{"id":46319,"date":"2018-01-29T10:01:22","date_gmt":"2018-01-29T12:01:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=46319"},"modified":"2018-03-05T11:53:50","modified_gmt":"2018-03-05T14:53:50","slug":"entrevista-my-magical-glowing-lens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/29\/entrevista-my-magical-glowing-lens\/","title":{"rendered":"Entrevista: My Magical Glowing Lens"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carime.elmor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carime Elmor<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/medium.com\/@gabrieladeptulski\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriela Terra Deptulski<\/a> nasceu em Vit\u00f3ria, no Esp\u00edrito Santo, e hoje reside em Colatina, interior do estado. \u00c9 graduada e mestre em Filosofia, profiss\u00e3o a que dedicou 8 anos de sua vida, mas que decidiu deixar de lado para se entregar \u00e0 m\u00fasica. \u00c0 frente do My Magical Glowing Lens, Gabi estreou com o elogiado EP \u201c<a href=\"https:\/\/my-magical-glowing-lens.bandcamp.com\/album\/my-magical-glowing-lens\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dreaming Pool<\/a>\u201d em 2013 e em 2015 lan\u00e7ou o single \u201c<a href=\"https:\/\/my-magical-glowing-lens.bandcamp.com\/album\/windy-streets-single\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Windy Streets<\/a>\u201d. 2017 foi o ano de \u201c<a href=\"https:\/\/my-magical-glowing-lens.bandcamp.com\/album\/cosmos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cosmos<\/a>\u201d, um disco que marcou presen\u00e7a em diversas listas de Melhores \u00c1lbuns do Ano, incluindo<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/17\/os-50-discos-mais-votados-em-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> a vota\u00e7\u00e3o do Scream &amp; Yell<\/a> e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/12\/01\/os-50-discos-de-2017-para-a-apca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">da APCA<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo como referencias Arnaldo Baptista, Rita Lee, Syd Barrett, Tame Impala e um estilo \u201cmeio freak, anos 70\u201d, Gabriela comp\u00f5e, arranja, grava, mixa e masteriza tudo sozinha. Levou as demos de \u201cCosmos\u201d j\u00e1 pr\u00e9-arranjadas para o est\u00fadio, e desenvolve-as em conjunto com os companheiros de banda. Suas composi\u00e7\u00f5es existenciais tem tudo a ver com sua profunda dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia. \u00c9 \u00e1vida leitora e busca utilizar a m\u00fasica como cura espiritual, sendo capaz de transformar seus estados de loucura e vazio em composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa abaixo, Gabriela fala de seus maiores medos e da sua paix\u00e3o pela m\u00fasica. Diz que est\u00e1 sentindo as mulheres cada vez mais corajosas e revela que quer montar uma banda apenas com meninas. Est\u00e1 apaixonada por percuss\u00e3o e transtornada com os desmandos do governo Temer. Suas novas composi\u00e7\u00f5es est\u00e3o mais pol\u00edticas (&#8220;ainda que continuem existencialistas&#8221;), e ela avisa que o reconhecimento de \u201cCosmos\u201d n\u00e3o vai faz\u00ea-la criar um \u201cCosmos 2\u201d: \u201cEu vou fazer tudo diferente e foda-se se n\u00e3o vai dar certo. Eu vou fazer uma coisa que me toque profundamente\u201d. Com voc\u00ea, Gabi Deptulski.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/d8wbG_s8yOQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lendo sobre voc\u00ea e ouvindo \u201cCosmos\u201d (2017), at\u00e9 por conta da sua forma\u00e7\u00e3o em filosofia, voc\u00ea fala muito sobre desprendimento, livre associa\u00e7\u00e3o de ideias e n\u00e3o conceitualiza\u00e7\u00e3o do mundo como o que mant\u00e9m sua mente solta para compor. Nesse sentido de cria\u00e7\u00e3o sensorial, expansivo, pl\u00e1stico, quero saber se voc\u00ea enxerga seu momento de composi\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da m\u00fasica, ou \u00e9 a m\u00fasica que pode ser muito mais do que as no\u00e7\u00f5es que delimitamos a ela?