{"id":47860,"date":"2018-06-08T00:47:26","date_gmt":"2018-06-08T03:47:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=47860"},"modified":"2023-11-28T14:23:45","modified_gmt":"2023-11-28T17:23:45","slug":"entrevista-gregorio-gananian-fala-sobre-o-filme-inaudito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/08\/entrevista-gregorio-gananian-fala-sobre-o-filme-inaudito\/","title":{"rendered":"Entrevista: Gregorio Gananian fala sobre o filme \u201cInaudito\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carime.elmor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carime Elmor<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lanny Gordin e sua guitarra baseada no \u201cfree total\u201d de sua mente foram gravadas por Gregorio Gananian, que dirigiu um document\u00e1rio-mandala chamado \u201cInaudito\u201d (2018), criado a partir de uma jun\u00e7\u00e3o de performances do personagem cruzando Brasil e China com a liberdade da mente de ir e vir para onde quiser, de maneira desterritorializada. Danielly O.M.M., artista pl\u00e1stica, foi quem fez a produ\u00e7\u00e3o executiva, dire\u00e7\u00e3o de arte e participou da montagem. Um registro de happenings, que relaciona-se ao trabalho art\u00edstico e emp\u00edrico de ambos os criadores, tamb\u00e9m juntou-se \u00e0 m\u00fasica. Danielly grava discos experimentais em seu projeto \u201cOMM SOM\u201d e Greg\u00f3rio \u00e9 um estudioso e pesquisador da m\u00fasica, por consequ\u00eancia, \u201cInaudito\u201d, \u00e9 extremamente sens\u00edvel ao som. A trilha sonora pensada em tr\u00eas partes, entre graves, m\u00e9dios e agudos, foi concebidas por Negro Leo, Bruno Schiavo, Dino Vicente e Felipe Ribeiro. H\u00e1 ainda v\u00e1rios momentos em que a pr\u00f3pria guitarra de Lanny, captada na hora, torna-se a pr\u00f3pria trilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ser um document\u00e1rio que coloca a figura, \u201cloucura\u201d e liberdade do som de guitarra de Lanny no centro, o primeiro longa-metragem de Greg\u00f3rio e Danielly vai de encontro \u00e0 maneira de contar hist\u00f3ria dos filmes biogr\u00e1ficos. \u201cEstes document\u00e1rios musicais, boa parte deles eu gosto do documento, mas n\u00e3o sei se gosto tanto do filme\u201d, diz o diretor. O know-how de projetos multim\u00eddias que desenvolveram, por exemplo, no espet\u00e1culo Sinfonia de Jards (inclusive Macal\u00e9 d\u00e1 depoimento no longa), somado a um m\u00e9todo de montagem inovador que criaram para si mesmos, fez com que a montagem ganhasse um car\u00e1ter anal\u00f3gico, em pel\u00edcula, mesmo que filmado no digital, e uma fluidez e liberdade de conex\u00e3o das imagens an\u00e1logas ao inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Greg\u00f3rio estudou filosofia, e h\u00e1 contribui\u00e7\u00f5es de F\u00e9lix Guattari e Gilles Deleuze, fil\u00f3sofos franceses p\u00f3s-modernos, na estrutura de pensamento de sua cria\u00e7\u00e3o. \u201cEu com ele, na dire\u00e7\u00e3o, foi como se estiv\u00e9ssemos em uma jam session juntos\u201d. Suas pr\u00f3prias conversas com Lanny iam para este lugar outro que permitiu o filme ser contado por frases soltas ditas pelo guitarrista nascido em Xangai, mas que vive no Brasil e gravou com os principais artistas brasileiros, com seu nome em muitos discos da Tropic\u00e1lia. Aliado \u00e0 isso, o som e a capta\u00e7\u00e3o de imagens elaboradas e filmadas como fic\u00e7\u00e3o, de uma beleza e expans\u00e3o inigual\u00e1vel, tornam a experi\u00eancia de se assistir \u201cInaudito\u201d pr\u00f3xima a de um filme de arte. Com equipe e or\u00e7amento limitado, as primeiras filmagens come\u00e7aram na China, com Toni Nogueira assinando a dire\u00e7\u00e3o de fotografia e fazendo c\u00e2mera, som direto por Guilherme Shinji, produ\u00e7\u00e3o executiva, al\u00e9m de Greg\u00f3rio e Dani, Sergio Gagliardi-Gag Antonio Carlos Nogueira e Wellington Darwin. O desenho de som e de Dino Vicente, e a edi\u00e7\u00e3o e mixagem por S\u00e9rgio Abdalla. O filme foi vencedor da Olhos Livres na 21\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes. Confira o bate papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"INAUDITO com\/por lanny gordin - teaser\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/201611494?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Danni (Danielly O.M.M.) trabalha com artes pl\u00e1sticas, isso acabou sendo um fator para trazer uma plasticidade para o filme, transformar sua linguagem, apesar de ser um document\u00e1rio?