{"id":46369,"date":"2018-01-31T10:13:25","date_gmt":"2018-01-31T12:13:25","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=46369"},"modified":"2024-07-02T19:03:32","modified_gmt":"2024-07-02T22:03:32","slug":"entrevista-sara-driver-fala-sobre-basquiat","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/31\/entrevista-sara-driver-fala-sobre-basquiat\/","title":{"rendered":"Entrevista: Sara Driver fala sobre Basquiat, tema do filme \u201cBoom For Real: The Late Teenage Years of Jean-Michel Basquiat\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"http:\/\/renanborgessimao.pressfolios.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renan Borges Sim\u00e3o<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista no CCBB em S\u00e3o Paulo,<del> exposi\u00e7\u00e3o que abriga 80 obras do artista morto aos 27 anos, v\u00edtima de overdose<\/del>, percebe-se as letras em neon do Mudd Club e Club 57, clubes conhecidos por abrigar contracultura. A diretora Sara Driver conhecia Jean-Michel Basquiat por essa cena \u2013 aquela em que iam \u201cver o Afrika Bambaataa, clubes de punk, Talking Heads\u201d \u2013 mas ainda n\u00e3o pessoalmente. O primeiro contato foi quando Basquiat roubou uma flor e ofereceu \u00e0 realizadora. Depois, acompanhou de longe sua ascens\u00e3o. Encontrou-o debilitado, \u201csem dentes\u201d, ao fim de sua vida. Intui hoje que \u201ch\u00e1 um maior contexto [da morte de Basquiat], n\u00e3o s\u00f3 o do mundo da arte, mas do mundo corporativo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diretora de \u201cYou Are Not I\u201d (1983), um dos melhores filmes dos anos 1980 segundo a Cahiers du Cin\u00e9ma, conta da cultura das drogas que matou muitos amigos em Nova York no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 a partir de um hotel de luxo em Sintra, Portugal. Seu filme \u201cBoom For Real: The Late Teenage Years of Jean-Michel Basquiat\u201d (2017) teve a premi\u00e8re europeia em novembro no festival Leffest. A audi\u00eancia que lotou a sess\u00e3o do pequeno cinema Nimas, este em Lisboa no dia anterior \u00e0 entrevista, ouviu da norte-americana detalhes sobre o argumento inicial de seu primeiro longa como diretora em 24 anos, um document\u00e1rio que seria um curto videopoema a partir de um material que a amiga Alexis Adler herdou de seu ent\u00e3o <em>roommate<\/em> e ex-namorado Basquiat. A embriologista Adler afirma que o apartamento forrado de textos de biologia, qu\u00edmica e uma c\u00f3pia de \u201cHist\u00f3ria da Arte\u201d, de H. W. Janson, foi um \u201cref\u00fagio\u201d e \u201claborat\u00f3rio\u201d para Jean e sua arte. [leia o depoimento completo de Adler ao final].<\/p>\n<figure id=\"attachment_46371\" aria-describedby=\"caption-attachment-46371\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-46371 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/sara.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/sara.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/sara-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-46371\" class=\"wp-caption-text\"><em>A cineasta e documentarista Sara Driver. <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle era o jovem que encontrou a pr\u00f3pria universidade\u201d, diz Driver. O Basquiat de 19 para 20 anos que vemos no filme come\u00e7ava a ser conhecido pela tag SAMO (\u201cSame Old Shit\u201d), parceria de registro nas paredes do Lower East Side de Manhattan com o grafiteiro Al Diaz. Com relatos de Alexis e outros nomes da \u00e9poca (Luc Sante, Al Diaz, Lee Qui\u00f1ones, Jim Jarmusch, marido de Sara, entre outros), as fotografias da transforma\u00e7\u00e3o de Basquiat em passagem de apenas 6 meses pelo apartamento de Adler &#8211; praticando clarinete no banheiro, pintura de sucata de TV, roupas pintadas e desenhos na porta &#8211; se tornam base para remontar a hist\u00f3ria de uma Nova York de outsiders. Uma cidade violenta e sucateada, barata para viver e liberal artisticamente formou um artista que, em poucos anos, seria al\u00e7ado ao mercado de arte mainstream e apropriado pela cultura pop. O filme apenas sugere o que viria pela frente. Termina com as mem\u00f3rias do curador Diego Cortez sobre a mostra \u201cNew York\/New Wave\u201d, do in\u00edcio de 1981, que junto de trabalhos de mais de 100 artistas, entre eles Keith Haring e Andy Warhol, apresentou alguns dos primeiros trabalhos de Basquiat.