<\/strong><br \/>\nUma composi\u00e7\u00e3o pode ser outra coisa, que n\u00e3o m\u00fasica. Por exemplo, tem algumas que surgem comigo escrevendo. Mas fico um pouco confusa, porque a cria\u00e7\u00e3o faz parte de todos os artistas, sejam pintores, escultores, etc&#8230; S\u00f3 que a m\u00fasica, \u00e0s vezes, me parece especial no sentido de te levar mais facilmente para outro plano dimensional. Uma vez vi uma entrevista engra\u00e7ada, n\u00e3o sei se era real, fizeram testes colocando eletrodos no c\u00e9rebro das pessoas enquanto ouviam m\u00fasica, e tamb\u00e9m vendo outros tipos de arte, mas a m\u00fasica era a \u00fanica que conseguia acender v\u00e1rias partes do c\u00e9rebro \u2013 imagem, cheiro e mem\u00f3rias. Qualquer cria\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 para al\u00e9m, s\u00f3 que a m\u00fasica parece que intensifica esse processo. Quando estou fazendo m\u00fasica elas surgem prontas para mim, j\u00e1 tenho muitas ideias de arranjos. Ao criar uma letra, mesmo que ela ainda n\u00e3o tenha melodia, j\u00e1 consigo vislumbrar um pouco do que ela vai ser no futuro. \u00c9 uma experi\u00eancia sempre misteriosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Li muito sobre voc\u00ea ter se permitido ser quem \u00e9 largando a Academia para fazer m\u00fasica. Para voc\u00ea, a m\u00fasica \u00e9 uma epifania? No sentido de ter clareado as suas ideias quanto a voc\u00ea mesma e o que voc\u00ea quer fazer no mundo.<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 totalmente uma epifania. Lembro que uma vez entrei no Facebook do Tame Impala, e o Kevin Parker parece que escreve os \u201cabouts\u201d da banda, e ele colocou: \u201cepiphanic pop\u201d, e eu me identifico muito com eles. Eu fazia filosofia e amo, at\u00e9 hoje leio filosofia, s\u00f3 que eu n\u00e3o era muito feliz l\u00e1. Alguma coisa me fazia ser quem eu n\u00e3o era, fazia eu criar uma m\u00e1scara para mim. Quando me decidi ser m\u00fasica, comecei a passar por um processo de liberta\u00e7\u00e3o. Ficava pensando: \u201cN\u00e3o estou sendo m\u00fasica para ter uma profiss\u00e3o para ganhar dinheiro\u201d. Eu ia fazer doutorado, tentar dar aula e ter uma vida est\u00e1vel. E com a m\u00fasica \u00e9 mais dif\u00edcil, se as pessoas n\u00e3o gostam do que voc\u00ea faz, voc\u00ea vai ter que arrumar um edital para gravar o seu disco, ou ent\u00e3o ter que trabalhar em outro emprego para se manter. O artista tem essa fome de cria\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o vai deixar de criar porque o outro n\u00e3o ouve, ele cria porque tem uma necessidade de se expressar. Quando decidi seguir com a m\u00fasica, foi dif\u00edcil para a minha fam\u00edlia compreender, porque eu estava estudando filosofia h\u00e1 oito anos, quatro anos e meio de gradua\u00e7\u00e3o e dois anos e meio de mestrado. Fui convidada a fazer doutorado depois. Ent\u00e3o ningu\u00e9m entendeu que essa mudan\u00e7a era necess\u00e1ria para mim. A epifania que voc\u00ea falou que acontece, essa claridade de ideias, foi comigo ouvindo rock cl\u00e1ssico. Eu nunca tinha tido acesso. Me lembro que um amigo, o Will (Just), guitarrista da The Muddy Brothers, me aplicou nesse meio. Me mostrou Jimi Hendrix, Beatles, Pink Floyd, e aqueles discos que ningu\u00e9m mostra. E naquela \u00e9poca o rock psicod\u00e9lico n\u00e3o estava t\u00e3o \u00e0 frente. Isso foi em 2011 por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tocar v\u00e1rios instrumentos e ter aprendido as etapas de edi\u00e7\u00e3o, faz com que voc\u00ea tenha uma emancipa\u00e7\u00e3o no seu trabalho e chegar no som que voc\u00ea quer do in\u00edcio ao fim. Isso veio muito por