{"id":44582,"date":"2017-10-10T11:40:30","date_gmt":"2017-10-10T14:40:30","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=44582"},"modified":"2017-11-07T14:46:04","modified_gmt":"2017-11-07T16:46:04","slug":"entrevista-marcelo-callado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/10\/10\/entrevista-marcelo-callado\/","title":{"rendered":"Entrevista: Marcelo Callado"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ar um vinil duplo, de tiragem limitada, e fazer dessa a principal plataforma de lan\u00e7amento de um \u00e1lbum pode parece ser uma estrat\u00e9gia de suic\u00eddio financeiro \u2013 ainda mais considerando que o disco anterior n\u00e3o teve muita difus\u00e3o. Pois \u00e9 exatamente isso que o carioca Marcelo Callado est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMusical Por\u00e9m\u201d (2017) j\u00e1 est\u00e1 \u00e0 venda na sua caprichad\u00edssima vers\u00e3o f\u00edsica, lan\u00e7ada em uma parceria do selo Embolacha (do qual Marcelo \u00e9 s\u00f3cio) com a Rock It!, de Dado Villa-Lobos. \u00c9 o segundo \u00e1lbum solo de Callado \u2013 o primeiro, \u201c<a href=\"https:\/\/marcelocallado.bandcamp.com\/album\/meu-trabalho-han-sollo-vol-ii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meu Primeiro Trabalho Han Solo vol. II<\/a>\u201d saiu em CD em 2015 (e pode ser ouvido e baixado no Bandcamp). Entre ambos, veio \u201cCallado Compacto\u201d (2016), vinil de quatro faixas instrumentais gravadas com a ajuda de Pedro S\u00e1, Kassin e Jo\u00e3o Erbetta. O disco atual traz 20 can\u00e7\u00f5es, equitativamente divididas em quatro lados de cinco faixas. Apenas em dezembro (possivelmente no dia 08) ele estar\u00e1 dispon\u00edvel nas plataformas de streaming \u2013 por ora, s\u00f3 o vinil mesmo (para compra-lo, chegue mais no Facebook: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/callado.marcelo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb.com\/callado.marcelo<\/a> ou pelo e-mail <a href=\"mailto:callado.marcelo@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">callado.marcelo@gmail.com<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, a grande quest\u00e3o nisso tudo n\u00e3o est\u00e1 no formato ou no tamanho do disco, e sim no fato de que \u201cMusical Por\u00e9m\u201d \u00e9 um excelente \u00e1lbum: pop, convidativo, com letras cheias de uma poesia simples e sagaz. Mesmo que assumidamente apoiado em refer\u00eancias do passado \u2013 rock, pop, samba e MPB dos anos 60 e 70 \u2013 \u00e9 pleno de frescor, tendo pouca ou nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o revisionismo que aparece em discos recentes da m\u00fasica pop brazuca aqui e acol\u00e1. N\u00e3o \u00e0 toa, Marcelo diz que sua m\u00fasica \u00e9 \u201cde certa maneira, retr\u00f4, mas de outra maneira \u00e9 nova, n\u00e3o parece com nada que t\u00e1 a\u00ed\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro, h\u00e1 refer\u00eancias identific\u00e1veis \u2013 Callado fala sobre todas elas nesse bate-papo exclusivo com o Scream &amp; Yell. Fala tamb\u00e9m sobre o clima de \u201crecome\u00e7o\u201d que o disco traz, e que representa um resgate concreto de uma alegria de viver e de um cuidado com a pr\u00f3pria vida. Porque essas eram coisas que, em virtude de v\u00e1rias raz\u00f5es, j\u00e1 n\u00e3o faziam parte de sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, seja com \u201cNascer\u201d (o belo poema de Drummond musicado), o embalo sixtie de \u201cUma Corda Preto-e-Branco\u201d (dedicada \u00e0 sua filha), o sambinha \u201cDo Tempo do On\u00e7a\u201d (uma celebra\u00e7\u00e3o de seu anacronismo musical), a folk \u201cNight Paradise\u201d ou a marchinha psicod\u00e9lica \u201cO Homem Nada\u201d, Callado cria can\u00e7\u00f5es que ajudam a redefini-lo e refazer sua