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, ao descrever a fase formativa de Basquiat, Driver revela sua inten\u00e7\u00e3o de recuperar uma Nova York que moldou um \u00edcone. De prod\u00edgio a mito, a hist\u00f3ria de Basquiat pelos olhos da diretora foi resultado de mudan\u00e7as sociais e financeiras na produ\u00e7\u00e3o de arte daquela cidade. Como diz a diretora, sobre a \u00e9poca: \u201cA gente n\u00e3o pensava em &#8216;mercado&#8217;. Tudo mudou depois disso\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Boom For Real: The Late Teenage Years of Jean-Michel Basquiat - Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PUsy5RObL2U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o existe nenhuma rela\u00e7\u00e3o entre o nome do seu filme e a exposi\u00e7\u00e3o do Barbican Centre (encerrada no final de janeiro de 2018), em Londres?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, eu defini o nome h\u00e1 uns dois anos. \u00c9 uma sincronicidade do mundo. Mas tamb\u00e9m \u00e9 o que Jean-Michel dizia quando estava animado: Boom For Real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas j\u00e1 existem exposi\u00e7\u00f5es nos EUA com esse material?<\/strong><br \/>\nSim. Enquanto film\u00e1vamos, eu encorajei Alexis [a fazer]. Pois houve o desastre [financeiro] com a [galeria de arte] Christie&#8217;s, e uns jovens em Nova York estavam fazendo um art show num pr\u00e9dio abandonado, com 150 curadores e artistas que ningu\u00e9m conhecia. Eu disse para Alexis, &#8216;vamos mostrar essas fotos e os trabalhos l\u00e1&#8217;. Sem imprensa nenhuma para n\u00e3o termos problemas com a fam\u00edlia [de Basquiat]. E as pessoas podem encontr\u00e1-las. As pessoas estavam n\u00e3o em um museu, mas neste lugar abandonado. Lembro que ela organizou as fotografias, eu quase chorei, era o lugar onde ele pertencia. Agora essa exposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 passou pelo Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Denver. H\u00e1 um livro [resultado do material] chamado &#8220;Basquiat before Basquiat: East 12th st. 1979\u20131980&#8221;. Muitas pessoas do meu filme est\u00e3o no livro e eu tamb\u00e9m escrevi um ensaio para o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esperamos que chegue ao Brasil.<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 incr\u00edvel ver as roupas que ele pinta e todas as outras coisas. Ele pintava em qualquer coisa. Parecia que Alexis vivia com um elfo que pintava as roupas dela, pintava o ch\u00e3o, tudo. Ela acordava todo dia com coisas novas acontecendo. Essa energia daquela \u00e9poca voltou a mim e pensei: &#8220;Preciso capturar isso!&#8221;. Isso \u00e9 importante para os jovens. Experimente, experimente. A gente falha com tantas coisas, mas n\u00f3s tentamos. Estamos muito medrosos para tentar, sabe? Para mim, esse \u00e9 o meu \u00edmpeto. N\u00f3s todos podemos aprender com a hist\u00f3ria, e ela \u00e9 c\u00edclica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguma chance do seu filme passar por aqui?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o estou tomando conta disso, mas espero que sim porque j\u00e1 fui ao Festival do Rio com o meu \u00faltimo filme em 1993 [\u201cQuando os Porcos Voam\u201d], e gostei tanto. O p\u00fablico brasileiro \u00e9 \u00f3timo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao tomar conhecimento do material de Basquiat, quando voc\u00ea pensou que existiria um filme ali?