{"id":46842,"date":"2018-03-12T10:39:49","date_gmt":"2018-03-12T13:39:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=46842"},"modified":"2018-04-16T08:33:53","modified_gmt":"2018-04-16T11:33:53","slug":"entrevista-george-christian","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/03\/12\/entrevista-george-christian\/","title":{"rendered":"Entrevista: George Christian"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apostando em uma proposta musical \u00fanica na Bahia, a da musica experimental de livre improvisa\u00e7\u00e3o, o violonista George Christian trilha esse caminho sem abrir concess\u00f5es. Segue fiel a um estilo que o conquistou h\u00e1 mais de 10 anos e o levou \u00e0 grava\u00e7\u00e3o de 15 discos autorais que contam com a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios mestres do estilo em todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na livre-improvisa\u00e7\u00e3o musical, movimento que possui talentos expoentes em diversos pa\u00edses, o multi-instrumentista George Christian define um norte: \u201cA ess\u00eancia de todo e qualquer trabalho composicional meu se encontra na improvisa\u00e7\u00e3o. Tenho uma perspectiva de improvisa\u00e7\u00e3o que, na realidade, \u00e9 o de uma elabora\u00e7\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o em tempo real\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ando em outubro 2017 um \u00e1lbum voltado para piano, o \u201c<a href=\"https:\/\/georgechristian.bandcamp.com\/album\/anticlimaxtransmorte\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">AntiClimaxTransMorte<\/a>\u201d (votado no Pr\u00eamio Bravo entre os melhores discos de m\u00fasica erudita), e em dezembro do mesmo ano a parte dois da trilogia \u201c<a href=\"https:\/\/zpoluras.bandcamp.com\/album\/ex-lios-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ex\u00edlios<\/a>\u201d (a parte 3 <a href=\"http:\/\/www.bestiar.org\/george-christian-exilios-3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acaba de ser disponibilizada<\/a>), o inquieto guitarrista conversou com o Scream &amp; Yell acerca de suas influ\u00eancias, modos de composi\u00e7\u00e3o e a total desilus\u00e3o com qualquer inten\u00e7\u00e3o de fama com o estilo de m\u00fasica que faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu me desiludi com a ideia de ser um artista popular. J\u00e1 sonhei muito com isso, hoje n\u00e3o mais. Contento-me em ser um aventureiro. Ainda n\u00e3o tenho na m\u00fasica uma visibilidade a n\u00edvel profissional. Procuro, antes de tudo, o respeito e a sobreviv\u00eancia em meio a um cen\u00e1rio muito adverso na cidade em que ainda resido, Salvador\u201d, salienta o m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os p\u00e9s no ch\u00e3o, mas fiel a sua pr\u00f3pria m\u00fasica, George Christian segue criando algo que se diferencia de muita coisa que vemos surgir na Bahia, num \u00e2mbito regional, e no Brasil, como um todo. E \u00e9 justamente disso que precisamos. Fala mais, George!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GhTRbJ28ZR0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como surgiu o conceito da trilogia musical \u201cEx\u00edlios\u201d?<\/strong><br \/>\nA trilogia \u201cEx\u00edlios\u201d come\u00e7ou em agosto de 2015. A tem\u00e1tica do aventurar-se em novos territ\u00f3rios nunca me foi estranha e tem permeado parte do meu trabalho desde antes de os \u201cEx\u00edlios\u201d existirem, e me \u00e9 cara. Mas o evento que realmente me foi propulsor para essa trilogia foi a separa\u00e7\u00e3o da banda que montei em novembro de 2012, Vento Bravo, que tinha Jo\u00e3o Carlos Mascarenhas (ex-Fracassados do Underground) no baixo e T\u00e1cio Torres na bateria (hoje na Muddy Town). Eu realmente adorei ter trabalhado com eles, apesar das dificuldades pessoais e financeiras que tivemos para tentar levar \u00e0 frente o projeto. Vento Bravo s\u00f3 tocou ao vivo uma vez em janeiro de 2014, e foi na ocasi\u00e3o do show de lan\u00e7amento de meu \u00e1lbum, \u201cAos Rios Urbanos\u201d, na livraria Porto dos Livros (localizada na bo\u00eamia regi\u00e3o do Porto da Barra, em Salvador), que foi tamb\u00e9m o meu primeiro show como m\u00fasico. Um show quase desastroso (risos). Na \u00e9poca, a banda existia com outro nome, SailorsansB. Quisemos nos fortalecer como trio, mas a m\u00fasica sempre pedia mais instrumenta\u00e7\u00e3o, e nunca encontr\u00e1vamos gente disposta a somar. \u00c9ramos tr\u00eas cabe\u00e7as muito distintas, al\u00e9m do mais, apesar dos gostos musicais em comum. Quase tivemos a chance de gravar um EP com Heitor Dantas (arranjador, produtor e guitarrista baiano), mas nossas dificuldades aumentaram, e decidi parar com o projeto. Ainda tenho grava\u00e7\u00f5es de ensaios e demos para o EP aqui, e pretendo dar um trato nisso tudo. Mas percebi que estava farto de lidar rotineiramente com as mesmas figuras com uma banda fixa por quase tr\u00eas anos. Tamb\u00e9m percebi que poderia continuar me virando, como sempre me virei, no \u00e2mbito virtual mesmo, convidando como colaboradores os m\u00fasicos que eu mais admirava e lidava localmente, daqui de Salvador ou residentes de outras cidades, ou de fora do Brasil. N\u00e3o deixei de tentar convidar os amigos da Vento Bravo, mas eles relutaram demais e acabaram n\u00e3o participando. As grava\u00e7\u00f5es dos viol\u00f5es para \u201cEx\u00edlios\u201d come\u00e7aram quando a banda estava em seu momento de quase encerramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trata-se de um trabalho realizado com um tema bastante profundo, que remete muito ao existencialismo. Era essa sua inten\u00e7\u00e3o? Quais as sua influ\u00eancias neste projeto?