{"id":45539,"date":"2017-12-27T10:46:28","date_gmt":"2017-12-27T12:46:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=45539"},"modified":"2018-01-30T11:42:48","modified_gmt":"2018-01-30T13:42:48","slug":"entrevista-marky-wildstone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/12\/27\/entrevista-marky-wildstone\/","title":{"rendered":"Entrevista: Marky Wildstone"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista por<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0Leonardo Vinhas<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mauricio Dotto Martucci abandonou seu nome de batismo e decidiu assumir para si a alcunha que vinha usando desde 2002, quando fundou a banda <a href=\"http:\/\/www.deadrocks.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Dead Rocks<\/a>. Nem capricho nem del\u00edrio rocker: rebatizar-se como Marky Wildstone foi para marcar a transi\u00e7\u00e3o (\u201csem volta\u201d, conforme afirma nessa entrevista) para uma vida inteiramente dedicada \u00e0 m\u00fasica e \u00e0s artes. Nesse mesmo per\u00edodo, acumularam-se o abandono de um emprego est\u00e1vel, o fim de um casamento, a perda do carro e a morte do animal de estima\u00e7\u00e3o. Apesar do baque, Marky Wildstone manteve a decis\u00e3o de se dedicar \u00e0 gest\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">empresa misto de selo e produtora que leva seu sobrenome<\/a>, da mesma forma que passou a dedicar mais tempo aos Dead Rocks e a outros projetos musicais, como a ef\u00eamera banda indie <a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/4\/when-i-still-smoked-cd\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Song and Dance Men<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela Wildstone, Marky lan\u00e7ou discos dos brasileiros <a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/8\/knock-knock-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Phantom Powers<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/9\/pantano-bay-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pantano Bay<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/2\/sonic-mass-lp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Black Needles<\/a>, entre outros, al\u00e9m dos portugueses <a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/10\/spaceship-to-cucujaes-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Dirty Coal Train<\/a>. A produtora tamb\u00e9m realizou turn\u00eas pelo Brasil com nomes como Daddy-O Grande (EUA), King Automatic (Fran\u00e7a), Melina Sarmiento (Argentina), Los Tones (Austr\u00e1lia), e outros, al\u00e9m de uma turn\u00ea com o lend\u00e1rio citarista Alberto Marsicano, na qual Marky tocou bateria. Os Dead Rocks tamb\u00e9m seguem firmes, com um curr\u00edculo que soma quatro \u00e1lbuns e um EP de est\u00fadio, al\u00e9m de um disco ao vivo: \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/tiki-twist-ep\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tiki Twist EP<\/a>\u201d (2006), \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/international-brazilian-surfs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">International Brazilian Surfs<\/a>\u201d (2006), \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/one-million-dollar-surf-band\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">One Million Dollar Surf Band<\/a>\u201d (2008), \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/il-grilletto-doro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Il Grilletto D\u2019Oro<\/a>\u201d (2010), \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/surf-explos-o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Surf Explos\u00e3o<\/a>\u201d (2014) e \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/live-crash-wild-punk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Live Crash Wild Punk!