<\/strong><br \/>\nNo momento que vi o que ela tinha, o trabalho e as fotos. Pensei: \u201cIsso \u00e9 uma janela n\u00e3o s\u00f3 dele, mas da cidade de Nova York naquela \u00e9poca\u201d. A\u00ed comprei uma c\u00e2mera na semana seguinte e comecei a filmar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A atmosfera da \u00e9poca foi a primeira ideia, a cultura de Nova York.<\/strong><br \/>\nSim. Existe algo muito reconfortante porque entre nessa outra hist\u00f3ria com isso [a luta sobre os direitos de uso das obras], mas existe algo m\u00e1gico quando voc\u00ea volta para a ideia inicial do filme. O seu primeiro instinto. No come\u00e7o, pensei que seria um poema de 20 minutos, mas depois se expandiu nessa [hist\u00f3ria de] 1h15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pensei que veria muito o rosto de Basquiat no filme. Mas isso n\u00e3o acontece, vemos o que o rodeava.<\/strong><br \/>\n\u00c9 o que o alimentava. \u00c9 como se as pessoas n\u00e3o soubessem como ele era. Quando vi os trabalhos, pensei: \u201cO que ele estava lendo? O que ele estava escutando na \u00e9poca?\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Boom For Real   Clip\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gNWibwC0QII?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que essa parte de influ\u00eancias desse m\u00edtico Basquiat j\u00e1 n\u00e3o estava coberta por outros document\u00e1rios e filmes?<\/strong><br \/>\nOutros filmes mitificam ele mais. Esse \u00e9 mais sobre essa crian\u00e7a. Isso \u00e9 o que alimentava a crian\u00e7a, sabe? Acho que \u00e9 interessante o que aprendi ao fazer o filme \u00e9 que ele era o jovem que encontrou a pr\u00f3pria universidade, seu pr\u00f3prio local de estudo. E as pessoas que ele escolheu para estudar com ele s\u00e3o muito interessantes. Estudou com Fab 5 Freddy e aprendeu muito sobre museus e m\u00fasica, Max Roach e jazz. Com Jim [Jarmusch], ou Luc Sante, ou Alexis, que \u00e9 uma cientista, de quem ele pegou essas ideias [sobre ci\u00eancia] dos livros dela. Ele era essa esponja, ele estava absorvendo todas essas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea conheceu essa crian\u00e7a. Como foi o seu primeiro contato com Basquiat?<\/strong><br \/>\nBom, Jim diz no filme: \u00e9 ele nos encontrando e me dando uma flor. Foi a minha primeira vez. A gente se conhecia em clubes e discotecas. Ele era maluco por garotas. Nada de errado com isso. [risos]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembra-se da primeira impress\u00e3o ao ver um trabalho dele?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei exatamente. Fiquei muito impressionada com SAMO [acr\u00f4nimo para Same Old Shit], as frases nas paredes [feitas com spray]. Esse foi o meu primeiro encontro com ele. E ningu\u00e9m sabia quem SAMO era. Eram Al Diaz e Jean-Michel. E \u00e9 interessante porque depois eu estava falando com Al e, voc\u00ea sabe, ele foi meio que apagado da hist\u00f3ria pelo Jean. Ao fim da vida de Jean, Al me disse que ele apareceu na casa dele com uma pintura tr\u00edptica que dizia &#8220;From SAMO to Samo&#8221;. Acho que ele sabia que deixou Al na m\u00e3o e queria recompens\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que voc\u00ea decidiu limitar o filme at\u00e9 a primeira grande venda de um trabalho de Basquiat?<\/strong><br \/>\nBom, um dos primeiros trabalhos dele foram vendidos para Debbie Harry e Chris Stein, mas n\u00e3o foi isso que o lan\u00e7ou ao mundo da arte. O que fez isso foi a venda para esse primeiro colecionador [do mercado de arte].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea decidiu parar a\u00ed.