<\/strong><br \/>\nTive como inspira\u00e7\u00e3o a saud\u00e1vel incoer\u00eancia do primeiro \u00e1lbum de Syd Barrett, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2001\/12\/19\/faixa-a-faixa-the-madcap-laughs-syd-barrett\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Madcap Laughs<\/a>\u201d, que tem bandas ou forma\u00e7\u00f5es instrumentais diferentes a cada faixa. \u201cEx\u00edlios\u201d foi feito com uma proposta agregadora; eu sou um m\u00fasico que n\u00e3o me afastei de todo do territ\u00f3rio da can\u00e7\u00e3o, apesar de trabalhar mais vigorosamente com m\u00fasica instrumental atualmente. Quis reunir minhas melhores can\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o cheguei a trabalhar com a minha antiga banda, e dar a elas um escopo ainda maior com pe\u00e7as instrumentais. Tem a proposta ambiciosa de ser uma trilogia, e originalmente quis como \u00e1lbum triplo. Mas como isso n\u00e3o seria poss\u00edvel para mim financeiramente por meios f\u00edsicos, acabei preferindo a ideia de lan\u00e7ar cada parte em separado, por selos diferentes. E em cada parte quis abordar tr\u00eas aspectos distintos do ex\u00edlio: a perda da inoc\u00eancia, o afastamento afetivo e o enfrentamento com as adversas realidades tanto interiores quanto exteriores. Tudo isso associado \u00e0 busca pelo amadurecimento e\/ou autoconhecimento. Trata-se de um \u00e1lbum de tem\u00e1tica existencialista, sim. E foi a minha forma de superar a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter conseguido avan\u00e7ar em voos mais altos com uma banda que durou quase tr\u00eas anos de muita atividade e pouco resultado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E para \u201cAntiClimaxTransMorte\u201d, como se deu esse processo de gravar um disco como pianista? E o t\u00edtulo? De onde vem?<\/strong><br \/>\n\u201cAntiClimaxTransMorte\u201d tem uma hist\u00f3ria um tanto distinta, na realidade. Eu o gravei ap\u00f3s ter feito grande parte das grava\u00e7\u00f5es e mixagens para \u201cEx\u00edlios\u201d em junho do ano passado. Tenho um amigo no Rio Grande do Sul que \u00e9 o Diego Dias (que, junto com Gustavo Bode, gerencia o selo dedicado \u00e0 m\u00fasica de livre improvisa\u00e7\u00e3o Mansarda Records). Foi ele que me perguntou se eu tocava piano. Respondi que sim, mas que n\u00e3o era um virtuoso, n\u00e3o \u00e9 o meu primeiro instrumento. Mesmo assim, foi ele que me ofereceu essa proposta tentadora de gravar um longo improviso ao piano e lan\u00e7\u00e1-lo pelo selo dele. Quando Diego fala no texto introdut\u00f3rio sobre o \u00e1lbum, \u201cConvidei George nas entressafras\u201d, ele n\u00e3o est\u00e1 mentindo, pois o meu foco na \u00e9poca ainda eram os \u201cEx\u00edlios\u201d. Mesmo assim, cedi e gravei quase 40 min de puro improviso livre ao piano, aproveitando a aus\u00eancia de minha professora Alla Dadaian num piano Essex da sala 208 na Escola de M\u00fasica da Universidade Federal da Bahia. O t\u00edtulo \u201cAntiClimaxTransMorte\u201d me veio quase que de imediato, depois da realiza\u00e7\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o. Tem essa ideia de enganar a tarde morta, representada por um compromisso adiado, e um desejo de supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uuuY_9tD0MM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea descreveria o processo de grava\u00e7\u00e3o deles e o que os diferencia de seus outros trabalhos no passado?<\/strong><br \/>\nAmbos os projetos, acredite ou n\u00e3o, tiveram em comum o fato de terem sido gravados com o meu celular Samsung Galaxy IV. No caso dos \u201cEx\u00edlios\u201d, somente os viol\u00f5es na maioria de seu repert\u00f3rio, embora houvesse outros microfones e outros meios de grava\u00e7\u00e3o, foram gravados no meu quarto. J\u00e1 o \u201cAntiClimaxTransMorte\u201d n\u00e3o foi em minha casa, pois n\u00e3o tenho piano, claro, mas, sim, na Escola de M\u00fasica (EMUS-UFBA). O celular foi colocado logo acima de sua caixa de resson\u00e2ncia. Percebi que o celular possu\u00eda um microfone compressor capaz de gravar em mono e na amostragem de 44.1Hz, o que resulta numa fidelidade t\u00e3o boa quanto a de ouvir um CD, especialmente se souber como tratar o \u00e1udio a posteriori, nas mixagens e masteriza\u00e7\u00f5es. No entanto, tem suas claras desvantagens. Por exemplo, o fato de captar mais frequ\u00eancias m\u00e9dio-agudas. Um problema n\u00e3o t\u00e3o diferente em rela\u00e7\u00e3o ao que lidei nos microfones de computador com os quais gravei no passado. Mas gravar com o celular tem a bela vantagem de n\u00e3o haver grandes possibilidades de clipagem. E \u00e9 um microfone compressor, o que confere uma boa nitidez. Quanto \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o, a trilogia \u201cEx\u00edlios\u201d se diferencia muito pelo fato de ter a maior quantidade de m\u00fasicos convidados envolvidos em um projeto meu, das mais variadas partes do globo. H\u00e1 antigos parceiros como o japon\u00eas Hiroshi Mehata, o portugu\u00eas Paulo Chagas, como tamb\u00e9m gente que colaborou pela primeira vez, como o violoncelista Nilton Belmonte ou o percussionista Lucas de Gal, residentes em Salvador, ou R\u00f4mulo Alexis (do R\u00e1dio Di\u00e1spora), residente em S\u00e3o Paulo, ou Jeff Gburek (norte-americano atualmente residente na Irlanda), entre outros. Em sua maioria, atuaram como co-arranjadores, mas eu escrevi alguns arranjos para violoncelo para o Nilton e c\u00edtara para o Lucas Jagersbacher, como tamb\u00e9m repassei grande parte de minhas ideias para a bateria nas faixas em que o Igor Galindo tocou. E tamb\u00e9m toco uma s\u00e9rie de outros instrumentos. Al\u00e9m do viol\u00e3o de a\u00e7o, toco guitarra, baixo, piano, flauta e fa\u00e7o as trilhas eletroac\u00fasticas tamb\u00e9m. \u00c9 a primeira vez que fa\u00e7o tudo isso num \u00e1lbum. E tive uma imensa ajuda de um amigo de longa data, o engenheiro de som Breno Souza Ramos \u2013 antigo colega de curso pela UFBA, quando me graduei em Letras, e que me foi lembrado por Jo\u00e3o, meu antigo parceiro na banda Vento Bravo. Ele tamb\u00e9m foi um dos m\u00fasicos participantes. Foi com Breno que tive a chance de gravar outros instrumentos que n\u00e3o os meus seja na resid\u00eancia dele ou na EMUS, onde ele tamb\u00e9m gravou alguns m\u00fasicos convidados, seja com microfones compressores ou din\u00e2micos, seja usando mesa de som Roland em quatro canais e\/ou c\u00e2mera digital de alta resolu\u00e7\u00e3o, seja gravando num tablet usando o Guitar Pro como ferramenta. Breno realmente domina os meios tecnol\u00f3gicos de uma grava\u00e7\u00e3o de baixo custo. \u201cEx\u00edlios\u201d, enfim, \u00e9 um trabalho sem resid\u00eancia fixa, de nomadismos sonoros, sem ser gravado totalmente em est\u00fadio. Sua qualidade sonora \u00e9 um mundo \u00e0 parte. J\u00e1 \u201cAntiClimaxTransMorte\u201d \u00e9 o meu primeiro \u00e1lbum autoral totalmente voltado ao piano, apesar de n\u00e3o ter minhas primeiras grava\u00e7\u00f5es para o instrumento. E \u00e9 nisso que reside sua grande diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a todos os meus \u00e1lbuns anteriores. No fundo, ele faz parte de um continuum de \u00e1lbuns instrumentais que eu tenho e que tiveram o meu viol\u00e3o como base. \u00c9 um \u00e1lbum intimista, n\u00e3o precisei de aux\u00edlio de ningu\u00e9m para grav\u00e1-lo. O sil\u00eancio da sala em que estive foi o que era necess\u00e1rio para produzi-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea descreve a m\u00fasica de \u201cEx\u00edlios 1\u201d como \u201cpe\u00e7as instrumentais que convivem com (anti)can\u00e7\u00f5es em nome da diversidade de rotas de percurso.\u201d Essa \u00e9, para mim, uma \u00f3tima defini\u00e7\u00e3o da m\u00fasica de livre improvisa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode falar um pouco desse processo de cria\u00e7\u00e3o e como isso te afeta como compositor?<\/strong><br \/>\nMeu trabalho encontra na improvisa\u00e7\u00e3o sua raz\u00e3o de ser. A ess\u00eancia de todo e qualquer trabalho composicional meu se encontra na improvisa\u00e7\u00e3o. Tenho uma perspectiva de improvisa\u00e7\u00e3o que, na realidade, \u00e9 o de uma elabora\u00e7\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o em tempo real. S\u00e3o raras as ocasi\u00f5es em que uma ideia mel\u00f3dica me vem sem t\u00ea-la criado numa sess\u00e3o de improvisa\u00e7\u00e3o descompromissada. A partir do momento em que tive conhecimento do fato de que os m\u00fasicos cl\u00e1ssicos indianos, al\u00e9m dos m\u00fasicos de jazz, trabalhavam extensa e prioritariamente com a improvisa\u00e7\u00e3o, passei a levar as minhas improvisa\u00e7\u00f5es mais a s\u00e9rio. At\u00e9 porque j\u00e1 estava meio enfadado de escrever can\u00e7\u00f5es. As can\u00e7\u00f5es que voc\u00ea ouve nos \u201cEx\u00edlios\u201d s\u00e3o, em sua maioria, antigas. A partir de 2008, parei de escrever can\u00e7\u00f5es, mas \u201cLan\u00e7ado ao Uno\u201d \u00e9 a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o, por ter tido sua parte musical escrita em 2015, durante os \u201cEx\u00edlios\u201d. Apesar de atualmente fazer composi\u00e7\u00e3o pela UFBA, a partitura nunca foi o meu meio principal de registro do meu trabalho. Eu a uso, sim, mas n\u00e3o sistem\u00e1tica e rotineiramente. Prefiro grava\u00e7\u00e3o. Tenho gravado tanto improvisos irrepet\u00edveis, livres, como tamb\u00e9m ideias composicionais advindas de improvisa\u00e7\u00f5es ou composi\u00e7\u00f5es prontas. Posso dizer seguramente que sou um improvisador por natureza. Orlando Pinho, amigo meu, parafraseou a autodefini\u00e7\u00e3o de (Walter) Smetak (m\u00fasico, pesquisador e professor su\u00ed\u00e7o radicado na Bahia e falecido em 1984) e me apresentou como \u201cdecompositor contempor\u00e2neo\u201d num dos eventos no Dominicaos (popular encontro itinerante multimidiatico acontecia em Salvador). Confesso que me identifico com isso&#8230; (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sem querer criar r\u00f3tulos, mas inevitavelmente seguindo por esse caminho, voc\u00ea se consideraria um artista de folk progressivo?