{"id":44446,"date":"2017-09-30T12:58:54","date_gmt":"2017-09-30T15:58:54","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=44446"},"modified":"2017-12-24T10:35:23","modified_gmt":"2017-12-24T12:35:23","slug":"cinema-mother-de-darren-aronofsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/30\/cinema-mother-de-darren-aronofsky\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;mother!&#8221;, de Darren Aronofsky"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-44447\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/mother.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"710\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/mother.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/mother-211x300.jpg 211w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Darren Aronofsky n\u00e3o \u00e9 um diretor \u201cf\u00e1cil\u201d. Nunca foi. Seu autoral filme de estreia, 19 anos atr\u00e1s, contava a hist\u00f3ria de um matem\u00e1tico inst\u00e1vel, de poucos amigos, que sofria uma doen\u00e7a rara (\u201cPi\u201d, 1998); em seu segundo longa-metragem autoral (\u201cRequiem For a Dream\u201d, 2000), Aronofsky entregou um dos mais fortes filmes antidrogas j\u00e1 feitos levando os v\u00edcios de cada personagem (hero\u00edna, chocolates, beleza) a extremos assustadores; \u201cA Fonte de Vida\u201d (2006) foi seu primeiro grande fracasso, e com o tombo ele construiu dois sucessos: a poesia marginal dos losers em \u201cO Lutador\u201d (2008) e o pesadelo (indicado a cinco Oscars) de \u201cCisne Negro\u201d (2010). O excesso de confian\u00e7a levou a outro tombo, \u201cNo\u00e9\u201d (2014), e influenciou \u201cmother!\u201d (2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se na \u00e9poca do primeiro tombo com \u201cA Fonte da Vida\u201d \u2013 que recebeu cr\u00edticas \u201ccarinhosas\u201d como \u201cuma confus\u00e3o metaf\u00edsica\u201d (Boston Phoenix), \u201cirritante e equivocado\u201d (Sight and Sound), e a melhor, \u201cparece um \u00e1lbum duplo de prog-rock, com pouco humor e muita pomposidade\u201d (Independent) \u2013, Darren optou por se recolher deixando o roteiro de (futuros sucessos) \u201cO Lutador\u201d e \u201cCisne Negro\u201d nas m\u00e3os de outras pessoas, ap\u00f3s \u201cN\u00f3e\u201d (que nem foi um fracasso t\u00e3o grande, ainda que o Guardian diga que \u201calgo se perdeu na tempestade\u201d e o Entertainment Tell tire sarro dizendo que \u201co livro era melhor\u201d) Darren seguiu um caminho inverso: repetir o modus operandi (ele volta a escrever, produzir e dirigir em \u201cmother!\u201d) e levar tudo ao extremo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis, ent\u00e3o, a primeira caracter\u00edstica de \u201cmother!\u201d: ele \u00e9 um filme de extremos. N\u00e3o \u00e0 toa, o p\u00f4ster acima, compartilhado no Twitter pelo pr\u00f3prio diretor, une cr\u00edticas que elogiam o filme (de um lado) com as que o detonam (do outro). De uma trincheira art\u00edstica, Darren Aronofsky observa (e parece se divertir com) a recep\u00e7\u00e3o de seu s\u00e9timo filme como diretor (o quinto em que ele assina o roteiro) apostando na provoca\u00e7\u00e3o: ele n\u00e3o quer que o espectador saia da sala de cinema de maneira impass\u00edvel, insens\u00edvel aos 121 minutos projetados na tela branca. Ele quer que voc\u00ea ame ou odeie \u201cmother!\u201d, e independente da sensa\u00e7\u00e3o que o filme provoque, Darren Aronofsky espera que o espectador \u201csinta algo\u201d (mesmo que seja \u00f3dio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bom, h\u00e1 duas maneiras de apresentar \u201cmother!