{"id":47371,"date":"2018-05-07T08:34:49","date_gmt":"2018-05-07T11:34:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=47371"},"modified":"2018-05-30T10:06:08","modified_gmt":"2018-05-30T13:06:08","slug":"entrevista-lurdez-da-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/07\/entrevista-lurdez-da-luz\/","title":{"rendered":"Entrevista: Lurdez da Luz"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carime.elmor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carime Elmor<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2018, Lurdez da Luz completa 20 anos de sua trajet\u00f3ria enquanto compositora e rapper. Quando garota, na adolesc\u00eancia, aprendeu a tocar guitarra, autodidata, para entrar no movimento Riot Girl que acontecia em S\u00e3o Paulo. Foi integrante da banda riot punk feminina Lava que surgiu em 1996 e tamb\u00e9m chegou a gravar as guitarras das primeiras cassetes da Elroy, criada em 1998. Seguiu atravessando os roles hardcore que misturavam diferentes viv\u00eancias tra\u00e7adas nas letras dos g\u00eaneros urbanos at\u00e9 come\u00e7ar a estudar \u00e1udio e se interessar pelos experimentos utilizando beats e elementos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento em que come\u00e7ava a escrever, em 1998, suas letras foram tomando a cad\u00eancia do Hip Hop underground norte-americano. DJ Shadow, Quannum Projects, Antipop Consortium, Jurassic 5, Bahamadia e Jean Grae eram alguns dos artistas que gostava de ouvir, imersa na pot\u00eancia da poesia Spoken word. Inclusive, em seus shows h\u00e1 um hiato musical apenas para recita\u00e7\u00e3o de versos livres. Falando de Brasil, nunca mais se esqueceu do impacto que foi ouvir Racionais MC\u2019s pela primeira vez. Dina Di, ex-vocalista do Vis\u00e3o de Rua, tamb\u00e9m foi forte inspira\u00e7\u00e3o para se afirmar no Rap.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz de Lurdez da Luz \u00e9 o sotaque da mulher artista, m\u00e3e e batalhadora. No caos do centro de S\u00e3o Paulo ela v\u00ea, ouve e faz nascer uma constela\u00e7\u00e3o musical lapidada em ritmo e poesia, os alicerces do Rap. Lurdez da Luz \u00e9 reconhecida como uma das pioneiras do Hip Hop feminino nacional, desde 2000 quando ingressou no Mamelo Sound System. Em carreira solo, lan\u00e7ou o EP hom\u00f4nimo \u201cLurdez da Luz\u201d (2010), o \u00e1lbum \u201cGana pelo Bang\u201d (2014), o EP \u201cBem Vinda\u201d (2016) e o mais recente, \u201cAcrux\u201d, lan\u00e7ado no final de 2017 em formato ac\u00fastico. Os dois \u00faltimos foram produzidos pelo grupo Pparalelo, que a acompanha nos shows.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conversa de camarim, Lurdez fala sobre querer se apresentar para a nova gera\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o teve contato com seu trabalho como compositora de Rap. Destaca a ascens\u00e3o das mulheres na ind\u00fastria cultural e reflete acerca de uma percep\u00e7\u00e3o pessoal sobre as composi\u00e7\u00f5es mais \u201cp\u00e9 no ch\u00e3o\u201d de uma gera\u00e7\u00e3o conectada com as pautas dos movimentos sociais. &#8220;Acrux&#8221; est\u00e1 dispon\u00edvel nos principais portais de streaming (<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2FEcQZhYBSnsr5H8nKjIhL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Spotify<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.deezer.com\/br\/album\/51414392?app_id=140685\">Deezer<\/a>, <a href=\"https:\/\/play.google.com\/store\/music\/album?id=Bdziykvirphrchpbaduud6pn2ri&amp;tid=song-Tjrd6ghwnt7c45nmqcbbe3itkie&amp;PCamRefID=LFV_ecff3c957ce79561e8350db9b0c237ee\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Google Play<\/a>, <a href=\"https:\/\/onerpm.lnk.to\/LurdezDaLuz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Apple Music<\/a>) e tamb\u00e9m pode ouvido na integra no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jgHqgDZujYk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Youtube<\/a>. Confira o bate papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uVCpE_b40cg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em sua