<\/strong><br \/>\nSim. Minha execu\u00e7\u00e3o no viol\u00e3o de a\u00e7o, como tamb\u00e9m boa parte de minhas refer\u00eancias musicais, partem essencialmente de meu aprendizado com a m\u00fasica folcl\u00f3rica, seja brasileira ou estrangeira. Costumo aliar isso ao conhecimento composicional que adquiri da m\u00fasica cl\u00e1ssica, o que d\u00e1 essa caracter\u00edstica \u201cprogressiva\u201d \u00e0 minha sonoridade. N\u00e3o exclusivamente me detenho no folk-progressivo, mas isto \u00e9 pura verdade nos \u201cEx\u00edlios\u201d. \u00c9 um \u00e1lbum de folk-progressivo tanto cantado quanto instrumental, aliado \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica contempor\u00e2nea, \u00e0 eletroac\u00fastica experimental e ao art-rock. E o folk-progressivo tem sido uma t\u00f4nica em meu trabalho, mas tenho meu lado mais extremo, noise tamb\u00e9m (Velvet Underground, Sonic Youth, Keiji Haino ou Les Rallizes D\u00e9nud\u00e9s s\u00e3o minhas principais refer\u00eancias). Vim do rock-progressivo, na realidade, e foi atrav\u00e9s dele que me descobri na m\u00fasica cl\u00e1ssica desde a minha adolesc\u00eancia. Minha primeira paix\u00e3o foi o Yes na sua fase com a forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, progressiva. Foi com Stevie Howe que descobri que o viol\u00e3o era o meu instrumento, em \u201cMood for a Day\u201d. Foi o lado folk do Led Zeppelin, ou do Pink Floyd ou at\u00e9 de Neil Young que me fez descobrir o baroque folk de Bert Jansch ou Davy Graham e a posterior cena folk-rock com uma perspectiva mais progressiva, como Pentangle, Fairport Convention, Comus, The Incredible String Band&#8230; Enfim, como nas minhas pesquisas uma coisa leva \u00e0 outra, descobri outros \u201cvioleiros de a\u00e7o\u201d gringos: a po\u00e9tica introvers\u00e3o de Nick Drake, ou o \u201camerican primitive\u201d <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/01\/08\/disco-da-semana-i-am-the-resurrection-tribute-john-fahey\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">John Fahey<\/a>. Fahey, em particular, foi a minha influ\u00eancia fundamental, com ele aprendi t\u00e9cnicas de dedilhado ragtime e bluegrass, como tamb\u00e9m afina\u00e7\u00f5es alternativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E no Brasil, quais artistas voc\u00ea citaria como influentes para seu trabalho?<\/strong><br \/>\nSempre apreciei o que h\u00e1 de folk em bandas e artistas como Mutantes, Novos Baianos, Secos &amp; Molhados, Egberto Gismonti, as harmonias do Clube da Esquina (em especial, o lindo \u00e1lbum de 1972), a psicodelia nordestina de Lula C\u00f4rtes &amp; Lailson, Flaviola e o Bando do Sol, Z\u00e9 Ramalho, Alceu Valen\u00e7a. Os violonistas brasileiros predominantemente preferem cordas de nylon, n\u00e3o de a\u00e7o como eu. Por isso, encontrei afinidades em Andr\u00e9 Geraissati ou em St\u00eanio Mendes, at\u00e9 Duofel, apesar de meus antecessores mais remotos no viol\u00e3o de a\u00e7o aqui no Brasil serem Am\u00e9rico \u201cCanhoto\u201d Jacomino ou Dilermando Reis. E o trovador com qual sinto mais afinidade e tenho proximidade geogr\u00e1fica \u00e9 o Elomar, que n\u00e3o toca em cordas de a\u00e7o&#8230; (risos). A m\u00fasica do Quinteto Armorial tamb\u00e9m \u00e9 algo que aprecio. A m\u00fasica nordestina me \u00e9 de import\u00e2ncia essencial&#8230; Indo para outras partes do mundo, aprendi algo ouvindo tamb\u00e9m Erkin Koray, da Turquia, ou o Masters Musicians of Jajouka, do Marrocos, ou Hamza El-Din, do Mali. Com os \u201cEx\u00edlios\u201d, procurei canalizar tudo que aprendi dentro de uma vis\u00e3o pessoal, inescapavelmente folk-progressiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sendo um multi-instrumentista, como voc\u00ea equilibra suas cria\u00e7\u00f5es entre os trabalhos voltados para piano, guitarra, viol\u00e3o ou outras ferramentas?<\/strong><br \/>\nBem, fundamentalmente sou um violonista \u2013 ou guitarrista, a depender do referencial cultural&#8230; (risos). Muito do que criei foi ao viol\u00e3o e para o viol\u00e3o. Estou ainda me descobrindo como compositor de piano. \u201cAntiClimaxTransMorte\u201d trata dessa autodescoberta de uma voz pian\u00edstica, apesar de n\u00e3o ter sido minha primeira composi\u00e7\u00e3o ou improvisa\u00e7\u00e3o para o piano. Outros instrumentos s\u00e3o, para mim, ve\u00edculos de express\u00e3o nos quais posso expandir a minha voz composicional ou transmut\u00e1-la em outras formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 na sua m\u00fasica elementos que relacionamos com a m\u00fasica indiana, principalmente em nomes como Ravi Shankar e Ram Narayam. Em uma de nossas conversas, voc\u00ea comentou acerca do psicodelismo que encontramos na m\u00fasica oriunda de l\u00e1. Como isso te influencia em suas composi\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nNo fundo, o que se designa como \u201cpsicodelismo\u201d permeia muito do meu trabalho. Passei a descobrir que foi o contato ocidental com a m\u00fasica indiana que acabou resultando no psicodelismo na m\u00fasica, com o plus das drogas alucin\u00f3genas, das vanguardas