{"id":46708,"date":"2018-02-27T09:27:38","date_gmt":"2018-02-27T12:27:38","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=46708"},"modified":"2018-06-06T17:26:10","modified_gmt":"2018-06-06T20:26:10","slug":"tres-documentarios-voyeur-visages-villages-e-strong-island","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/02\/27\/tres-documentarios-voyeur-visages-villages-e-strong-island\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas document\u00e1rios: \u201cVoyeur\u201d, \u201cVisages, Villages\u201d e \u201cStrong Island\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-46712 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/voyeur.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/voyeur.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/voyeur-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cVoyeur\u201d, de Myles Kane e Josh Koury (2017)<\/strong><br \/>\nNo final dos anos 70, come\u00e7o dos 80, Gay Talese, um dos principais nomes do Novo Jornalismo, mergulhou em uma extensa pesquisa e reportagem sobre sexualidade (como participante ativo da hist\u00f3ria) que rendeu o livro \u201cA Mulher do Pr\u00f3ximo: Uma Cr\u00f4nica da Permissividade Americana Antes da Era da AIDS\u201d (1981). O volume, pol\u00eamico, chamou a aten\u00e7\u00e3o de Gerald Foos, um homem simples que era dono de um motel no Colorado, e escreveu a Talese contando sobre seu voyeurismo: ele havia constru\u00eddo um corredor sobre os quartos do motel e passou madrugadas de anos a fio observando (e, claro, se masturbando) os costumes de seus clientes. Com tudo anotado, Foos se revelou uma hist\u00f3ria imperd\u00edvel que Talese queria, de qualquer maneira, contar, mas com uma condi\u00e7\u00e3o: Gerald Foos precisaria se revelar. Mais de 30 anos depois, entre idas e vindas, Foos aceitou a condi\u00e7\u00e3o e Gay Talese lan\u00e7ou em 2016 o livro \u201cThe Voyeur&#8217;s Motel\u201d (\u201cO Voyeur\u201d, que ganhou edi\u00e7\u00e3o nacional via Cia das Letras), cercado de pol\u00eamica: uma reportagem do The Washington Post exibia inconsist\u00eancias nas pesquisas de Talese, que tratou de desautorizar o livro \u00e0s v\u00e9speras de seu lan\u00e7amento. Tendo dois personagens complexos ao alcance (Foos e Talese), \u201cVoyeur\u201d, o document\u00e1rio de Myles Kane e Josh Koury bancado pela Netflix, acompanha o processo de produ\u00e7\u00e3o do livro e as pol\u00eamicas posteriores num retrato que, por vezes, aprofunda o olhar tanto sobre jornalismo quanto sobre voyeurismo. A meticulosidade e eleg\u00e2ncia de Gay Talese (um dos maiores jornalistas vivos) se choca com a postura wannabe simpl\u00f3ria de Gerald Foos, e todos os elementos da narrativa (as inconsist\u00eancias das informa\u00e7\u00f5es estranhamente &#8220;aceitas&#8221; pelo jornalista, as manias e as cole\u00e7\u00f5es \u2013 bizarras? \u2013 do entrevistado tanto quanto sua ampla dedica\u00e7\u00e3o em ser expor) transformam \u201cVoyeur\u201d em um document\u00e1rio imperd\u00edvel sobre humanos demasiadamente humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 9<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-46709 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/olhares.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"668\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/olhares.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/olhares-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cVisages, Villages\u201d, de Agn\u00e8s Varda e JR (2017)<\/strong><br \/>\nCom mais de 60 anos de carreira, em novembro de 2017, Agn\u00e9s Varda tornou-se a primeira diretora, mulher, a receber um Oscar pelo conjunto da obra. Neste mesmo ano, a cineasta foi homenageada pela 41\u00aa Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo. Para coroar, viu seu bel\u00edssimo document\u00e1rio \u201cVisages, Villages\u201d, produzido em colabora\u00e7\u00e3o com o jovem fot\u00f3grafo e muralista JR, vencedor do \u0152il d\u2019or (\u201cOlho de Ouro\u201d, o pr\u00eamio de melhor document\u00e1rio) no Festival de Cannes e indicado na categoria de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/23\/conheca-os-indicados-ao-oscar-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Melhor Document\u00e1rio do Oscar 2018<\/a>, um reconhecimento merecido pela incr\u00edvel delicadeza da obra, que ousa valorizar o ato fotogr\u00e1fico e a mensagem da imagem em meio a um mundo viciado no esvaziamento das selfies e dos cliques autom\u00e1ticos de celular. Neste road movie sentimental, juntos a bordo de um furg\u00e3o transformado em c\u00e2mera fotogr\u00e1fica ambulante, Agn\u00e8s Varda e JR constroem um di\u00e1rio de bordo po\u00e9tico flagrando faces e vilarejos da Fran\u00e7a numa busca encantadora por&#8230; hist\u00f3rias. Foram 18 meses de viagens compactados em 