\u201d \u00e0 voc\u00ea, caro leitor. A primeira, mais prosaica e sem grandes spoilers, esvazia a hist\u00f3ria, mas n\u00e3o deixa de soar interessante: um casal vive em uma grande casa que est\u00e1 sendo reformada e recebe a visita inesperada de um homem. No dia seguinte, a esposa desse homem aparece e, um tempo depois, ap\u00f3s um objeto do dono da casa ser quebrado (saca a met\u00e1fora do teste da bomba at\u00f4mica em \u201cTwin Peaks\u201d?), os dois filhos do casal visitante surgem e um crime acontece, desencadeando uma s\u00e9rie de outros acontecimentos terr\u00edveis. Da\u00ed em diante, o que parecia uma trama tradicional de suspense ganha contornos extremos de surrealidade (\u201cO Invasor\u201d meet \u201cDurval Discos\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok, essa acima \u00e9 a maneira \u201ccopo meio vazio\u201d de enxergar \u201cmother!\u201d. A maneira \u201ccopo meio cheio\u201d de ver o filme (com spoilers que mais aprofundam que atrapalham a hist\u00f3ria permitindo ao espectador mergulhar em uma segunda camada da trama) \u00e9: um casal vive em uma grande casa. Ele \u00e9 Deus (Javier Bardem) e ela \u00e9 a M\u00e3e Natureza (Jennifer Lawrence). O homem que os visita inesperadamente \u00e9 Ad\u00e3o (Ed Harris), que ap\u00f3s ceder uma costela (numa cena em um banheiro) recebe, no dia seguinte, a visita de Eva (Michelle Pfeiffer). Seus filhos s\u00e3o Caim (Domhnall Gleeson) e Abel (Brian Gleeson), e o crime que ocorrer\u00e1 ser\u00e1 o primeiro homic\u00eddio da hist\u00f3ria da humanidade. Mais para frente haver\u00e1 dil\u00favio, uma crian\u00e7a nascer\u00e1 e morrer\u00e1&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, \u00e9 isso mesmo: Darren Aronofsky filmou a B\u00edblia em \u201cmother!\u201d, do G\u00eanesis ao Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o, e o fato de \u201cresumir\u201d os 73 livros (para os cat\u00f3licos, 66 para os protestantes) do Antigo e Novo Testamento em 2 horas e 1 minuto de proje\u00e7\u00e3o talvez seja apenas um dos motivos da hist\u00f3ria se fragmentar enlouquecidamente e surrealisticamente ap\u00f3s o segundo ter\u00e7o do roteiro. Apenas um dos motivos, pois, caracter\u00edstica b\u00e1sica do cinema de Aronofsky: ele nunca sussurra, com ele \u00e9 no grito quase todo o tempo, e essa superexposi\u00e7\u00e3o aliada ao fato que muita gente que vai ver o filme s\u00f3 conhece o plot esvaziado do quarto par\u00e1grafo faz de \u201cmother!\u201d uma experi\u00eancia assustadora, por vezes claustrof\u00f3bica, que gera repulsa e nojo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, a beleza de \u201cmother!\u201d (ela existe) est\u00e1 justamente na met\u00e1fora da met\u00e1fora. Darren utiliza o livro mais famoso da humanidade como inspira\u00e7\u00e3o para uma hist\u00f3ria que permite diversas leituras, como relembrar a tr\u00e1gica figura da mulher na hist\u00f3ria da sociedade, sempre a sombra do homem, usada, abusada, usurpada, violentada e destru\u00edda. \u201cmother!\u201d tamb\u00e9m \u00e9 uma alegoria fantasmag\u00f3rica sobre como a sociedade est\u00e1 acabando com a natureza (e, por consequ\u00eancia, consigo mesma). O filme tamb\u00e9m lan\u00e7a luz sobre o fanatismo religioso (em que pessoas est\u00e3o dispostas a matar por um livro que prega o amor), o fanatismo capitalista (em que a \u00e2nsia pelo vender mais e mais n\u00e3o mede consequ\u00eancias) e o fanatismo narcisista da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa camada mais profunda de leitura, \u201cmother!