{"id":4677,"date":"2010-03-22T11:52:01","date_gmt":"2010-03-22T14:52:01","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4677"},"modified":"2023-03-29T00:02:22","modified_gmt":"2023-03-29T03:02:22","slug":"um-longo-rastro-de-sangue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/03\/22\/um-longo-rastro-de-sangue\/","title":{"rendered":"Um Longo Rastro de Sangue&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-4678\" title=\"dashiel_hammet_miquel_vita\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/dashiel_hammet_miquel_vita.jpg\" alt=\"\" width=\"303\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/dashiel_hammet_miquel_vita.jpg 303w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/dashiel_hammet_miquel_vita-248x300.jpg 248w\" sizes=\"(max-width: 303px) 100vw, 303px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um Longo Rastro de Sangue No Meio Liter\u00e1rio<br \/>\npor Douglas Cometti<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong><em>Texto publicado no Scream &amp; Yell originalmente em 10\/06\/2003<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com um come\u00e7o modesto, em revistas feitas do mais vagabundo papel, o romance policial cresceu e se firmou como um dos mais populares g\u00eaneros liter\u00e1rios do s\u00e9culo XX e, ao que tudo indica, vai atravessar o pr\u00f3ximo s\u00e9culo da mesma forma que passou pelo primeiro, enfrentando de bandidos s\u00e1dicos e inescrupulosos a cr\u00edticos e intelectuais que insistem e em trat\u00e1-lo como subproduto cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surgido no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, o romance policial ou, como muitos preferem, romance noir, sempre ocupou um lugar menor no meio liter\u00e1rio. Considerado pela elite intelectual, desde seu surgimento, como lixo cultural, literatura barata, desprovida de elementos que levassem \u00e0 reflex\u00e3o do indiv\u00edduo, criada apenas para o consumo r\u00e1pido e distra\u00e7\u00e3o de pessoas &#8220;incultas&#8221;, esse tipo de fic\u00e7\u00e3o, ainda hoje, perambula pelos guetos da hist\u00f3ria, lugar esse, ali\u00e1s, que sempre lhe foi muito familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes confundido com romance de espionagem, terror ou mist\u00e9rio e chamado genericamente de &#8216;Pulp Fiction&#8217;, o noir se difere dos demais g\u00eaneros gra\u00e7as a uma s\u00e9rie de regras de estilo que, ao mesmo tempo, lhe imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es e o tornam inconfund\u00edvel. O escritor Marcos Reis, certa vez, definiu bem os limites do noir ao observar que basta se colocar o interesse de um pa\u00eds na trama para esta se tornar uma hist\u00f3ria de espionagem; se algo sobrenatural permeia a narrativa ent\u00e3o temos uma hist\u00f3ria de mist\u00e9rio. Quanto ao termo Pulp Fiction, este se refere mais ao tipo de papel usado para impress\u00e3o de livros baratos, do que a um estilo propriamente dito, e ai entram at\u00e9 as a\u00e7ucaradas hist\u00f3rias de Sabrina e Julia. O tema tratado pelo noir \u00e9, invariavelmente, o mundo do crime, com seus guetos sujos, habitados por seres execr\u00e1veis, detetives violentos e policiais decadentes, tipos femininos amb\u00edguos, enfim, um apanhado de personagens imorais envolvidos em tramas complexas, num ambiente realista e sombrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem defenda Conan Doyle como primeiro escritor policial da hist\u00f3ria. O criador de Sherlock Holmes, ao menos, definiu algumas diretrizes para o g\u00eanero, mas uma r\u00e1pida compara\u00e7\u00e3o entre o pomposo detetive brit\u00e2nico e figuras como Sam Spade, de Dashiell Hammett e Philip Marlowe, de Raymond Chandler, nos mostra a dist\u00e2ncia entre esses personagens e os mundos, ou submundos, nos quais os mesmos atuavam. Sherlock Holmes era um aristocrata, extremamente inteligente e culto, que desvendava seus casos de forma sutil, mesmo em uma Londres sombria e misteriosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o tipo de detetive que consolidou o noir possui caracter\u00edsticas que est\u00e3o mais para defeitos que qualidades, e s\u00e3o esses defeitos que os tornam atraentes ao p\u00fablico. Numa edi\u00e7\u00e3o nacional de &#8220;O Falc\u00e3o Malt\u00eas&#8221;, publicada pela Editora Abril Cultural, em 1984, foi inclu\u00eddo o seguinte subt\u00edtulo: Sam Spade: um detetive dur\u00e3o e amoral. Isso nos da uma pista do tipo de personagem que vamos encontrar ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O g\u00eanero, tal como \u00e9 conhecido hoje, teve, sua mais prov\u00e1vel origem, com o escritor Dashiell Hammett. S\u00e3o dele os primeiros contos publicados a partir de 1922, pela revista &#8220;Black Mask&#8221;, revista esta, que se tornou o principal ve\u00edculo de divulga\u00e7\u00e3o do romance policial e abrigou, n\u00e3o s\u00f3 Hammett, mas uma consider\u00e1vel parcela de escritores que n\u00e3o encontravam lugar nas editoras da \u00e9poca. Os contos do detetive an\u00f4nimo, que trabalhava para Continental Agency, baseada em San Francisco, foram os primeiros a se tornar conhecidos do p\u00fablico e dar origem \u00e0 express\u00e3o \u201cHard-boiled\u201d, utilizada por cr\u00edticos para definir os tipos rudes criados pelo escritor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que simples peculiaridade, a viol\u00eancia nos romances policiais estava ligada ao clima da \u00e9poca