9 um caso t\u00edpico de grupo que parece despertar paix\u00f5es e narizes torcidos quase na mesma propor\u00e7\u00e3o. Os detratores maldizem o clip fen\u00f4meno de \u201cOra\u00e7\u00e3o\u201d e a postura meio comunidade alternativa-hippie dos novos tempos da banda curitibana. Os f\u00e3s n\u00e3o se importam nem um pouco com isso. Sabem que, no fundo, o que importa s\u00e3o can\u00e7\u00f5es. M\u00fasicas que sem querer apelar para nenhuma inova\u00e7\u00e3o formal (e o que seria isso mesmo?) capturam sensa\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es genu\u00ednas e trazem sim, uma esp\u00e9cie de cumplicidade entre banda e p\u00fablico. Essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que bandas como Smiths, Legi\u00e3o, Beatles, Teenage Fanclub, Wilco, REM etc, j\u00e1 ensinaram de mil formas poss\u00edveis.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-47899\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante notar que entre o p\u00fablico do show havia crian\u00e7as de menos de 10 anos de idade e velhos beirando os 70 anos. Entre eles, o p\u00fablico \u2018comum\u2019 da banda, jovens entre seus 20 e poucos anos. As crian\u00e7as fazem coro chamando o nome da vocalista Uyara e um casal velhinho logo atr\u00e1s comentava entre si \u2018muito bom\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uyara \u00e9 a melhor vocalista da gera\u00e7\u00e3o dela. A frase pode parecer presun\u00e7osa, mas \u00e9 s\u00f3 comparar sem paix\u00f5es. Quem tem o dom\u00ednio que ela tem dos fraseados, quem segura bem can\u00e7\u00f5es de formatos t\u00e3o diferentes quanto ela? Como uma Maria Beth\u00e2nia dos novos tempos, Uyara canta descal\u00e7a e com tons de dramaticidade nos gestos que imprimem uma sinceridade a tudo que canta de forma emocionante. \u00c9 emo\u00e7\u00e3o que se espalha, por exemplo, quando vem a trinca de \u201cAtriz\u201d, \u201cTriste, Louca e M\u00e1\u201d e \u201cTigresa\u201d. A refer\u00eancia a Francisco El Hombre e um dos melhores hinos feministas dos novos tempos abre espa\u00e7o para uma reinven\u00e7\u00e3o de sentido do cl\u00e1ssico de Caetano Veloso (que a tigresa possa mais do que o le\u00e3o, que a tigresa seja respeitada, possa andar na rua sem ser agredida).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uyara dan\u00e7a e se movimenta no palco como estivesse em uma festinha de casa. Como se estivesse entregue ao som que vem das caixas, sem se importar muito com o que est\u00e1 ao redor, sentindo os riffs, o ritmo, a batida, a energia toda. E a banda \u00e9 de uma coes\u00e3o que impressiona. Vin\u00edcius Nisi no teclado, Marano no baixo, Lu\u00eds Bourscheidt na bateria e Thiago Ramalho na guitarra conseguem imprimir peso e intensidade quando necess\u00e1rios e leveza e simplicidade nos momentos corretos. \u00c9 da Banda Mais Bonita da Cidade a melhor vers\u00e3o de \u201cTrovoa\u201d, de Mauricio Pereira, j\u00e1 um cl\u00e1ssico contempor\u00e2neo da m\u00fasica brasileira. A letra imensa, emotiva, cortante, apaixonada, ganha contornos de emo\u00e7\u00e3o genu\u00edna, de arrancar l\u00e1grimas do p\u00fablico. O mesmo que canta a plenos pulm\u00f5es \u201cSe Eu Corro\u201d e \u201cBoa Pessoa\u201d, l\u00e1 do primeiro disco.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-47898\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima m\u00fasica, \u201cOra\u00e7\u00e3o\u201d come\u00e7a no palco e termina na rua, em plena cal\u00e7ada da Avenida Gra\u00e7a Aranha, numa roda onde, mais uma vez, a defini\u00e7\u00e3o de Renato Russo ganha sentido: s\u00e3o can\u00e7\u00f5es amigas. Tem quem ache piegas falar de amor e amizade em can\u00e7\u00f5es simples. Raul Seixas ironizava esses &#8216;descolados&#8217; desde os anos 70. Em \u201cTu \u00e9s o MDC da Minha Vida\u201d, ele dizia que ia ter com a mo\u00e7ada l\u00e1 do \u2018Pier\u2019, mas sabia que para eles era \u2018careta falar de amor\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso retoma o primeiro par\u00e1grafo desse texto. Se para os descolados David Bowie tinha discos em que inseria lados b estranhos como em \u201cLow\u201d ou \u201cHeroes\u201d, \u00e9 com uma can\u00e7\u00e3o em seu formato mais tradicional (\u201cHeroes\u201d, por exemplo), que ele alcan\u00e7a de uma forma intensa os cora\u00e7\u00f5es de f\u00e3s (n\u00e3o \u00e0 toa a m\u00fasica j\u00e1 fez parte da trilha sonora de mais de 10 filmes). O final de \u201cAs Vantagens de Ser Invis\u00edvel\u201d mostra a for\u00e7a de uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 sempre quem prefira as experimenta\u00e7\u00f5es que o Radiohead fez depois que abandonou o formato can\u00e7\u00e3o pop. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m os que preferem pegar na m\u00e3o da pessoa amada ao som de \u201cHigh and Dry\u201d, quando a banda canta \u201cn\u00e3o me deixe mal, n\u00e3o me deixe sozinho\/ Essa \u00e9 a melhor coisa que voc\u00ea j\u00e1 teve\/ A melhor coisa que voc\u00ea sempre, sempre teve\u201d. Voltando para casa, emo\u00e7\u00e3o \u00e0 flor da pele, lembrando de \u201cTrovoa\u201d, reflito nessa possibilidade de escolha. Que can\u00e7\u00e3o voc\u00ea escolheria para lembrar uma \u00e9poca, uma gera\u00e7\u00e3o? Quais as can\u00e7\u00f5es voc\u00ea ir\u00e1 lembrar daqui a 10, 20 anos? E quais te far\u00e3o ficar emocionado, saudoso, feliz, melanc\u00f3lico, nost\u00e1lgico? Eu fico com minhas amigas, as can\u00e7\u00f5es simples e profundas, de letras que falam de mim, de ti, de n\u00f3s.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-47900\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/banda4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>\u2013 Ismael Machado \u00e9 jornalista, escritor e roteirista. Lan\u00e7ou o livro \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/14\/a-reportagem-que-percebe-o-outro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sujando os Sapatos \u2013 O Caminho Di\u00e1rio da Reportagem<\/a>\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uyara \u00e9 a melhor vocalista da gera\u00e7\u00e3o dela. 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