art\u00edsticas e descobertas tecnol\u00f3gicas, especialmente na d\u00e9cada de 1960. E isso n\u00e3o afetou somente o rock, mas toda uma cultura underground e, at\u00e9, gente de dentro da m\u00fasica erudita, como os compositores Karlheinz Stockhausen, Per N\u00f6rgard e La Monte Young. Por exemplo, uma das bandas que mais admiro, o Velvet Underground, teve como integrante o John Cale, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/02\/05\/o-minimalismo-e-o-rock-and-roll\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que era um violista cl\u00e1ssico que procurou La Monte Young para forjar sua vis\u00e3o de minimalismo<\/a>. Por sua vez, La Monte Young era um profundo interessado em raga, foi aluno do Pandit Pran Nath, cantor indiano especialista em Kirana Gharana, uma escola de raga. Sou um inconstante praticante de yoga. J\u00e1 fui mais disciplinado. Mas foi devido \u00e0 pr\u00e1tica de yoga, que me foi recomendada por um amigo psic\u00f3logo, que passei por um s\u00e9rio per\u00edodo de autodescoberta e percebi na m\u00fasica uma miss\u00e3o minha, uma voca\u00e7\u00e3o. A yoga foi t\u00e3o decisivamente importante que a sua pr\u00e1tica p\u00f4de fazer com que me conectasse mais comigo mesmo e desenvolvesse a minha voz, minha personalidade.A partir da yoga, passei a me concentrar mais em m\u00fasica instrumental. E foi durante esse per\u00edodo que passei a conhecer dois artistas que me deram um norte para um direcionamento musical: John Fahey e Ravi Shankar. Eles s\u00e3o as principais refer\u00eancias no blues e no raga em minha m\u00fasica instrumental. Costumo dizer que fa\u00e7o blues-raga algumas vezes por isso. E tive uma revela\u00e7\u00e3o com a introspec\u00e7\u00e3o proporcionada com a yoga: n\u00e3o \u00e9 preciso nenhum alucin\u00f3geno para trazer psicodelismo na m\u00fasica. Como disse certa vez o guitarrista do Ash Ra Tempel, Manuel Gottsching, \u201cmusic is the drug\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pa\u00edses como Jap\u00e3o e Alemanha possuem diversos movimentos musicais voltados para a m\u00fasica de livre improvisa\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea diferenciaria as experi\u00eancias sonoras criadas nos dois? Ainda: em como base cultural das duas pot\u00eancias influencia os m\u00fasicos oriundos de l\u00e1?<\/strong><br \/>\nDiferencio da seguinte maneira: por n\u00e3o ter amarras quanto a uma tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssico\/europeia, mas sim com a tradi\u00e7\u00e3o zen-budista, o cen\u00e1rio japon\u00eas \u00e9 bem menos austero se comparado com o alem\u00e3o. Vale notar que h\u00e1 m\u00fasicos ou grupos que trabalham com a livre improvisa\u00e7\u00e3o em diversos outros lugares na Europa desde meados dos anos 1960, come\u00e7ando na Inglaterra com o AMM ou o Spontaneous Music Ensemble, na It\u00e1lia com o Gruppo di Improvvizatione Nuova Consonanza ou o M\u00fasica Elettronica Viva, que \u00e9, na realidade, um grupo intercontinental! Por outro \u00e2ngulo, em comum, a livre-improvisa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 e a japonesa tiveram como grande for\u00e7a motriz o processo traum\u00e1tico do derrotismo do p\u00f3s-guerra, entre agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas bastante divisivas que acabaram com todo e qualquer idealismo. Talvez seja o que faz com que eles se destaquem marcadamente; \u00e9 imposs\u00edvel ficar indiferente \u00e0 agressividade de um Peter Br\u00f6tzmann ou o approach incrivelmente plural de um Han Bennink; no lado japon\u00eas, o piano literalmente incendi\u00e1rio do Yosuke Yamashita, a incr\u00edvel for\u00e7a respirat\u00f3ria aliada a um melodismo melanc\u00f3lico de Kaoru Abe, o inventivo guitarrista que veio do cool-jazz para chegar o puro noise-experimental que \u00e9 o Masayuki Takanayagi. Foi atrav\u00e9s dos conceitos dele de \u201cgradually projection\u201d e de \u201cmass projection\u201d que me inspirei a fazer, com Hiroshi Mehata, do Jap\u00e3o, e Paulo Chagas, de Portugal, \u201cLove without Wings\u201d, originalmente lan\u00e7ado pela Spectropol Records, em 2014 \u2013 \u00e1lbum que ter\u00e1 uma reedi\u00e7\u00e3o especial em K7 a ser lan\u00e7ada pela Mahorka Records ainda em 2018. E o que acho particularmente legal nos cen\u00e1rios alem\u00e3o e japon\u00eas \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com o rock experimental. Do lado alem\u00e3o, voc\u00ea teve o Krautrock de bandas como Amon D\u00fc\u00fcl, Can, Faust, Ash Ra Tempel, Kraftwerk nos anos 1970, chegando ao industrial do Einsturzende Neubauten, Casper Br\u00f6tzmann Massaker; e do lado japon\u00eas, o desenvolvimento do psicodelismo desde os Group Sounds, passando por The Jacks, LesRallizesD\u00e9nudes, ou grupos misteriosos como BrastBurn\/KarunaKhyal&#8230; at\u00e9 a chegar \u00e0 ultrapsicodelia do Fushitsusha, banda espetacular de Keiji Haino, Acid Mothers Temple, High Rise, Kousokuya e noisemakers como Merzbow, Hijokaidan, Incapacitants, The Gerogerigegege&#8230; em maior ou menor medida, esses m\u00fasicos s\u00e3o participantes de uma cena mundial da livre-improvisa\u00e7\u00e3o ou est\u00e3o colaborando entre si.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kejGAbNS4Ck?