necessidade, acredito, mas tamb\u00e9m foi por voc\u00ea querer se dedicar por inteiro \u00e0 m\u00fasica. Como foi esse processo? Voc\u00ea tamb\u00e9m sempre foi muito dedicada a estudar m\u00fasica e produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nCome\u00e7ou tudo de forma muito intuitiva. A primeira coisa que fiz foi abrir um programa de v\u00eddeo chamado Sony Vegas e gravar com microfone embutido no meu notebook. Eu compunha a bateria primeiro no Fruity Loops (FL Studio), que \u00e9 um programa usado para fazer m\u00fasica eletr\u00f4nica, que nem uso mais. Compunha a bateria, jogava no Sony Vegas, ligava a guitarra e o amplificador, colocava meu notebook de frente para o amplificador e gravava um riff em cima, e foi assim com todo o resto. Nem pesquisei sobre produ\u00e7\u00e3o musical para fazer isso, simplesmente pensei que daria certo. Me lembro que mostrei para um amigo aqui de Colatina, o Ricardo (Vieira), da banda We Are Pirates, e ele falou que estava muito foda, mas me deu algumas dicas de produ\u00e7\u00e3o, tipo: \u201cJoga para a esquerda e para a direita, divide os elementos nos dois alto falantes, porque temos dois ouvidos\u201d. E foi quando tudo come\u00e7ou, eu entendi o que era mexer com os sentidos das pessoas atrav\u00e9s dos sons. Comecei a pesquisar e experimentar, at\u00e9 chegar o momento de usar plugins, reverb e tudo o mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso foi ainda no seu primeiro EP, \u201cDreaming Pool\u201d, em 2013?<\/strong><br \/>\nIsso, lancei dia 27 de dezembro de 2013, eu n\u00e3o entendia nada sobre lan\u00e7ar disco, n\u00e9? Data horr\u00edvel. Mas ele bombou mesmo em 2014, porque depois foi lan\u00e7ado pela Honey Bomb Records com fita cassete e tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi legal que logo de in\u00edcio voc\u00ea conseguiu se conectar bem com os selos e outras bandas para conseguir viajar e distribuir sua m\u00fasica para outros lugares do Brasil.<\/strong><br \/>\nTotal, muita responsabilidade do Ricardo (Vieira), esse mesmo cara que me ensinou o inicial de mixagem. Ele falou: \u201cManda para blogs porque \u00e9 importante!\u201d. A\u00ed eu enviei e muita gente publicou. Tamb\u00e9m foi muito por responsabilidade da galera da Honey Bomb, porque eles conseguiram uma data no Manifesta Sol, um festival em Caxias do Sul, e eu morrendo de medo me perguntava como eu ia parar l\u00e1 sozinha. E eles disseram: \u201cN\u00e3o, vem sozinha sim e faz\u201d. Acabei indo por muito incentivo de amigos que confiavam no meu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a\u00ed era aquele show que voc\u00ea fazia sozinha, com bateria programada no computador, pedal de loop, tipo a ideia da PAPISA?<\/strong><br \/>\nIsso mesmo, bem parecido com o que a Rita Oliva faz, s\u00f3 que ela ainda tem uns elementos a mais, usa equipamentos que eu n\u00e3o tinha. Eu usava s\u00f3 o computador, soltava tipo um playback de bateria e baixo, tocava guitarra em cima e cantava. Em algumas apresenta\u00e7\u00f5es, sem o computador, s\u00f3 guitarra e o pedal de loop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A forma\u00e7\u00e3o de banda, com os meninos que te acompanham nos shows, foi mudando bastante tamb\u00e9m, mas como foi a colabora\u00e7\u00e3o da banda j\u00e1 na grava\u00e7\u00e3o do \u201cCosmos\u201d (2017)?