<\/strong><br \/>\nTamb\u00e9m foi o fim de um certo momento em Nova York porque de repente t\u00ednhamos a Aids, que matou muita gente. T\u00ednhamos o mercado imobili\u00e1rio crescendo e o mercado de arte come\u00e7ando a crescer, tudo que era relacionado a dinheiro e mercado estava mudando. A gente n\u00e3o pensava em &#8216;mercado&#8217;. N\u00e3o tinha esse conceito para a gente. Tudo mudou depois disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas Basquiat sabia que queria ser famoso e tinha essa vontade de ser parte desse mercado, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEra interessante como ele reconhecia o seu valor. Ent\u00e3o, sim. O p\u00f4ster do filme \u00e9 de uma cena muito forte. Acho que ele tinha 16, 17 anos. Al Diaz tirou essa foto. Eu disse: &#8220;Al, ele estava tentando ser Che Guevara ou algo parecido?&#8221; E, Al disse: &#8220;N\u00e3o, foi como ele pensou que se pareceria como um artista&#8221;. [Risos] Vestindo um manto e encontrando o seu caminho. Ele era um grande poeta tamb\u00e9m. As palavras dele s\u00e3o incr\u00edveis. Acho que o uso das palavras nas pinturas do fim de sua carreira \u00e9 lindo. Eu me sinto privilegiada de ter lido esses primeiros textos. S\u00e3o coisas que ele literalmente escreveu num peda\u00e7o de papel, sem usar nem o papel inteiro. S\u00f3 usando uma parte, escrevendo algo e depois rasurando para que voc\u00ea pudesse ler a rasura. \u00c9 muito intencional. As influ\u00eancias do [escritor William] Burroughs, dos romances policiais, desenhos animados e tudo mais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-46372\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1111\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat2-203x300.jpg 203w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat2-691x1024.jpg 691w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a descri\u00e7\u00e3o dessa atmosfera da cidade de Nova York pode nos ajudar a entender o processo criativo de Basquiat?<\/strong><br \/>\nBom, \u00e9 uma oportunidade de ter contato com sua escrita. Ningu\u00e9m fala dele como um escritor. Ningu\u00e9m fala dele como um escultor, e ele estava pegando coisas da rua e construindo coisas malucas. Saber que ele vivia com a Alexis Adler, uma cientista, e ele lia os cadernos dela e era obsessivo por gr\u00e1ficos e coisas cient\u00edficas. Voc\u00ea conhece os come\u00e7os que refletem nos seus \u00faltimos trabalhos. Ele estava achando o seu pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea acha que o legado de Basquiat se mant\u00e9m? A hist\u00f3ria m\u00edtica de um homem negro morto tragicamente ou suas obras?<\/strong><br \/>\nEle n\u00e3o era rico quando ele&#8230; Ele estava fazendo dinheiro, mas acho que este \u00e9 um filme sobre a quest\u00e3o racial tamb\u00e9m e como isso [o dinheiro] estava junto. Antes, era uma comunidade que era alimentada por si mesma e todas essas influ\u00eancias. Est\u00e1vamos vivendo em uma cidade destru\u00edda em que, quando precis\u00e1vamos de ajuda, n\u00f3s fic\u00e1vamos juntos. Acho que n\u00e3o \u00e9ramos orientados por cor ou ra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No filme, h\u00e1 uma \u00eanfase \u00e0 ascens\u00e3o do hip-hop e a cultura negra.<\/strong><br \/>\nSim, porque estava tudo misturado. N\u00f3s \u00edamos ver o Afrika Bambaataa e [est\u00e1vamos nos] clubes de punk, Talking Heads. Acho que, com rela\u00e7\u00e3o aos problemas do racismo que temos nos EUA, \u00e9 um filme importante sobre isso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No Brasil, estamos vivendo um per\u00edodo com mais manifesta\u00e7\u00f5es de setores conservadores questionando o que deve ser arte. Como a obra de Basquiat entra nesse debate, como forma de expandir os limites da arte?