{"id":44647,"date":"2017-10-15T13:24:18","date_gmt":"2017-10-15T15:24:18","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=44647"},"modified":"2017-11-24T09:18:04","modified_gmt":"2017-11-24T11:18:04","slug":"musica-pussycat-de-juliana-hatfield","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/10\/15\/musica-pussycat-de-juliana-hatfield\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;Pussycat&#8221;, de Juliana Hatfield"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que a vit\u00f3ria de Donald Trump se confirmou em 2016, Juliana Hatfield pegou guitarra, baixo e teclados, escalou um baterista (Pete Caldes) e um engenheiro de som (Pat DiCenso) e entrou em est\u00fadio para registrar estas 14 can\u00e7\u00f5es que nasceram como um jorro cat\u00e1rtico de revolta. \u201cEu n\u00e3o estava planejando gravar um disco\u201d, conta ela no Bandcamp (<a href=\"https:\/\/julianahatfield.bandcamp.com\/album\/pussycat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ou\u00e7a o \u00e1lbum na integra<\/a>). \u201cMas as can\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a sair de mim, e eu precisava registra-las, senti essa urg\u00eancia\u201d, comenta. \u201cQuase n\u00e3o entendo o que aconteceu no est\u00fadio. Tudo fluiu rapidamente, suavemente\u201d, completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascida musicalmente em meio a tempestade grunge dos anos 90 (seu belo debute, \u201cHey Babe!\u201d, \u00e9 de 1992), Juliana \u00e9 respons\u00e1vel direta pelos melhores dois discos dos Lemonheads \u2013 tocando baixo e cantando em &#8220;It&#8217;s a Shame About Ray&#8221; (1992) e inspirando decididamente &#8220;Come on Feel the Lemonheads&#8221; (1993) \u2013 e imprimiu \u00e0 sua carreira uma sonoridade grunge pop alternativa que nunca chegou a ser mainstream (embora tenha esbarrado), mas segue cult e repleta de grandes momentos em mais de 20 discos entre \u00e1lbuns pr\u00f3prios e colabora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um mergulho na carreira de Juliana, tanto o \u00e1lbum de estreia quanto \u201cBecome What You Are\u201d, de 1993, assinado como Juliana Hatfield Three (e que cravou o single \u201cMy Sister\u201d no n\u00famero 1 da Billboard na parada Modern Rock Tracks), \u201cOnly Everything\u201d, de 1995 (do qual saiu outro hit, &#8220;Universal Heart-Beat&#8221;), \u201cBed\u201d, de 1998, a dobradinha \u201cBeautiful Creature\u201d \/ \u201cTotal System Failure\u201d, de 2000 (incluindo uma vers\u00e3o pop guitarreia de \u201cEvery Breath You Take\u201d, do Police) e \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/juliana_hatfield.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">In Exilio Deo<\/a>\u201d, de 2004 s\u00e3o boas introdu\u00e7\u00f5es \u2013 ali\u00e1s, Courtney Love \u201cemprestou\u201d muito destes discos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ogYJvaG6_uc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s um disco com Matthew Caws, do Superchunk, em 2013 (\u201cGet There\u201d, do projeto Minor Alps), outro com Paul Westerberg, do Replacements, em 2016 (\u201cWild Stab\u201d, do projeto The I Don&#8217;t Cares) e o primeiro \u00e1lbum do Juliana Hatfield Three desde 1993 (\u201cWhatever, My Love\u201d, 2015), Juliana surge extremamente s\u00e9ria (como demonstra a capa), raivosa e incrivelmente pop neste \u201cPussycat\u201d, desde j\u00e1 um dos melhores \u00e1lbuns de toda sua carreira, que tem Donald Trump como inspira\u00e7\u00e3o, mas que se estende a todos os homens escrotos do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cI Wanna Be Your Disease\u201d, a faixa que abre o \u00e1lbum, avisa: \u201cQuero te fazer se desculpar por todas as pessoas que voc\u00ea machucou, enganou e mentiu (&#8230;) \/ Por todo o mal que voc\u00ea fez na Terra\u201d. Em \u201cImpossible Song\u201d ela assume: \u201cEsses tempos contundentes trazem o pior em mim \/ N\u00e3o gosto do que estou me tornando\u201d. Na pop sixtie \u201cYou&#8217;re Breaking My Heart\u201d ela sentencia: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais her\u00f3is\u201d. J\u00e1 \u201cWhen You&#8217;re a Star\u201d fala de homens que usam a fama para esmagar, estuprar e silenciar pessoas: \u201cA lei est\u00e1 