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 tiveram v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es, acho que umas sete. Mas para gravar o \u201cCosmos\u201d a gente trabalhou como banda mesmo. J\u00e1 est\u00e1vamos a um bom tempo tocando juntos e os meninos me ajudaram a criar os arranjos. As minhas demos j\u00e1 eram pr\u00e9 arranjadas, e a levei para a Casa Verde (Vit\u00f3ria), o lugar onde gravamos. A gente montou um est\u00fadio em conjunto, pegamos equipamentos que eles tinham l\u00e1, al\u00e9m de equipamentos emprestados com v\u00e1rias outras pessoas, inclusive com o (Henrique) Paoli, baterista na \u00e9poca, que emprestou computador e monitor. Pegamos as demos e come\u00e7amos a desenvolv\u00ea-la em conjunto. Por mais que eu tenha dirigido cada coisa e feito os pr\u00e9 arranjos, foi um \u00e1lbum de trabalho de banda. A forma\u00e7\u00e3o era eu (guitarra e voz), o Henrique Paoli (bateria), que toca com o Andr\u00e9 Prando, o Gil Mello (baixo) que trabalha na Casa Verde e no selo Subtr\u00f3pico, e o Pedro Moscardi (sintetizador) que toca na TSN.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/icHpr5PR4uw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tenho uma pergunta que tem a ver com sua rela\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o no Arnaldo Baptista, porque ele fala muito sobre isso. O que \u00e9 para voc\u00ea estar em estado de loucura? Voc\u00ea sente ela por perto algumas vezes? E como a m\u00fasica acaba funcionando como um meio de deixar isso correr solto?<\/strong><br \/>\nLegal. Eu tive muito medo de ficar louca. Acho que esse foi um dos meus maiores medos. Sofro de alguma coisa que n\u00e3o sei o que \u00e9 e n\u00e3o gosto de chamar de dist\u00farbio mental, depress\u00e3o, nem nada disso. \u00c9 uma coisa que me deixa muito confusa algumas vezes na vida, a ponto de eu realmente me desapegar da realidade e ir parar em outro plano. Fui amadurecendo e aprendendo a controlar. N\u00e3o sei explicar se a m\u00fasica intensifica ou se ela cura esse estado, ou se s\u00e3o as duas coisas. Voc\u00ea pode utilizar a m\u00fasica para se afundar e ir no fundo do po\u00e7o. \u00c9 poss\u00edvel isso. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m pode fazer o movimento contr\u00e1rio. Tem figuras que me s\u00e3o muito caras, como o Arnaldo Baptista e o Syd Barrett, m\u00fasicos que me influenciam e tenho como guias para mim, mas tamb\u00e9m tenho muito medo porque s\u00e3o pessoas que conseguiram se afundar, e no caso do Syd Barrett, ele n\u00e3o conseguiu nem voltar para a m\u00fasica. Ent\u00e3o, tomo muito cuidado na hora de tratar esses assuntos comigo mesma. Acho que a m\u00fasica para mim \u00e9 muito cura. Por exemplo, eu tenho um sentimento de vazio constante muito grande. Me lembro de um sonho em que eu estava vagando no espa\u00e7o em um vazio completo, muita solid\u00e3o, e sabia que eu ficaria ali por muito tempo, talvez para sempre. Acordei com uma ang\u00fastia muito grande desse sonho e pensei que eu tinha que transformar essa ang\u00fastia em alguma coisa boa. O que tento fazer \u00e9 pegar esses sentimentos e pensar que n\u00e3o preciso ir para o fundo do po\u00e7o de novo, eu j\u00e1 estive, n\u00e3o quero mais estar l\u00e1, eu vou ficar aqui e aceitar esse sentimento e vou embelezar ele. Acho que o Nietzsche chamava isso de \u201ctr\u00e1gico\u201d, n\u00e3o \u00e9 nem feliz, nem triste, \u00e9 simplesmente tr\u00e1gico, \u00e9 a vida, \u00e9 o que acontece com todo mundo. \u00c9 aquela coisa da Gr\u00e9cia, aqueles teatros que pegavam esse sentimento que s\u00e3o bem universais e bem densos de ang\u00fastia, e os transformam em alguma coisa muito bela. \u201cSpace Woods\u201d, faixa do \u201cCosmos\u201d, foi feita para esse sentimento. Me lembro que ela era uma m\u00fasica muito tristonha no in\u00edcio e joguei ela para cima, fiz um synth que deixava ela mais dan\u00e7ante, mais gostosa, porque queria transformar esse sentimento de ang\u00fastia em algo que pudesse fluir por mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Percebo tamb\u00e9m que o palco te excita muito. Parece que o que acontece ali \u00e9 muito verdadeiro e voc\u00ea se desprende diante de um monte gente, o palco te permite chegar nessa epifania que conversamos. Como \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o, at\u00e9 bastante nova para voc\u00ea, de estar sempre nos palcos?