{"id":44879,"date":"2017-10-31T07:40:47","date_gmt":"2017-10-31T09:40:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=44879"},"modified":"2020-01-12T10:09:04","modified_gmt":"2020-01-12T13:09:04","slug":"mashrou-leila-ao-vivo-no-sesc-pompeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/10\/31\/mashrou-leila-ao-vivo-no-sesc-pompeia\/","title":{"rendered":"Mashrou\u2019 Leila ao vivo no SESC Pompeia"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cairo, Egito, 25 de setembro. A banda libanesa Mashrou\u2019 Leila, uma das mais relevantes no cen\u00e1rio pop do Oriente M\u00e9dio, \u00e9 headliner no Music Park Festival. Durante seu show, um grupo de pessoas levanta uma bandeira do arco-\u00edris, s\u00edmbolo do orgulho LGBT. A imagem viralizou, foi exibida em TV aberta e teve enorme repercuss\u00e3o \u2013 como s\u00edmbolo da \u201cdecad\u00eancia moral\u201d da juventude. O governo eg\u00edpcio se aproveitou do notici\u00e1rio escandaloso e mandou prender 57 pessoas, inclusive as que estavam portando a bandeira. Mesmo a homossexualidade n\u00e3o sendo tipificada como crime no Egito, algumas mulheres e muitos homens foram detidos sob as acusa\u00e7\u00f5es de \u201cprostitui\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cdissipa\u00e7\u00e3o\u201d (ou \u201cimoralidade\u201d, se preferir uma tradu\u00e7\u00e3o mais aproximada).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo, Brasil, 28 de novembro. O mesmo Mashrou\u2019 Leila faz seu segundo show em terras brasileiras. Na Choperia do Sesc Pompeia (lotada &#8211; parab\u00e9ns \u00e0 Balaclava Records por ter acreditado no potencial do grupo), muitos casais homoafetivos, principalmente do g\u00eanero masculino, transitam e demonstram afeto livremente. A bandeira do arco-\u00edris se faz novamente presente, e \u00e9 levantada v\u00e1rias vezes ao longo do show. Cen\u00e1rios muito diferentes entre si? Talvez n\u00e3o. Se a viol\u00eancia n\u00e3o se institucionalizou de forma \u201coficial\u201d, como no Egito, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esquecer que vivemos no pa\u00eds que mais matas pessoas LGBT no mundo \u2013 lembrando que a estat\u00edstica leva em considera\u00e7\u00e3o crimes denunciados e\/ou investigados. \u00c9 sensato acreditar que h\u00e1 um n\u00famero tristemente maior, que n\u00e3o chega a computar estat\u00edstica. Ao mesmo tempo, \u00e9 um pa\u00eds no qual ainda existem (resistem?) v\u00e1rias \u201cbolhas\u201d, que permitem alguma seguran\u00e7a a quem tem um comportamento diferente do heteronormativo. \u00c9 verdade que algumas bolhas, de t\u00e3o fechadas em si, s\u00e3o alienantes, mas ainda \u00e9 melhor t\u00ea-las a n\u00e3o ter nada. Ou ser\u00e1 que n\u00e3o?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-44884\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"479\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila2-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo da quase 1h40 de show, essas quest\u00f5es ficam passando pela cabe\u00e7a, e n\u00e3o v\u00e3o embora. \u00c9 vis\u00edvel, desde o come\u00e7o, o entusiasmo da banda de estar no Brasil, e ainda \u201ctocando em um pr\u00e9dio da Lina Bo Bardi\u201d (alguns integrantes da banda s\u00e3o arquitetos), <a href=\"http:\/\/monkeybuzz.com.br\/artigos\/25047\/mashrou-leila-temos-a-capacidade-de-mudar-algo-ainda-que-em-pequena-escala\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">como declarou ao site MonkeyBuzz<\/a> o guitarrista e tecladista Firas Abou Fakher. E sim, a banda se sentia \u00e0 vontade para tratar de quest\u00f5es pol\u00edticas e sexuais ao longo do show, como costuma fazer em suas apresenta\u00e7\u00f5es e v\u00eddeos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vocalista Hamed Sinno falava bastante (em ingl\u00eas) entre uma can\u00e7\u00e3o e outra, fosse para explicar do que se tratava a composi\u00e7\u00e3o, para brincar com seu nervosismo (\u201cSinto que estou suando minha maquiagem em cima de voc\u00eas\u201d, \u201cS\u00e9rio, apaguem as luzes da casa, \u00e9 assustador olhar para tanta gente que veio nos ver\u201d) ou para xavecar um espectador. Sinno \u00e9, segundo a imprensa local, o primeiro artista pop assumidamente gay do L\u00edbano, e autor da primeira can\u00e7\u00e3o de amor abertamente homossexual de todo o Oriente M\u00e9dio (\u201cShim el Yasmine\u201d, do hom\u00f4nimo \u00e1lbum de estreia da banda, de 2009). \u00c9 uma figura provocativa n\u00e3o por causar choque, mas por mostrar-se absolutamente confort\u00e1vel em ser quem \u00e9 em um pa\u00eds no qual o governo fecha bares gays (fato contado na excelente \u201cTayf\u201d), incentiva a juventude ao belicismo e ao militarismo (\u201cEm nosso pa\u00eds, s\u00f3 ensinam os meninos a gostar de armas e de carros\u201d, disse a certa altura do show) e reduz direitos civis de gays e de mulheres, baseados em crit\u00e9rios religiosos transformados em lei.