<\/strong><br \/>\n\u201cInaudito\u201d \u00e9 nosso primeiro longa-metragem, mas j\u00e1 desenvolvemos outras coisas. Eu dirigia um espet\u00e1culo com o Jards Macal\u00e9 no Teatro Oficina, chamado \u201cSinfonia de Jards\u201d, e a Dani fez a cenografia. Por isso que conheci o Lanny Gordin. Era uma grande instala\u00e7\u00e3o com tecidos e proje\u00e7\u00f5es, isso foi h\u00e1 7 anos. Eu e a Dani j\u00e1 v\u00ednhamos pesquisando proje\u00e7\u00e3o e houve este encontro. O Lanny participou, ele era o \u00fanico m\u00fasico convidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi esse primeiro encontro com o Lanny? O que despertou em voc\u00eas? Neste mesmo dia voc\u00eas j\u00e1 pensaram que seria interessante fazer o filme com ele?<\/strong><br \/>\nNo que eu vi Lanny, imediatamente a gente teve uma rela\u00e7\u00e3o quase telep\u00e1tica, de harmonia e de amor. E a Dani ficou muito amiga da Cristina, esposa do Lanny. Fomos ao espa\u00e7o de um amigo poeta, Gabriel Kerhart, e neste dia combinamos do Lanny e da Cristina iram l\u00e1 em casa, e viraram amigos nossos. A Dani e a Cristina j\u00e1 falavam do lance do document\u00e1rio, evidentemente eu j\u00e1 pensava nisso tamb\u00e9m. S\u00f3 que eu tinha uma quest\u00e3o: estes document\u00e1rios musicais, boa parte deles eu gosto do documento, mas n\u00e3o sei se gosto tanto do filme como filme. E assisto todos eles. Para mim, \u00e9 uma divers\u00e3o, dentro do outro cinema. A gente sempre esteve desenvolvendo trabalhos interm\u00eddias. Depois do \u201cSinfonia de Jards\u201d, fiz a dire\u00e7\u00e3o e a Dani a cenografia de uma opereta com o Maestro Gilberto Mendes. Era um espa\u00e7o fechado com um monte de bolas, com leds, parecia que estava dentro de um sonho. Tinha um aqu\u00e1rio escrito: \u2018M\u00fasica, o cinema do som\u2019, uma frase do Gilberto Mendes. Ultimamente a gente est\u00e1 bem ligado no Koellreutter. Ele \u00e9 nascido na Alemanha, era da m\u00fasica dodecaf\u00f4nica alem\u00e3, um cara de esquerda e quando teve a ascens\u00e3o do nazismo, a fam\u00edlia dele entrou no movimento nazista e os seus pr\u00f3prios pais o denunciaram. Nisso, ele fugiu e veio para o Brasil. Ao chegar, foi respons\u00e1vel por introduzir a m\u00fasica dodecaf\u00f4nica, e se tornou important\u00edssimo na divulga\u00e7\u00e3o desse movimento. Os poetas concretas frequentavam as aulas dele. O Rog\u00e9rio Duprat foi aluno dele, em S\u00e3o Paulo. Depois o Koellreutter saiu de S\u00e3o Paulo, e n\u00e3o tem a faculdade da Bahia onde Caetano Veloso, Glauber Rocha e Helena Ignez estudaram? Durante o projeto do reitor Edgar Santos, o cara chamado para coordenar a parte de m\u00fasica foi o Koellreutter. Ent\u00e3o toda essa m\u00fasica brasileira dos anos 1960 parte muito dele. Foi muito incr\u00edvel porque ele chamou o Walter Smetak para ser professor, e de repente o David Turdor, que era o pianista do John Cage estava fazendo experi\u00eancias com r\u00e1dio na Bahia. Por que surgiu uma gera\u00e7\u00e3o t\u00e3o radical e genial? Porque foram chamadas as pessoas mais inventivas. Tinha um professor que dava aula sobre o candombl\u00e9 misturado com microtonal e tonalismo. Para mim, isso sempre foi comovente, de perceber que \u00e9 s\u00f3 fazer e n\u00e3o tratar as pessoas como algo p\u00fablico, e querer apaziguar um pouco com receio de n\u00e3o compreenderem. Isso \u00e9 perigoso e foi um ponto importante para o Inaudito: de acreditar em quem assiste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme \u201cInaudito\u201d est\u00e1 sendo muito bem aceito em suas exibi\u00e7\u00f5es. Inclusive foi vencedor da Mostra Olhos Livres em Tiradentes este ano.<\/strong><br \/>\nSim, o Lany \u00e9 um im\u00e3, ele \u00e9 puro amor-humor. Ele tem essa simpatia e eu percebi que a c\u00e2mera ama ele. Parece que as pessoas que tem for\u00e7a no cinema, for\u00e7a diante da c\u00e2mera, s\u00e3o as pessoas que tem uma fala fora da curva. O cinema abre espa\u00e7o para isso, n\u00e3o para falar o que j\u00e1 se sabe ou para ficar l\u00e1 s\u00f3 batendo o martelo de uma forma direcional. N\u00e3o. O cinema s\u00e3o para as pessoas que realmente tem uma exist\u00eancia que sai do padr\u00e3o. Muito do Lanny, na tela, chama por isso. Tem o outro lado, evidente, de que toda decupagem das filmagens e planos eu pensei como fic\u00e7\u00e3o. Cada enquadramento foi pensado, teve um estudo muito grande mesmo das pinturas. Foi filmado com calma. A Dani \u00e9 