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A livre improvisa\u00e7\u00e3o \u00e9 um desafio imenso para m\u00fasicos. Em um document\u00e1rio produzido pelo jornal ingl\u00eas The Guardian, uma pergunta que \u00e9 lan\u00e7ada reside na possibilidade desse estilo ser o mais marcante patamar em termos de m\u00fasica underground, isso pelo fato de que as regras s\u00e3o feitas pelo pr\u00f3prio m\u00fasico e a m\u00e1xima ainda est\u00e1 no \u201cn\u00e3o h\u00e1 regras\u201d. Voc\u00ea concorda?<\/strong><br \/>\nEm parte, sim. Os m\u00fasicos praticantes desse estilo s\u00e3o oriundos tanto da tradi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica cl\u00e1ssica, como tamb\u00e9m da popular \u2013 do jazz, sobretudo, al\u00e9m do rock, da m\u00fasica eletr\u00f4nica. Mas todos t\u00eam em comum o fato de n\u00e3o se acomodarem em nenhum desses enquadramentos. \u00c9 uma rebeli\u00e3o necess\u00e1ria. A livre-improvisa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia libertadora, an\u00e1rquica no sentido real da palavra, um lugar musical de uma utopia poss\u00edvel. Me identifico profundamente com isso. Sou algu\u00e9m que \u201cfalhou\u201d tanto em ser m\u00fasico popular, como tamb\u00e9m como m\u00fasico cl\u00e1ssico. Sou bem-sucedido em ser George Christian gra\u00e7as \u00e0 livre-improvisa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, apesar de ainda haver em mim o compositor que procura criar pe\u00e7as com cara e presen\u00e7a para uma mem\u00f3ria coletiva. A livre-improvisa\u00e7\u00e3o nem sempre quer apelar para o jogo mnem\u00f4nico do motivo e procura v\u00e1lvulas de escape \u00e0s armadilhas da repeti\u00e7\u00e3o em nome de uma aventura sonora mais liberadora. Ou seja, no lugar da pura e simples repeti\u00e7\u00e3o, h\u00e1 a varia\u00e7\u00e3o como recurso primordial. Mas, no fundo, no fundo, h\u00e1 uma regrinha sim: a de aprender a lidar com os espa\u00e7os sonoros com os quais est\u00e1 interagindo. Saber intuitivamente a estrutura profunda. Saber dialogar, com sil\u00eancio ou com som. Isso aprendi com o amigo, tamb\u00e9m livre-improvisador, Edbrass Brasil. Tamb\u00e9m \u00e9 saber explorar o seu arsenal sonoro quando preciso e necess\u00e1rio. Ter uma vis\u00e3o global sobre o fen\u00f4meno sonoro e saber responder \u00e0 altura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Neste mesmo document\u00e1rio, um dos m\u00fasicos, Eddie Pr\u00e9vost, fala acerca de que a interpreta\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 sendo escutado complementa o sentido do que \u00e9 executado. Ou seja, a m\u00fasica depende quase que inteiramente da resposta da audi\u00eancia. Voc\u00ea costuma levar sua m\u00fasica para esse mesmo caminho de intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nSim e n\u00e3o. Sou introverso e t\u00edmido, mas bastante intuitivo. Procuro meditar enquanto toco, apesar de bater por vezes aquela ansiedade. Mas prefiro ter uma audi\u00e7\u00e3o mais global. Se algu\u00e9m resolve bater algo no liquidificador num bar logo ao lado, eu incorporo isso respondendo a essa sonoridade em minha guitarra. Se algu\u00e9m me fala \u201ctoca Raul\u201d, respondo \u201cRaul n\u00e3o pode aparecer no momento, mas serve um parente dele?\u201d (Risos) Se a sala est\u00e1 abafada, respondo com uma sonoridade que expresse isso. Se algumas cordas de meu viol\u00e3o partirem e eu n\u00e3o tiver como substituir, apelo para qualquer outro instrumento ao redor. Isso s\u00e3o relatos de experi\u00eancias reais que tive. Sim, nesse ponto, concordo com o baterista do AMM, Eddie Pr\u00e9vost. N\u00e3o h\u00e1 ostenta\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnica, mas pura vontade de integrar toda a paisagem sonora como experi\u00eancia. Isso deriva de li\u00e7\u00f5es que John Cage nos trouxe. Se a m\u00fasica \u00e9 organiza\u00e7\u00e3o dos sons em movimento, por que n\u00e3o integrar a paisagem que sempre flui ou a pr\u00f3pria audi\u00eancia, que, por vezes, nem se quer como uma audi\u00eancia? Tenho um \u00e1lbum solo inteiramente instrumental totalmente composto em tempo real (por vezes, livremente improvisado), gravado em casa ou na Escola de M\u00fasica da UFBA, cujas interfer\u00eancias de acontecimentos ao acaso n\u00e3o deixaram de ser registradas. Chama-se \u201cAos P\u00e1ssaros Outonais\u201d, e \u00e9 outro \u00e1lbum que estou programando para lan\u00e7ar neste ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um dos pontos que mais me chamaram a aten\u00e7\u00e3o nesse trabalho do jornal The Guardian reside na ideia de que, diferente do que muitos podem pensar, esse tipo de express\u00e3o musical n\u00e3o \u00e9 elitista. Pelo contr\u00e1rio. Representa uma rejei\u00e7\u00e3o do que \u00e9 oriunda da classe elitista. Voc\u00ea pode falar um pouco dessa rela\u00e7\u00e3o da origem da livre improvisa\u00e7\u00e3o e como esse tipo de express\u00e3o chegou a voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nCom certeza n\u00e3o h\u00e1 elitismo na livre-improvisa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um campo aberto especialmente para quem tem vontade para aventuras sonoras, de modo a abranger o vocabul\u00e1rio usual de um determinado instrumento. Esse tipo de express\u00e3o