<\/strong><br \/>\nBastante novo. E at\u00e9 inusitado. Minha rela\u00e7\u00e3o com o palco \u00e9 boa, s\u00f3 que \u00e0s vezes me assusta. Porque \u00e9 isso que voc\u00ea falou mesmo, eu n\u00e3o sei deixar de transmitir o que eu estou sentindo. Se eu estiver triste, eu vou transmitir tristeza, se eu estiver com raiva, vou transmitir raiva e isso me assusta, desenvolve de um jeito que eu n\u00e3o tenho muito controle. \u00c0s vezes acabo gritando no ch\u00e3o ou falando coisas com muita intensidade. Principalmente agora com o governo Temer, que eu absolutamente discordo e acho um absurdo a gente n\u00e3o conseguir lutar contra isso, e \u00e9 um governo que tem tomado medidas que s\u00e3o totalmente contr\u00e1rias a tudo que eu imaginei a minha vida inteira. Me traz uma ang\u00fastia muito grande no cora\u00e7\u00e3o, e isso me traz uma vontade\u2026 poxa, a gente tem o lugar p\u00fablico, que \u00e9 o lugar do artista, e quando as pessoas come\u00e7am a ouvir o que voc\u00ea fala, acho que a gente tem uma responsabilidade tamb\u00e9m, no sentido de mostrar para as pessoas que \u00e9 poss\u00edvel protestar contra esse tipo de aproveitamento que o governo est\u00e1 fazendo com a gente. Isso intensificou minha performance. Eu me lembro que o governo ia subindo as medidas e as performances iam se tornando cada vez mais transgressoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Salma J\u00f4 (Carne Doce) \u00e9 um exemplo de mulher que conduz muito bem suas performances no palco. Eu tenho pensado que estamos tendo um momento muito bom de performances na m\u00fasica pelo Brasil. Algo que antes estava um pouco adormecido, com o indie, talvez, por ser mais blas\u00e9. E, agora, esse novo movimento \u201cp\u00f3s-indie\u201d est\u00e1 mais perform\u00e1tico, volta uma tend\u00eancia Ney Matogrosso para os palcos, de repente. S\u00f3 que atrav\u00e9s das mulheres. Eu acho que voc\u00ea, a Salma, a Luiza Lian s\u00e3o s\u00f3 alguns exemplos.<\/strong><br \/>\nA Salma \u00e9 minha maior inspira\u00e7\u00e3o, ultimamente, para fazer esse tipo de coisa. Tem a Letrux (Let\u00edcia Novaes) tamb\u00e9m, eu estou doida para ir a um show da Luiza Lian e da Letrux, ainda n\u00e3o fui!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre a experi\u00eancia com a My Magical Winter Tour, como foi viajar em turn\u00ea com a Winter? Quais shows foram marcantes? Essa viv\u00eancia abriu novas ideias para seu projeto?<\/strong><br \/>\nA Samira Winter \u00e9 uma menina muito doce, muito incr\u00edvel. Ela \u00e9 uma compositora e arranjadora absurda. Eu me lembro que a gente foi ensaiando no carro uma m\u00fasica da Karina Buhr, para fazer uma live session e tocarmos juntas, e eu percebi o qu\u00e3o dedicada e criativa ela \u00e9 enquanto arranjadora. O que \u00e9 a Winter, musicalmente, \u00e9 a Samira existencialmente e eu j\u00e1 sou uma pessoa mais intensa, n\u00e3o tenho muita paz de esp\u00edrito, eu medito muito para conseguir. A conviv\u00eancia com ela me influenciou muito nesse sentido. Al\u00e9m disso, as meninas do Summer Twins que estavam tocando com ela eram muito incr\u00edveis, e tamb\u00e9m a Victoria, irm\u00e3 dela, que toca bateria h\u00e1 super pouco tempo, mas j\u00e1 est\u00e1 tocando para caralho. Voc\u00ea v\u00ea que quando uma menina quer tocar e se dedica n\u00e3o precisa de muita coisa. Ela j\u00e1 saiu para turn\u00ea e est\u00e1 tocando v\u00e1rias m\u00fasicas. Foi uma experi\u00eancia nova essa banda que ela formou s\u00f3 de meninas, pela primeira vez ela conseguiu, e esse \u00e9 um sonho meu tamb\u00e9m. Pela primeira vez eu me desapeguei, porque eu tentar montar uma banda fixa para o My Magical me geraram v\u00e1rios problemas, principalmente por ser mulher. Estavam procurando os meninos da minha banda e n\u00e3o eu, e achando que eles estavam produzindo os meus \u00e1lbuns e a banda, e n\u00e3o eu. Muito louco. Ent\u00e3o