essa pessoa artista, arquiteta, e ao mesmo tempo \u00e9 uma pessoa hol\u00edstica, que mistura nutri\u00e7\u00e3o com a arte, com o urbanismo, sa\u00fade, m\u00fasica, e isso fez com que em um momento ela perguntasse: \u201cMas como \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o de arte neste filme? Se ele \u00e9 um document\u00e1rio\u201d. Eu respondi: \u201c\u00c9 a influ\u00eancia para o olhar e a cria\u00e7\u00e3o deste olhar\u201d. Um dos melhores exemplos \u00e9 o plano que \u00e9 o trailer do filme, aquelas caixas, que tem uma coisa meio H\u00e9lio Oiticica, mas acho que o processo da Dani, no filme, foi como se fosse uma abertura dos olhos. Como ela trabalha com res\u00edduos, utilizando materiais que as pessoas n\u00e3o enxergam, ela conseguiu trazer isso para o filme. As cenas de S\u00e3o Paulo, no centro, um amigo chegou para mim e disse: \u201cPoxa, eu gostei de ver S\u00e3o Paulo daquele jeito\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea chegou a comentar durante o semin\u00e1rio, na Mostra de Cinema de Tiradentes, que filmar na China foi muito mais f\u00e1cil do que em S\u00e3o Paulo. Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nFoi por uma quest\u00e3o burocr\u00e1tica. O filme todo \u00e9 constru\u00eddo como se fossem performances acontecendo, e junto disso tem uma camada de linhas, n\u00e3o \u00e9 uma timeline, \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o do tempo. Me lembro que cada filmagem na China come\u00e7ava com a gente tomando um ch\u00e1. Eu chegava e ficava 1 hora conversando at\u00e9 filmar. Chegando a S\u00e3o Paulo, \u00e9 outro ritmo, e \u00e9 maravilhoso. Essa foi uma quest\u00e3o minha: \u201cVamos sair daqui para voltar\u201d. E a gente voltou para S\u00e3o Paulo, aquilo parecia o faroeste, mas com vida: as picha\u00e7\u00f5es, heli\u00f3grafos espalhados pela cidade. Aquela beleza. A cidade \u00e9 bonita, mas \u00e9 maltratada e o D\u00f3ria quer(ia) acabar com a parte mais bonita de S\u00e3o Paulo, que s\u00e3o as picha\u00e7\u00f5es, desse car\u00e1ter urbano louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acredito que deva ter tido uma enorme quantidade de material pela potencialidade dos discursos do Lanny e como foi para selecionar o que entraria?<\/strong><br \/>\nPensando por n\u00fameros, um pessoal vai fazer um document\u00e1rio e filma 100 horas. Eu j\u00e1 conhecia muito o Lanny e tinha horas e horas de entrevista com ele em gravador. \u00c0s vezes ele est\u00e1 sentado em um lugar e n\u00e3o fala nada, fica em um sil\u00eancio. Eu com ele, na dire\u00e7\u00e3o, foi como se estiv\u00e9ssemos em uma jam session juntos. O Lanny \u00e9 uma pessoa sens\u00edvel e cansa r\u00e1pido, se voc\u00ea quiser filmar seis horas com ele, na terceira hora ele vai estar cansado, vai falar de outras coisas. Foi uma filmagem de muita sorte porque a gente estava muito em sintonia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-47862\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das cenas \u00e9 a de um reflexo na \u00e1gua em S\u00e3o Paulo, em um enquadramento de cabe\u00e7a para baixo, cortando a pr\u00f3pria cabe\u00e7a de Lanny \u00e0 medida que vai andando, foi proposital ou sem querer que chegaram nestas filmagens?<\/strong><br \/>\nAquilo foi pensado, porque eu sempre tive essa pira\u00e7\u00e3o com reflexo, e eu lembro que estava com o diretor de fotografia, e perguntei: \u201cD\u00e1 para inverter o monitor?\u201d Em um semin\u00e1rio do filme, uma garota trouxe um livro de reflexos e perguntou o porqu\u00ea do reflexo no filme. Tem um lado est\u00e9tico, da beleza evidente, e aquilo \u00e9 relacionado com as frequ\u00eancias, com m\u00fasica. Eu tinha uma grande quest\u00e3o na cabe\u00e7a antes da filmagem: O Lanny \u00e9 o personagem, e desde o come\u00e7o a gente tinha decidido que n\u00e3o teriam falas, estilo depoimento de \u2018medalh\u00f5es\u2019 contando hist\u00f3rias. No \u201cInaudito\u201d, a \u00fanica pessoa que aparece \u00e9 o Jards Macal\u00e9, em uma fala que n\u00e3o \u00e9 sobre o Lanny especificamente, \u00e9 sobre som, ele est\u00e1 de olhos fechados. J\u00e1 a presen\u00e7a do Jos\u00e9 Roberto Aguilar \u00e9 uma performance ali no branco sobre o branco. Eu ficava pensando muito sobre como multiplicar os personagens. E dentro da trag\u00e9dia grega, tem o coro, e veio essa quest\u00e3o de que talvez o reflexo seja o coro. S\u00e3o v\u00e1rios motivos: \u201cEu sou o outro\u201d, \u201cA loucura