do seu lado\u201d, ela lamenta. \u201cVoc\u00ea \u00e9 o pai da Am\u00e9rica \/ Pode fazer o que quiser (&#8230;) \/ Como pegar outra garota \/ Contra a vontade dela\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cGood Enough for Me\u201d, uma das mais diretas, Juliana desenha um quadro com aquelas pessoas que percebem a maldade, mas tentam aliviar (por interesse, inoc\u00eancia ou burrice): \u201cEle tira rem\u00e9dios de doentes \/ E n\u00e3o sabe soletrar muito bem \/ Mas sabe ler \/ E nunca matou ningu\u00e9m pessoalmente\u201d, diz a letra, que continua desenhando o personagem que muitos de n\u00f3s conhecemos: \u201cEle n\u00e3o \u00e9 psicopata \/ Ele est\u00e1 apenas um pouco louco \/ Eu costumo acreditar em suas mentiras \/ Porque ele \u00e9 bom o suficiente para mim\u201d, diz o refr\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_952se6fAP8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco segue com uma can\u00e7\u00e3o direta sobre o atual presidente dos Estados Unidos (\u201cShort-Fingered Man\u201d, terceiro single do \u00e1lbum), uma sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica (\u201cTouch You Again\u201d), e uma sobre a mulher como objeto sexual (\u201cSex Machine\u201d). Segundo single do disco, \u201cWonder Why\u201d lamenta: \u201cMe pergunto por que os alien\u00edgenas que pousaram no telhado me deixaram l\u00e1 e n\u00e3o me levaram para o c\u00e9u\u201d. A quest\u00e3o clim\u00e1tica, um dos desastres da administra\u00e7\u00e3o Trump, \u00e9 o tema de \u201cSunny Somewhere\u201d. J\u00e1 em \u201cKellyane\u201d, o narrador se sente torturado pela mulher e define, escrotamente: \u201cVoc\u00ea me deixa louco&#8230; como toda puta no ensino m\u00e9dio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que dizer de \u201cHeartless\u201d, com \u00f3rg\u00e3o Farfisa saltando da melodia, guitarras sujas apitando e um refr\u00e3o docemente pop embalando esta letra: \u201cComo voc\u00ea pode julgar se voc\u00ea n\u00e3o tem autoridade? Como voc\u00ea pode dizer a verdade sem honestidade? Como voc\u00ea pode pregar sem acreditar? Como voc\u00ea pode ensinar se n\u00e3o aprendeu nada? Como voc\u00ea pode dar sem generosidade? Como voc\u00ea pode liderar sem ideologia? Como voc\u00ea pode ser justo sem qualquer dec\u00eancia? Como voc\u00ea pode trapacear sem d\u00favidas? Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o cruel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se algu\u00e9m at\u00e9 aqui tinha d\u00favidas sobre o tema do disco, Juliana escancara em \u201cRhinoceros\u201d, cujas primeiras estrofes descrevem \u201cEle cheira carne apodrecendo \/ Ele est\u00e1 esmagando voc\u00ea \/ Ele \u00e9 enorme \/ \u00c0s vezes voc\u00ea se sente como uma meretriz \/ Apenas feche seus olhos \/ Tente n\u00e3o chorar\u201d para logo depois dizer: \u201cMelania \u00e9 seu nome \/ Ela \u00e9 eslovena \/ Uma imigrante ilegal \/ Ele pagou para escond\u00ea-la \/ Ele gosta de jovens \/ Elas s\u00e3o mais complacentes\u201d. No refr\u00e3o: \u201cA Am\u00e9rica est\u00e1 sendo fodida por um rinoceronte\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mantendo o tema pesado do \u00e1lbum at\u00e9 seus \u00faltimos segundos, \u201cEverything Is Forgiven\u201d, a faixa de encerramento, \u00e9&#8230;. bem, melhor deixar a letra dizer por si mesma: \u201cEle \u00e9 um maldito animal \/ E eu sou um peda\u00e7o de carne \/ Deus me perdoar\u00e1 por minha raiva, \u00f3dio e viol\u00eancia sangrenta e vingativa \/ Por todas as coisas que farei com ele \/ Porque n\u00e3o vou morrer v\u00edtima\u201d, promete a personagem em um dos discos mais necess\u00e1rios do \u201cpop\u201d mundial em 2017, e que poderia funcionar, todo ele, como trilha sonora de \u201cHandmaid\u2019s Tale\u201d, a s\u00e9rie. Um \u00e1lbum s\u00e9rio que n\u00e3o merece apenas aplausos, mas tamb\u00e9m aten\u00e7\u00e3o, respeito e reflex\u00e3o, muita reflex\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tTJLjhgeGyo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) edita o Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um \u00e1lbum que soa como uma trilha sonora de \u201cHandmaid\u2019s Tale\u201d, a s\u00e9rie. 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