89 minutos de m\u00e1gica e poesia. \u201cVisages, Villages\u201d \u00e9 uma mistura de acasos (de transeuntes que passam na pra\u00e7a de um pequeno vilarejo e tiram foto na c\u00e2mera m\u00e1gica do furg\u00e3o empunhando uma baguete a uma gar\u00e7onete de um pequeno bistr\u00f4 que se transforma em \u00edcone de uma vila at\u00e9 um velho carteiro e um andarilho poeta) e reencontros (a visita ao t\u00famulo de Henri Cartier-Bresson \u00e9 um encanto tanto quanto a malfadada viagem at\u00e9 a Su\u00ed\u00e7a para encontrar o n\u00e3o encontr\u00e1vel Jean-Luc Godard se transforma num momento de beleza \u00fanica, com a c\u00e2mera flagrando o desconcerto, mas tamb\u00e9m a poesia da tristeza e da aceita\u00e7\u00e3o, algo que, grosseiramente, Godard devia ter pensando em causar, um grande n\u00e3o ator que rouba a cena de maneira efusiva) que honram tanto o cinema quanto a fotografia e a arte de rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-46710 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/strong.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"666\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/strong.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/strong-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cStrong Island\u201d, de Yance Ford (2017)<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/23\/conheca-os-indicados-ao-oscar-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Outra produ\u00e7\u00e3o Netflix indicada ao Oscar (junto a \u201cIcarus\u201d)<\/a>, o document\u00e1rio \u201cStrong Island\u201d aprofunda a discuss\u00e3o sobre a morte do irm\u00e3o da diretora Yance, William, assassinado a tiros em 1992, quando tinha apenas 24 anos, e o julgamento posterior em que o j\u00fari, totalmente composto por pessoas brancas, alegou legitima defesa para n\u00e3o incriminar o assassino. Uma dolorosa ferida familiar, em primeiro plano, e social, num \u00e2mbito de uma comunidade (e de uma Justi\u00e7a) racista, que n\u00e3o cicatriza, a morte de William \u00e9 retomada numa narrativa que retorna ao encontro de seus pais, em 1958, que se mudaram de Charleston, na Carolina do Sul, em meados dos anos 70 (a cidade que recentemente abrigou um protesto de extrema-direita contra negros, imigrantes, gays e judeus) buscando oportunidades em Nova York. \u201cEu adorava aquele lugar\u201d, conta a m\u00e3e sobre a casa da fam\u00edlia no Brooklyn nova-iorquino. O pai era motorista do metr\u00f4; a m\u00e3e, professora. Com o aumento da fam\u00edlia (Yance e William teriam mais uma irm\u00e3), os Ford se mudam para o que viria a ser um dos guetos afro-americanos em Long Island, pequenos bairros com linhas divis\u00f3rias segregat\u00f3rias invis\u00edveis, mas existentes. Yance vai reconstruindo a hist\u00f3ria da fam\u00edlia delicadamente tentando entender (e aceitar) a trag\u00e9dia do assassinato do irm\u00e3o tanto quanto o posterior descaso do j\u00fari e da sociedade num document\u00e1rio que soa t\u00e3o intenso, verdadeiro e necess\u00e1rio hoje em dia quanto se tivesse feito na semana seguinte \u00e0 morte de William. O tr\u00e1gico epis\u00f3dio destro\u00e7ou a fam\u00edlia Ford, que nunca mais foi a mesma tendo o fantasma da injusti\u00e7a social pairando sobre o teto da casa, mas Yance reuniu for\u00e7as para contar essa hist\u00f3ria, mais uma mancha de vermelho na bandeira dos direitos civis, uma hist\u00f3ria t\u00e3o americana (e mundial) de impunidade, medo e preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kTAYqsT05Dc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oaq9IMouPIs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h64qugj_iDg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) edita o Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/23\/conheca-os-indicados-ao-oscar-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia sobre todos os filmes do Oscar 2018 aqui<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cVoyeur\u201d flagra Gay Talese numa grande reportagem; \u201cVisages, Villages\u201d honra tanto o cinema quanto a fotografia e a arte de rua; &#8220;Strong Island&#8221; \u00e9 uma hist\u00f3ria t\u00e3o americana (e mundial) de impunidade, medo e preconceito.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/02\/27\/tres-documentarios-voyeur-visages-villages-e-strong-island\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":46711,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[154,2553],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46708"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46708"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46717,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46708\/revisions\/46717"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46711"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}