{"id":47299,"date":"2018-05-01T09:55:39","date_gmt":"2018-05-01T12:55:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=47299"},"modified":"2018-06-12T11:19:50","modified_gmt":"2018-06-12T14:19:50","slug":"cordel-do-fogo-encantando-no-circo-voador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/01\/cordel-do-fogo-encantando-no-circo-voador\/","title":{"rendered":"Cordel do Fogo Encantado no Circo Voador"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por Ismael Machado<br \/>\nfoto por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/FernandaBas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fernanda Bas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os amigos voltaram, os amigos voltaram&#8221;. O mestre de cerim\u00f4nias repetia essas palavras com intensidade e genu\u00edna emo\u00e7\u00e3o ao anunciar o Cordel do Fogo Encantado no Circo Voador num s\u00e1bado quente de 28 de abril de 2018. O Circo, entupido de gente, parecia respirar essa sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A banda entra devagar. De ambos os lados do palco. Parados, ladeados, olham para o p\u00fablico por longos segundos. Simbolicamente pareciam encarar o reencontro. Velhos amigos, quem sabe antigos amores, revendo-se depois de tanto tempo. Quem sabe tentando reparar se mudan\u00e7as ocorreram no per\u00edodo em que ficaram afastados um do outro. O tempo, amigo ou inimigo, inevit\u00e1vel com suas marcas e cicatrizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante perceber as nuances de um show. H\u00e1 os que s\u00e3o burocr\u00e1ticos. Mesmo fortes ou bem feitos, exalam o fato de que os m\u00fasicos parecem estar cumprindo uma fun\u00e7\u00e3o delineada noite ap\u00f3s noite. Esse retorno do Cordel, por\u00e9m, transparece um frescor, uma renova\u00e7\u00e3o que pareceu t\u00e3o necess\u00e1ria a eles mesmos como ao p\u00fablico tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto tocam as m\u00fasicas, eles se olham e sorriem uns para os outros. Apertam as m\u00e3os, abra\u00e7am-se. D\u00e1 para perceber que eles est\u00e3o felizes em estar ali, naquele palco juntos novamente. \u00c9 significativo o abra\u00e7o conjunto ao final do show entre eles, aquela rodinha que jogadores de futebol adotaram fazer antes do in\u00edcio das partidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa energia resplandecia no Circo Voador. O p\u00fablico do Cordel j\u00e1 \u00e9 conhecido. \u00c9 intenso, emocional, vibrante. E estava ansioso. Em diversos momentos a banda parecia surpresa com a participa\u00e7\u00e3o que vinha da plateia. Em um desses momentos, Lirinha interrompeu a letra e ficou olhando para o que estava \u00e0 sua frente. Olhou em dire\u00e7\u00e3o aos companheiros e apontou para o p\u00fablico, como dizendo &#8220;voc\u00eas est\u00e3o vendo isso?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oito anos depois de uma separa\u00e7\u00e3o anunciada por Lirinha, ou Lira, como queiram, o pa\u00eds que recebe o Cordel \u00e9 muito diferente daquele que os viu surgir na m\u00fasica brasileira. Se o surgimento e auge da banda se deu inserido num pa\u00eds que buscava outros caminhos, t\u00e3o poss\u00edveis quanto necess\u00e1rios, o pa\u00eds que o Cordel do Fogo Encantado encontra hoje \u00e9 um pa\u00eds despeda\u00e7ado, triturado em suas entranhas. As balas que mataram Marielle, a quem a banda homenageou a can\u00e7\u00e3o &#8220;Concei\u00e7\u00e3o ou\u00a0 Do Tambor Que Se Chama Esperan\u00e7a&#8221; e o show inteiro, ricocheteiam e atingem pessoas acampadas em Curitiba, num ato supremo de intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pa\u00eds encontrado pelo Cordel em 2018 \u00e9 o pa\u00eds que rejeita o outro com veem\u00eancia. Mas \u00e9 tamb\u00e9m o pa\u00eds que resiste e insiste em gritar Lula Livre e Marielle Presente. O branco da roupa de Lirinha e o preto da vestimenta do violonista Clayton Barros se complementam de forma quase simbi\u00f3tica. O preto e o branco lado a lado. Lira repete em pelo menos dois momentos: &#8220;N\u00e3o beberemos a \u00e1gua do esquecimento&#8221;. A refer\u00eancia \u00e9 ao massacre de Canudos, mas poderia ser a qualquer massacre. Tanto virtual como f\u00edsico no pa\u00eds de tantos massacres e chacinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o p\u00fablico atropela uma fala de Lira e entoa Lula Livre, o vocalista sorri, agacha-se e lentamente gira o pedestal do microfone para a plateia. Nada diz e nem precisa. Sem discurso a banda faz um dos mais contundentes atos pol\u00edticos que se possa conceber. Seja nas letras das m\u00fasicas ou no gestual dos percussionistas, trazendo sempre a lembran\u00e7a do pa\u00eds formado por batuques, tambores, sua ancestralidade negra, nordestina, ind\u00edgena. Est\u00e1 tudo ali, inserido no sotaque de Lira, na cor da pele dos m\u00fasicos e nos cabelos da vocalista que agora acompanha a banda na turn\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitas Marielles presentes no show. Os cabelos de tantas mulheres ali n\u00e3o nos deixa esquecer. E as rodas de dan\u00e7a no meio do sal\u00e3o ensinam a possibilidade de um pa\u00eds reconstru\u00eddo, pois se tanta beleza pode resplandecer em um momento m\u00e1gico porque n\u00e3o imaginar a reconfigura\u00e7\u00e3o do sonho? &#8220;No Morro da Concei\u00e7\u00e3o\/ Nunca \u00e9 tarde demais pra saber\/ Super nova batida da dan\u00e7a\/ Do tambor que se chama esperan\u00e7a\/ Todos juntos no barco do tempo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Liberdade, A Filha do Vento&#8221;, outra das novas can\u00e7\u00f5es do rec\u00e9m-lan\u00e7ado disco &#8220;Viagem ao Cora\u00e7\u00e3o do Sol&#8221; (2018) que estreiam nesta noite no Circo, eles dizem que aquele rio \u00e9 vermelho. Um rio mar. Gentes. Multid\u00f5es que gritam e entoam a palavra liberdade. H\u00e1 uma mistura entre o ontem e o hoje nesse show, onde a pergunta que ecoa na letra de uma m\u00fasica diz &#8220;se n\u00e3o arder, como viver?&#8221;. A vida arde, no suor que escorre, na l\u00e1grima que desce, na chuva que molha, na solid\u00e3o que entorpece, na saudade que escoa e no grito que ecoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Lira que hoje parece um tanto mais contido no palco parece guardar uma nova experi\u00eancia de vida, onde o andar devagar pode ser por tanta pressa j\u00e1 anunciada e vivida. &#8220;A nossa sorte \u00e9 ter coragem&#8221;, canta a banda em &#8220;Eternal Viagem&#8221;. E isso remete longe ao &#8220;pav\u00e3o mysterioso&#8221; de Ednardo, que tranquilizava: &#8220;nossa sorte nessa guerra \u00e9 que eles s\u00e3o muitos, mas n\u00e3o podem voar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 s\u00e3o quase tr\u00eas da manh\u00e3 quando a banda encerra o show. O p\u00fablico canta ainda. Bate palmas. Um transe coletivo repleto de amor, de cumplicidade, de esperan\u00e7a talvez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mestre de cerim\u00f4nias retorna, com suas tran\u00e7as rastaf\u00e1ris e nos pergunta se algu\u00e9m anotou a placa do caminh\u00e3o que nos atropelou. E repete a frase do in\u00edcio: &#8220;Os amigos voltaram&#8221;. Pois que sejam bem vindos, tomem esse c\u00e1lice de vinho, experimentem essa cerveja artesanal, feita com carinho. Olhem, aquelas s\u00e3o nossas crian\u00e7as, ali est\u00e3o os gatos e cachorros que convivem com a gente, essa foto \u00e9 de uma viagem inesquec\u00edvel. Senta aqui, tem caf\u00e9 quente ainda. Venham aqui at\u00e9 a cozinha. A mesa est\u00e1 posta e a comida \u00e9 farta e para os amigos a porta est\u00e1 sempre aberta.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wUgs1vcPmGE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Ismael Machado \u00e9 jornalista, escritor e roteirista. Lan\u00e7ou o livro \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/14\/a-reportagem-que-percebe-o-outro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sujando os Sapatos \u2013 O Caminho Di\u00e1rio da Reportagem<\/a>\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"J\u00e1 s\u00e3o quase tr\u00eas da manh\u00e3 quando a banda encerra o show. O p\u00fablico canta ainda. Bate palmas. 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