n\u00e3o \u00e9 um eu, \u00e9 uma multiplica\u00e7\u00e3o\u201d, um contexto b\u00e1sico de Deleuze e Guatarri. E por uma quest\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o do filme, tentamos trazer mais personagens no quadro. Por exemplo, o Lanny fala: \u201cEu estou desenvolvendo um novo estilo, ele se baseia no free total\u201d. A\u00ed a c\u00e2mera desce, desce, desce e ele est\u00e1 de ponta-cabe\u00e7a, ali tem dois personagens no quadro. E tem uma brincadeira, meio \u00f3bvia e infantil, de que quando voc\u00ea est\u00e1 na China, voc\u00ea est\u00e1 de cabe\u00e7a para baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Porque a escolha do Jards Macal\u00e9 para ser o \u00fanico a dar um depoimento no filme?<\/strong><br \/>\nEu vi uma das \u00faltimas entrevistas do Rog\u00e9rio Sganzerla, quando uma pessoa pergunta a ele: \u201cO que voc\u00ea pretende dizer aos novos diretores?\u201d. E ele fala: \u201cVoltem a andar com o pessoal da m\u00fasica brasileira\u201d. Na \u00e9poca da Carmem Miranda, Pixinguinha, isso acontecia e o cinema era altamente inventivo. Terminei de ver essa entrevista, e fiquei com isso na cabe\u00e7a. Sou um estudioso da m\u00fasica, e me veio um del\u00edrio na \u00e9poca. Imaginei um espet\u00e1culo que fossem proje\u00e7\u00f5es e telas e um cara cantando se multiplicando nesse espa\u00e7o, e pensei: essa vai ser uma forma de fazer cinema, porque eu terei a bilheteria do show, vou poder filmar. Eu j\u00e1 fazia curtas, j\u00e1 fiz um monte, sempre fiz desde os 10 anos de idade. E veio a hist\u00f3ria do Jards Macal\u00e9. Tenho um parceiro, amigo, irm\u00e3o, o Francisco Fran\u00e7a, ele dirigiu comigo. Cheguei para ele com ideia, ele topou. Um cara chamado Ivon Patroc\u00ednio gostou da ideia e me levou ao Rio: \u201cVamos ao Rio de Janeiro que conhe\u00e7o um contato que conhece o Macal\u00e9\u201d. Sou apaixonado por ele e por seu viol\u00e3o, pelo jeito que ele puxa as cordas, o jeito que ele sopra\u2026 Levei uns curtas totalmente malucos e comecei a falar um tanto de coisa, refer\u00eancias, e o Macal\u00e9 ouvindo aquilo l\u00e1 e topou. Voltamos quatro pessoas e filmamos em cinco dias, o Macal\u00e9 na rua vestido de coringa, pelado com um baseado cantando \u201cHotel das Estrelas\u201d. As imagens ficaram boas, ficaram vivas. Ent\u00e3o fui assistir um document\u00e1rio sobre ele, em que aparece o Jos\u00e9 Celso falando: \u201cTodo brasileiro, sempre que tiver o nome de Jards Macal\u00e9, tem que ajudar esse nome porque ele \u00e9 uma entidade do Olimpo\u201d. Chamei a Dani, mostrei e falei que o espet\u00e1culo do Jards seria no Teatro Oficina. Cheguei para o Z\u00e9 Celso, ele topou, rolou o \u201cSinfonia de Jards\u201d, e o Lanny apareceu nas nossas vidas. O Macal\u00e9 est\u00e1 neste filme por conta deste contexto. O segundo motivo \u00e9 pela m\u00fasica do Jards. A m\u00fasica do Macal\u00e9 aponta para o agora, e dentro de pessoas que sou influenciado na m\u00fasica atual, que s\u00e3o nossos amigos: Ava Rocha, Negro Leo e Bruno Schiavo. Jards, para mim, solta uma teia que conversa muito com o ser\u00e1 feito agora. Da mesma forma, que de algum lugar, o Lanny tamb\u00e9m. Uma liberdade do Lanny de tocar, tocar \u00e0s vezes n\u00e3o para tirar uma nota musical, mas para poder tocar o instrumento. Tocar na corda. O corpo. Ele fala: \u201cEu ou\u00e7o as vozes, mas quando eu toco, elas param\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu cheguei a anotar algumas falas, elas s\u00e3o muito fortes. Eu imaginei voc\u00eas sentados ouvindo todas e pensando como iriam selecionar estes dizeres e montar junto \u00e0s performances.<\/strong><br \/>\nTem algumas falas que pontuam o filme, elas est\u00e3o em off e tem um momento onde elas aparecem. As conversas com o Lanny eram muito profundas, e o fato de eu ter feito filosofia, tenho certeza que fez as nossas conversas irem para esses lugares. No \u00faltimo dia na China, existiu \u201co acontecimento\u201d. Foi o momento que o Lanny estava um pouco cansado, e eu tamb\u00e9m. Estava at\u00e9 mesmo desligado, pensando que j\u00e1 t\u00ednhamos filmado tudo. De repente, o Lanny fala: \u201cGreguinho, eu tive um surto\u201d. Virei e falei: \u201cVamos desligar a c\u00e2mera\u201d. Ele disse: \u201cN\u00e3o desliga\u201d. E n\u00f3s perguntamos para ele: \u201cComo \u00e9 o surto?