{"id":4758,"date":"2010-03-30T18:21:15","date_gmt":"2010-03-30T21:21:15","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4758"},"modified":"2023-03-29T00:01:51","modified_gmt":"2023-03-29T03:01:51","slug":"keha-ou-mau-gosto-nao-se-discute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/03\/30\/keha-ou-mau-gosto-nao-se-discute\/","title":{"rendered":"Ke$ha ou mau gosto n\u00e3o se discute"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"605\" height=\"378\" class=\"alignnone size-full wp-image-4759\" title=\"kesha\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/kesha.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/kesha.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/kesha-300x187.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/Serjones\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">S\u00e9rgio Martins<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Escovo meus dentes com uma garrafa de Jack&#8221;, diz a cantora americana Ke$ha, de 22 anos, em &#8220;Tik Tok&#8221;, single que a elevou ao topo da parada de discos americana. Jack, bem entendido, \u00e9 o u\u00edsque Jack Daniel\u2019s. A mo\u00e7a deve ter um h\u00e1lito deleit\u00e1vel. Sua m\u00fasica \u00e9 igualmente doce: embalada por um pancad\u00e3o eletr\u00f4nico (uma esp\u00e9cie de rap sem molejo), Ke$ha canta sobre noitadas, homens e bebedeiras. O clip de &#8220;Tik Tok&#8221; n\u00e3o \u00e9 sutil na sua tradu\u00e7\u00e3o visual da letra: Ke$ha acorda, toda amarfanhada, dentro de uma banheira, esfrega-se com um sujeito de bigod\u00e3o asqueroso, \u00e9 algemada por um policial, passa a madrugada pulando em uma casa noturna \u2013 e, no fim triunfal da jornada, capota mais uma vez dentro da banheira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As demais can\u00e7\u00f5es de &#8220;Animal&#8221;, disco que j\u00e1 vendeu 152.000 c\u00f3pias nos Estados Unidos na primeira semana de lan\u00e7amento, n\u00e3o s\u00e3o diferentes: relatos de baladas, com muito \u00e1lcool e sexo. A escandalosa Amy Winehouse \u2013 que, ao contr\u00e1rio de Ke$ha, sabe cantar \u2013 pelo menos mostra uma certa ironia quando exalta seu jeito intoxicado de ser em &#8220;Rehab&#8221;. Ex-backing vocal de Britney Spears, Ke$ha n\u00e3o saberia ser ir\u00f4nica. Sua m\u00fasica \u00e9 t\u00e3o vulgar quanto o cifr\u00e3o que ela p\u00f4s no meio do nome. Democr\u00e1tica, relativista, a cultura moderna diluiu as categorias tradicionais do gosto. E no entanto ainda h\u00e1 casos como o de &#8220;Tik Tok&#8221;, do qual se pode dizer de forma inequ\u00edvoca: que neg\u00f3cio de mau gosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em alguns casos, o mau gosto restringe-se ao campo mais ou menos in\u00f3cuo do estilo. Tome-se, como ilustra\u00e7\u00e3o, essa frase de &#8220;O S\u00edmbolo Perdido&#8221;, best-seller de Dan Brown: &#8220;Seu massivo \u00f3rg\u00e3o sexual trazia os s\u00edmbolos tatuados de seu destino&#8221;. Ris\u00edvel de t\u00e3o ruim \u2013 mas n\u00e3o chega a ofender a dignidade de ningu\u00e9m. O mesmo vale para a tocante cafonice da escocesa Susan Boyle, cujo disco &#8220;I Dreamed a Dream&#8221; foi desbancado do topo das paradas por &#8220;Animal&#8221;. Mas Ke$ha ultrapassa a barreira da baixaria pela maneira aviltante como representa sua personagem \u2013 o pop, afinal, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 m\u00fasica, mas &#8220;atitude&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevistas, a cantora atribui a suas can\u00e7\u00f5es um certo esp\u00edrito de revanche feminista: &#8220;As pessoas se chocam com as minhas letras, mas n\u00e3o reclamariam se elas fossem do Van Halen ou do Guns N\u2019 Roses. Estava na hora de os homens provarem um pouco de seu pr\u00f3prio rem\u00e9dio&#8221;, declarou ao jornal ingl\u00eas The Guardian. O argumento poderia valer para a Madonna dos bons tempos \u2013 a mulher sexy mas dominadora, que faz o que quer dos homens que a desejam. Mas a personagem de &#8220;Tik Tok&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma dominatrix \u2013 \u00e9, nos termos do funk carioca (outro estilo bem plantado no terreno da baixaria), uma cachorra. Essa figura despontou na m\u00fasica gra\u00e7as ao chamado gangsta rap do fim dos anos 80 \u2013 um g\u00eanero que glamourizava o crime e o machismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m machistas, mas menos agressivas, as com\u00e9dias estudantis americanas param bem perto da fronteira da baixaria (e at\u00e9 da pornografia). O g\u00eanero eclodiu com o sucesso do primeiro &#8220;Porky\u2019s&#8221;, em 1982, e desde ent\u00e3o nunca parou de dar dinheiro. Essa sexualidade adolescente, vulgar e incontrol\u00e1vel, que se v\u00ea, por exemplo, em &#8220;American Pie&#8221; estendeu-se a personagens adultos em &#8220;Quem Vai Ficar com Mary? &#8220;, dos irm\u00e3os Farrelly, e, mais recentemente, &#8220;O Virgem de 40 Anos&#8221;, de Judd Apatow. S\u00e3o filmes marcados por uma escatologia meio infantil, com piadas nojentas envolvendo v\u00f4mito, urina e outras secre\u00e7\u00f5es \u2013 mas tamb\u00e9m s\u00e3o rom\u00e2nticos, ternos quase, se comparados a &#8220;Porky\u2019s&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4760 aligncenter\" title=\"jogos_mortais\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/jogos_mortais.