\u201d apresenta uma vis\u00e3o aparentemente cr\u00edtica de Deus (tanto quanto das escrituras), muitas vezes soando um egoc\u00eantrico preocupado apenas consigo mesmo, em outras como a de um g\u00eanio criador que n\u00e3o educa, n\u00e3o repreende e n\u00e3o indica caminhos, que estar\u00e1 disposto a ceder seu \u00fanico filho, v\u00ea-lo morrer, e perdoar, e seguir em frente aceitando a banaliza\u00e7\u00e3o de sua palavra, o consequente caos, e, por fim, o Armagedom, e come\u00e7ar tudo de novo, da mesma maneira, quantas vezes forem necess\u00e1rias num teatro teimoso e triste, do qual somos atores condenados no ber\u00e7o \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o que remete ao personagem de Bill Murray no cl\u00e1ssico \u201cFeiti\u00e7o do Tempo\u201d (1993).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cmother!\u201d \u00e9 um pesadelo paranoico que come\u00e7a com \u201cRepulsa ao Sexo\u201d (1965), passa por \u201cO Beb\u00ea de Rosemary\u201d (1968), ambos de Polanski, e se aproxima de \u201cApocalypse Now\u201d (1979), de Francis Coppola, tentou resumir (!) o jornal brit\u00e2nico Guardian. \u00c9 poss\u00edvel ainda tra\u00e7ar paralelos tanto com o sublime e terr\u00edvel \u201cO Anjo Exterminador\u201d (1962), de Bu\u00f1uel, quanto com \u201cO Anticristo\u201d (2009), de Lars von Trier, e as paisagens tem\u00edveis pintadas por Goya no interior de sua pr\u00f3pria casa (hoje no Museu do Prado, em Madri, e reunidas na sala \u201cPinturas Negras\u201d). Em entrevistas, Darren Aronofsky diz que \u201cmother!\u201d \u00e9 um retrato do mundo moderno amea\u00e7ado por superpopula\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, pol\u00edticos e guerras. \u201cE \u00e9 um conto sobre uma mulher que \u00e9 convidada a doar, e ela se doa, doa e doa at\u00e9 que n\u00e3o tenha mais nada a doar\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que qualquer coisa, por\u00e9m, \u201cmother!\u201d \u00e9 um filme sobre a falta de amor no mundo. Com recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dividida, grandes atua\u00e7\u00f5es do n\u00facleo central de atores e investimento praticamente pago em menos de um m\u00eas nos cinemas, \u201cmother!\u201d s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 mais pol\u00eamico (e mais sucesso) porque seu not\u00e1vel car\u00e1ter b\u00edblico (ainda que extremamente \u00f3bvio a primeira vista em ao menos duas passagens singulares \u2013 talvez mais \u2013, uma delas, inclusive, com quebra da quarta parede) est\u00e1 muito bem inserido nas met\u00e1foras, que dificultam o entendimento de detratores incapazes de pescar sutilezas (saca os censores da ditadura, uma classe que est\u00e1 em voga no momento no Brasil?) tanto quanto engrandecem o filme em um segundo mergulho na sala de cinema. Violento, terr\u00edvel e assustador, n\u00e3o veja \u201cmother!\u201d uma vez. Veja duas!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ugn1gqGl7rs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) edita o Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m no Scream &amp; Yell:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Pi&#8221;: <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/pi.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a ang\u00fastia sentida pelos personagens persegue o espectador<\/a><br \/>\n&#8211; &#8220;Requiem For a Dream&#8221;: <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/requiemforadream.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mensagem anti-drogas num filme inesquec\u00edvel<\/a><br \/>\n&#8211; &#8220;O Lutador&#8221;: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/18\/o-lutador\/\">o que importa n\u00e3o s\u00e3o as feridas no corpo, mas as da alma<\/a><br \/>\n&#8211; &#8220;Cisne Negro&#8221;: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/02\/03\/cisne-negro-darren-aronofsky\/\">a falta de certeza faz deste filme um cl\u00e1ssico contemporaneo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cmother!\u201d \u00e9 um filme sobre a falta de amor no mundo. 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