<\/a>\u201d (2016). Acrescente a esses v\u00e1rios singles, e voc\u00ea tem uma discografia de respeito, que, juntamente com suas apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo, contribuem para dar \u00e0 banda a fama de uma das melhores bandas de surf music da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto essa fama procede que os 15 anos do trio \u2013 completado pelo guitarrista Johnny Crash e pelo baixista Paul Punk \u2013 mereceram um tributo. \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/beach-butts-burgers-and-beers-a-tribute-to-the-dead-rocks\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Beach, Butts, Burgers and Beers \u2013 A Tribute to The Dead Rocks<\/a>\u201d saiu em dezembro de 2017 compilando 28 nomes nacionais e internacionais fazendo vers\u00f5es das p\u00e9rolas instrumentais da banda. Participam Beach Combers, The Raulis, Os Gatunos, Bang Bang Babies, Arno De Cea &amp; The Clockwork Wizards (Fran\u00e7a), Los Surfer Compadres (M\u00e9xico), Los Stomias (Peru), Melina Sarmiento (Argentina), e outros tantos. Rec\u00e9m-chegado de um show em Balne\u00e1rio Cambori\u00fa (SC), Wildstone conversou via Skype para falar sobre o tributo, a viabilidade de se manter uma carreira na m\u00fasica sem uma \u201crede de seguran\u00e7a\u201d (leia-se patrim\u00f4nio familiar ou emprego regular) e a carreira constru\u00edda por sua banda em um cen\u00e1rio segmentado e usualmente ignorado at\u00e9 nos meios independentes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YPRM2WVE0lY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas devem ser uma das bandas de surf music brasileiras que h\u00e1 mais tempo est\u00e3o em atividade no Brasil&#8230;<\/strong><br \/>\nQuando a gente come\u00e7ou, tinha outra leva de bandas, da qual n\u00f3s \u00e9ramos as mais novas. Era a \u00e9poca do Ambervisions, do Go!, do pessoal de BH que tocava nas primeiras edi\u00e7\u00f5es do Primeiro Campeonato Mineiro de Surf (festival tradicional da capital mineira). A gente era a mais novinha na \u00e9poca, e agora, fora os Jordans, provavelmente somos os mais velhos entre os que seguem tocando com frequ\u00eancia. Mas \u00e9 legal dar um par\u00eanteses nisso. Eu mesmo gostaria de reprensar discos brasileiros de surf dos anos 60 e 70, mas a maioria era de vers\u00f5es. Mesmo as bandas sendo muito boas, elas n\u00e3o eram de compor. Faziam The Shadows, The Pops&#8230; eram no m\u00e1ximo tr\u00eas autorais por \u00e1lbum. Eu sou f\u00e3 dessa gera\u00e7\u00e3o, especialmente dos Jordans, mas o esquema deles era outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faz mais de 15 anos que voc\u00ea est\u00e1 envolvido com m\u00fasica. Tocou na banda punk Bifidus Ativus entre 1992 e 2003, e tinha com seu irm\u00e3o a S2 Discos, que era loja de discos e selo. Sempre esteve claro para voc\u00ea que iria trabalhar com m\u00fasica? Vender m\u00fasica, vender show?<\/strong><br \/>\nAcho que desde antes disso tudo o objetivo era vender show, vender m\u00fasica&#8230; Fui estudar Imagem &amp; Som na faculdade para ter essa base, para aprender a fazer v\u00eddeo clipe e tal. Era meu objetivo desde moleque (risos). Que objetivo n\u00e9, meu? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que rolou para voc\u00ea deixar para tr\u00e1s aquele universo mais indie da S2 Discos e entrar nesse universo surf, garage, esse meio no qual voc\u00ea est\u00e1 hoje?<\/strong><br \/>\nFoi menos minha op\u00e7\u00e3o e mais as circunst\u00e2ncias que foram acontecendo naturalmente. As pessoas a quem eu me associava para tocar ou lan\u00e7ar projetos eram desse lado. Pessoalmente, nunca deixei de acompanhar a cena indie, de produzir uns shows, curtir os sons. Nas minhas op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, n\u00e3o fico restrito s\u00f3 ao que est\u00e1 no meu trabalho. Gosto de progressivo, psicod\u00e9lico, coisas com as quais nunca trabalhei. Meu objetivo era trabalhar m\u00fasica, sem esse recorte de estilo. Mas teve um marco pra migrar pra esse universo em que estou hoje: foi o show da Bifidus em que abrimos pro Man Or Astro-Man? em 2001. Ficamos naquela: \u201colha s\u00f3, os caras tocam surf music, tem toda uma cena rolando&#8230;\u201d A gente viu que n\u00e3o era s\u00f3 o filme do Tarantino (\u201cPulp Fiction\u201d) com a trilha (cheia de p\u00e9rolas da surf music).