hist\u00f3ria com a m\u00fasica, voc\u00ea j\u00e1 come\u00e7ou no Rap, ou antes voc\u00ea se dedicava a tocar instrumentos? J\u00e1 foi integrante de outras bandas? Como a linguagem do Rap chegou at\u00e9 voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nMe veio primeiro a ideia de tocar, ent\u00e3o eu tive uma banda feminina que se chamava Lava e outra banda com meninos que chama Elroy \u2013 eu tocava guitarra. At\u00e9 toquei baixo durante um tempo em algum lugar. Eu tinha uns 16 anos, por a\u00ed, e foi meu primeiro contato com palco e m\u00fasica. Depois dei um tempo com as bandas e fui estudar \u00e1udio. Sempre escutei todo tipo de m\u00fasica, como at\u00e9 hoje, e por volta de 1998 estava come\u00e7ando a escrever. N\u00e3o pensava exatamente em Rap, mas em produ\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, a parada dos beats foi me encantando, e tamb\u00e9m a l\u00edrica e a poesia. Escutava muita coisa do Rap underground americano que estava rolando na \u00e9poca. DJ Shadow, que n\u00e3o tinha um Mc, mas \u00e9 Hip Hop, Quannum Projects, que era desse movimento underground, assim como Antipop Consortium, Jurassic 5, e fui ficando muito a fim de experimentar esse estilo. Algumas mulheres tamb\u00e9m: Bahamadia, Jean Grae, essa cena de Spoken Word que estava rolando na \u00e9poca com Saul Williams, isso me influenciou a come\u00e7ar a entrar no Rap, j\u00e1 flertando com a hist\u00f3ria do Hip Hop. Fui encontrando meu caminho por volta dos anos 2000, quando entrei para o Mamelo Sound System.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na adolesc\u00eancia, o que te levou a querer aprender m\u00fasica e estudar guitarra?<\/strong><br \/>\nNunca fui de estudar, sempre foi essa ideia do autodidata. Eu queria me expressar, ent\u00e3o come\u00e7ou com essa hist\u00f3ria do punk rock feito por mulher, o movimento Riot Girl. Eu achava aquilo incr\u00edvel e ainda acho. Com 15, 16 anos foi quando montei a banda Lava, somente com meninas. Na nossa \u00e9poca, tinham muito poucas bandas de garotas, j\u00e1 existia uma cena, mas a gente tocava muito com bandas de homens tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na letra de \u201cZiriguidum\u201d voc\u00ea diz: \u201cNada contra hardcore, s\u00f3 que hoje eu quero funk\u201d. Tem rela\u00e7\u00e3o com a descoberta dessa linguagem para seu som e a experi\u00eancia que havia tido com o hardcore?<\/strong><br \/>\nNesse caso eu estava falando mais do estilo da ind\u00fastria porn\u00f4 mesmo. No \u201cZiriguidum\u201d eu estou falando de um relacionamento afetivo, de um cara que eu estou a fim e que est\u00e1 rolando uma energia. A\u00ed falo que quero uma coisa mais \u201cfunk\u201d, no sentido n\u00e3o do funk carioca, mas do funk soul, algo mais suave, querendo uma pegada mais leve e n\u00e3o t\u00e3o agressiva. Era mais uma analogia mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre a grava\u00e7\u00e3o ao vivo que voc\u00ea fez do seu recente trabalho \u201cAcrux\u201d (2017), pelo o que vejo, \u00e9 a persist\u00eancia de voc\u00ea querer evidenciar a sua mensagem, e por ser ao vivo, tem essa caracter\u00edstica mais org\u00e2nica. \u00c9 o Rap sendo mostrado do jeito que ele \u00e9 feito, sem edi\u00e7\u00e3o, mais pr\u00f3ximo do freestyle. Essa foi a principal ideia para se gravar um ac\u00fastico?<\/strong><br \/>\nExato. Acho que v\u00e1rias coisas me motivaram. A primeira ideia foi a de querer timbres mais org\u00e2nicos e menos camadas de \u00e1udio, de produ\u00e7\u00e3o, menos efeitos e um arranjo mais fluido. Algo que fosse na contram\u00e3o do meu \u00faltimo disco, &#8220;Gana Pelo Bang&#8221; (2014), que \u00e9 totalmente eletr\u00f4nico. Escolhi algumas m\u00fasicas que acho que sobrevivem ao tempo, juntei trabalhos mais novos e fiz esse apanhado geral. Eu estava na ideia de montar um show novo, n\u00e3o foi nem pensando para se tornar um disco. Nisso, os caras da Pparalelo me propuseram gravar esse repert\u00f3rio com viol\u00e3o, baixo e bateria, depois colocando um vibrafone, um piano, sons desse tipo. Fiquei pensando: \u201cSer\u00e1? Viol\u00e3o? Eu