de seu surgimento, um p\u00f3s-guerra, onde o crime organizado crescia a olhos vistos nas grandes cidades americanas. Tamb\u00e9m foi a viol\u00eancia, uma das respons\u00e1veis pela marginaliza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero aos olhos da elite cultural daquele momento, e pelo seu sucesso entre as classes baixas. O in\u00edcio do noir vem na esteira da alfabetiza\u00e7\u00e3o em massa nos EUA e da populariza\u00e7\u00e3o da imprensa. Isso, de certa forma, contribuiu para uma outra caracter\u00edstica, grande parte das hist\u00f3rias policiais eram contos, originalmente publicados em revistas baratas, como a j\u00e1 citada Black Mask e posteriormente editados em livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos feitos de Dashiell Hammet, que foi seguido \u00e0 risca por seus predecessores, foi ter a percep\u00e7\u00e3o de criar personagens que gerasse identifica\u00e7\u00e3o com o tipo m\u00e9dio americano. Logo o que temos em suas hist\u00f3rias, s\u00e3o detetives particulares a beira do fracasso, duros e corro\u00eddos pelo tempo e pelas desventuras da profiss\u00e3o, quase alco\u00f3latras e, geralmente, violentos, mas sempre conservando um certo charme e uma capacidade incr\u00edvel de tomar para si o controle da situa\u00e7\u00e3o, por mais adversa que fosse. Personagens assim eram sucesso garantido em uma sociedade machista, que tinha a figura masculina como mola propulsora para o progresso. Personagens com uma obstina\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica pela justi\u00e7a, incorrupt\u00edveis (nem sempre), sem uma forma\u00e7\u00e3o erudita, mas pragm\u00e1ticos, com experi\u00eancia adquirida nas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo o racioc\u00ednio machista, o papel ocupado pelas mulheres nesse tipo de fic\u00e7\u00e3o\u00a0 possui conota\u00e7\u00f5es diferentes, muitas vezes opostas, ao do tipo masculino. O estereotipo da fragilidade feminina \u00e9 explorado ao m\u00e1ximo pelo g\u00eanero com nuances que v\u00e3o da total inoc\u00eancia ao puro maquiavelismo, dando origem \u00e0 figura da mulher fatal. Elas s\u00e3o o fio condutor de muitas hist\u00f3rias. Dois bons exemplos s\u00e3o &#8220;O Falc\u00e3o Maltes&#8221; e &#8220;O Destino Bate \u00e0 Sua Porta&#8221;, cl\u00e1ssicos irrefut\u00e1veis da literatura noir, onde as mulheres s\u00e3o as respons\u00e1veis pelas reviravoltas na trama e aparecem como o calcanhar de Aquiles dos protagonistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os escritores de romance policial tamb\u00e9m sempre se preocuparam com a forma como descreviam lugares e situa\u00e7\u00f5es. Nada pode escapar ao leitor e, ao mesmo tempo, n\u00e3o \u00e9 permitido devaneios ou pensamentos intermin\u00e1veis. T\u00e3o importante quanto a trama, o ritmo da mesma define uma boa obra policial. Para completar, a criatividade e peculiaridade de cada escritor confere a originalidade de seus personagens, como maneira de falar, cacoetes, v\u00edcios e fraquezas. O uso da linguagem coloquial, com boa dose de g\u00edrias, \u00e9 outra marca do noir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa estrutura, na qual nasceu e se desenvolveu o romance policial, chamou a aten\u00e7\u00e3o dos est\u00fadios de cinema americanos, que se deparavam com roteiros praticamente prontos. Em pouco tempo um novo nicho foi conquistado, das p\u00e1ginas de revistas vagabundas para o cinema, consolidando o g\u00eanero, mesmo que ainda visto de soslaio por muita gente. Ai brilharam figuras como o gal\u00e3 Humphrey Bogart e o esquisito Peter Lorre, este \u00faltimo feito sob medida para o romance policial devido sua origens no cinema expressionista alem\u00e3o e ao seu tipo f\u00edsico peculiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde de sua consolida\u00e7\u00e3o no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, at\u00e9 os dias de hoje, a fic\u00e7\u00e3o policial passou por v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es em seu contexto, adequando-se a cada \u00e9poca e provando sua consist\u00eancia e longevidade. A literatura noir ganhou admiradores e representantes de peso fora do eixo Estados Unidos \u2013 Inglaterra, sua fama de subg\u00eanero foi, at\u00e9 certo ponto, redimida e, ainda hoje, o policial desempenha um importante papel na tarefa de arrebanhar novos adeptos ao h\u00e1bito da leitura. De Dashiell Hammett a James Ellroy muita coisa mudou, o mundo do crime mudou, os detetives mudaram, mas n\u00e3o sumiram. Seus principais cronistas tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">********<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Imagem de abertura &#8211; Homenagem a Dashiel Hammet &#8211; Ol\u00e9o sobre tela, 1982. (Miqu\u00e9l Vita)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Douglas Cometti\nMesmo com um come\u00e7o modesto, em revistas feitas do mais vagabundo papel, o romance policial cresceu e se firmou como um dos mais populares g\u00eaneros liter\u00e1rios do s\u00e9culo XX&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/03\/22\/um-longo-rastro-de-sangue\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4677"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4677"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4677\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4705,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4677\/revisions\/4705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}