musical pode gerar incompreens\u00e3o em parte de uma audi\u00eancia que tem expectativas comerciais e convencionais, pouco ou nada afeita a express\u00f5es sonoras alternativas. Vejo como principal meta da livre-improvisa\u00e7\u00e3o libertar o ouvinte da percep\u00e7\u00e3o como com\u00e9rcio, como algo a ser enquadrado dentro de par\u00e2metros de compra e venda, ao abra\u00e7ar uma perspectiva de pura pesquisa sonora, descobertas t\u00edmbricas. Ela \u00e9 muito mais antiga do que se imagina; desde quando o mundo \u00e9 mundo, a improvisa\u00e7\u00e3o sempre existiu na m\u00fasica. Desde quando houve a pura necessidade de comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos sons musicais, independentemente do background, a livre-improvisa\u00e7\u00e3o sempre existiu. Eu tenho um lado music\u00f3logo e pesquisador. Foi pela internet que, em 2008, me dei conta da exist\u00eancia de um grupo que trabalhava com a livre-improvisa\u00e7\u00e3o e que, de alguma maneira, tem uma conex\u00e3o com uma banda favorita minha, o Pink Floyd. Trata-se de um grupo experimental chamado AMM. Essa sigla ainda tem um significado misterioso; mas \u00e9 um ensemble ingl\u00eas que surgiu em meados da d\u00e9cada de 1960, que originalmente inclu\u00eda o j\u00e1 citado baterista Eddie Pr\u00e9vost (membro original que est\u00e1 no grupo at\u00e9 hoje), o saxofonista Lou Gare, o pianista e violoncelista Cornelius Cardew e o guitarrista Keith Rowe. Rowe, em particular, \u00e9 um sujeito que praticamente abandonou as convencionalidades do vocabul\u00e1rio da guitarra \u2013 tanto at\u00e9 que ele toca a guitarra sobre uma mesa, tal qual um cirurgi\u00e3o \u2013 e passou a trabalhar \u00fanica e exclusivamente com t\u00e9cnicas estendidas de emiss\u00e3o t\u00edmbrica. Ele \u00e9 um verdadeiro cientista da guitarra, sujeito que influenciou gente como Fred Frith, Masayuki Takanayagi, Jeff Gburek e, at\u00e9, Syd Barrett, quando ainda no Pink Floyd. Nessa mesma \u00e9poca, 2008, conheci tamb\u00e9m outros musicistas livre-improvisadores, mas dediquei minha aten\u00e7\u00e3o especialmente a m\u00fasicos que lidavam com o meu instrumento, em particular. A saber, Derek Bailey (um guitarrista que criou um vocabul\u00e1rio de execu\u00e7\u00e3o absolutamente original), Sonny Sharrock (minha execu\u00e7\u00e3o ao slide tem refer\u00eancia direta dele); Keiji Haino (uma figura m\u00edstica \u00edmpar, al\u00e9m de ser um guitarrista soberbamente en\u00e9rgico), os j\u00e1 citados Masayuki Takanayagi e Fred Frith (Henry Cow, Massacre). Mas n\u00e3o pense que n\u00e3o houve o lugar do Brasil nessa hist\u00f3ria&#8230; eu tenho a teoria de que o su\u00ed\u00e7o-brasileiro Walter Smetak foi um pioneiro indireto da m\u00fasica de livre-improvisa\u00e7\u00e3o por aqui. Claro, ele tinha uma forma\u00e7\u00e3o erudita, era violoncelista&#8230; mas com suas pl\u00e1sticas sonoras e sua busca eubi\u00f3tica por novas fronteiras de pensamento sonoro, creio que ele fomentou uma nova cultura de experimenta\u00e7\u00e3o e improvisa\u00e7\u00e3o por aqui. De certo modo, me sinto continuador de Smetak; at\u00e9 incorporei algumas t\u00e9cnicas estendidas que ele repassou a seus disc\u00edpulos, como a ideia de afina\u00e7\u00e3o do viol\u00e3o de microtom ou o uso de uma corda de viol\u00e3o como arco.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WQCSX7dZ08Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 conta com uma discografia autoral de 15 \u00e1lbuns, sem contar os trabalhos em que participou como convidado ou compila\u00e7\u00f5es. Entretanto, sua longevidade como artista fonogr\u00e1fico contrasta com sua pouca popularidade ou como performer ao vivo. Por que isso acontece?<\/strong><br \/>\nPorque me desiludi com a ideia de ser um artista popular. J\u00e1 sonhei muito com isso, hoje n\u00e3o mais. Contento-me em ser um aventureiro. Ainda n\u00e3o tenho na m\u00fasica uma visibilidade a n\u00edvel profissional. Procuro, antes de tudo, o respeito e a sobreviv\u00eancia em meio a um cen\u00e1rio muito adverso na cidade em que ainda resido, Salvador. Quando comecei a gravar meu material em 2008, adquirindo uma rotina com isso, acabei descobrindo a internet como um meio formid\u00e1vel de aparecer no mundo sob uma teia de invisibilidade em f\u00f3tons e el\u00e9trons&#8230; Lancei meu primeiro \u00e1lbum por um selo franc\u00eas dedicado \u00e0 m\u00fasica experimental e de improvisa\u00e7\u00e3o, que foi a Stomoxine Records, \u201c<a href=\"https:\/\/georgechristian.bandcamp.com\/album\/s-vezes-sempre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c0s Vezes Sempre<\/a>\u201d. Confesso que n\u00e3o sabia de meios maiores de divulga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o o virtual, atrav\u00e9s das redes sociais; deixei que os selos em que estive cuidassem de difundir a palavra. Mas percebi que h\u00e1 selos que s\u00f3 se contentam em hospedar e divulgar um pouco e h\u00e1 outros que t\u00eam uma consci\u00eancia muito bacana de repasse da divulga\u00e7\u00e3o e d\u00e3o plataforma nisso. Consegui respeito por parte de gente da classe art\u00edstica de minha cidade, sim, mas tive de esperar at\u00e9 2013, quando participei dos eventos \u201cJam Smetak\u201d e \u201cSmetak