\u201d Achei desnecess\u00e1rio colocar no filme, porque foi um surto leve. Mas ele falou: \u201cMe d\u00e1 um branco. Fico com a cabe\u00e7a vazia, n\u00e3o consigo pensar nada\u201d. E pensei sobre o branco ser a jun\u00e7\u00e3o de todas as cores. Mas decidi parar de gravar e perguntei o que ele queria fazer. O Lanny apontou para um caf\u00e9 e a gente foi tomar. A Dani, muito sens\u00edvel, pegou o pessoal da equipe e foi mostrar uma rua cheia de coisas chinesas, como um centro comercial em uma cidade antiga, onde tem de tudo, at\u00e9 inseto em palitinho pra comer. Ficamos somente eu e Lanny, eu estava emocionado e cansado, e tinha um viol\u00e3o. A gente viajava, passeava com um viol\u00e3o, eu virei para ele e pedi: \u201cLanny, afina para mim o viol\u00e3o?\u201d. Ele afinou e eu fui tocar baixinho. Quando terminei de tocar, gosto de tocar m\u00fasica cl\u00e1ssica bem sutil, ele virou e falou: \u201cGreguinho, voc\u00ea toca, voc\u00ea toca!\u201d. Virei e falei: \u201cLanny, nestes dias todos t\u00f4 deixando a coisa fluir, mas quero te falar algumas coisas tamb\u00e9m que eu acho. E se essa sua loucura for algo mesmo? Se essas vozes forem de verdade? E se voc\u00ea escuta mesmo a coisa divina?\u201d. Falei com ele sobre o \u201cHist\u00f3ria da Loucura\u201d, do Foucault, contando que o louco na idade medieval era respeitado como Xam\u00e3. O Lanny respondeu: \u201c\u00c9 isso exatamente o que eu acredito\u201d. O pessoal voltou, ele estava com outra fisionomia, ele estava com o rosto vermelho, uma alegria, e a gente entrou em uma conversa em que muitas das falas est\u00e3o no filme. Aquela hora que ele fala: \u201cA loucura pode ser um estado superior, al\u00e9m do amor, \u00e9 outra coisa que o ser humano vai chegar\u2026\u201d. Foi nesse momento! \u00c9 claro que t\u00ednhamos os planos maravilhosos, mas o lugar do profundo mesmo, de pessoalidade, foi na China. Tudo estava afinando, afinando, afinando, at\u00e9 chegar no caf\u00e9. Chegando a S\u00e3o Paulo, a gente se olhava e p\u00e1-pum, era incr\u00edvel. A est\u00e9tica do filme j\u00e1 estava certa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O interessante de ir para a China primeiro \u00e9 porque quando a gente sai de um lugar que j\u00e1 conhecemos e nos deparamos com um novo por completo, a nossa mente tamb\u00e9m acessa um novo lugar.<\/strong><br \/>\nEsse \u00e9 o motivo de ir para l\u00e1 antes, olhar com os olhos livres. E eu precisava sair. \u00c0s vezes a gente fica com catarata. Filmar serve para isso, aprender a olhar. Na China tudo era vida, tudo era novidade e a gente pode virar bebezinho mesmo. Fazer um plano de ponta-cabe\u00e7a, \u00e9 isso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-47864\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tem uma frase do filme do Jos\u00e9 Alberto Aguilar, nas cenas das tintas, que traduz isso tudo: \u2018O invis\u00edvel prepara o v\u00edsivel\u2019. Como se deu o contato com Aguilar e a ideia dele ter esta apari\u00e7\u00e3o pontual no filme?<\/strong><br \/>\nEle \u00e9 um prisma, ele \u00e9 pintor, \u00e9 da Banda Perform\u00e1tica, que o Lanny j\u00e1 tocou nos anos 1980, e o Aguilar trouxe a videoarte para o Brasil, al\u00e9m de ser escritor. A gente se conheceu pelo Facebook. Fui \u00e0 casa dele, ele foi vendo as coisas, j\u00e1 sacou, j\u00e1 percebeu, e perguntei se ele faria uma cena. A gente tinha pensado com as tintas, no Malevich do branco sobre o branco, e a gente s\u00f3 abriu o plano e ele fez aquela cena, sem corte, ele desenvolve aquilo tudo. Na montagem a tinta escorre, fica tinta branca, parede branca, e ele surge. De repente, a partir desse momento, um dos pontos luminosos do percurso foram essas cores. O filme trabalha com rimas internas. \u00c9 l\u00f3gico que ele tem uma estrutura, passa por temas, \u00e9 um filme oferenda, mas para a gente montar e n\u00e3o ficar preso 100% a uma ideia de uma jornada, de um padr\u00e3o aristot\u00e9lico de dramaturgia, de momentos de intensidade, que depois abaixa, eu e a Dani come\u00e7amos a desenvolver diversos m\u00e9todos na montagem. Muitas vezes o chap\u00e9u de um cara era vermelho, ent\u00e3o vai ter uma rela\u00e7\u00e3o com a arara que aparece logo depois. Ou quando ele sa\u00eda andando do quadro, e isso \u00e9 na China, e ele entra no quadro, quase como se fosse uma continuidade, s\u00f3 que ele est\u00e1 no Brasil. E \u00e9 isso, perfeito, ele est\u00e1 andando pelo mundo, caminhando pelo universo. \u00c9 um filme que tem v\u00e1rias camadas. Nesse sentido da montagem, teve tr\u00eas pontos que pra gente foi quase um m\u00e9todo, a gente imprimiu im\u00e3s de geladeira com as cenas filmadas, uns 300, 400 \u00edm\u00e3s e em nosso apartamento a gente preencheu a sala com mantas met\u00e1licas. Porque como esse filme voc\u00ea est\u00e1 na china e voc\u00ea est\u00e1 no Brasil, um poeta amigo nosso, Marcelo Ariel, falou uma coisa muito bonita: \u201cO filme n\u00e3o tem aeroporto\u201d. Esta aqui, est\u00e1 ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se simulasse, na montagem, a pr\u00f3pria fluidez da mente?