{"id":46346,"date":"2006-02-22T11:33:50","date_gmt":"2006-02-22T14:33:50","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=46346"},"modified":"2018-01-30T11:41:38","modified_gmt":"2018-01-30T13:41:38","slug":"cinema-orgulho-e-preconceito-de-joe-wright","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/02\/22\/cinema-orgulho-e-preconceito-de-joe-wright\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Orgulho e Preconceito&#8221;, de Joe Wright"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-46347 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/orgulho1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/orgulho1.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/orgulho1-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escritora Jane Austen \u00e9 uma verdadeira celebridade na Inglaterra, sendo considerada a segunda figura mais importante da literatura inglesa, ficando atr\u00e1s apenas de William Shakespeare. Com apenas seis livros na bagagem (dois deles lan\u00e7ados postumamente, ap\u00f3s sua morte prematura, aos 42 anos), Austen imprimiu personalidade aos seus escritos, derramando sobre p\u00e1ginas e p\u00e1ginas romances quase imposs\u00edveis que terminavam com finais felizes, mas que, sobretudo, analisam de forma direta &#8211; e sem rodeios &#8211; as rela\u00e7\u00f5es pessoais da sociedade em que vivia. &#8220;Jane Austen \u00e9 a \u00faltima representante da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica (grega e crist\u00e3) das virtudes&#8221;, definiu o fil\u00f3sofo Aladair MacIntyre. A observa\u00e7\u00e3o \u00e9 interessante: Austen conseguia soar tradicional em seus escritos e pensamentos muito embora preenchesse suas hist\u00f3rias com hero\u00ednas \u00e0 frente de seu tempo, que n\u00e3o se deixavam comprar por dinheiro ou por casamentos de conchavos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das principais obras de Jane, chegaram \u00e0s telonas &#8220;Raz\u00e3o e Sensibilidade&#8221;, com dire\u00e7\u00e3o de Ang Lee (&#8220;Brokeback Mountain&#8221;) e com Emma Thompson e Hugh Grant nos pap\u00e9is principais, &#8220;Persuas\u00e3o&#8221; e, ainda, &#8220;Emma&#8221;, adaptado numa vers\u00e3o pop e adolescente como &#8220;As Patricinhas de Beverly Hills&#8221;, com Alicia Silverstone e Brittany Murphy. &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221; foi o segundo livro de Austen, j\u00e1 virou s\u00e9rie de TV na Inglaterra, ganhou quatro adapta\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, e chega aos Brasil destacando o belo nariz de Keira Knightley (dona, tamb\u00e9m, do &#8220;sorriso n\u00e3o sorriso&#8221; mais fofo do cinema atual), que concorre ao Oscar como Melhor Atriz em um filme que n\u00e3o convence em uma primeira impress\u00e3o, mas necessita ser descorberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rigor, as hist\u00f3rias de Austen retratam a aristocracia brit\u00e2nica do s\u00e9culo XVIII (importante frisar: &#8220;Pride &amp; Prejudice&#8221; foi lan\u00e7ado em 1813). Isso quer dizer que h\u00e1 muita pompa nos cen\u00e1rios, nos figurinos e no texto, tudo para identificar uma sociedade preconceituosa, cujos dotes financeiros eram muito mais importantes que o desejo pessoal, principalmente o feminino. Entre as principais atividades da sociedade, grandes festas, visitas, passeios e piqueniques. \u00c9 neste contexto que a espevitada Elizabeth Bennet (Keira) conhece Darcy (Matthew Macfadyen) em uma festa. O casal se estranha e termina por trocar algumas farpas deliciosamente acalantadas pela finesse do vocabul\u00e1rio cl\u00e1ssico. Darcy \u00e9 um homem rico, arrogante e com cara de poucos amigos. Elizabeth \u00e9 decidida, inteligente, mas sua fam\u00edlia est\u00e1 \u00e0 beira da fal\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto surge a presen\u00e7a de um personagem extremamente importante na hist\u00f3ria: Sra. Bennet (Brenda Blethyn), a m\u00e3e de Elizabeth e de suas outras quatro irm\u00e3s. A Sra. Bennet quer porque quer casar as suas cinco filhas com bons partidos, que al\u00e9m de trazerem respeito ao nome Bennet, tamb\u00e9m se transformem em um bom futuro para as meninas. Ela n\u00e3o mede esfor\u00e7os para isso, embora termine sempre causando algum estrago, inc\u00f4modo ou motivo de chacota para as outras fam\u00edlias. A atriz Brenda Blethyn irrita e diverte com seu personagem. O cerne do filme \u00e9 exibido neste contexto: os personagens femininos de Jane Austen s\u00e3o fortes e orgulhosos, com personalidades bem \u00e0 frente de suas \u00e9pocas (\u00e9 interessante lembrar que mesmo a autora lan\u00e7ou seus livros anonimamente, j\u00e1 que n\u00e3o era de bom tom uma mulher se lan\u00e7ar na carreira de escritora) e que lutam o quanto podem para se manterem dignas e honradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 exatamente neste ponto que a hist\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o convence. Em 1787 era poss\u00edvel discutir honra e dignidade, mas hoje as duas palavras est\u00e3o t\u00e3o fora de moda que seria necess\u00e1rio conferir se elas ainda constam de novos dicion\u00e1rios. O feminismo conseguiu um bom espa\u00e7o na sociedade, embora ainda necessite de mais conquistas. O casamento por dote ainda existe, em pequenos n\u00facleos aristocr\u00e1ticos, mas a liberdade de escolha se tornou muito mais comum nos dias de hoje, embora dinheiro ainda seja um assunto tabu nos relacionamentos