pensei que se isso estava acontecendo, eu tinha que tomar a banda para mim. Na turn\u00ea fui pegando um instrumentista de cada canto do pa\u00eds. Turn\u00ea \u00e9 muito intenso, essas pessoas viram sua fam\u00edlia por um tempo. Foi tipo uma experi\u00eancia m\u00edstica, fomos para a cachoeira e nadamos peladas todas as mulheres. Os homens n\u00e3o tiveram coragem n\u00e3o. Mas n\u00f3s sim, para nos libertarmos mesmo dessa coisa que a gente tem com o corpo e a repress\u00e3o que a gente sofre diariamente. A gente n\u00e3o precisa disso. Lidar com as meninas na turn\u00ea foi muito libertador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que esse movimento de mulheres na m\u00fasica, de uma apoiando e escutando o som da outra, tem criado uma atmosfera de admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua capaz de causar transforma\u00e7\u00f5es muito not\u00f3rias. Em 2017 rolou muita banda de garota mandando muito bem, pr\u00eamios, aumentou a participa\u00e7\u00e3o em festivais. Como voc\u00ea enxerga esse momento? Acha que as mulheres, al\u00e9m dessa maior visibilidade, est\u00e3o se sentindo mais encorajadas a se aprofundarem e serem melhores musicistas?<\/strong><br \/>\nMinha carreira na m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande, mas pela primeira vez na vida eu estou vendo que as mulheres est\u00e3o realmente corajosas. Est\u00e3o conseguindo de fato enfrentar o machismo di\u00e1rio. Acho que esse momento da m\u00fasica que estamos vivendo \u00e9 quase inacredit\u00e1vel. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na m\u00fasica, no cinema e na TV tamb\u00e9m: a Natalie Portman fez aquele protesto no Globo de Ouro, toda de preto, e ela pegou e falou: \u201cAgora vou anunciar os indicados a melhores diretores, todos homens\u201d. Teve o depoimento recente da Oprah (Winfrey) tamb\u00e9m, falando que pela primeira vez que as mulheres est\u00e3o conseguindo enxergar um novo horizonte. Acho que \u00e9 bem isso. Antes a gente olhava para si mesma e pensava: \u201cAh, \u00e9 isso mesmo, a gente est\u00e1 aqui nesse patamar e vamos permanecer\u201d. E agora n\u00e3o! As mulheres v\u00e3o influenciando outras mulheres, sempre que a gente encontra uma mina que quer tocar e que est\u00e1 com medo, a gente vai, incentiva, d\u00e1 um tempo e j\u00e1 v\u00ea ela tocando. Est\u00e1 havendo realmente um movimento muito forte entre as mulheres e est\u00e1 ficando cada vez mais bonito. Acho que eu, pessoalmente, poderia fazer mais coisas. Vivo em um estado muito machista. Vit\u00f3ria \u00e9 a cidade que mais se mata mulher no Brasil, isso me fez entender muito porque eu vivia t\u00e3o oprimida l\u00e1. Me sinto melhor em Colatina, no interior. Agora que comecei a encontrar instrumentistas, antes eu s\u00f3 encontrava homens. Estou me engajando nisso para tentar montar uma banda de meninas, se vou conseguir, n\u00e3o sei, mas acho que \u00e9 uma responsabilidade minha procurar meninas instrumentistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea tem buscado de som agora em suas composi\u00e7\u00f5es mais recentes? Voc\u00ea tem testado novos pedais, texturas, efeitos, instrumentos? O que tem buscado em est\u00e9tica sonora para um poss\u00edvel novo disco?<\/strong><br \/>\nEst\u00e1 tudo bem no in\u00edcio. Os efeitos de pedal de guitarra continuam os mesmos por enquanto. Crio antes na cabe\u00e7a, para depois ir para o concreto. Eu voltei a compor no viol\u00e3o, que era uma coisa que eu n\u00e3o fazia h\u00e1 muito tempo, e gostei bastante. Tenho composto muita pela voz, vem uma ideia de melodia na cabe\u00e7a, pego o celular e gravo. Isso me desprende de notas fixas, e consigo passear mais pelas harmonias quando crio somente com o meu corpo. Tenho feito m\u00fasica completamente eletr\u00f4nica, no Live, come\u00e7o a criar beats, coisas com sintetizadores, texturas. Isso \u00e9 o