<\/strong><br \/>\nEu falava com a Dani que o Final Cut, os programas de edi\u00e7\u00e3o, trabalham com timeline, uma lineariza\u00e7\u00e3o, e no computador a gente n\u00e3o lida com a mat\u00e9ria. Ent\u00e3o, o que aconteceu: Ficava l\u00e1 um im\u00e3 que de longe, fechando um pouco o olho, era avermelhado, e peg\u00e1vamos outro. Ele permitiu que essas voltas e transi\u00e7\u00f5es espaciais flu\u00edssem. Libertou a gente e criou essas rimas internas e possibilitou esse estado de sonho. A gente tridimensionalizou o processo. Porque na timeline voc\u00ea tem uma linha, e a partir do momento que voc\u00ea pode manipular e mudar de lugar para todos os lados, voc\u00ea volta para a mat\u00e9ria. A gente montava uma sequ\u00eancia, depois recombinando as sequ\u00eancias. Estudo muito cinema, sou meio caxias. E na \u00e9poca do cinema das pel\u00edculas, as pessoas recortavam-nas e deixavam-nas penduradas, ent\u00e3o, o que foi muito legal dos \u00edm\u00e3s, foi a praticidade. A rela\u00e7\u00e3o com os frames \u00e9 algo que se perde muito com o digital. Como o lance agora \u00e9 valvulado com pro tools, as duas coisas tem que andar juntas, foi uma forma de trazer o anal\u00f3gico para nossa estrutura de pensamento da montagem. A gente tinha que chegar a uma solu\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica que a gente pudesse enxergar, mexer, ser confort\u00e1vel. At\u00e9 porque esse filme \u00e9 muito dif\u00edcil de montar. Tem a m\u00fasica, dentro da m\u00fasica o \u201cfree\u201d, Brasil e China, a loucura. S\u00f3 a quest\u00e3o da loucura necessita um lance de se ultrapassar sempre e ao mesmo tempo se auto criticar por um lance \u00e9tico. A gente trabalhou com lentes fixas, eu n\u00e3o queria que o zoom fosse algo invasivo entre o c\u00e2mera e o Lanny. Lembro que em uma montagem a gente colocou uma lente fechada que dava uma coisa voyeur, e eu falei: \u201cN\u00e3o, isso vai passar uma sensa\u00e7\u00e3o de voyeurismo da loucura\u201d. Era uma delicadeza, porque essa loucura do Lanny, para mim, ela \u00e9 transformadora. Se isso \u00e9 loucura, ent\u00e3o vamos aprender. \u00c9 l\u00f3gico que n\u00e3o pode se fetichizar as coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E aquela fala dele \u00e9 muito incr\u00edvel, quando ele fala que come\u00e7aram a colocar um monte de fios e ele achou aquilo um barato!<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma hora que o Lanny volta pro ch\u00e3o e traz aquilo ao modo dele. E a\u00ed depois ele fala: \u201cEu libertei os loucos dos hosp\u00edcios porque estavam todos presos em fortes correntes de a\u00e7o, eu libertei porque eu tive pena deles\u201d. Tem um amigo terapeuta nosso que soltou uma frase que achei perfeita: \u201cO Lanny n\u00e3o \u00e9 uma pessoa doente, \u00e9 uma pessoa extremamente saud\u00e1vel, que vive em um mundo doente\u201d. O filme \u00e9 bem Guattari e Deleuze, ele \u00e9 bem anti \u00c9dipo. Freud \u00e9 um g\u00eanio, descobre o inconsciente, mas a quest\u00e3o \u00e9 que ele chamava a esquizofrenia dos psic\u00f3ticos e tinha certo desprezo com isso, com a manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente. Um dos motivos do porqu\u00ea fazer esse filme \u00e9 que eu sabia que o primeiro filme d\u00e1 aquela vontade de criar, de repensar quadros, planos, o segundo, o terceiro tamb\u00e9m, acho que a vida inteira. O Lanny pede isso, isso que \u00e9 delicioso. Ele pede a cria\u00e7\u00e3o e a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As falas do Lanny s\u00e3o completamente sinest\u00e9sicas e envolvem elementos da natureza. Voc\u00ea tinha que dar conta dessa sinestesia nas imagens, de passar pela natureza, misturar tudo. E na montagem, pelo o que eu percebi, talvez voc\u00ea tenha feito quase que dois filmes, um de \u00e1udio e um de imagem.