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/jogos_mortais.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/jogos_mortais-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os filmes de terror B como &#8220;Madrugada dos Mortos&#8221; costumavam ocupar a mesma zona cinzenta do mau gosto ineg\u00e1vel, mas divertido. Sua sangueira podia at\u00e9 revoltar est\u00f4magos mais sens\u00edveis, mas n\u00e3o aviltava o senso moral do espectador. A palavra inglesa &#8220;trash&#8221; \u2013 literalmente, lixo \u2013 designa bem esse tipo de produ\u00e7\u00e3o. Recentemente, por\u00e9m, um novo g\u00eanero de terror rompeu a fronteira que separa o trash da baixaria e da pura apela\u00e7\u00e3o: trata-se do &#8220;torture porn&#8221; (porn\u00f4 de tortura). O apelo de s\u00e9ries cinematogr\u00e1ficas como &#8220;Jogos Mortais&#8221; e &#8220;O Albergue&#8221; n\u00e3o \u00e9 o terror, mas o sofrimento, infligido com m\u00e9todos elaborados a belas jovens (o p\u00fablico desses filmes \u00e9 majoritariamente masculino).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sangue, sujeira, secre\u00e7\u00f5es \u2013 esses materiais baixos n\u00e3o rompem, por si mesmos, os limites do bom gosto. H\u00e1 cenas escatol\u00f3gicas em cl\u00e1ssicos liter\u00e1rios de Rabelais ou Cervantes, e certas telas de Caravaggio t\u00eam mais sangue do que um filme de zumbi de George Romero. Uma certa cultura da provoca\u00e7\u00e3o e do esc\u00e2ndalo, de outro lado, valoriza excessivamente o material mais repulsivo, como os bichos embalsamados que o artista ingl\u00eas Damien Hirst vende por dezenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Mau gosto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rica\u00e7o incauto que comprou um tubar\u00e3o morto dir\u00e1 que n\u00e3o, que Hirst est\u00e1 ironizando os c\u00e2nones da grande arte etc. Esse clima de vale-tudo na arte contempor\u00e2nea, em que ironia e impostura se confundem, sugere um mundo no qual a distin\u00e7\u00e3o entre bom e mau gosto perdeu o sentido. Outra linha cr\u00edtica relativista, mais ligada \u00e0 esquerda, tende a interpretar o gosto como um mero mecanismo de domina\u00e7\u00e3o \u2013 o bom gosto seria estabelecido pelos ricos como um meio simb\u00f3lico de se distinguirem da ral\u00e9 (o soci\u00f3logo franc\u00eas Pierre Bourdieu sustentou um argumento dessa ordem em &#8220;A Distin\u00e7\u00e3o&#8221;, livro de 1979).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os limites entre o belo e o feio, o vulgar e o refinado, o sutil e o grosseiro de fato s\u00e3o sempre imprecisos. Est\u00e3o sujeitos aos caprichos de cada \u00e9poca \u2013 ou, no caso da moda, de cada temporada: a estampa de oncinha, que j\u00e1 foi o nadir do mau gosto, hoje est\u00e1 reabilitada (com parcim\u00f4nia, claro: a cal\u00e7a de Ke$ha na foto que ilustra este texto ainda \u00e9 lament\u00e1vel). Mas ser\u00e1 bobagem insistir na desgastada m\u00e1xima segundo a qual &#8220;gosto n\u00e3o se discute&#8221; \u2013 at\u00e9 porque as mesas de bar seriam bem menos animadas sem essas discuss\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O gosto n\u00e3o possui um sistema e n\u00e3o possui provas. Mas existe uma esp\u00e9cie de l\u00f3gica do gosto&#8221;, dizia a escritora e cr\u00edtica americana Susan Sontag em um ensaio dos anos 60. O gosto, afirma ainda a ensa\u00edsta, n\u00e3o se limita aos julgamentos art\u00edsticos: h\u00e1 gosto na emo\u00e7\u00e3o, na moral, e at\u00e9 a intelig\u00eancia seria uma esp\u00e9cie de &#8220;gosto pelas ideias&#8221;. Relativismos \u00e0 parte, ainda existem algumas linhas claras para separar ironia de porcaria, luxo de lixo. N\u00e3o s\u00e3o necessariamente elitistas aqueles que criticam o artista por ultrapassar as fronteiras do impr\u00f3prio, da baixaria, da vulgaridade. Pelo contr\u00e1rio: sustentar a import\u00e2ncia do gosto pode ser um exerc\u00edcio de liberdade do homem comum contra aqueles que t\u00eam cifr\u00f5es na conta ou no nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4761 aligncenter\" title=\"kesha1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/kesha1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"805\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/kesha1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/kesha1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p>*******<br \/>\nS\u00e9rgio Martins \u00e9 jornalista e apresentador do <a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veja M\u00fasica<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por S\u00e9rgio Martins\nAinda existem algumas linhas claras para separar ironia de porcaria, luxo de lixo. 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