n\u00e3o tinha pensado em viol\u00e3o\u201d. Imaginava um show mais org\u00e2nico, s\u00f3 que ainda eletrificado, tipo usando um sintetizador Mug, elementos mais anal\u00f3gicos, mas enfim, eles vieram com essa ideia e curti muito o tipo de arranjo. Eles conseguiram resolver a ideia do ac\u00fastico, porque eu n\u00e3o queria que ficasse com aquela caracter\u00edstica de luau, sabe? E achei foda. Ent\u00e3o falei: \u201cMeu, vamos gravar isso em disco\u201d. Primeiro fizemos um show, e chamamos pessoas conhecidas para assistirem. A gente fez em um est\u00fadio, exatamente como est\u00e1 ali no disco, aparecendo tudo, mesmo se errei uma palavra, uma respira\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o tem dobra, algo que a gente usa muito, dobra de voz, backing vocal o tempo inteiro, ali s\u00e3o s\u00f3 os meninos fazendo backing e a \u00fanica grava\u00e7\u00e3o separada foram os vocais do Jadiel Akanni. Tem apenas a equaliza\u00e7\u00e3o da mesa, como se fosse um show ao vivo com qualidade, como se fosse um super L R da mesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Todas as 10 faixas do \u201cAcrux\u201d j\u00e1 haviam sido gravadas em \u00e1lbuns de est\u00fadio? Me parece que a primeira faixa \u2013 \u201cO Que Me Move\u201d \u2013 \u00e9 in\u00e9dita.<\/strong><br \/>\n\u201cO Que Me Move\u201d \u00e9 bastante recente, \u00e9 de um EP \u201cPPararelo + Lurdez da Luz\u201d (2016) e \u201cAcrux\u201d \u00e9 uma m\u00fasica in\u00e9dita que aparece somente neste disco ac\u00fastico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a m\u00fasica \u201cAcrux\u201d surgiu e do que essa poesia se trata? De que maneira ela \u00e9 a arquitetura central de todo o disco?<\/strong><br \/>\n\u201cAcrux\u201d, que d\u00e1 nome ao disco, \u00e9 um single in\u00e9dito, que a gente at\u00e9 lan\u00e7ou um pouquinho antes do disco, e foi a faixa que deu a identidade musical para este trabalho. Quando eles falaram que estavam pensando em uma est\u00e9tica ac\u00fastica, foi essa a faixa que eles me enviaram. Eu pensei: \u201cIncr\u00edvel esse tipo de arranjo!\u201d. Eu j\u00e1 tinha um refr\u00e3o na minha cabe\u00e7a, que mandei para eles. Sou das analogias e met\u00e1foras, n\u00e9? (E essa can\u00e7\u00e3o) Fala da situa\u00e7\u00e3o da mulher na sociedade hoje, de como estamos sendo, agora, mais respeitadas e estamos em evid\u00eancia. A gente est\u00e1 dando lucro, a gente est\u00e1 liderando situa\u00e7\u00f5es e as pessoas nos procuram, mas antes existia uma resist\u00eancia ao nosso movimento. Partiu da\u00ed. Depois pensei muito na ideia desse peso que jogam em nossas costas, por isso que falo \u201ccrucificadas pelo sistema\u201d, at\u00e9 uma cita\u00e7\u00e3o a um nome do disco do Ratos do Por\u00e3o. N\u00f3s, mulheres, fomos crucificadas pelo sistema por conta de nossas atitudes e comportamento, e sigo fazendo essa analogia b\u00edblica por conta da ideia de \u201cA Cruz\u201d, com \u201cZ\u201d. E o que ela simboliza? O peso do julgamento injusto. J\u00e1 \u201cAcrux\u201d com \u201cX\u201d, representa a cidade de S\u00e3o Paulo na bandeira, cada estrela ali forma a constela\u00e7\u00e3o Cruzeiro do Sul, e S\u00e3o Paulo \u00e9 a acrux, \u201cAlpha Crucis\u201d. Brinco com essas duas coisas, de que S\u00e3o Paulo \u00e9 a estrela mais brilhante e est\u00e1 em um processo tanto de liberta\u00e7\u00e3o, quanto de retrocesso. A gente est\u00e1 passando por um momento muito louco, as mulheres podem andar da forma que quiserem pelas ruas, a gente est\u00e1 ocupando as ruas da cidade, entendendo este espa\u00e7o como um lugar de divers\u00e3o, onde as minorias podem circular livremente, onde a periferia est\u00e1 sendo aceita no centro, mas ao mesmo tempo h\u00e1 uma onda reacion\u00e1ria muito grande e este governo representa um pouco desse retrocesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a arte, neste momento pol\u00edtico de fragilidade democr\u00e1tica, sendo atravessado por discursos radicais, pode ser uma possibilidade de retratar a verdade? A produ\u00e7\u00e3o musical contempor\u00e2nea est\u00e1 dando conta de falar da real situa\u00e7\u00e3o do Brasil, pensando no Rap, principalmente?