que tenho feito. Estou querendo, tamb\u00e9m, gravar o som das coisas para acrescentar nas musicas, mas eu n\u00e3o queria que se tornasse uma coisa muito cabe\u00e7uda. Gosto de influ\u00eancias pop e que a m\u00fasica seja acess\u00edvel e dan\u00e7ante. Eu queria fazer um lance que a M.I.A faz, cantora e ativista de Londres. Teve uma m\u00fasica que ela gravou com som de faca batendo e criou um ritmo com isso, colocou uns barulhos. Tenho estado com o termo \u201cPsicodelia concreta\u201d na minha cabe\u00e7a. A psicodelia nem sei se existe mais, porque se tornou um termo vazio. Quando as pessoas come\u00e7am a n\u00e3o expressar o que est\u00e1 por dentro e copiar o que o outro fez porque deu certo, come\u00e7a a dar tudo errado. O neg\u00f3cio se desvirtua e n\u00e3o fica sincero. Acho que a gente ficar seguindo as f\u00f3rmulas que a gente mesmo criou \u00e9 meio que se prender. Por exemplo, como o \u201cCosmos\u201d deu certo, seria como seguir o mesmo formato em um novo trabalho, mas n\u00e3o! \u00c9 o contr\u00e1rio. Eu vou fazer tudo diferente e foda-se se n\u00e3o vai dar certo. Eu vou fazer uma coisa que me toque profundamente e que traga algo novo para dentro de quem escutar minhas m\u00fasicas, porque \u00e9 isso que gente est\u00e1 precisando. S\u00e3o tantas normas o tempo todo que a gente est\u00e1 ficando preso por dentro e criando uma casca. Esse \u201cEu\u201d mais intenso nosso acaba ficando preso dentro desse \u201cEu casca\u201d e a forma que estou tentando fazer essas outras m\u00fasicas \u00e9 para quebrar isso. Comecei a fazer m\u00fasica para meus amigos, para pessoas que est\u00e3o tristes e n\u00e3o s\u00f3 para mim e meu pr\u00f3prio sentimento, quero sair disso e entender que o outro tamb\u00e9m tem as suas ang\u00fastias e ele tamb\u00e9m precisa da cura que sou capaz de fazer comigo mesma. Est\u00e3o saindo letras mais pol\u00edticas, ainda que continuem existencialistas. Acho que vai sair uma mistura de m\u00fasica org\u00e2nica, com m\u00fasica que usa barulhos de coisas (eletroac\u00fastica), junto com guitarra e viol\u00e3o. Coisas com percuss\u00e3o tamb\u00e9m, porque estou apaixonada. O que espero do My Magical no futuro \u00e9 que tenha uma percussionista para acompanhar nas gigs, um quinto elemento. Rock\u2019n\u2019roll misturado com Tropic\u00e1lia e mais um monte de coisa, n\u00e3o sei o que vai dar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2nuoIUmefhU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eixORQzV3Cg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yHq-w-23C_4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Carime Elmor (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carime.elmor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb\/carime.elmor<\/a>) \u00e9 jornalista da Tribuna de Minas e\u00a0fazedora dos zines\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/malditasgrls\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Malditas<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de\u00a0 Aline Deptulsky (proje\u00e7\u00e3o) \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c0 frente do My Magical Glowing Lens, Gabi Deptulsky lan\u00e7ou \u201cCosmos\u201d em 2017, um disco que marcou presen\u00e7a em diversas listas de Melhores \u00c1lbuns do Ano.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/29\/entrevista-my-magical-glowing-lens\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":54,"featured_media":46320,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1956],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46319"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/54"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46319"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46321,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46319\/revisions\/46321"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}