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Legal voc\u00ea mencionar o Bifidus. Foi uma banda que fez parte daquele universo underground interiorano da virada do s\u00e9culo.<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/6XiaQsFhCnsIJRtsvbidRF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Faz uns seis meses que eu coloquei os sons deles no Spotify<\/a>. Era uma banda bem do underground da regi\u00e3o, totalmente de brother mesmo. Tocamos mais na cidade, viajamos pouco, nem mesmo para S\u00e3o Paulo fomos muito. Mas foram tr\u00eas fitas e dois CDs, tocamos com muitas bandas legais. E nunca teve um fim oficial, pra falar a verdade. N\u00f3s nos reunimos \u00e0s vezes, fizemos at\u00e9 festa de 20 anos da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tr\u00eas fitas e dois CDs! Totalmente diferente do que temos hoje.<\/strong><br \/>\nEra outra era!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando nisso: os discos da Wildstone est\u00e3o todos editados em formato f\u00edsico. Tem a ver com sua rela\u00e7\u00e3o com esse per\u00edodo formativo, um apre\u00e7o pelo disco mesmo? Que eu tenha visto, n\u00e3o rolou nenhum lan\u00e7amento exclusivamente digital, nem os singles&#8230;<\/strong><br \/>\nAcho que o lan\u00e7amento digital \u00e9 legal tamb\u00e9m. Fizemos um single do Phantom Powers (\u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2VydF0HB3IMqaBFNGSOlWL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Through The Evil Ways<\/a>\u201d) e um do Marco Butcher (\u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/7ejFF8s6jjk2JJn5Vdkt9b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Needle<\/a>\u201d), que sa\u00edram assim. Logicamente, minha ideia \u00e9 ter um selo, no qual possa lan\u00e7ar artistas novos e tamb\u00e9m relan\u00e7ar coisas boas antigas. Mas como trabalho sozinho, minha receita \u00e9 muito pequena para eu lan\u00e7ar algo que d\u00ea errado. Por isso, salvo os dois \u201c<a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/selo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Weirdo Fervo<\/a>\u201d, que foram colet\u00e2neas colaborativas (um de 2015 e outro de 2016, contendo can\u00e7\u00f5es de bandas surf, garage e rockabilly), todos os discos que saem pela Wildstone s\u00e3o atrelados a alguma turn\u00ea. \u00c9 um produto para se vender em shows: n\u00e3o \u00e9 algo que as pessoas compram porque gostam ou porque est\u00e3o a fim de conhecer uma banda nova \u2013 isso \u00e9 praticamente zero de vendas. Agora, o cara vai no show, curte, e a\u00ed compra o disco na hora, sacou? Por isso, o selo ainda n\u00e3o \u00e9 um business separado de tudo, \u00e9 algo totalmente atrelado aos shows que fa\u00e7o. A gente lan\u00e7ou o compacto dos Phantom Powers (\u201c<a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/8\/knock-knock-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Knock Knock<\/a>\u201d) para eles irem a Europa e vender nos 27 shows que eles iam fazer! Tem artista que me escreve ou me liga falando que quer lan\u00e7ar um disco pela Wildstone. Respondo: \u201cBeleza, vamos sim, mas quantos shows voc\u00ea tem marcados?