{"id":4681,"date":"2010-03-22T12:05:40","date_gmt":"2010-03-22T15:05:40","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4681"},"modified":"2023-03-29T00:51:59","modified_gmt":"2023-03-29T03:51:59","slug":"entrevista-luiz-alfredo-garcia-roza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/03\/22\/entrevista-luiz-alfredo-garcia-roza\/","title":{"rendered":"Entrevista: Luiz Alfredo Garcia Roza"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-4682\" title=\"luiz_alfredo_garcia_rosa_divulgacao\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/luiz_alfredo_garcia_rosa_divulgacao.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Roberta \u00c1vila<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura policial \u00e9 campe\u00e3 de vendas no Brasil e no exterior. Mesmo assim, temos poucos escritores do g\u00eanero no pa\u00eds. Luiz Alfredo Garcia Roza come\u00e7ou a escrever aos 60 anos e j\u00e1 no seu primeiro livro, &#8220;O Sil\u00eancio da Chuva&#8221;, lan\u00e7ado em 1996, conquistou um dos principais pr\u00eamios liter\u00e1rios do Brasil, o Jabuti, e foi aclamado por cr\u00edticos e leitores, que desde ent\u00e3o esperam ansiosos a chegada de mais uma aventura do detetive Espinosa, seu personagem principal, \u00e0s livrarias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De l\u00e1 pra c\u00e1, Garcia Roza lan\u00e7ou mais oito livros, o mais recente,&#8221;C\u00e9u de Origamis&#8221;, de 2009. Nesta entrevista, o escritor fala sobre literatura, conta sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edcia brasileira e sua obra, elege seu detetive predileto e analisa o preconceito que existe contra o g\u00eanero policial. Confira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como come\u00e7ou seu interesse por literatura policial?<\/strong><br \/>\nInteresse muito antigo. Interesse que remonta \u00e0 minha adolesc\u00eancia. Eu leio literatura policial desde os meus 15, 16 anos e da\u00ed venho acompanhando sempre o que tem sa\u00eddo em literatura policial pelo mundo afora. Foi um tipo de leitura que eu nunca parei de fazer, paralelamente \u00e0 leitura da literatura em geral, como da literatura ligada \u00e0 minha atividade acad\u00eamica, filosofia, psican\u00e1lise, psicologia etc. ent\u00e3o foi assim. At\u00e9 hoje nunca parei de ler literatura policial, pelo contr\u00e1rio, leio cada vez mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais autores voc\u00ea acredita que te influenciaram mais?<\/strong><br \/>\nMuito dif\u00edcil apontar influ\u00eancias, cada leitura se incorpora a voc\u00ea, \u00e9 como se voc\u00ea fosse uma casa grande de portas abertas e esses livros e esses autores fossem habitando essa casa. Chega uma hora que voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o sabe mais quem est\u00e1 l\u00e1 dentro, quantos s\u00e3o, quais s\u00e3o os mais importantes, mas sem d\u00favida alguma tem os cl\u00e1ssicos, a come\u00e7ar pelo Edgar Allan Poe e depois\u00a0 Dashiell Hammett, Raymond Chandler,\u00a0 James M. Cain, Cornell Woolrich e vai para fora, n\u00e3o tem mais fim. Patr\u00edcia Highsmith, Georges Simenon, \u00e9 muito dif\u00edcil dizer quais os mais importantes, os que mais influ\u00eancia exerceram, mas certamente cada um deles teve uma parcela de influ\u00eancia e de marca deixada. A impress\u00e3o que me d\u00e1 \u00e9 que no meu est\u00e1gio da vida eu j\u00e1 tenho uma quantidade de marca enorme deixada. \u00c9 como se fosse marca de vacina. Voc\u00ea vai ficando com cada ano uma marca, mas com a literatura cada m\u00eas \u00e9 uma ou cada semana. Essas marcas v\u00e3o ficando e tal como a vacina v\u00e3o inoculando voc\u00ea com um pouco do autor A, B, C do livro X, Y, Z.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Numa declara\u00e7\u00e3o sua para O Globo voc\u00ea disse que acreditava que um dos motivos que fazia com que tiv\u00e9ssemos menos escritores de literatura de g\u00eanero \u00e9 a falta de escolas para escritores?<\/strong><br \/>\nEu disse isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Disse, sim&#8230; Pode ser que fa\u00e7a tempo e voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o acredite mais nisso.