vida, ap\u00f3s um per\u00edodo de separa\u00e7\u00f5es, abuso e acidentes alco\u00f3licos graves \u2013 como o que lhe custou v\u00e1rios dentes e \u00e9 o objeto de inspira\u00e7\u00e3o para o rock \u201cFica\u201d, primeiro single do \u00e1lbum. \u201cFica\u201d, ali\u00e1s, sai oficialmente apenas dia 24\/11, mas Callado liberou a faixa para audi\u00e7\u00e3o exclusiva no Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter os discos solo n\u00e3o tira Marcelo Callado de suas muitas atividades seja com a banda <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/04\/entrevista-do-amor-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Do Amor<\/a>, ou acompanhando Caetano Veloso (sete anos na banda C\u00ea), Flu, Jonas S\u00e1, Branco Mello e o Futurismo, Canastra, Lafayette e Os Tremend\u00f5es&#8230; \u201cEu t\u00f4 sempre metido em outras coisas, porque n\u00e3o consigo viver do meu trabalho autoral\u201d, resume Marcelo, que ainda \u00e9 m\u00fasico de turn\u00ea, comp\u00f5e trilhas para pe\u00e7as de teatro, curta-metragens ou v\u00eddeos institucionais, al\u00e9m de comandar o Est\u00fadio do Amor, no Rio de Janeiro. Confira o bate papo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/c9d43YnwsyA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cMusical Por\u00e9m\u201d soa muito como um disco de recome\u00e7o. O disco j\u00e1 come\u00e7a falando em \u201cnascer\u201d, parece que voc\u00ea est\u00e1 retomando sua vida, ou mesmo come\u00e7ando uma vida nova. Como isso orientou sua cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9 exatamente isso a\u00ed. Se voc\u00ea sentiu isso tudo, se o disco consegue passar isso, \u00e9 um bom sinal, porque \u00e9 a ideia que eu queria passar. \u00c9 algo que de fato aconteceu na minha vida. Eu vinha de dois discos \u2013 vou deixar o \u201c<a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/balaclavarecords\/sets\/do-amor-fodido-demais-2017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fodido Demais<\/a>\u201d [2017], do Do Amor, um pouco fora dessa \u2013 que um era \u201cMeu Primeiro Trabalho Han Solo vol. II\u201d (2015), e o outro o disco com minha ex-mulher, a Nina [Becker], o \u201c<a href=\"https:\/\/gambitobudapeste.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gambito Budapeste<\/a>\u201d (2012), que era bem um disco de casal, gravado no nosso apartamento, falava do nossa dia a dia, das viagens e da saudade, das m\u00fasicas que a gente gostava. A vida caminhou, nossa filha nasceu, e a gente se separou. No meio disso, eu fiz algumas m\u00fasicas que falavam de resgatar o casamento, e no \u201cHan Solo\u201d entraram algumas dessas coisas. Mas o casamento acabou. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o deu certo: deu, a gente tem uma filha, se d\u00e1 bem, s\u00f3 mudou a configura\u00e7\u00e3o. E dessa nova configura\u00e7\u00e3o surgiram muitas can\u00e7\u00f5es que falavam justamente disso, de um recome\u00e7o, uma vida p\u00f3s-separa\u00e7\u00e3o, com uma filha nova&#8230; Depois de todos esses anos, ficar sozinho me deixou em um mar muito revolto de sensa\u00e7\u00f5es e atitudes, de novas experi\u00eancias, e acabei me emburacando muito em coisas que me levaram a lugares desconhecidos, sabe? Fui muito ao p\u00e9 da letra para a coisa do \u201csexo, drogas e rock\u2019n\u2019roll\u201d, bebia demais&#8230; At\u00e9 chegar a um ponto que os amigos e a Nina vieram falar que isso estava meio brabo, e estava mesmo. E comecei a tentar me recuperar. O poema que est\u00e1 na \u201cparte de tr\u00e1s\u201d do disco se chama \u201cRecupera\u00e7\u00e3o\u201d, e voc\u00ea pode ter v\u00e1rias abordagens dele. Mas, para mim, \u00e9 como se o cara tivesse chegado a um limite e vai militar para sair daquilo e chegar numa paz. Isso \u00e9 representado tamb\u00e9m pelo \u201czap\u201d, a paz ao contr\u00e1rio (nota: a palavra \u201cpaz\u201d soletrada de tr\u00e1s para frente, para efeitos de clareza). Eu me referenciei muito naquele seriado do Batman dos anos 60, que tinha aquele \u201cZap! Soc! Pow\u201d, e \u00e9 como se o zap fosse isso, um corte, \u201cp\u00e1!