\u201d. Porque se n\u00e3o for cair na estrada, voc\u00ea nunca vai vender 500 discos, 1000, discos&#8230; Nunca! A l\u00f3gica na Europa \u00e9 essa: a turn\u00ea \u00e9 marcada antes do cara lan\u00e7ar o disco. Aqui parece que o pensamento \u00e9 inverso. Mas l\u00e1 [na Europa] ou nos EUA, voc\u00ea tem que estar com o disco na m\u00e3o para vender assim que a turn\u00ea come\u00e7ar. Ent\u00e3o, o digital n\u00e3o sai com tanta frequ\u00eancia por causa disso: por eu ter pouco tempo e pouca grana, acabo trabalhando s\u00f3 com as bandas que v\u00e3o para a estrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo assim, d\u00e1 para vender bem nesse circuito de shows, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nD\u00e1 sim. Principalmente na gringa. Vi uma entrevista do Dick Dale, acho que de 2008 ou 2010, falando que em muitos shows ele nem cobrava cach\u00ea. Ele fazia uma banca de merchandising e s\u00f3 com as vendas ele j\u00e1 pagava o que precisava pagar e ainda fazia o lucro dele. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a dos mercados americano e europeu em rela\u00e7\u00e3o ao nosso: l\u00e1 fora, o que a gente ganha por show j\u00e1 cobre os custos, e o que entra de merchandising vem como lucro. Aqui n\u00e3o: a gente tem que cobrar dos produtores mais do que poderia, sen\u00e3o n\u00e3o vai ganhar nada. Nego n\u00e3o compra merchandising aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 ouvi muita banda internacional, e mesmo nacional, se queixar disso: que o p\u00fablico aqui pode gastar at\u00e9 R$ 150 em consumo, mas se recusa a pagar R$ 20 em um disco ou R$ 35 em uma camiseta.<\/strong><br \/>\nSim. Tem bandas amigas nossas que tocaram em alguns festivais nos EUA, e falaram que, se iam 200 pessoas, 150 compravam disco, camiseta. Se o show \u00e9 bom, o cara compra, quase como se fosse a gorjeta pra gar\u00e7onete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Diante desse \u201cmau comportamento\u201d do p\u00fablico, dos problemas com equipamento, de alguns produtores que se recusam a pagar o combinado e outras mazelas, o que te motiva a ainda sair com sua banda para tocar, ou a viajar com as bandas cujos shows voc\u00ea produz?<\/strong><br \/>\nNo meu caso, \u00e9 a paix\u00e3o que tenho pela m\u00fasica mesmo. Ali\u00e1s, pelas artes em geral. E at\u00e9 pela coisa \u201cno way back\u201d: j\u00e1 fa\u00e7o isso h\u00e1 25 anos e n\u00e3o me vejo fazendo outra coisa. \u00c9 um mergulho no abismo: voc\u00ea j\u00e1 pulou e agora s\u00f3 resta ver o que tem l\u00e1 embaixo. Pode ser que voc\u00ea se espatife ou pode ser um abismo no qual voc\u00ea vai morrer antes de chegar ao fundo (risos). Eu diversifico as atividades para compor um or\u00e7amento e poder viver disso. Ainda est\u00e1 longe do que eu gostaria: tem m\u00eas que passo necessidade, mas por isso que produzo shows, crio capas de discos, fa\u00e7o consultorias para artistas que est\u00e3o come\u00e7ando, toco com minha banda, toco bateria com outros artistas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xXXxaglKLDw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tinha o emprego de instrutor de internet do SESC S\u00e3o Carlos. Podia n\u00e3o ser o emprego dos sonhos da classe m\u00e9dia familiar, mas decididamente era um emprego est\u00e1vel. Voc\u00ea optou por largar esse trabalho e deixar de ser o \u201cMarky Wildstone dos Dead Rocks\u201d para ser Marky Wildstone em tempo integral. Qual foi o gatilho para peitar isso?<\/strong><br \/>\nAntes de eu trabalhar no SESC de S\u00e3o Carlos, trabalhei quatro anos na r\u00e1dio UFSCar. O emprego era \u201cest\u00e1vel\u201d, como voc\u00ea diz, mas tinha liga\u00e7\u00e3o com a cena. Quando sa\u00ed, cheguei a ficar um ano pensando em ficar s\u00f3 no Dead Rocks. Da\u00ed apareceu essa oportunidade do SESC e eu peguei. At\u00e9 que, depois de uns quatro ou cinco anos, vi que a coisa engessou: eu n\u00e3o conseguia fazer turn\u00ea na Europa porque s\u00f3 tinha um m\u00eas de f\u00e9rias. N\u00e3o conseguia sair pra tocar no fim de semana porque trabalhava um fim de semana sim e outro n\u00e3o. A coisa foi gerando uma esp\u00e9cie de depress\u00e3o, sentia que estava jogando fora tudo que tinha feito em nome de uma estabilidade de quatro paus por m\u00eas, tendo meu carrinho com gasolina e comprando uns disquinhos, mas n\u00e3o estava fazendo o que curtia. Fiquei nesse mart\u00edrio durante