<\/strong><br \/>\n[Por meio do] seu uso das palavras, eu acho. As coisas que ele absorvia culturalmente tamb\u00e9m. Os artistas fazem coisas, ou est\u00e3o destinados a fazer coisas porque querem enviar um sinal. E o sinal dele era enorme. Ele era uma pessoa radiante. J\u00e1 pensei muito sobre como governos controlam as pessoas com os opi\u00e1ceos. Parte do projeto de limpeza que aconteceu no Lower East Side [nos anos 1980] era encher essa comunidade com drogas. Foram matando as pessoas. E em 1981, eles descobriram o crack. Mas crack e coca\u00edna eram muito mais eficientes, matavam mais r\u00e1pido. \u00c9 um controle da popula\u00e7\u00e3o por meio das drogas. N\u00e3o \u00e9 uma coisa rebelde usar drogas. \u00c9 uma coisa de ser controlado. Foi triste ver o Jean ser dominado por uma coisa que ele n\u00e3o queria ser controlado. Nos termos do mercado de arte e do qu\u00e3o valioso ele se tornou, como ele era enormemente prol\u00edfico, n\u00e3o estava nos interesses do mundo da arte que ele vivesse, talvez. As pessoas acham que est\u00e3o se rebelando, mas est\u00e3o se inserindo no sistema que dever\u00edamos nos rebelar para salvar o planeta e salvar nossas culturas. Eu amo o Lee Qui\u00f1ones no filme. Ele diz: &#8220;N\u00e3o sei o que acontece com essas pessoas. Eu estava t\u00e3o feliz de estar pintando e consciente, estar celebrando a minha consci\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Basquiat disse que sua arte n\u00e3o devia ser apreciada como a jun\u00e7\u00e3o de conceitos espec\u00edficos, como uma pincelada ou uma palavra, ele compara sua arte como &#8220;ouvir m\u00fasica&#8221;. Voc\u00ea concorda?<\/strong><br \/>\nSim. Eu acho que ideias s\u00e3o como m\u00fasica. De onde elas v\u00eam? Elas v\u00eam como m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea acha que Basquiat criaria em um mundo com internet?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho ideia, mas Jean era muito influenciado pelas ruas. \u00c9ramos todos. T\u00ednhamos que ser bons observadores das ruas sen\u00e3o \u00edamos morrer. Lembro de estar no Rio em 1992 ou 1993, era uma \u00e9poca perigosa com os garotos de rua sendo mortos. Lembro da minha antena de Nova York voltando. Era t\u00e3o familiar. Eu n\u00e3o tinha medo porque eu entendia, eu sentia a inten\u00e7\u00e3o de todos. De repente, voc\u00ea est\u00e1 conectado com as inten\u00e7\u00f5es que est\u00e3o nas ruas. Essa rela\u00e7\u00e3o humana de conversar com outras pessoas em vez de olhar para esse maldito telefone. Precisamos de g\u00e2ngsteres da imagina\u00e7\u00e3o. Outra coisa sobre o filme \u00e9 que \u00e9 tamb\u00e9m para os jovens. Esta comunidade aconteceu espontaneamente, e a gente se alimentava uns com os outros. A gente ganhava dons nesse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/artanddesign\/2017\/sep\/17\/two-new-banksy-artworks-appear-on-wall-of-barbican-centre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Banksy fez dois murais em Londres homenageando Basquiat<\/a> na \u00e9poca da inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o no Barbican, em Londres. Haveria Banksy sem Basquiat?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. Olha, voltando a essa ideia do grafite e ele [Basquiat] n\u00e3o ser um grafiteiro. Ele n\u00e3o era grafiteiro, era um poeta. Eu diria que Banksy \u00e9 mais influenciado por Richard Hamilton, que fazia aqueles desenhos com sombra. Voc\u00ea est\u00e1 andando na rua, v\u00ea algu\u00e9m, mas \u00e9 s\u00f3 uma pintura. \u00c9 impressionante. Ent\u00e3o, mas Al Diaz diz: &#8220;Eles n\u00e3o o chamam de Banksy por nada, n\u00e9: &#8216;Bank&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 justo levantar a narrativa de que Basquiat foi uma v\u00edtima do mundo da arte?