<\/strong><br \/>\nPoxa, \u00e9 bom que voc\u00ea tenha dito isso porque eu discordo de mim. O que eu acho \u00e9 o seguinte: n\u00e3o \u00e9 que haja falta de escola para autores de literatura policial. H\u00e1 ainda pouca massa cr\u00edtica de escritores de literatura policial e talvez isso seja devido ao fato de que os cursos universit\u00e1rios s\u00e3o quase sempre cursos de literatura, teoria, e cr\u00edtica liter\u00e1ria, mas pouco de cria\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que se possa fazer isso, ensinar a pessoa a criar fic\u00e7\u00e3o, com oficinas, semin\u00e1rios, coisas do tipo. Isso n\u00e3o quer dizer que se abrirem centenas de oficinas liter\u00e1rias vamos ter centenas de escritores, mas voc\u00ea cria uma grande massa da qual \u00e9 capaz de sair um n\u00famero razo\u00e1vel de pessoas escrevendo, mais do que hoje em dia talvez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea publicou seu primeiro livro aos 60 anos, isso foi por falta de tempo ou o interesse por escrever s\u00f3 surgiu nessa \u00e1poca?<\/strong><br \/>\nO que eu n\u00e3o tinha era tempo, tive uma vida acad\u00eamica muito intensa. O trabalho do escritor ele n\u00e3o \u00e9 igual ao trabalho do leitor. Eu como leitor posso enfiar o livro embaixo do bra\u00e7o e ler na condu\u00e7\u00e3o, na sala de espera de um m\u00e9dico, num fim de semana em casa, de noite, de madrugada e o trabalho do escritor te pede um pouco mais de continuidade, de tempo, de dedica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e exclusiva. Eu n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o de fazer isso. Eu sempre alimentei o sonho de escrever. N\u00e3o era nada de sangria desatada &#8211; \u00f3 coitado de mim que n\u00e3o posso escrever. N\u00e3o era isso. \u00c9 que quem muito l\u00ea sempre tem uma regi\u00e3o do seu ego reservada para ser escritor ou para escrever seja l\u00e1 o que for. Eu s\u00f3 podia escrever meus trabalhos acad\u00eamicos, at\u00e9 que eu resolvi dar um basta nisso, parei, sa\u00ed da universidade, me aposentei e a\u00ed pude me dedicar a escrever. Sem nunca ter tido nenhuma experi\u00eancia pr\u00e9via de escrever fic\u00e7\u00e3o, nem uma paginazinha. Foi uma coisa surpreendente para mim mesmo. &#8220;O Sil\u00eancio da Chuva&#8221; foi a primeira coisa que eu fiz, nunca tinha feito nem um continho antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que voc\u00ea acha que existe preconceito contra a literatura policial?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei o porqu\u00ea do preconceito. Na grande casa da literatura, a policial \u00e9 a cozinha, pode habitar a copa, mas nunca vai chegar \u00e0 sala de visitas. O escritor de literatura policial sempre foi aquilo do que ele nasceu, que foi a pulp fiction. Seja qual for a literatura que se fa\u00e7a, o fato \u00e9 que o romance ou a novela policial est\u00e3o de p\u00e9 h\u00e1 mais de 100 anos sem precisar licen\u00e7a para ningu\u00e9m para ter \u00eaxito. Ela \u00e9 vitoriosa e n\u00e3o \u00e9 vitoriosa porque \u00e9 auto-ajuda ou porque afaga o ego do leitor, n\u00e3o \u00e9 nada disso n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e0s vezes \u00e9 instigante. Ela at\u00e9 perturba o do sujeito. Ela persiste e insiste, eu diria, porque ela \u00e9 boa. O lixo nem chega a ser publicado. Para essa literatura policial que \u00e9 publicada tem um quantidade enorme de res\u00edduo que nunca veio \u00e0 p\u00fablico, assim como a literatura em geral. Para voc\u00ea ter um Philip Roth deve ter tido um monte de gente que est\u00e1 ainda se arrastando pelos cantos da casa tentando escrever alguma coisa que seja parecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que a literatura policial \u00e9 considerada de segunda linha n\u00e3o tem d\u00favida. Evidentemente voc\u00ea pode apontar certas diferen\u00e7as, tanto que eu n\u00e3o gosto de dizer que eu fa\u00e7o romance policial, eu digo que eu fa\u00e7o novela policial, mantendo a distin\u00e7\u00e3o de uma espessura espacial e temporal menor. \u00c9 uma narrativa que se passa num tempo mais curto, com um n\u00famero de personagens menor e com um \u00e2mbito de abarcamento tamb\u00e9m menor. Quer dizer, ela tem uma dimens\u00e3o espa\u00e7o-temporal reduzida. Mas, bolas! \u201cO velho e o Mar\u201d s\u00f3 tem um personagem, dois se voc\u00ea contar com o peixe, e o mon\u00f3logo de um velho dentro um barco no meio do mar e no entanto, em grande parte, deu o pr\u00eamio Nobel ao Hemingway. N\u00e3o \u00e9 pelo tamanho, ou por serem novelas ou n\u00e3o romances. Isso pode servir para classificar o grau de abarcamanento, mas n\u00e3o a qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Algumas pessoas acham que a nossa pol\u00edcia \u00e9 empecilho para o desenvolvimento da literatura policial no Brasil, voc\u00ea concorda?