um ano, um ano e meio, pensando que tinha que sair fora de algum jeito. Como eu tinha essa estabilidade, peguei uma sala comercial e comecei a montar a Wildstone um ano antes de largar meu emprego. O primeiro ano foi o mais dif\u00edcil da minha vida. Ainda estou na batalha, mas muito satisfeito de ter tomado essa atitude. E perdi mais ou menos tudo que tinha de estabilidade \u2013 em um per\u00edodo de tr\u00eas ou quatro meses, acabou meu casamento, o motor do meu carro fundiu, meu gato morreu&#8230; Tem dias que bate o arrependimento, fico pensando: \u201co que voc\u00ea est\u00e1 fazendo? N\u00e3o tem mais casamento, n\u00e3o tem mais emprego, n\u00e3o tem mais carro, n\u00e3o tem mais porra nenhuma&#8230;\u201d Mas isso me for\u00e7ou a abrir portas para outras coisas. Fazia 12 anos que eu tocava s\u00f3 com Dead Rocks, mas a\u00ed fui gravar um disco de indie com o Song and Dance Men \u2013 uma banda boa que morreu na praia, mas ok, fui l\u00e1 e fiz. Fiz uma turn\u00ea muito bacana com o citarista Alberto Marsicano (1952 \u2013 2013), numa praia mais psicod\u00e9lica. Comecei a me abrir para outras coisas. Se vou viver disso, ent\u00e3o vamos abrir esse leque est\u00e9tico que gosto! Na hora em que a Wildstone virou 100% um trabalho, tive que me abrir para outras coisas. J\u00e1 tinha trampado com publicidade, ent\u00e3o fui fazer capas. Fa\u00e7o um monte de capas de discos de blues no Brasil, acabei de fazer a do pr\u00f3ximo Blues Et\u00edlicos. Abri meu leque art\u00edstico tanto por liberdade como por necessidade financeira. Por isso voltei a escrever, lancei o livro (\u201cO Diabo em Livros\u201d, de 2017) que queria fazia uns dez anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando sobre \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/odiaboemlivros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Diabo em Livros<\/a>\u201d, ent\u00e3o: mercado liter\u00e1rio \u00e9 ainda mais restrito que o musical no Brasil. Pode at\u00e9 ter turn\u00ea de lan\u00e7amento, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que o circuito musical, tem o fato de que somos um pa\u00eds de 200 milh\u00f5es de habitantes, por\u00e9m uma vendagem de 15 mil c\u00f3pias j\u00e1 \u00e9 mais que suficiente para configurar um sucesso editorial. Ent\u00e3o, como viabilizar esse outro lado da sua carreira?<\/strong><br \/>\n\u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/odiaboemlivros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Diabo em Livros<\/a>\u201d tem coisas antigas e coisas novas, agrupadas em uma forma est\u00e9tica que funcionasse, e ele foi financiado colaborativamente. Fiz um Kickante, tive apoio de 160 pessoas. Ent\u00e3o vendi 160 livros antes de ter lan\u00e7ado, entendeu? \u00c9 um projeto que eu tinha lan\u00e7ado para me posicionar como escritor \u2013 escrevo release, resenha, poesia, conto, fiz cr\u00f4nicas semanais. Era, ent\u00e3o, um \u201cpreciso me posicionar como escritor\u201d tamb\u00e9m. E estou muito feliz com o resultado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse per\u00edodo em que voc\u00ea embarcou na vida 100% ligada \u00e0s artes \u00e9 justamente o per\u00edodo no qual saiu os dois \u00e1lbuns que considero os melhores do Dead Rocks. Parece que a banda encontrou uma identidade particular: deixou de ser uma mistura da surf cl\u00e1ssica com o surf gera\u00e7\u00e3o 90 e virou o som do Dead Rocks. Ter essa dedica\u00e7\u00e3o integral ajudou a burilar as composi\u00e7\u00f5es? OK, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea quem escreve as composi\u00e7\u00f5es na banda, mas&#8230;<\/strong><br \/>\nTalvez um pouco, mas mais que isso, acho que \u00e9 o nosso conhecimento da surf (music) que est\u00e1 sendo feita no mundo. Tem muita banda fazendo tudo a mesma coisa, por isso decidimos explorar aquilo que s\u00f3 a gente gosta, saca? Aquilo que s\u00f3 a gente sabe tocar, que s\u00f3 a gente sabe como mostrar para