<\/strong><br \/>\nO Rap sempre teve essa ideia e por isso que acho muito louco, hoje em dia, ter tantas coisas feitas de uma forma inventada. N\u00e3o sou contra a fic\u00e7\u00e3o, muito pelo contr\u00e1rio, a cr\u00f4nica sempre esteve presente no Rap, mas vender um estilo de vida que na verdade n\u00e3o existe \u00e9 uma quest\u00e3o que tenho em rela\u00e7\u00e3o ao Rap que \u00e9 feito atualmente, al\u00e9m de outras manifesta\u00e7\u00f5es musicais. Mas desde sempre a ideia do Rap foi ser uma linguagem direta para as pessoas entenderem a situa\u00e7\u00e3o de uma forma clara e foi isso o que me pegou. A primeira vez que se escuta Racionais, acho que todo mundo se lembra do impacto que sente, do soco que \u00e9. Ent\u00e3o procuro pegar essa ideia que a gente tem acerca da realidade, os pontos de vista cr\u00edticos e transformar de alguma forma em can\u00e7\u00e3o, porque gosto muito da ideia do letrista da m\u00fasica brasileira. Acho muito rica a ideia de can\u00e7\u00e3o, a forma como a gente mexe com essa realidade acessando o campo sutil das pessoas tamb\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 passando aquela mensagem pronta para quem nos escuta. Tento colocar um pouco mais de poesia para entregar para as pessoas. O meu olhar passa por esse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que, agora, possa estar surgindo uma percep\u00e7\u00e3o do(a)s artistas de querer retomar as can\u00e7\u00f5es? Focar na letra e na melodia e n\u00e3o apenas na busca por uma est\u00e9tica?<\/strong><br \/>\nPenso que o que esteja acontecendo \u00e9 o seguinte: vamos ampliar o mundo, mas manter os p\u00e9s no ch\u00e3o. Todo mundo de alguma forma est\u00e1 engajado em alguma coisa, querendo tratar dos sofrimentos da humanidade, muitos artistas est\u00e3o nessa onda \u2013 inclusive no mainstream. Acho que ainda tem muita coisa ainda sendo feita apenas para vender, que n\u00e3o \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o genu\u00edna, mas acredito que esteja rolando uma movimenta\u00e7\u00e3o de uma responsabilidade que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 social, \u00e9 uma responsabilidade humana, de como a gente vai melhorar essa porra toda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O repert\u00f3rio do \u201cAcrux\u201d s\u00e3o de m\u00fasicas que t\u00eam mais a ver com a cidade de S\u00e3o Paulo, certo? Queria que voc\u00ea me falasse sobre a constru\u00e7\u00e3o dessa narrativa e tamb\u00e9m, sobre como foi preparar um show de lan\u00e7amento para um disco ao vivo? Acho que talvez seja uma experi\u00eancia diferente de quando se lan\u00e7a um disco de est\u00fadio.<\/strong><br \/>\nA gente transforma o show em uma experi\u00eancia maior e v\u00e3o entrando m\u00fasicas no repert\u00f3rio que v\u00e3o assumindo essa linguagem tamb\u00e9m. Um show \u00e9 uma experi\u00eancia, e mesmo quando escutamos um disco ao vivo n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, n\u00e9? Cada show \u00e9 um show, voc\u00ea vai estar interpretando de outra forma e vai convidar outras pessoas para estarem juntas. No nosso caso, a gente teve a ideia de colocar as proje\u00e7\u00f5es como um elemento importante, e eu quis, nessa proposta, me reapresentar para uma nova gera\u00e7\u00e3o, que ainda n\u00e3o tinha ouvido falar de mim, e me afirmar como uma pessoa que sempre foi daqui, com essa po\u00e9tica de S\u00e3o Paulo. Comecei a perceber que isso est\u00e1 presente em v\u00e1rias letras, inclusive algumas que n\u00e3o falam exatamente sobre a cidade, mas ela est\u00e1 na textura ou na ess\u00eancia da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode exemplificar com algumas m\u00fasicas o porqu\u00ea delas terem entrado na constru\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio de \u201cAcrux\u201d?