<\/strong><br \/>\nSe fosse pensar assim jamais teria surgido a literatura americana. Quando ela surgiu, na \u00e9poca de\u00a0 Dashiell Hammett, Raymond C, James Cane, era uma pol\u00edcia horrorosa, corrupta, bandida, voc\u00ea n\u00e3o sabia quem era pior, pol\u00edcia ou bandido. A pol\u00edcia americana na \u00e9poca era o que havia de pior em mat\u00e9ria de pol\u00edcia, no entanto acho que Dashiell e Raymond n\u00e3o ficam a dever a nenhum escritor em g\u00eanero nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 porque eu n\u00e3o escrevo nem para, nem sobre, nem baseado na nossa pol\u00edcia. Eu escrevo apesar da nossa pol\u00edcia. Acho que sem d\u00favida o que se pode dizer \u00e9 que a nossa pol\u00edcia serviu \u00e0 repress\u00e3o estatal, uma pol\u00edcia violenta, grosseira, que n\u00e3o tinha nada de investigativa. Era repressiva ao excesso, a servi\u00e7o da pol\u00edtica dominante, at\u00e9 a ditadura, mas o fato \u00e9 que quando publiquei &#8220;O Sil\u00eancio da Chuva&#8221;, n\u00e3o havia mais ditadura, mas estava muito pr\u00f3xima a imagem da pol\u00edcia e no entanto &#8220;O Sil\u00eancio da Chuva&#8221; foi um sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem planos de escrever livros que n\u00e3o sejam policiais?<\/strong><br \/>\nOlha, planos eu at\u00e9 tenho, vontade eu tenho, n\u00e3o sei se vou ter tempo. Quem escreve o primeiro livro aos 60 anos tem que fazer uma certa escolha, uma certa sele\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o vai morrer engasgado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com o detetive Espinosa?<\/strong><br \/>\nMinha rela\u00e7\u00e3o com o Espinosa \u00e9 \u00f3tima, n\u00f3s nos damos muito bem. Espero que continuemos por muitos anos. N\u00e3o s\u00f3 o Espinosa, mas esse pequeno cosmo em que o Espinosa est\u00e1 inserido, ele tem quase uma realidade para mim. Peixoto, Copacabana, forma um pequeno mundo que eu co-habito. O Espinosa \u00e9 um companheiro cotidiano meu, penso nele muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais seus detetives favoritos?<\/strong><br \/>\nEu ia dizer que, sem d\u00favida, o Maigret, do Simenon, mas j\u00e1 fiquei em d\u00favida. Eu gosto muito do Nero Wolf, o gord\u00e3o de Nova Iorque do Rex Stout. Sam Spade, do Hammett, Philip Marlowe do Chandler. Gosto muit\u00edssimo do Ripley, da Patr\u00edcia Highsmith, embora ele seja um bandido que virou mocinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">********<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roberta \u00c1vila \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/ficcoesdaminhavida.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fic\u00e7\u00f5es  da minha vida<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">********<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Contos de Pol\u00edcia&#8221;, por Roberta \u00c1vila, na Revista da Cultura (<a href=\"http:\/\/www2.livrariacultura.com.br\/culturanews\/rc32\/index2.asp?page=materia2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Um Longo Rastro de Sangue No Meio Liter\u00e1rio&#8221;, por Douglas Cometti (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/03\/22\/um-longo-rastro-de-sangue\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Roberta \u00c1vila\nEle come\u00e7ou a escrever aos 60 anos e j\u00e1 no seu primeiro livro, &#8220;O Sil\u00eancio da Chuva&#8221;, ganhou um dos principais pr\u00eamios do pa\u00eds&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/03\/22\/entrevista-luiz-alfredo-garcia-roza\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":124,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4681"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/124"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4681"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4681\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73544,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4681\/revisions\/73544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}