as pessoas. A gente n\u00e3o queria ficar 15, 20 anos fazendo a mesma coisa. N\u00e3o temos mais saco, a gente n\u00e3o aguentava ouvir as mesmas bandas, os mesmos clich\u00eas. O \u201c<a href=\"https:\/\/deadrocks.bandcamp.com\/album\/surf-explos-o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Surf Explos\u00e3o<\/a>\u201d (2014) \u00e9 o que mais gosto. Apesar de s\u00f3 ter cinco ou seis m\u00fasicas nossas, e o resto ser cl\u00e1ssicos da surf music retrabalhados, ele joga muito com as coisas de psicodelia, rockabilly, m\u00fasica latina e tal, tem at\u00e9 uma vers\u00e3o do Sixto Rodriguez (\u201cSurf Man\u201d) com quase 10 minutos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WxVLtNHbA6w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00eas acham que o p\u00fablico gringo v\u00ea essa diferen\u00e7a no som de voc\u00eas? A assinatura de voc\u00eas \u00e9 percept\u00edvel para o p\u00fablico estrangeiro?<\/strong><br \/>\nAparece bem. Ficamos bem impressionados na \u00faltima turn\u00ea europeia. No Brasil o pessoal v\u00ea a gente como surf cl\u00e1ssico, por causa das roupinhas, da postura no palco&#8230; Na Europa \u00e9 o contr\u00e1rio: eles veem mais facilmente os elementos, a energia, a coisa latina, a velocidade. Mas tem uma coisa que n\u00f3s [do The Dead Rocks] vemos \u00e9 que, nesses 15 anos, rolou uma esp\u00e9cie de forma\u00e7\u00e3o. Hoje, o Dead Rocks vai tocar nos lugares mais distantes do Brasil e l\u00e1 a gente encontra uma banda de surf music, formada por gente que h\u00e1 10 anos comprou nosso primeiro disco e montou uma banda de surf. \u00c9 gente que tem uma banda de surf porque n\u00f3s passamos pela vitrola do cara, entendeu? A gente fica at\u00e9 assustado. Fomos tocar com os Apicultores Clandestinos (de Rio do Sul, SC), e eles nos disseram isso. Os Pulltones, (de Leme, SP) tamb\u00e9m falaram isso, o pr\u00f3prio Footstep, de Campinas: \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rrtp02FQzS4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vimos voc\u00eas no J\u00f4 Soares e montamos a banda<\/a>\u201d. Tem um monte de banda que come\u00e7ou nos vendo tocar, do mesmo jeito que come\u00e7amos vendo o Man or Astro-Man?! Agora, nesse aspecto, tamb\u00e9m tem bandas que vemos tocando as mesmas vers\u00f5es que a gente toca. Fica a releitura da releitura! Por isso a gente pensa que tem que ir al\u00e9m, n\u00e3o pode continuar fazendo sempre a mesma coisa. N\u00e3o que isso nos incomode, mas artisticamente, sempre queremos ir pra frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E eis que agora sai um tributo ao Dead Rocks \u2013 organizado por voc\u00eas mesmos. Voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico artista a organizar uma homenagem a si pr\u00f3prios (risos), mas mesmo assim, n\u00e3o \u00e9 meio cabotino?<\/strong><br \/>\nEu estava naquela onda de fazer o \u201cWeirdo Fervo\u201d. Fiz os volumes 1 e 2, nesse ano faria o 3, mas a\u00ed vi que, com 15 anos de banda e um monte de amigos feitos na estrada, que curte a gente de verdade&#8230; Po, pelo menos 30% do nosso p\u00fablico s\u00e3o outras bandas! Se a gente vai fazer uma comemora\u00e7\u00e3o de 15 anos, por que n\u00e3o por essa galera pra tocar, e ver como essa galera tocaria nossos sons? At\u00e9 para aprendermos com isso. Tudo bem, \u00e9 um tributo a n\u00f3s, mas estamos encarando mais como uma festa de anivers\u00e1rio onde voc\u00ea chama a galera para fazer uma jam. S\u00f3 que, como cada um mora numa parte do mundo e n\u00e3o rola juntar todos numa festa, fazemos um disco! O nome \u00e9 at\u00e9 uma brincadeira com isso: o \u201cBeach, Butts, Burgers and Beer\u201d \u00e9 porque \u00e9 uma \u201cfesta de cerveja artesanal com hamb\u00farguer\u201d, que todo mundo faz hoje em dia, entendeu? (risos). N\u00e3o \u00e9 um lance egoc\u00eantrico. A sele\u00e7\u00e3o foi feita a partir da nossa amizade: s\u00e3o pessoas que nos recebem para dormir