<\/strong><br \/>\nEu e a Dani tentamos n\u00e3o trabalhar em cima de uma m\u00fasica j\u00e1 de base, r\u00edtmica. Porque se n\u00e3o a montagem ficaria em um ritmo e o Lanny \u00e9 pulsa\u00e7\u00e3o. Mas a gente precisou ir criando uma atmosfera sonora enquanto a gente criava, que foi um guia para todo mundo que foi chamado para trilha. A m\u00fasica aparece no filme de duas formas: existe a m\u00fasica em cena, que o Lanny est\u00e1 tocando em cena, e ela j\u00e1 \u00e9 a trilha, existe a capta\u00e7\u00e3o do som direto, e ainda existe a m\u00fasica que vai comentar e abrir o olhar e o ouvido da imagem. Teve um momento que foi decisivo do filme, no desenho de som, eu estava com o Dino e falei: \u201cA trilha est\u00e1 linda, as imagens est\u00e3o, mas o som est\u00e1 careta. A gente vai precisar transformar algumas coisas\u201d. E foi nesse momento que o Dino come\u00e7ou a desenvolver aqueles sintetizadores que trabalham em camada dupla, a gente come\u00e7ou a abrir algumas possibilidades de som. Eu falei para a Dani: \u201cVamos libertar, vamos libertar o filme\u201d. O som de cena foi esculpido, mas n\u00e3o podia exagerar para n\u00e3o virar uma met\u00e1fora da loucura, e sim ser uma conversa com a musicalidade da frequ\u00eancia. Esse som do Lanny, experimental, esse outro lugar, \u00e9 uma paix\u00e3o minha. Esse filme tem um pouco um manifesto de uma m\u00fasica que est\u00e1 sendo realizada. A figura do Negro Leo no filme \u00e9 fundamental, para mim ele \u00e9 um g\u00eanio, um conector de v\u00e1rias vias, e ele \u00e9 de uma intelig\u00eancia, rapidez e o filme na parte da m\u00fasica conversa com esse caminho, com essa liberdade para tocar. A figura do Lanny \u00e9 uma paisagem imagin\u00e1ria para essa m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea, Greg\u00f3rio, e Lanny, j\u00e1 chegaram a fazer m\u00fasicas juntos?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1. Me apresentei uma vez eu, Lanny e Felipe Ribeiro, l\u00e1 atr\u00e1s, antes do filme. Esse \u00e9 um ponto, mas na verdade Lanny \u00e9 meu professor de guitarra, algo dos sonhos. Descobri que, pessoalmente, tiveram duas coisas nesse filme: uma \u00e9 que eu queria aprender a tocar m\u00fasica e a outra s\u00f3 descobri depois que o filme passou, que foi a morte do meu pai e esse filme foi um pouco sobre essa pesquisa do que \u00e9 a vida. De querer entender o que \u00e9 o al\u00e9m, e estar com o Lanny nesse processo, ele \u00e9 um mentor. Estou achando interessante tamb\u00e9m perceber que \u00e9 um filme que continua depois de uns dias, cada vez que converso com amigos \u00e9 uma sequ\u00eancia diferente que eles lembram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem uma cena que me chamou aten\u00e7\u00e3o porque a c\u00e2mera est\u00e1 dentro do corpo do viol\u00e3o. Como surgiu a ideia?<\/strong><br \/>\nAquilo \u00e9 lindo. Aquilo estava na mostra do Howard Hawks, diretor dos anos 1930\/1940, de cinema, e tem um filme dele de faroeste. Antes de fazer esse filme eu quebrava a cabe\u00e7a pensando que a guitarra j\u00e1 foi filmada de todas as formas. Eu n\u00e3o queria close dos dedos tocando guitarra, o filme n\u00e3o tem nenhum close nas m\u00e3os, \u00e9 tudo plano aberto. Eu comecei a pensar: o que \u00e9 o contraplano? No filme do Hawks tem uma cena que \u00e9 bem montada, as cordas do viol\u00e3o, o fundo preto e tem a m\u00e3o, na hora eu sa\u00ed de l\u00e1 pensando em uma Go Pro dentro do corpo do viol\u00e3o. E tamb\u00e9m um pouco de entrar nas v\u00edsceras do viol\u00e3o. O som que a gente escuta naquele momento \u00e9 o som da c\u00e2mera gravando dentro do viol\u00e3o, o viol\u00e3o \u00e9 uma caverna. E ent\u00e3o do lado de fora veio uma chinesa com o celular e ficou filmando o Lanny, porque a gente decidiu fazer uma cena e era um lugar com muita gente, as pessoas come\u00e7aram a olhar, filmar e n\u00e3o sabiam que estavam sendo filmadas pelo viol\u00e3o. Ali foi o Lanny falando: Agora quem vai filmar sou eu, e ele est\u00e1 filmando com o viol\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-47863\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/lanny3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os document\u00e1rios em geral fazem muito uso de imagens de arquivo, e o acho que voc\u00eas usam apenas uma em preto e branco de Lanny fazendo uma performance com a guitarra.