\u201d. Cheguei ao limite e dei um corte \u2013 ou estava a procura de um limite para dar um corte conseguir essa paz. Esse disco abarcou muito esse tempo, de um renascimento mesmo. Por isso o disco come\u00e7a com o poema do Drummond que eu musiquei (\u201cNascer\u201d), enquanto eu estava voltando a ser feliz, a ter um controle maior da minha vida. A maioria das m\u00fasicas novas que fiz tem a ver com isso, s\u00f3 que eu tamb\u00e9m tinha m\u00fasicas boas que ficaram perdidas: ficaram fora do Gambito, do \u201cHan Solo\u201d e do Do Amor. Entrei numas de fazer [meu disco]: j\u00e1 que eu tenho um est\u00fadio, que \u00e9 o Est\u00fadio do Amor, eu pensei: \u201cPor que n\u00e3o gravar tudo e depois selecionar?\u201d E gravei tudo: 21 m\u00fasicas. A que tem o poema \u201cRecupera\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma musica tamb\u00e9m, mas eu n\u00e3o gostei do resultado musical dela. Ent\u00e3o ficaram 20.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aksHt1X2u3w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um n\u00famero grande para os dias atuais. E sai em vinil antes de ser lan\u00e7ado em qualquer formato.<\/strong><br \/>\nEu quis fazer vinil! No \u201cHan Solo\u201d n\u00e3o quis investir tanto, estava inseguro ainda com ter um trabalho solo e preferi fazer CD. Mas agora eu tinha uma grana guardada, ainda dos trampos com o Caetano, e eu quis fazer do meu jeito. Eu s\u00f3 escuto vinil: escuto pouco CD, e menos ainda de m\u00fasica pela internet. E esse disco [\u201cMusical Por\u00e9m\u201d] chegou a um resultado que me deixou muito feliz, apesar de ter temas meio pesados. Resolvi juntar o que eu tinha de novo, e as sobras de antes, e montar o vinil com capricho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, ele \u00e9 montado com cada lado tendo uma identidade clara.<\/strong><br \/>\nFoi sim. Pensei em montar ele por lados, com climas diferentes. O primeiro \u00e9 mais denso, punk, bruto, s\u00e9rio; o segundo \u00e9 mais feliz, mais animado, menos rock e menos punk, ligado a ritmos brasileiros; o terceiro \u00e9 uma coisa voltada para o rock anos 60\/70, que eu gosto muito, e tamb\u00e9m mais mel\u00f3dico; e o \u00faltimo \u00e9 um saco de gatos, \u00e9 o que sobrou dos outros tr\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem s\u00e3o os artistas que nortearam tua cria\u00e7\u00e3o durante a feitura desse disco?<\/strong><br \/>\nUm s\u00e3o os Tit\u00e3s, outro \u00e9 o Neil Young&#8230; (pausa) Velvet Underground, sempre! Lou Reed e o Velvet&#8230; (nova pausa) Beatles tamb\u00e9m, sempre me acompanham. E nesse saco vou botar o J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3. \u201cA S\u00e9tima Efervesc\u00eancia\u201d \u00e9 um disco de n\u00edvel alt\u00edssimo, acho muito foda. Mudou minha vida.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KBCaPQeIaaA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje muitas bandas se apresentam como psicod\u00e9licas, mas o J\u00fapiter conseguiu, com esse disco, fazer algo que quase ningu\u00e9m faz hoje, que \u00e9 trazer a psicodelia para dentro da can\u00e7\u00e3o pop, de um modo que talvez nem os Mutantes tivessem conseguido.<\/strong><br \/>\nExatamente! Eu acho que tem uma onda de psicodelismo rolando que eu n\u00e3o curto tanto. Acho que \u00e9 muito maneiro fazer coisas viajandonas, mas as mais legais do psicodelismo \u00e9 quando os elementos da viagem d\u00e3o suporte a uma can\u00e7\u00e3o forte. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 poderosa do ponto de vista de letra e melodia, saca? Os mestres dessa parada \u2013 Syd Barrett, J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3, os Beatles da fase psicod\u00e9lica, Arthur Brown, Brian Wilson \u2013 faziam m\u00fasica com todo um embasamento que n\u00e3o era s\u00f3 um climinha, n\u00e3o era s\u00f3 botar um delay e seguir ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cHan Solo\u201d teve pouqu\u00edssima repercuss\u00e3o na \u00e9poca que saiu. Muita gente que gosta do Do Amor n\u00e3o sabe que esse disco existe, o que dizer outras pessoas. Foi uma \u00e9poca em que o Benj\u00e3o tamb\u00e9m estava lan\u00e7ando o solo dele (\u201cHardcore N\u00eago\u201d)&#8230;<\/strong><br \/>\n(cortando) Pois \u00e9. \u00c9 um disco que me deixou feliz, mesmo com a pouca repercuss\u00e3o eu consegui trabalhar, fazer uns shows. Tirando a \u00faltima can\u00e7\u00e3o (\u201cCarambolou Arriou\u201d), que eu fiz depois que me separei, o \u201cHan Solo\u201d era eu procurando coisas positivas ainda \u2013 no meu casamento, na minha vida. E embora tenha um humor, \u00e9 um disco muito s\u00e9rio. Ficaram essas duas t\u00f4nicas. O Gustavo estava fazendo o \u00e1lbum dele ao mesmo tempo, a\u00ed decidimos dar uma zoada, colocar um na capa do outro (nota: a capa de \u201c<a href=\"https:\/\/marcelocallado.bandcamp.com\/album\/meu-trabalho-han-sollo-vol-ii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meu Primeiro Trabalho Han Solo vol. II<\/a>\u201d \u00e9 uma foto de Gustavo Benj\u00e3o, ao passo que a de \u201c<a href=\"https:\/\/gustavobenjao.bandcamp.com\/releases\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hardcore N\u00eago<\/a>\u201d estampa o rosto de Marcelo Callado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao que voc\u00ea atribui a pouca repercuss\u00e3o desse primeiro trabalho?<\/strong><br \/>\nAcho que isso se deve ao fato de eu ser muito ruim de rede social. S\u00f3 agora que eu tenho Instagram. Foi uma pira que a Sarah Abdala me colocou. Ela \u00e9 uma cantora que trabalhava no Banco do Brasil \u2013 \u00e9 uma hist\u00f3ria bem peculiar: ela me conhecia por causa do trabalho com o Caetano e com o Do Amor, um dia a gente trocou uma ideia, e eu disse que ia produzir o disco dela. E fui coprodutor dos dois discos dela (\u201cFuturo Imagin\u00e1rio\u201d, de 2014, e \u201cOeste\u201d, de 2017), mesmo. Hoje ela trabalha na Rock It!, que \u00e9 o est\u00fadio e selo do Dado Villa-Lobos, e tamb\u00e9m est\u00e1 montando uma assessoria de imprensa. Ela se ofereceu para fazer minhas redes sociais, porque disse que o disco era muito bom e tinha que ser divulgado. Na \u00e9poca do \u201cHan Solo\u201d, eu n\u00e3o tinha ningu\u00e9m para fazer isso. Eu sou bem ruim nessa \u00e1rea, e fa\u00e7o um mea culpa. Mas eu n\u00e3o sei, cara&#8230; Vejo tudo que tem sido falado de bandas quando entro no Facebook, ou quando encontro pessoas, e tenho dificuldade de ver o som que fa\u00e7o ligado a essas coisas que est\u00e3o em voga. Acho que \u00e9 um pouco diferente, talvez seja muito rock cl\u00e1ssico para o que est\u00e1 rolando hoje em dia, e talvez por isso nego n\u00e3o d\u00ea muito bola para o que fa\u00e7o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ksv9IJXLkEw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas em outras ocasi\u00f5es, voc\u00ea mesmo disse que se referencia muito na m\u00fasica dos anos 60 e 70, n\u00e3o s\u00f3 pelo prazer de audi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para criar. Voc\u00ea se considera um cara anacr\u00f4nico?