quando viajamos, que organizam nossos shows, compram nossos discos. Ao mesmo tempo, n\u00e3o queremos que essas pessoas sejam nossos f\u00e3s, porque s\u00e3o nossos brothers de verdade. Al\u00e9m de construir uma carreira e fazer uma grana nesses 15 anos, fizemos esses amigos que gostam de n\u00f3s como pessoas, n\u00e3o s\u00f3 como m\u00fasicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A banda \u00e9 t\u00e3o prioridade pros outros dois como \u00e9 para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Os outros dois est\u00e3o trabalhando: o Johnny trabalha com programa\u00e7\u00e3o e sistemas de computadores e o Paul tem uma ch\u00e1cara que ele aluga para eventos, \u00e9 respons\u00e1vel por toda a manuten\u00e7\u00e3o da ch\u00e1cara, al\u00e9m de ser um artista que cria esculturas, quadros, tem um ateli\u00ea de arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea disse que o emprego te prendia, e saiu dele para ficar mais dedicado \u00e0 banda e aos outros projetos. Os outros dois estarem ainda atrelados a empregos, n\u00e3o prende tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, porque a gente j\u00e1 investiu muito nesse projeto, e queremos certo retorno e reconhecimento pelo que j\u00e1 fizemos. Estamos filtrando bem o que fazemos e pegando s\u00f3 o que a gente acha que vale a pena. Isso j\u00e1 diminuiu o n\u00famero de shows. Fazemos s\u00f3 o que achamos bacana, n\u00e3o s\u00f3 pela grana, mas pela proposta. Fomos tocar no CRACCA Festival em Santa Cantarina: recebemos bem, mas al\u00e9m da grana, sabemos que s\u00e3o uns moleques que est\u00e3o fazendo um puta trampo massa e queremos estar ali para construir junto com eles. Ficamos mais seletivos, o que nos ajuda com essa poss\u00edvel falta de tempo para fazer turn\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais os lan\u00e7amentos da Wildstone pelos quais voc\u00ea tem maior carinho?<\/strong><br \/>\nPra mim \u00e9 o compacto com o Dirty Coal Train (\u201c<a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/10\/spaceship-to-cucujaes-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Spaceship to Cucaj\u00e3es<\/a>\u201d) e o compacto do Phantom Powers (o j\u00e1 citado \u201c<a href=\"http:\/\/www.wildstone.com.br\/album\/8\/knock-knock-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Knock Knock<\/a>\u201d) \u2013 pra mim, a melhor banda de garage do Brasil, disparado. O Ray Zimmer \u00e9 uma lenda: tocou com o J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3, os Ostras, Detetives, \u00e9 um guitarrista fabuloso. E mesmo o Tio Vico, que comp\u00f4s m\u00fasicas que o Wander Wildner gravou (\u201cA \u00daltima Can\u00e7\u00e3o\u201d\u00b8 do \u00e1lbum \u201cParaquedas do Cora\u00e7\u00e3o\u201d), tocou com uma porrada de banda. Acho que \u00e9 a coisa mais legal que j\u00e1 lancei.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HhWZjIRw4LI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\">fb\/leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell. A foto que abre o texto \u00e9 de Alexandre Barros \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mauricio Dotto Martucci abandonou seu nome de batismo e decidiu assumir para si a alcunha que vinha usando desde 2002, quando fundou a banda The Dead Rocks. Conhe\u00e7a sua hist\u00f3ria! \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/12\/27\/entrevista-marky-wildstone\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":45540,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2534],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45539"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45539"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45539\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45541,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45539\/revisions\/45541"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45540"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}