<\/strong><br \/>\nAcho que ele era t\u00e3o jovem quando morreu. Ele foi uma v\u00edtima de si mesmo. Eu sei que ele queria ficar s\u00f3brio, deixar as drogas. N\u00e3o sei se o mundo da arte o ajudou. Sei o que s\u00e3o os meus sentimentos, mas n\u00e3o \u00e9 algo que eu possa responder. Meu instinto \u00e9 que eles [representantes do mercado de arte] n\u00e3o davam a m\u00ednima. Foi o que senti da \u00faltima vez que o vi antes de ele morrer. Foi o sentimento. Faltavam dentes, as feridas no rosto. Ele era um lindo rapaz e v\u00ea-lo assim&#8230; Era muito assustador para ele. Ele estava rodeado por amigos est\u00fapidos, por pessoas que traziam drogas para ele. Ele escolheu essas pessoas, mas ele era uma crian\u00e7a que n\u00e3o teve a chance de se desenvolver completamente. Se passasse dos 28, talvez vivesse. As drogas, como mostro no filme, eram t\u00e3o socialmente aceitas. As pessoas come\u00e7avam a ficar &#8216;limpas&#8217; no meio da d\u00e9cada, mas as drogas estavam em todo lugar. Lembro de ir a festivais de cinema em que ofereciam drogas para que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos que procurar nas ruas. Era diferente. Era [a \u00e9poca de] Ronald Reagan, por que n\u00e3o matar todos os artistas? Lembro de um traficante que era um pintor, um franc\u00eas, e ele levava hero\u00edna \u00e0s casas das pessoas. Ele s\u00f3 pintava quadros de policiais. Ele foi pego e s\u00f3 foi deportado. Nunca foi pra cadeia. Voc\u00ea nunca sabia o que realmente estava acontecendo e quem estava ganhando dinheiro. Acho que h\u00e1 um maior contexto [da morte de Basquiat], n\u00e3o s\u00f3 o do mundo da arte, mas do mundo corporativo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"LEFFEST&#039;17 Boom for Real: A Adolesc\u00eancia Tardia de Jean-Michel Basquiat - Conversa com Sara Driver\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B0SC056V93Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212;-<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por e-mail, Alexis Adler escreveu um depoimento sobre o filme e sua rela\u00e7\u00e3o com Basquiat. Este texto foi editado por raz\u00f5es de espa\u00e7o e clareza:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Desde jovem, eu estive apaixonada por Ci\u00eancia e sempre me senti em casa no laborat\u00f3rio. Quando vim para Nova York para ingressar no Barnard College, a faculdade para mulheres da Columbia University, estava estudando biologia e bioqu\u00edmica. Me apaixonei por NYC assim como por todos os tipos de arte, amigos e a grande variedade de cursos de Ci\u00eancia. (Por sinal, ci\u00eancia pode ser art\u00edstica tamb\u00e9m!) Tamb\u00e9m conheci na Columbia alguns dos meus amigos mais pr\u00f3ximos, incluindo Felice Rosser, Luc Sante, Darryl Pinckney, Bud Kliment, Malu Halasa e Jim Jarmusch, por ele \u00e9 que conhe\u00e7o a Sara. Muitos de n\u00f3s se mudaram para o centro depois da gradua\u00e7\u00e3o, em 1978. Foi assim que eu testemunhei pela primeira vez o grafite \u201cSAMO\u201d e sabia que quem fez aqueles coment\u00e1rios nas paredes e ruas e metr\u00f4s era um g\u00eanio. Essas paredes eram as primeiras telas de Jean. Finalmente, nos conhecemos na primavera de 1979 numa festa aleat\u00f3ria, na sa\u00edda, Jean me salvou de ser esfaqueada, depois de eu, inadvertidamente, abrir a porta de um carro de um cara da m\u00e1fia. Nos tornamos amigos pr\u00f3ximos e ficamos n\u00f3s dois no apartamento da [amiga] Felice [Rosser, que tamb\u00e9m est\u00e1 no filme]. Depois nos mudamos, primeiro junto de um amigo na E. 6 Street, e depois encontrando um apartamento na E. 12 Street, onde ainda moro. N\u00f3s nos am\u00e1vamos e \u00e9ramos muito \u00edntimos, mas era um tempo muito mais livre (antes da Aids) e t\u00ednhamos m\u00faltiplos parceiros \u00e0 \u00e9poca. Esse apartamento foi um ref\u00fagio para Jean e sua arte, de alguma forma, descrevo como o laborat\u00f3rio de Jean. Ele podia trabalhar ali, o quarto do centro sendo o segundo \u201cest\u00fadio\u201d, depois das ruas. Embora, as paredes, o ch\u00e3o, os aparelhos e coisas que ele coletava da rua sejam suas telas. Jean estudou os meus textos de biologia e qu\u00edmica, junto da minha c\u00f3pia de \u201cHist\u00f3ria da Arte\u201d, de H. W. Janson, (notei que uma nova c\u00f3pia estava exposta no Barbican; o curador Eleanor Nairn soube disso depois de v\u00e1rias longas conversas comigo em meu apartamento). Vivemos juntos aqui na E 12 St. por cerca de seis meses, e a\u00ed Jean seguiu adiante.