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-44883\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"471\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila1-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No palco, Sinno dan\u00e7a de forma sinuosa, enquanto solta sua voz grave e poderosa. Seu visual encontra um curioso meio termo entre Freddie Mercury e Justin Bieber em vers\u00e3o \u00e1rabe, enquanto o resto da banda, toda de preto, mant\u00e9m a discri\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica (o que n\u00e3o impediu que muitos mancebos e donzelas fizessem coment\u00e1rios apaixonados ou pouco religiosos sobre o violinista Haig Papazian). Na din\u00e2mica instrumental, fica claro que quem conduz a banda s\u00e3o Firas e Ibrahim Badr (baixo e sintetizadores). Em muitas faixas de \u201cIbn El Leil\u201d, o \u00e1lbum mais recente do Mashrou\u2019 Leila (2015), os dois deixam seus instrumentos de cordas para se dedicarem \u00e0s teclas, cabendo a Haig Papazian riffs ou detalhes de violino. O baterista Carl Gerges acaba desperdi\u00e7ado nessas can\u00e7\u00f5es, tendo que se adaptar aos ritmos programados. Nas can\u00e7\u00f5es mais org\u00e2nicas, como a \u201cbossa m\u00e9dio-oriental\u201d \u201cFasateen\u201d ou a veloz e quase argelina \u201cRaksit Leila\u201d, d\u00e1 para ver e ouvir melhor o que ele \u2013 e todo o resto da banda, diga-se \u2013 podem fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, tudo isso funciona a favor do show, cujo repert\u00f3rio trouxe faixas de todos os \u00e1lbuns (h\u00e1 ainda \u201cRaasuk\u201d, de 2013), mas inexplicavelmente n\u00e3o incluiu nenhuma das seis \u00f3timas can\u00e7\u00f5es do EP \u201cEl Hal Romancy\u201d (2011) \u2013 \u00e9 quase um pecado a aus\u00eancia de \u201cImm el Jacket\u201d e da faixa-t\u00edtulo. \u00c9 curioso notar como, mesmo com v\u00eddeos sincronizados e muitas trilhas pr\u00e9-gravadas (quando foi que isso virou quase uma regra para apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo?), o Mashrou\u2019 Leila ainda se permite o entusiasmo de iniciante, para o bem ou para o mal. No lado \u201cbom\u201d, as brechas para encontrar improviso, a entrega \u00e0s execu\u00e7\u00f5es e a preocupa\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. J\u00e1 o lado \u201cmau\u201d inclui fanfarronices como tirar selfies ao fim do show com a plateia ao fundo, ensaiar coros com o p\u00fablico (quando tocaram \u201cDjin\u201d) e coisas do tipo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-44882\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila4-300x187.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer modo, durante os quase 100 minutos em que estiveram no palco, os libaneses conseguiram criar um \u00f3timo clima, uma esp\u00e9cie de celebra\u00e7\u00e3o da vida enquanto declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e vice-versa. Musicalmente, a viagem come\u00e7ou com um p\u00e9 fincado mais firmemente nas sonoridades e harmonias m\u00e9dio-orientais, ganhou contornos de pop mainstream internacional durante a maior parte de sua dura\u00e7\u00e3o, e encerrou-se introspectiva, incluindo a j\u00e1 citada \u201cShim El Yasmine\u201d. No meio disso tudo, Sinno comentou o caso no Egito \u2013 que continua a prender homossexuais, muitas vezes por meio de policiais infiltrados com perfil falso em aplicativos de paquera, e posteriormente submet\u00ea-los a todo tipo de abuso nas pris\u00f5es. Pediu ent\u00e3o que cada um dos presentes \u201cfizesse o que fosse poss\u00edvel\u201d nas redes sociais e nos canais de comunica\u00e7\u00e3o para atrair press\u00e3o internacional contra as persegui\u00e7\u00f5es promovidas pela sociedade eg\u00edpcia. O sindicato dos m\u00fasicos locais baniu a banda do pa\u00eds, proibindo qualquer nova apresenta\u00e7\u00e3o sua l\u00e1 (o que j\u00e1 havia acontecido tamb\u00e9m em Am\u00e3, capital da Jord\u00e2nia \u2013 curiosamente, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/04\/16\/turismo-bem-vindo-ao-oriente-medio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a cidade na qual ouvi a banda pela primeira vez<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/12\/mashrou-leila-e-o-pop-arabe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entrevistei-os um tempo depois<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show termina, mas as reflex\u00f5es n\u00e3o param. Para um amigo que n\u00e3o \u00e9 fluente em ingl\u00eas, explico sobre o caso do Egito. Passado o choque, ele me diz: \u201cVoc\u00ea sabe que n\u00e3o estamos longe disso por aqui, n\u00e9?\u201d. Ao fim do show, outro colega faz o mesmo coment\u00e1rio, quase que com as mesmas palavras. Em ambos os casos, quero responder: \u201cCalma, ainda n\u00e3o chegamos a esse ponto\u201d. Olho ao meu redor e vejo \u201ca bolha Sesc Pompeia\u201d. Fico pensando se o quanto ela conseguir\u00e1 resistir \u00e0 sociedade que prop\u00f5e projetos que normatizem a \u201ccura gay\u201d, que criminaliza o aborto ao mesmo tempo em que reivindica a pena de morte, que \u201cavalia\u201d uma mulher baseada em seu estado civil ou em seu comportamento \u00edntimo. Acho melhor n\u00e3o responder nada, com receio que meus amigos estejam certos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-44881\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila11.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila11.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/leila11-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Durante os quase 100 minutos em que estiveram no palco, os libaneses conseguiram criar um \u00f3timo clima, uma esp\u00e9cie de celebra\u00e7\u00e3o da vida enquanto declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e vice-versa\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/10\/31\/mashrou-leila-ao-vivo-no-sesc-pompeia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":44880,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2410],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44879"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44879"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54528,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44879\/revisions\/54528"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}