<\/strong><br \/>\nRog\u00e9rio Sganzerla na filmagem. Ela n\u00e3o tinha som. A Helena Ignez liberou para a gente a imagem. Eu falei para ela, e essa filmagem \u00e9 uma sobra de um material que o Rog\u00e9rio n\u00e3o concluiu. Era uma esp\u00e9cie de continua\u00e7\u00e3o do \u201cBandido da Luz Vermelha\u201d, e eu sabia que existia essa cena com o Lanny. Quando est\u00e1vamos na China eu falei que queria muito fazer aquela pergunta de qual foi o show mais incr\u00edvel que ele j\u00e1 fez, e fizeram essa pergunta e ele falou dessa performance maravilhosa: \u201cTirei a guitarra, tomei um choque el\u00e9trico e morri\u201d. Chama-se \u201cA Morte do Guitarrista\u201d. Ela aparece um pouquinho depois da metade do filme, e ent\u00e3o aparecem estas imagens, e aquela coisa completamente nonsense que ele contou aconteceu! De repente quem assiste se pergunta: \u201cPera a\u00ed, ent\u00e3o o que o cara est\u00e1 falando \u00e9 realmente verdade\u201d. Conversando com o Negro Leo sobre fazer a trilha para essa parte, ele viu aquilo l\u00e1 sem nada, e falou: \u201cVamos tirar tudo de m\u00fasica nessa sequ\u00eancia de arquivo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O doc \u00e9 filmado somente em espa\u00e7os abertos, por conta dessa ideia libert\u00e1ria e vai na contram\u00e3o de v\u00e1rios docs que querem ir na intimidade do personagem, mas que acabam n\u00e3o chegando nessa profundidade, porque voc\u00ea v\u00ea l\u00e1 o sof\u00e1 do cara e s\u00f3. At\u00e9 fiquei me perguntando: as pessoas v\u00e3o para dentro das casas das outras achando que ali elas v\u00e3o captar alguma ess\u00eancia, mas o caminho pode ser do de fora para dentro.<\/strong><br \/>\nO Lanny n\u00e3o d\u00e1 a m\u00ednima para o espa\u00e7o. Fomos para a rua. A gente nem filmou na casa dele. O Lanny \u00e9 um improvisador e o mundo \u00e9 um palco para ele. O Lanny gosta de ficar muito em sil\u00eancio, mas quando liga a c\u00e2mera ele tem uma desenvoltura muito \u00f3tima. Ele gosta de gravar, ele guarda a energia dele para a hora que vai ser filmado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual o motivo do nome ser \u201cInaudito\u201d?<\/strong><br \/>\nEu tinha feito um curta no Parque Augusta a partir de um texto de Peter P\u00e1l Pelbart, que fala: \u201cInventar novas formas inauditas de vida\u201d. Fiquei com essa palavra na cabe\u00e7a, porque o inaudito \u00e9 o que n\u00e3o se percebe, o que n\u00e3o \u00e9 escutado. Fiquei pensando que esse nome poderia ser o t\u00edtulo do filme. \u00c9 a percep\u00e7\u00e3o dessas frequ\u00eancias, vibra\u00e7\u00f5es, porque no fundo mesmo o filme \u00e9 sobre frequ\u00eancias espaciais, mentais, telep\u00e1ticas, sonoras. Muitos dos motivos do reflexos s\u00e3o estes. Em uma das cenas, eu avistei na China uma pr\u00e1tica que acontece nas pra\u00e7as: v\u00e1rios velhinhos com um pincel gigante, que enchem de \u00e1gua e ficam ali fazendo poemas. Foi acaso total. A gente saiu para tomar um suco, de repente eu vejo aquilo e come\u00e7o a chorar, porque para mim foi a arte contempor\u00e2nea m\u00e1xima. Ele faz com a \u00e1gua os ideogramas e as pessoas passam por cima e acaba.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"41\u00aa Mostra - Gregorio Gananian, de Inaudito\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/k7Z7Y4oSQsM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Carime Elmor (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carime.elmor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb\/carime.elmor<\/a>) \u00e9 jornalista da Tribuna de Minas e\u00a0fazedora dos zines\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/malditasgrls\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Malditas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Lanny Gordin e sua guitarra baseada no \u201cfree total\u201d de sua mente foram gravadas por Gregorio Gananian, que dirigiu um document\u00e1rio chamado \u201cInaudito\u201d (2018)  a partir de performances cruzando Brasil e China\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/08\/entrevista-gregorio-gananian-fala-sobre-o-filme-inaudito\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":54,"featured_media":47861,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[3052],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47860"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/54"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47860"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47860\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78274,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47860\/revisions\/78274"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47861"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}