<\/strong><br \/>\nTalvez sim (repete muitas vezes). Eu n\u00e3o sei, porque voc\u00ea tem que trabalhar com isso nos dias de hoje, faz parte lidar com esse tipo de m\u00eddia. \u00c9 muito dif\u00edcil voc\u00ea ver algu\u00e9m hoje em dia, da minha idade, que n\u00e3o tenha isso como ferramenta de trabalho. O fato de eu n\u00e3o querer trabalhar com isso nos dias de hoje pode ser mesmo um anacronismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Wander Wildner tem uma can\u00e7\u00e3o recente chamada \u201c<a href=\"https:\/\/wanderwildner.bandcamp.com\/track\/meio-bauhaus-meio-inverno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meio Bauhaus, Meio Inverno<\/a>\u201d na qual ele cita o \u201crock\u2019n\u2019roll moderno \/ completo e sem sal\u201d. Voc\u00ea concorda com ele, que o rock est\u00e1 completo e sem sal?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o vou generalizar, porque tem coisas que eu gosto e que s\u00e3o rock\u2019n\u2019roll. E o rock\u2019n\u2019roll n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o estilo, tem uma atitude que permeia outras coisas que n\u00e3o necessariamente s\u00e3o rock. Mas sinto um pouco uma coisa insossa \u00e0s vezes no que se faz e no que se fala. Acho que \u00e9 a isso que o Wander se refere. Eu \u00e0s vezes sinto pouca honestidade no que se faz. N\u00e3o t\u00f4 generalizando mesmo, quem sou eu para julgar essas coisas? Mas me passa um pouco isso, coisas meio&#8230; neguinho que surfa muito uma onda porque \u00e9 a onda, entendeu? Tudo sem raiz, sem ter uma coisa s\u00e9ria para mostrar. Acho que tem coisas muito oportunistas, num certo sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso voc\u00ea acha que \u00e9 no mundo todo? Ou s\u00f3 no Brasil?<\/strong><br \/>\nVou te dizer que estou t\u00e3o deslocado do que est\u00e1 acontecendo musicalmente fora do Brasil&#8230; Aqui ainda fico sabendo, tenho alguma no\u00e7\u00e3o por causa dos amigos. De fora, ou\u00e7o muito pouca coisa, ent\u00e3o n\u00e3o posso te dizer muito. Quando estava rodando com o Caetano, paramos em alguns festivais e eu gostava de algumas coisas e de outras n\u00e3o. Aqui ainda tem coisas que me interessam. Mas do mundial nem posso falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O curioso \u00e9 que, em projetos nos quais voc\u00ea \u00e9 um integrante, existe um leque maior de experimenta\u00e7\u00e3o nos arranjos e na composi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea fica mais solto quando trabalha com outros?<\/strong><br \/>\nEm parceria fico mais solto sim, com certeza. Quando voc\u00ea tem uma banda ou est\u00e1 trabalhando com outro artista, \u00e9 troca o tempo inteiro. No meu disco tem troca tamb\u00e9m, mas \u00e9 mais eu ali. Mas eu amo trabalhar com outras pessoas, por isso que o Do Amor n\u00e3o acaba, e por isso que toco com outros projetos que n\u00e3o sejam s\u00f3 os do Do Amor. Se eu chego com uma m\u00fasica totalmente sixties, a\u00ed o Benj\u00e3o j\u00e1 faz uma guitarra que \u00e9 meio latina, a\u00ed aquilo j\u00e1 remete ao Ricardo fazer um contrabaixo que vai contrapor essas duas ideias e lev\u00e1-las para outro lugar. Mas a\u00ed o Bubu fala: \u201cisso \u00e9 muito 60, cara, vamos botar um beat eletr\u00f4nico a\u00ed\u201d. A\u00ed a gente chega ao som da banda, que \u00e9 o som dos quatro, com alguma unanimidade. Mas no meu disco foi diferente: o Bubu veio, passou uma tarde gravando os baixos comigo. Eu mostrei as linhas para ele, ele gravou e foi embora para S\u00e3o Paulo, entende? Ele sacou qual era e deixou ali. Mas quando \u00e9 um trabalho em parceria, a gente fica mais aberto a outras influ\u00eancias e outras percep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Szncdhrs9PM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos shows voc\u00ea toca uma vers\u00e3o de \u201cMe Deixe Mudo\u201d, do Walter Franco, que voc\u00ea est\u00e1 gravando agora para um disco em homenagem a ele. Essa \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o muito plena de significados \u2013 como, ali\u00e1s, quase toda a poesia do Walter \u2013 mas essa, em especial, tem uma dicotomia que fala tanto de tomar uma atitude como pedir para ser deixado em paz. Por que essa m\u00fasica ressoa tanto com seu momento atual?