modernos. Casamento por obriga\u00e7\u00e3o e golpes do ba\u00fa s\u00e3o t\u00e3o deja vus quanto carruagens, vestidos longos e rel\u00f3gios de bolso, ou melhor, rel\u00f3gios, j\u00e1 que todos agora consultam as horas no celular. O que &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221; traz de novo para a sociedade moderna? A segunda impress\u00e3o, caro leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo no in\u00edcio do filme, Elizabeth aparece lendo um livro chamado &#8220;First Impressions&#8221;. Trata-se do t\u00edtulo original dado por Jane Austen a &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221;, que posteriormente mudou de nome. Retirando de seu segundo t\u00edtulo o car\u00e1ter ambivalente de luta de classes e valores, a hist\u00f3ria se torna muito mais interessante para o p\u00fablico moderno. &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221; \u00e9, na verdade, a hist\u00f3ria de um casal que se odeia \u00e0 primeira vista, mas acaba por descobrir que este \u00f3dio \u00e9 o disfarce do amor. Com sublime leveza, Austen questiona o velho ditado que defende que &#8220;a primeira impress\u00e3o \u00e9 que fica&#8221;. Elizabeth odeia Darcy com toda a for\u00e7a de seu nariz empinado. Darcy odeia Elizabeth com toda aspereza de seu ingl\u00eas lento e carregado. Os dois personagens travam uma guerra pessoal, cada um em seu mundo de sonhos e fantasias, revelando por fim que a personalidade de ambos \u00e9 mais pr\u00f3xima do que eles mesmos pudessem supor. H\u00e1 preconceito em Darcy, h\u00e1 orgulho em Elizabeth, e tudo isso surge de uma primeira impress\u00e3o, que logo ser\u00e1 absorvida pela conviv\u00eancia, e pelo amor. &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221; \u00e9 a vit\u00f3ria da segunda impress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transposta para os tempos modernos, o pensamento de Austen merece respeito, admira\u00e7\u00e3o e profunda an\u00e1lise. Como observou sabiamente o colunista Jo\u00e3o Pereira Coutinho, do UOL, &#8220;o amor n\u00e3o sobrevive aos ritmos da nossa modernidade. O amor exige tempo e conhecimento. Exige, no fundo, o tempo e o conhecimento que a vida moderna de hoje n\u00e3o permite e, mais, n\u00e3o tolera: se podemos satisfazer todas as nossas necessidades materiais com uma ida ao shopping do bairro, exigimos dos outros igual efic\u00e1cia. Os seres humanos s\u00e3o apenas produtos que usamos (ou recusamos) de acordo com as mais b\u00e1sicas conveni\u00eancias. Procuramos continuamente e desesperamos continuamente porque confundimos o ef\u00eamero com o permanente, o material com o espiritual. A nossa frustra\u00e7\u00e3o em encontrar o &#8220;amor verdadeiro&#8221; \u00e9 apenas um clich\u00ea que esconde o essencial: o amor n\u00e3o \u00e9 um produto que se compra para combinar com os m\u00f3veis da sala. \u00c9 uma arte que se cultiva. Profundamente. Demoradamente.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, h\u00e1 uma certa dualidade cr\u00edtica que abriga um filme como &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221;: como obra cinematogr\u00e1fica, o filme de Joe Wright \u00e9 certinho, bonito (principalmente nos cen\u00e1rios e nos figurinos) e resvala na pieguice quando se entende que estamos diante de uma quest\u00e3o de luta de classes e valores. Visto desta forma, &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221; n\u00e3o convence, absorto que est\u00e1 em abrigar suas rela\u00e7\u00f5es em um per\u00edodo hist\u00f3rico que tem pouca semelhan\u00e7a com o mundo moderno. Talvez sirva de curiosidade para se saber como funcionavam as coisas antigamente, como se estiv\u00e9ssemos indo a um museu. Por\u00e9m, vertendo a quest\u00e3o para o campo das rela\u00e7\u00f5es humanas vistas atrav\u00e9s do prisma das primeiras impress\u00f5es, &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221; se torna uma \u00f3tima an\u00e1lise dos dias atuais, onde se sabe praticamente tudo sobre uma pessoa com cinco toques no mouse, mas n\u00e3o se conhece verdadeiramente sua alma, seu jeito de acordar, e quanto a\u00e7\u00facar ela gosta no caf\u00e9 (se ela gostar de caf\u00e9). S\u00e3o dois prismas diferentes que permitem uma adapta\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se deixe levar pela primeira impress\u00e3o da hist\u00f3ria. Jane Austen foi um pouco mais profunda do que o t\u00edtulo &#8220;Orgulho &amp; Preconceito&#8221; permite vislumbrar. Como escreve Jo\u00e3o Pereira Coutinho, &#8220;primeiras impress\u00f5es todos temos e perdemos. Mas o amor s\u00f3 \u00e9 verdadeiro quando acontece \u00e0 segunda vista&#8217;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Y6XneqkfD3c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Orgulho &#038; Preconceito&#8221; se torna uma \u00f3tima an\u00e1lise dos dias atuais, onde se sabe praticamente tudo sobre uma pessoa com cinco toques no mouse, mas n\u00e3o se conhece verdadeiramente sua alma\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/02\/22\/cinema-orgulho-e-preconceito-de-joe-wright\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":46348,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46346"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46346"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46349,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46346\/revisions\/46349"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}