Imprevisto\u201d, para conhecer m\u00fasicos com os quais realmente me sinto integrado a uma cena informal de m\u00fasica experimental por aqui \u2013 com m\u00fasicos como Heitor Dantas, Edbrass Brasil, Orlando Pinho, Mateus Dantas, Tuz\u00e9 de Abreu, o pessoal das bandas Se Sen\u00e3o, Suzana\u2019s Bauten. E o reconhecimento foi gradativo, tem-me sido de real import\u00e2ncia para mim \u2013 j\u00e1 toquei em lugares como a reitoria da UFBA, o teatro do Goethe-Institut, teatro Greg\u00f3rio de Mattos. O lugar mais long\u00ednquo em que toquei at\u00e9 agora foi em S\u00e3o Paulo, no Est\u00fadio Fita-Crepe, tocando com o Oco do \u00c1tomo (Heitor e Orlando) e com o R\u00e1dio Di\u00e1spora (R\u00f4mulo Alexis e Wagner Ramos) como convidado pela Mostra de M\u00fasica Experimental da Bahia. Foi um marco em minha carreira este evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 tocou ou colaborou com uma diversidade de artistas tanto locais quanto de outros pa\u00edses, sem precisar sair de sua casa. Poderia mencionar alguns trabalhos que poderia indicar para conhec\u00ea-los?<\/strong><br \/>\nSeguramente, posso indicar toda a trilogia \u201cEx\u00edlios\u201d (ou\u00e7a os volumes &#8220;<a href=\"https:\/\/selonetlabel.bandcamp.com\/album\/ex-lios-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1<\/a>&#8220;, &#8220;<a href=\"https:\/\/zpoluras.bandcamp.com\/album\/ex-lios-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2<\/a>&#8221; e &#8220;<a href=\"http:\/\/www.bestiar.org\/george-christian-exilios-3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">3<\/a>&#8220;) que tem colabora\u00e7\u00f5es de m\u00fasicos tanto daqui de Salvador, quanto de outras partes no mundo. Mas, no que tange a isso, \u201cEx\u00edlios\u201d t\u00eam seus antecessores. Em maior ou menor grau, todos os \u00e1lbuns anteriores inclu\u00edram algum convidado participando de alguma faixa. Mas indico dois importantes \u00e1lbuns cuja colabora\u00e7\u00e3o foi total, que foram com o japon\u00eas Hiroshi Mehata (Mehata Sentimental Legend) que lancei pela Spectropol Records: \u201c<a href=\"https:\/\/spectropolrecords.bandcamp.com\/album\/la-geographie-sans-regret\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">La G\u00e9ographiesans Regret<\/a>\u201d (2012) e \u201c<a href=\"https:\/\/spectropolrecords.bandcamp.com\/album\/love-without-wings\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Love without Wings<\/a>\u201d (2014, tamb\u00e9m feito com Paulo Chagas, creditado a Christian + Mehata + Chagas). H\u00e1 uma colet\u00e2nea retrospectiva chamada \u201c<a href=\"https:\/\/georgechristian.bandcamp.com\/album\/afluentes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Afluentes<\/a>\u201d (2013) que re\u00fane uma diversidade de artistas com quem trabalhei, como Franz\u00e9 Matos, Owl Dreams, Tod Shelton, Kawol Samarkand. E h\u00e1 tamb\u00e9m o meu primeiro \u00e1lbum totalmente eletroac\u00fastico, que \u00e9 o terceiro cronologicamente, \u201c<a href=\"https:\/\/georgechristian.bandcamp.com\/album\/three-dimensions-of-unrecognizement-and-other-unknown-reaches\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Three Dimensions of Unrecognizement and Other Unknown Reaches<\/a>\u201d, em que usei materiais de Owl Dreams, Mister Sleepy, Lezet e Tod Shelton.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a sua miss\u00e3o art\u00edstica enquanto m\u00fasico?<\/strong><br \/>\nSou um trovador que se desterritorializou e que n\u00e3o canta terra nenhuma, a n\u00e3o ser utopias poss\u00edveis de lugares sonoros. Meu lar \u00e9 o universo. A l\u00edngua que melhor domino \u00e9 a dos sons de meu viol\u00e3o. Desejo despertar ou libertar as percep\u00e7\u00f5es dos paradigmas sonoros ou liter\u00e1rios usuais e de sua zona de conforto e fazer com que as pessoas se integrem a possibilidades de transcend\u00eancia. N\u00e3o me sinto pertencente, tal qual Raul Seixas cantou muito ironicamente, a uma \u201clinha evolutiva da m\u00fasica popular brasileira\u201d. No meu caso, nem popular, nem erudita. Ou ambas integradas. Apenas fa\u00e7o m\u00fasica. E ponto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/doRR7rpNeD0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema\u00a0<\/a>e colabora para o jornal A Tarde. A foto que abre o texto \u00e9 de Eduardo Cesar \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A livre-improvisa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia libertadora, an\u00e1rquica no sentido real da palavra, um lugar musical de uma utopia poss\u00edvel. \u00c9 uma rebeli\u00e3o necess\u00e1ria. Me identifico profundamente com isso&#8221;, avisa George Christian!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/03\/12\/entrevista-george-christian\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":46843,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2684],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46842"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46842"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46842\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46845,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46842\/revisions\/46845"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}