<\/strong><br \/>\nFoi muito engra\u00e7ado isso, porque ela tem um trocadilho com o meu nome: \u201cN\u00e3o diga nada \/ saiba de tudo \/ fique calada\u201d. E Callado \u00e9 meu nome. Muita gente fala que eu sou Callado, mas de calado n\u00e3o tenho nada&#8230; Essa m\u00fasica tem a ver com meu momento. Conheci essa m\u00fasica pela S\u00edlvia Machete, e quando comecei a fazer o show do \u201cHan Solo\u201d, eu j\u00e1 estava separado e incorporei essa m\u00fasica no repert\u00f3rio, tinha a ver com o novo momento: \u201cSeja o avesso \/ seja a metade \/ se for come\u00e7o \/ fique \u00e0 vontade\u201d. E agora no meu disco tem coisas meio circulares, a pr\u00f3pria faixa-t\u00edtulo tem isso: fala do ato de musicar, do que \u00e9 poesia e do que \u00e9 m\u00fasica, se letra de m\u00fasica pode ser poesia&#8230; Eu comecei a sentir que tinha ainda mais a ver, que eu realmente tinha influ\u00eancia da poesia concreta, um neg\u00f3cio do qual sempre gostei. Gosto muito do Arnaldo Antunes e comecei a ler mais os livros dos irm\u00e3os Campos, do [Paulo] Leminski, da Alice Ruiz e os hai-cais dela&#8230; E foi tudo uma feliz coincid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea mencionou o Arnaldo Antunes, e a influ\u00eancia j\u00e1 era bem not\u00e1vel no seu primeiro disco, nos climas e nos arranjos. Agora, no \u201cMusical Por\u00e9m\u201d, essa influ\u00eancia parece mais presente, especialmente no lado A.<\/strong><br \/>\nSou f\u00e3 mesmo, principalmente do trabalho dele da \u00e9poca do Tit\u00e3s. Gosto muito dos quatro discos que considero essenciais: \u201cCabe\u00e7a Dinossauro\u201d, \u201cJesus N\u00e3o Tem Dentes no Pa\u00eds dos Banguelas\u201d, \u201c\u00d5 Blesq Blom\u201d e \u201cTudo ao Mesmo Tempo Agora\u201d. S\u00e3o ess\u00eancias na discografia dos Tit\u00e3s e na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira. Gosto das m\u00fasicas que n\u00e3o s\u00e3o do Arnaldo tamb\u00e9m, gosto da pot\u00eancia da banda, \u00e9 uma coisa muito forte e impactante na minha vida. Eu era crian\u00e7a nos anos 80, mas tinha primos mais velhos e eu frequentava as festas deles e ouvia muito aquilo. Cheguei a ver show com o Arnaldo ainda na banda \u2013 meu pai me levou, de tanto que eu gostava (nota: Callado nasceu em 1979). Tive prazer de tocar na carreira-solo do Branco, de tocar com o Arnaldo e gravar bateria em um disco dele (na faixa \u201cMamma\u201d, do \u00e1lbum \u201cDisco\u201d). Escutei muito os tr\u00eas primeiros discos solo do Arnaldo \u2013 \u201cNome\u201d, \u201cNingu\u00e9m\u201d e \u201cO Sil\u00eancio\u201d \u2013 li os livros dele e sou f\u00e3 da poesia que ele faz. Tem uma atitude rock, punk mesmo, e tem a po\u00e9tica em si, que traz um outro lado. O rock tem um lado meio fanfarr\u00e3o \u2013 que eu gosto tamb\u00e9m \u2013 mas gosto dessa po\u00e9tica do Arnaldo, que n\u00e3o \u00e9 pomposa, soa natural e inteligente, e isso \u00e9 algo que o rock \u00e0s vezes n\u00e3o tem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uBQBjKRqB84?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Retomando sobre seus \u00e1lbuns: voc\u00ea est\u00e1 lan\u00e7ando um disco longo, cuja plataforma principal \u00e9 o vinil \u2013 e um vinil duplo! Voc\u00ea j\u00e1 explicou suas raz\u00f5es, mas voc\u00ea acredita que dar toda essa aten\u00e7\u00e3o ao vinil \u00e9 um meio de garantir que ele ser\u00e1 ouvido por quem o tiver em m\u00e3os? Ou \u00e9 um suic\u00eddio financeiro?