<\/strong><br \/>\nEscolhi \u201cEla \u00e9 Favela\u201d, uma m\u00fasica que nunca gravei, mas \u00e9 uma parceria que assino com a Al\u00e1fia. \u00c9 uma banda que super representa esse momento de S\u00e3o Paulo, em v\u00e1rios aspectos e a m\u00fasica fala de uma mulher essencialmente criada na favela, mas no meu caso, pela perspectiva de uma favela vertical, que era o que eu conhecia do centro: pens\u00f5es, hot\u00e9is, corti\u00e7os, esse universo. Isso \u00e9 tipicamente S\u00e3o Paulo, e foi indo por a\u00ed. \u201cAndei\u201d \u00e9 gravada com fundo para o edif\u00edcio Copan e fala da minha circula\u00e7\u00e3o por v\u00e1rias \u00e1reas da cidade. Fala, tipo, eu sou daqui, desse lugar, aqui do centro e tal, mas viajo nesta cidade o tempo inteiro, de norte \u00e0 sul, de leste \u00e0 oeste. N\u00e3o h\u00e1 nenhum hino para S\u00e3o Paulo, mas todas elas est\u00e3o impregnadas da ess\u00eancia desta cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que textura e est\u00e9tica sonora \u00e9 essa que tem a ver com S\u00e3o Paulo?<\/strong><br \/>\nNo meu caso acho que o meu jeito de falar, meu acento, a cad\u00eancia da forma que rimo, minhas g\u00edrias, eu misturo muitas refer\u00eancias. No caso do disco ac\u00fastico, a est\u00e9tica est\u00e1 nos arranjos tamb\u00e9m. Os m\u00fasicos foram criados no role gospel das periferias de S\u00e3o Paulo, ent\u00e3o eles trazem muito do Rap e do baile black na pegada de tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lurdez, voc\u00ea que j\u00e1 atravessou gera\u00e7\u00f5es diferentes, como avalia esse momento das mulheres na m\u00fasica? Sobre uma apoiar a outra em suas carreiras art\u00edsticas.<\/strong><br \/>\nAcho que a gente finalmente chegou a uma quantidade e qualidade de trabalhos feitos por mulheres. N\u00e3o tem porque n\u00e3o se conectar, antes a gente n\u00e3o tinha tantas op\u00e7\u00f5es \u00e0 nossa volta, agora n\u00f3s somos muitas e isso est\u00e1 bem evidente. Outra coisa \u00e9 que a gente est\u00e1 gostando muito de conviver. Obviamente a experi\u00eancia da Karina Buhr, que tem participa\u00e7\u00e3o no show do Acrux, vai ser mais pr\u00f3xima \u00e0 minha do que de v\u00e1rios outros caras que s\u00e3o do Rap, e eu acho interessante essa mistura de universos principalmente de artistas que voc\u00ea admira a m\u00fasica, a postura e aquele ser humano. Cada vez mais tem mulheres que tenho vontade de fazer colabora\u00e7\u00f5es porque vejo na express\u00e3o art\u00edstica delas algo que me diz profundamente muito mais do que v\u00e1rios outros homens. Nunca vou limitar meu trabalho no sentido de querer de qualquer maneira produzir meu disco apenas com uma mulher, mas se rolar, maravilha! Vou estar sempre atenta ao som que est\u00e1 rolando das minas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NBajIdGOKTY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/w_k2mXB7Qso?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iRLIekyEXTA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Carime Elmor (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carime.elmor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb\/carime.elmor<\/a>) \u00e9 jornalista da Tribuna de Minas e\u00a0fazedora dos zines\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/malditasgrls\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Malditas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 2018, Lurdez da Luz completa 20 anos de sua trajet\u00f3ria enquanto compositora e rapper, e sai pelo pa\u00eds mostrando &#8220;Acrux&#8221;, em formato ac\u00fastico, celebrando S\u00e3o Paulo e a for\u00e7a das mulheres\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/07\/entrevista-lurdez-da-luz\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":54,"featured_media":47566,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2135],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47371"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/54"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47371"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47371\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47373,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47371\/revisions\/47373"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47566"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}