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu fiquei, me casei, tive dois filhos, me divorciei, criei os dois e continuei a trabalhar em laborat\u00f3rios, por mais de trinta anos fazendo beb\u00eas para outros via fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. Anos atr\u00e1s, fomos capazes de transformar este pr\u00e9dio em um local preservado atrav\u00e9s de um programa da prefeitura. N\u00e3o pintei por cima do mural na parede &#8211; consegui remover e vendi num leil\u00e3o depois de desfrut\u00e1-la por 35 anos. Interessante, o mural foi adquirido por um brasileiro na Christie\u2019s em mar\u00e7o de 2014. Fico com os trabalhos de papel que Jean me deu, enquadrei alguns, os escritos e o caderno, comprei um cofre e coloquei tudo ali por 25 anos sem olhar para ela at\u00e9 o furac\u00e3o Sandy. Aqui h\u00e1 toda uma hist\u00f3ria e um tempo muito dif\u00edcil para mim e para esta parte da cidade, pois ficamos sem energia por uma semana, estava escuro e frio e a porta da frente do pr\u00e9dio era eletr\u00f4nica e ficou destrancada. Furtos estavam acontecendo e minha filha e eu \u00e9ramos algumas que ficamos em parte para cuidar dos trabalhos art\u00edsticos [de Basquiat]. Durante dois meses fiquei preocupada com a seguran\u00e7a do cofre, o qual eu sabia que estava no por\u00e3o do banco a quatro quadras, mas apenas duas quadras de ser invadido pela \u00e1gua.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Conheci [o cocurador da mostra londrina no Barbican Centre] Dieter Buchhart nessa \u00e9poca e quando ele viu as obras de Jean que eu tinha por todos esses anos, ele sugeriu uma mostra no Brasil para esse arquivo, que ele mesmo descreve como um tesouro. Infelizmente, a pessoa que nos apresentou n\u00e3o era confi\u00e1vel e tive que me distanciar de ambos. Depois de muito esfor\u00e7o, este arquivo de obras [de Basquiat] est\u00e1 em uma tour por museus junto das minhas fotografias de Jean e ainda mais trabalhos do nosso apartamento, que foi a ideia original de Dieter.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Publicamos ainda um livro de ensaios de quem conhecia Jean, parte de sua turma de verdadeiros amigos; estamos muito tristes por n\u00e3o conseguirmos oferecer mais prote\u00e7\u00e3o a ele frente ao mundo da arte, que aparentemente engoliu Jean como um todo.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-46376\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1084\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat3-208x300.jpg 208w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/basquiat3-708x1024.jpg 708w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Renan Borges Sim\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.simao.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb\/renan.simao.5<\/a>) \u00e9 jornalista e pesquisador, mora em Lisboa e <a href=\"http:\/\/renanborgessimao.pressfolios.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">colabora com a revista Nova Escola<\/a>. As fotos de abre e encerramento do texto s\u00e3o de Alexis Adler.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Tema de uma mostra itinerante que passar\u00e1 por quatro capitais brasileiras em 2018, Basquiat ganhou um document\u00e1rio em 2017. 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