<\/strong><br \/>\nEu acho as duas coisas (risos). Mesmo. Acho que n\u00e3o vou recuperar a grana que investi, at\u00e9 porque vou dar muitas c\u00f3pias \u2013 para quem participou, para amigos que s\u00e3o importantes na minha vida musical. E n\u00e3o \u00e9 todo mundo que ouve discos: eu tenho 300 c\u00f3pias, e para recuperar eu tenho que vender 200. Acho dif\u00edcil escoar esse montante. Mas acredito tamb\u00e9m que quem tiver esse disco nas m\u00e3os, vai se dar o tempo de ouvir com aten\u00e7\u00e3o pelo menos uma vez. \u00c9 um objeto, que voc\u00ea abre, tem um gatefold, um release batido \u00e0 m\u00e1quina. Acho que a pessoa fica encantada e vai dar uma chance de ouvir o \u00e1lbum inteiro do jeito que eu o planejei: ouvir o primeiro lado, dar uma respirada, botar o segundo lado, ouvir, dar outra respirada, p\u00f4r o outro lado, dar outro break, e a\u00ed terminar. Esse \u00e9 meu sonho. Para quem n\u00e3o quiser fazer isso, pode ouvir o lado que curtiu mais. E quem quiser ouvir s\u00f3 uma faixa, ou ouvir aleatoriamente, vai ter as m\u00eddias sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como que esse disco vai para os palcos?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 tenho uma banda, e isso \u00e9 uma hist\u00f3ria curiosa tamb\u00e9m. Aqui no Rio, tenho visto umas bandas que tem me agradado muito, de um pessoal aqui da Zona Sul, e estou fazendo produ\u00e7\u00e3o executiva de um vinil que \u00e9 uma colet\u00e2nea desse povo. S\u00e3o cinco: Ex\u00e9rcito de Beb\u00eas, Nit\u00fa, Crusader de Deus, Ana Frango El\u00e9trico (cujo disco estou produzindo junto com o Tiago Nassif e o Gustavo Benj\u00e3o) e Os Dentes. Essa rapaziada \u00e9 muito legal, o som \u00e9 bacana, me identifico sonoramente com eles. Quando acabei de fazer os shows do \u201cHan Solo\u201d e trabalhar com mais afinco no \u201cMusical Por\u00e9m\u201d, achei que estava na hora de mudar minha banda. De uma certa maneira, meu som \u00e9 retr\u00f4, mas de outra maneira \u00e9 novo: n\u00e3o parece com nada que est\u00e1 a\u00ed, porque \u00e9 meu jeito de falar as coisas, \u00e9 uma novidade. Decidi ent\u00e3o chamar as pessoas que estavam perto de mim, que s\u00e3o essas que eu falei, e que s\u00e3o 15 anos mais novas que eu. E peguei o lance da pessoal da No Wave, que era pegar gente que n\u00e3o sabe tocar para ser instrumentista: o cara era cineasta, arranhava uma guitarra, e montava uma banda para tocar guitarra, e chamava um artista pl\u00e1stico para a bateria&#8230; Resolvi pegar essa galera nova e trocar os instrumentos, j\u00e1 que eu tamb\u00e9m estou com o instrumento trocado \u2013 eu sou baterista, mas no meu trabalho solo toco guitarra ao vivo. Chamei ent\u00e3o o Guilherme L\u00edrio (do Ex\u00e9rcito de Beb\u00eas), excelente guitarrista e baixista, para tocar bateria, a Ana Frango El\u00e9trico \u2013 que \u00e9 guitarrista \u2013 para tocar baixo, a Raquel Dimantas (Nit\u00fa) \u2013 baixista \u2013 para tocar teclado, e o Caio, que \u00e9 guitarrista e ficou na guitarra mesmo. Essa \u00e9 a banda que montei para sair tocando esse disco, porque eu quero que tenha um frescor. Mesmo que n\u00e3o prime pelo virtuosismo, prime ent\u00e3o pela peculiaridade de cada um tocando um instrumento que n\u00e3o \u00e9 o seu, e que eles possam tirar daqueles instrumentos o que eles t\u00eam de melhor. Que o clima seja maior que a \u201cperfei\u00e7\u00e3o\u201d, entendeu?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/n8FRs9GXVuQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DgvBTm-YOXQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Acho que a pessoa vai dar uma chance de ouvir o \u00e1lbum inteiro do jeito que eu o planejei. 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